Novo blog do Jornalista, radialista e acadêmico de Direito, Délio Pinheiro


























 
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Da vida não peço tanto assim, meus sonhos são tão banais, liberdade é o que peço, um pouco de amor, respeito e nada mais.



























Blog do Délio Pinheiro
 
Comente aqui: Sexta-feira, Setembro 25, 2009  



Atenção meus leitores. Preparei um presentinho para vocês. Trata-se do novo podcast deste blog. O tema abordado a partir de agora é a MPB. Daqui pra frente sempre que esse disquinho aparecer significa que tem um novo programa com o melhor da MPB, para você baixar. As músicas são criteriosamente escolhidas por mim. Espero que gostem.


É só clicar no disco e fazer o download. Comentem e boa diversão

9:53 PM

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Aventuras Gastronômicas

Sou do tipo que adora programas de receitas na TV aberta. Fico encantado com a habilidade dos apresentadores que cozinham seus pratos com aquela indisfarçável cara de paisagem, entremeada por uma ou outra promoção da Tek Pix, que anuncia que nos “próximos quinze minutos o preço da câmera que tem 37 funções cai pela metade”. A câmera é lastimável, mas as receitas são ótimas. Gosto até das receitas da Ana Maria Braga apesar de achar engraçado o Louro José comentar que deve estar uma delícia alguma ave, prima distante dele nos labirintos da evolução, ao ser apresentada pela loira que confunde fauna e flora e que dá graça, e alguma brejeirice, às manhãs globais em que perco aula na faculdade ou quando o professor de Direito Administrativo não aparece por lá e eu posso sair mais cedo.

Tem ainda a Palmirinha, o Daniel Bork, a Olga, o Eduardo Guedes e outros heróis das caçarolas tupiniquins destilando toda sua sapiência gastronômica. Lembro-me de já gostar de ver tais atrações quando a Ofélia comandava as manhãs modorrentas da Bandeirantes nos anos 1990 e gosto até das atrações da TV paga, mesmo achando que os ingredientes do Oliver são muito exóticos, e caros, para esse jornalista e sua esposa professora de português. Mas de uns tempos pra cá eu e Camila temos apreciado até comida japonesa, apesar da imensa dificuldade para achar salmão fresco em Montes Claros quando tentamos dar vida, como sushimans amadores, a nossas iguarias particulares.

Minhas sobrinhas Isabela e Gabriela são categóricas ao afirmar que “ou a comida é doce ou é salgada”. O conceito de agridoce não faz o menor sentido para elas e, portanto, os bolinhos de arroz oriental com manga ou goiabada devem soar estranhos demais para seus estômagos gorutubanos. Mas desconfio que, com o tempo, elas passarão a gostar também, já que vamos descobrindo novos sabores à medida que crescemos. E assistir a tais programas vespertinos já é um bom começo. Assistindo a uma dessas atrações matutinas comecei a lembrar de fatos curiosos e engraçados envolvendo comida. Desta maneira subverto a máxima dos Titãs: “A gente não quer só arte, quer também comida”. De preferência acompanhada de lembranças familiares e reminiscências infantis, com uma pitada generosa de humor.

Quando estudava Jornalismo e a situação era mais difícil financeiramente, lembro de ter tido o primeiro acesso à comida oriental. Foi quando saboreei meu primeiro miojo. Eu morava em uma república e justamente no fim de semana o gás de cozinha acabou. Como eu estava sozinho no apartamento e não tinha dinheiro para um botijão novo, passei os dois intermináveis dias do fim de semana comendo um troço chamado cup noodles, um miojo vendido em um copo de plástico. Só precisava de água quente e esperar três minutinhos para saborear esse “quitute dos deuses”, budistas evidentemente. E para conseguir tal água era só colocar o chuveiro da república na posição “inverno” e abrir o registro só um pouquinho e despejar a água “quente pelando”, como se diz em Montes Claros, dentro do copão e partir para o abraço.

Neste mesmo período de vacas magras comecei a namorar Camila. Aos domingos almoçávamos juntos. Como eu só tinha dinheiro no fim de semana seguinte ao quinto dia útil de cada mês, - glorioso dia em que íamos ao restaurante Tia Ceiça-, precisávamos ser criativos em nossos almoços dominicais. Camila dividia aluguel com uma moça, que também cursava Jornalismo. Essa moça tinha uma cachorrinha poodle, que raramente saía do quarto, que ela decorava com muitos ursinhos de pelúcia. Eu e Camila preparamos os pratos com esmero, após passar no açougue e comprar dois suculentos bifes. Quando estávamos diante dos pratos, resolvemos que faltava um detalhe importante: uma refrescante Coca Cola de um litro. Pois bem, saímos e fomos buscar o refrigerante na mercearia da rua. O leitor mais atento neste momento já imaginou que a cachorrinha saiu do quarto de fininho e fez a festa com os bifes, não é mesmo? Pois foi a pura verdade. Quando chegamos ela já palitava os dentes, metaforicamente falando, e nós tivemos que nos contentar com o arroz e o feijão que ficara na panela. E foi apenas isso que sobrou, já que na fuga da cachorra, denominada Miúcha, ela esbarrou na Coca Cola que eu deixara na entrada da casa e espalhou o valioso líquido escuro para sempre.

A comida sempre desperta nossos sentidos, inclusive aqueles aguçados pela saudade. Lembro-me, por exemplo, do inigualável bife feito por minha avó Cida, que ainda hoje povoa meu imaginário, a ponto de sentir seu cheiro inalcançável na cozinha modesta e aconchegante de Serranópolis, como se fosse ontem. E olha que já faz algum tempo. A sopa de vó também era divina e meu avô João a sorvia com paixão, fazendo aquele barulhinho que eu adoraria ouvir de novo, mas que na época poderia ser tomado como falta de educação. Que nada, feliz era ele.


Serranópolis de Minas, minha terra

Quando eu era criança em Serranópolis, lembro-me que meus tios de Janaúba, Vilma e Eujácio, ambos serranopolitanos, estavam nos visitando. A visita se deu, provavelmente, no dia de Finados, que em nossa casa nunca foi sinônimo de dia triste. Muito pelo contrário. A casa estava sempre cheia, o café era refeito várias vezes ao dia e sempre tinha panela no fogo, pois nunca se sabia quando algum familiar apareceria, ou mesmo o andarilho João Doido, que sempre nos visitava para alegria de meu pai, que parecia gostar dele.

Eu e meu primo Gustavo, que na época usava um estranho óculos com lentes de cores diferentes para sanar algum problema na visão, ficamos sozinhos na cozinha de casa e começamos a comer uns biscoitos gordurosos que lá em Serranópolis são conhecidos como “fofão”. Não demorou muito para nos desafiarmos para ver quem dava cabo da maior quantidade daquela iguaria enorme. Não me lembro mais quantos comemos, mas sempre que contava a história aumentava um ou dois. Deve ter sido uns vinte biscoitos cada um. Deu empate na disputa. Outra competição, evidentemente, aconteceu depois, quando o objeto mais disputado não eram troféus ou medalhas e sim a louça reluzente do banheiro mais próximo.

De meus tempos de menino lembro com nitidez da primeira vez que tomei Coca Cola. Foi em uma viagem até Montes Claros com meu avô João. Uma das paradas do ônibus era em Capitão Enéas, que na minha cabeça de garoto eu teimava em chamar de “Capitão América”. Lembro-me dos soluços que tive e de minha expressão de contentamento em ter dado conta de uma Coca sozinho. É desta época também a lembrança do doce mais gostoso que saboreei e que até hoje persigo silenciosamente sempre que vou a algum supermercado ou em alguma parada nas viagens. Trata-se de um doce feito com bolinhas de queijo. Uma delícia que comi na fazenda da amiga Maria, no Gerais. Quer dizer, comi uma ou duas bolinhas, já que meu tio Zé Martins, um tremendo glutão, deu conta de praticamente todo o pote.

Nunca comi nada, digamos, diferente, em minha casa, na infância. Minha mãe sempre gostou das dobradinhas, fígados, chouriços e toda sorte de órgãos de bovinos e suínos, sem falar nos “avelinos”, mas humildemente abriu mão de fazê-los em nossa casa. Já meu pai, que, segundo um gastroenterologista, tem o estômago de menino até os tempos atuais, era muito chato pra comer. Nem ovo meu pai come, o que dirá de comidas gordurosas e “exóticas” como moela, coração de boi ou mocotó. Lembro dele contar sobre uma viagem que fazia com um amigo até São Paulo nos tempos da juventude. No restaurante, às margens da rodovia, o companheiro de pai pediu um PF com dobradinha. Meu pai nunca ouvira falar naquele prato e pediu o mesmo. Mas quando ele viu chegar nos braços do garçom um prato imenso coberto com uma espessa cobertura de bucho bovino ele cancelou o pedido na mesma hora.

Outra história parecida aconteceu com meu tio Elizio, que nos primeiros anos da década de 1990 ainda levava trabalhadores para as colheitas do sul de Minas em seu caminhão amarelo, contrariando as leis de trânsito da época. Em uma dessas paradas, Tio Elizio conta que um rapaz, “querendo dar uma de esperto”, pediu para o garçom um PFL. Ele confundira a sigla do então partido com as iniciais do prato feito. Diante do sorriso do garçom, coube a tio Elizio desfazer a confusão: “Lá em Serranópolis a gente chama assim mesmo, quer dizer prato feito com linguiça”. E olha que naquele tempo linguiça tinha até trema.

Por falar nestas aventuras rocambolescas de Tio Elizio e seu caminhão, lembro-me que em 1994 fomos para Bom Jesus da Lapa, a família toda, motivada por uma promessa feita por meu tio, no dorso de seu incansável caminhão 1113 amarelo, como autênticos retirantes da seca em seu “pau de arara”. Claro que depois dos banquinhos duros sob a lona, Tio Elizio reservava, na parte da frente da carroceria, um espaço onde forrávamos com colchões. Era uma festa. E a paçoca que levávamos, e que era sorvida até depois de Guanambi, era muito gostosa. E os peixes saboreados nos restaurantes na cidade de romeiros, localizada na margem direita do São Francisco, também representaram capítulos gloriosos dessa minha odisseia gastronômica.

Minha saga pelas sendas da culinária ainda reservou outras boas paradas. Tenho na família de pai grandes cozinheiras, como tia Santa, dona Zinha e, principalmente, vó Laurinda. No lado materno desponta tia Dei. Grandes cozinheiras, que lapidaram seus talentos natos nas cozinhas de fazendas e nas casas de adobe de antigamente, e que hoje gozam, merecidamente, da fama de “mestre cuca” entre seus familiares e admiradores.


Dupla imbatível, vó Lau e dona Zinha

Certa vez, no curso de Jornalismo, fui pra Belo Horizonte participar de algumas visitas profissionais. Fizemos incursões ao jornal Hoje em Dia, a Assembleia Legislativa, ao Sindicato dos Jornalistas, e outros. Numa noite de folga fomos convidados, eu e alguns colegas, pelo doutor em semiótica Júlio Pinto, que era professor no curso, para dar umas bandas por BH. O programa escolhido por ele incluía um restaurante na Savassi, uma banda de jazz azeitada e um tira gosto original, linguiça com mel. O programa foi ótimo. A banda, que tinha na bateria um ex-integrante da banda roqueira Steppenwolf, deu um show particular. As histórias do professor, que afirmou que conhecera Ella Fitzgerald em um enfumaçado bar de New Orleans, abriu novos horizontes musicais para mim. E o acepipe, que minhas sobrinhas iriam detestar, trazia a tradição da comida mineira com a doçura do néctar das flores. Uma delícia. Só esperávamos que o grande mestre pudesse ser mais generoso na hora de fazer o rateio. Ele pagou seu quinhão, igualmente dividido por umas dezoito almas saciadas, por jazz, papo-cabeça e linguicinha com mel de engenho. Nem um centavo a mais.

Noutras ocasiões, em viagens para o litoral, passei por situações interessantes. Uma foi em Maceió. Eu, Camila e uma turma de Montes Claros estávamos fazendo um périplo pelas capitais e praias do Nordeste quando nos vimos em Maceió na penúltima noite da viagem. Os recursos financeiros do tour já estavam no fim, afinal era o 13° dia de viagem, e optamos por um restaurante modesto próximo do hotel em que estávamos. A diversão foi grande, misturada com risos nervosos, porque o local parecia ser sede do “Encontro Anual das Baratas de Maceió”, pois vimos muitas delas passearem por entre as mesas. Mas, para nossa surpresa, o peixe era muito bom. Um dos melhores que saboreamos na terra do Djavan.


A turma na capital de Alagoas

Por essas e outras é que não perco os programas de culinária na TV. O fato de ter nascido no estado onde se encontra a melhor comida do Brasil também corrobora para essa predileção pelos gostos e cheiros. Montes Claros, onde moro, é conhecida por seu baião de dois, seu frango com ora pro nobis e o tradicional arroz com pequi, algumas delícias que deveriam ser conhecidas por todo o país. Assim como a globalizada comida japonesa, que consumimos com gosto por aqui.

Os detratores da comida oriental, e que não são poucos, poderiam até argumentar que os japoneses usam os tais pauzinhos de maneira equivocada. Bem melhor do que agarrar os alimentos com tais objetos seria juntá-los e fazer uma fogueirinha. Desta maneira o citado salmão deixaria de ser cru e passaria a ser um suculento assado, bem ao gosto do brasileiro médio.

Ainda bem que defendo os sushis, sashimis e rolinhos primaveras que vem do oriente, mas gosto também da comida simples, feita nos fogões de lenha de meu estado. Na verdade não tenho preconceito com comida, só não admito deixar de lado tantas delícias da carne, afinal não cheguei ao topo da cadeia alimentar para me tornar vegetariano.

Filtro- Para separar a Seleção Brasileira do time do Maradona, segundo esse peladeiro eventual:

Filme: A festa de Babette
Livro: Ganhei o 7° livro consecutivo em sete anos de amizade, da querida Emile. Este se chama "O guardião de memórias", de Kim Edwards.
Música: "Não é proibido"- Marisa Monte
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9:10 PM

Comente aqui: Terça-feira, Setembro 08, 2009  
Benícia das latas

Benícia vivia de juntar latinhas. Para ela não tinha tempo ruim. Nem chuva nem sol a impediam de cumprir seu trabalho silencioso, tanto nas ruas, fustigando latas de lixo, como nos shows que sempre aconteciam naquele bairro boêmio onde trabalhava.

Benícia gostava mais dos shows sertanejos. Era quando se jogava mais latinhas no asfalto e também nos cestos de lixo. Ela também gostava de música sertaneja e algumas vezes se permitia olhar um cadinho para o cantor ou a dupla que se apresentava. E chegava a cantar trechos de “Menino da porteira” e “Rio de lágrimas”, que para ela era “Rio de Piracicaba”.

Benícia nunca fora a Piracicaba e a nenhum lugar a mais de cinquenta quilômetros de sua cidade do interior de Minas. Nem quando ela ficara sem fôlego de repente e não havia chá ou unguento que dessem jeito e seu caso hospitalar foi considerado irreversível, ela quis deixar sua Janaúba. “Se você não for se tratar em Montes Claros não vai durar nem seis meses”, predissera o médico, e isso tinha sido há quase cinco anos.

Mas Benícia, naquele dia em que recebeu a notícia, não foi buscar a ficha de internação que o médico colocara a sua disposição no posto de saúde de seu bairro. Era carnaval e ela preferiu ir para a Praia do Copo Sujo recolher suas latinhas. O médico afirmara que o coração de Benícia estava quase do tamanho de um balão cheio, desses de festa infantil. Mas Benícia decidiu, em sua humildade silenciosa, que seguiria com seu trabalho até quando Deus quisesse.

E aquele foi um carnaval especial. Um número bem maior de turistas invadiu a cidade ribeirinha e espalhou latinhas de cerveja por todos os lados. De música baiana Benícia não gostava, e era justamente esse tipo de música que animava o carnaval por lá. Ela era do tempo em que as antigas marchinhas comandavam as folias momescas e, às vezes, em meio ao alarido de jovens beijoqueiros, chegava a cantar baixinho, pra si mesma, essas canções, enquanto juntava suas latas, coberta pelo manto da invisibilidade dos trabalhos humildes.

No fim das contas, na quarta-feira em que tudo vira cinza, e com uma baita dor nas costas, Benícia faturou quase oitenta reais vendendo suas pepitas de latão na usina de reciclagem. Nunca ela ficara com tanto dinheiro no bolso. Neste dia, Benícia comprou um saboroso wafer de morango e, para acompanhar, se deu ao luxo de comprar uma refrescante lata de Coca Cola.

Benícia então se lembrou que tinha um coração grande, do tipo que só faltava explodir, e sorriu resignada. Ela foi a pé para sua casa no bairro distante e sem asfalto. No caminho se deparou com um menininho sujo e magrinho, que levava consigo um pequeno saco de linhagem, onde colocava latinhas de refrigerante e cerveja que encontrava pelo caminho.

Benícia chamou o menino e jogou a lata de Coca para que ele a guardasse consigo. O menino agradeceu e Benícia seguiu seu caminho, arrotando seu wafer de morango e sentindo pulsar, bem ali, sob suas vestes modestas, seu coração grandão.

Filtro- Para acessar o vibrante Twitter e delegar ao limbo o insosso Orkut, segundo este que vos escreve em linhas digitais, tortas evidentemente:

Filme: Mr. Brooks, com Kevin Costner- O título em português é tão bobo que nem me lembro
Livro: O excelente Gomorra, de Roberto Saviano
Net: O blog de Thuany:
Música: Em breve novidades na seara da MPB Último Rockcast da temporada
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7:46 PM

 
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