Novo blog do Jornalista, radialista e acadêmico de Direito, Délio Pinheiro


























 
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Da vida não peço tanto assim, meus sonhos são tão banais, liberdade é o que peço, um pouco de amor, respeito e nada mais.



























Blog do Délio Pinheiro
 
Comente aqui: Quarta-feira, Agosto 19, 2009  
Encantos de uma esquina qualquer


Olhos atentos, máquina fotográfica sempre por perto. É assim que costumo andar. Nunca se sabe quando um bom flagrante se desenhará em nossa frente ou quando uma inspiração surgirá, nítida e bela, capturada no ínfimo instante de um clique.
No sábado me deparei com uma mamãe beija-flor, que fez seu ninho na garagem da rádio Itatiaia, onde trabalho. Mesmo com o movimento dos carros e das pessoas ela permanece impassível, aninhando o melhor que pode os dois minúsculos ovinhos sob suas penas de mãe.

Ver um beija-flor imóvel durante vários dias, logo ele que voa freneticamente, é uma cena inspiradora para se dar vida a uma boa crônica. Eu já estava decidido a abordar este assunto, quando apareceu uma outra inspiração, ainda melhor. E foi logo na esquina, literalmente.
No bairro Melo tem uma residência imponente, que se parece com aquelas aristocráticas mansões americanas, nas proximidades da Funorte, e seu jardim é um alento para os olhos cansados que passam diariamente naqueles cantos, inclusive eu que passo pela citada esquina sempre que retorno para casa.

No instante em que passei por lá, após uma manhã de trabalho, vi a seguinte cena. Uma moça vestida com um hábito puído e ocre, sem que ninguém pedisse, cortava minúsculos raminhos apodrecidos de uma palmeira, que se projetava para o lado de fora do belo jardim.

Ela cuidava da planta, que nascera para embelezar aquele jardim distinto, com a mesma acuidade e afinco que a mamãe beija-flor cuidava de seus "filhinhos" no ninho ali perto. E a moça, bonita e recatada, cumpria sua missão com serenidade, contribuindo, com seu gesto anônimo, para deixar a planta, e a mansão, ainda mais viçosa.
A menina-moça era uma dessas jovens que participam da comunidade "Toca de Assis" e suas vestes remetiam imediatamente a um dos santos do catolicismo, São Francisco, cuja história de simplicidade e amor ao próximo continua a inspirar jovens em todos os lugares da Terra.

Ela, como tantos outros que dizem ouvir o chamado de Deus, fazem voto de pobreza e se vestem e vivem seus dias com o máximo de simplicidade que podem. Por isso a cena causou-me tanta admiração.
Aproximei-me com cuidado, com receio de assustar aquele beija-flor divino,
e pedi para registrar aquele momento com minha máquina fotográfica. Momento este que, em sua involuntariedade, se fez tão belo.

O contraste do luxo excessivo da moradia e da simplicidade tocante daquela mocinha, verdadeiramente bonita, embora este adjetivo não lhe deva causar grande impressão, devido a seu voto de castidade, me atingiu profundamente, e me fez escrever essa crônica.

Um pequeno e irrelevante fato para olhares mais descuidados, mas elementos certeiros para se refletir sobre a importância que damos a vida e como ela pode ter significado se vista com o ângulo correto, pelo viés da moça anônima vestida como um padre da Idade Média, que cuidou da planta da mansão da esquina, ou da mamãe beija-flor, que naquele mesmíssimo instante, talvez estivesse pensando na sensação boa de voar, mesmo resignada em sua posição de mãe vigilante.
Lemierre escreveu que "mesmo quando um pássaro caminha, ele sente que tem asas". A frase pode ser adaptada, sem prejuízo algum, para a moça que não disse o nome e que deixou que eu a fotografasse, contanto que a foto não fosse parar nas páginas indiscretas da Internet, "Mesmo com suas vestes simples e seu voto de humildade, a menina sabe que dentro de si tem uma riqueza imensurável".

7:07 PM

Comente aqui: Sábado, Agosto 08, 2009  
Não é só o mal que expande

Perdi um avô vitimado por aquela doença que os mais velhos se recusam a dizer o nome. Como se a simples menção de sua terrível alcunha pudesse trazê-la perigosamente para perto, ou mesmo pudesse fazê-la se instalar em algum órgão sadio de nosso corpo. Refiro-me ao câncer, evidentemente. Como tenho esse histórico na família, e que vitimou, além de meu avô, alguns tios, procuro me informar acerca dos tratamentos que a medicina coloca à disposição todos os anos.
Certamente podemos comemorar saltos qualitativos formidáveis, avanços estes que chegaram tarde demais para o avô que sequer tive a honra de conhecer, embora carregue comigo seu nome e sobrenome acrescido do Neto, fato este que me orgulha bastante.

Por falar em orgulho, Montes Claros nutre especial apreço pela Fundação Sara, instituição sem fins lucrativos que visa acolher, com carinho e dedicação, crianças fustigadas pelo aceno indistinto dessa doença terrível, que tenta, muitas vezes em vão, ceifar o brilho de crianças tão vivazes. Grande parte do êxito desta batalha contra a doença, feita com quimioterapia, radioterapia e muito sofrimento, se deve ao empenho de instituições como a Fundação Sara, comandada pelo casal Marlene e Álvaro.

Na semana passada foi anunciada a expansão da Sara para Belo Horizonte. Seu trabalho, sério e abnegado, agora também estará à disposição das crianças de todo o Estado de Minas, já que para a capital são conduzidos os casos mais complexos, oriundos dos mais recônditos cantinhos de nosso Estado. E a presença da fundação nas alterosas representará um alento para famílias carentes que buscam obstinadamente a cura para seus filhos, que, muitas vezes, chegam a desconhecer a complexidade do mal que carregam e do quão sofrido pode ser o tratamento.

Estive na Fundação Sara na semana passada, na condição de mestre de cerimônias voluntário, e pude ver, ciceroneado pelo casal Marlene e Álvaro, o esmero com o qual eles cuidam daquelas crianças e o conforto com o qual elas são abrigadas. Uma situação bem diferente, certamente, da vida modesta que levam em suas cidades de origem. Álvaro, que além de seus predicados conhecidos traz uma qualidade adicional, já que é serranopolitano assim como eu, disse que a Fundação Sara passou a construir casas, na medida de suas possibilidades, para estas famílias e que todos, ao partirem de lá rumo a seus lares, depois do período de acolhimento, levam consigo cestas básicas. É uma condição mínima para se assegurar o êxito do tratamento longe dos cuidados, das camas confortáveis e das refeições balanceadas da Fundação Sara.

Os olhos de Marlene e Álvaro brilham intensamente quando eles falam sobre a fundação, erigida a partir de seu drama particular com a perda da pequena Sara, cuja luta pela vida emocionou Montes Claros há uma década. Sara certamente não sucumbiu à toa. Sua vida teve um significado, ao contrário de tantas outras que passam insípidas por essa terra.

E Sara, agora devidamente transfigurada em um anjinho, vive presente ali, na esperança de cada mãe, no olhar curioso daquelas crianças e no coração bondoso de seus pais Álvaro e Marlene, que atraem para si outras pessoas de coração bom. E estes, os colaboradores, injetam recursos e carinho, subsídios para a Sara crescer cada vez mais e ajudar centenas de crianças, quiçá milhares, em Minas Gerais.
Sugeri a Álvaro que escrevesse um livro sobre a história da fundação, desde a luta renhida de sua filha pela vida até os dias atuais, perfazendo mais de dez anos de trajetória. Ele disse-me que já tentou, mas que as lágrimas inundam o papel, a alma e o coração sempre que ele tenta organizar as informações disponíveis. Mas uma dessas histórias eu quero compartilhar com vocês.

Há algum tempo a Fundação Sara recebeu uma paciente, uma mocinha de treze anos, vinda de uma pequena cidade da região. O caso dela, segundo os médicos, era irreversível. Não havia recursos disponíveis na ciência para ajudá-la a realizar um sonho, como tantas meninas-moças. Ela sonhava com uma festa de debutante dali a dois anos. Sabendo disso a Fundação Sara se organizou e realizou uma grande festa, com valsa, príncipe, convidados, refrigerantes e música alegre em seu aniversário de quatorze anos.
Se a vida, e seus desígnios misteriosos, pregou essa peça na moça de sorriso esperançoso, não havia mal nenhum em trocar o “14” pelo “15” no alto do bolo. E assim foi feito. A festa foi linda. A mocinha realizou seu sonho e nem mesmo sua morte, acontecida semanas depois, tirou-lhe a chance de realizar esse projeto derradeiro: o seu baile de debutante.


Citação oportuna: “Ah”, disse o rato,“o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro.” ― “Você só precisa mudar de direção”, disse o gato e devorou-o.
Este é um conto curto do tcheco Kafka. Genial né?

Filtro: Como separar o trabalho útil das emissoras all news da inconcebível "A voz do Brasil", segundo este defensor da liberdade de expressão:
Filme: Che, com o Benício Del Toro
Livro: Neuromancer- Willian Gibson
Net: Site excelente para disputar partidas de sinuca on line: Passe o giz no taco!
Outras bossas: Em breve mais um Rock Cast
Pixels:

Na fundação Sara com seus colaboradores

7:36 PM

Comente aqui: Segunda-feira, Agosto 03, 2009  
João Dama da Noite

A infância de João Donato tinha cheiro de dama da noite. Era esse o cheiro que ele sentia quando sua mãe o chamava para jantar, nas tardes silentes de sua cidade de interior. E os aromas dos pratos feitos com algum capricho se misturavam com o aroma de noite fresca, trazidos pela dama da noite, cujos galhos roçavam-se na madeira rota do quarto do menino.

Mas havia outro cheiro que o acompanhava na infância, o cheiro de cachaça, que se desprendia da boca de seu pai todas as noites, quando ele chegava do bar. E havia também a promessa do cheiro de sangue, já que o pai batia na mãe todos os dias e só não batia em João Donato porque a mãe trancava a porta do menino com cadeado e guardava a chave em um lugar que só ela sabia. Mas a promessa do cheiro de sangue se derramando naquela casinha humilde aumentava cada vez mais, assim como o cheiro doce da dama da noite, cujo caule era o receptáculo da chave do cadeado que impedia que o pai molestasse o filho, como tantas vezes ele murmurava na porta do menino: “Eu vou te arrebentar seu viadinho”.

O pai imaginava que aquele menino aloirado não fosse seu filho, e mesmo os argumentos da mãe de que seu avô era das “Oropa” resolveu o problema. Para livrar o filho do ódio do marido, a mãe o prendia no único cômodo de tijolos daquela casa miserável. Principalmente a noite, quando o marido chegava da rua, fedendo à cachaça. Para o filho não ficar sem fazer nada, a mãe comprara um radinho de pilha para ele, e era ouvindo os programas de humor da noite, com o radinho colado no ouvido, que o menino tentava não se ater aos fatos que aconteciam naquela casa, enfurnado em sua misantropia forçada.

Sem que a mãe soubesse ele tinha uma peixeira debaixo do travesseiro para o caso das ameaças do pai se concretizassem algum dia. O menino tinha só dez anos quando aconteceu a desgraça.

Numa noite, silenciosa como todas as outras naquele subúrbio sem eletricidade, a pancada que o pai bêbado deu na mãe de João foi forte demais e ela desmaiou. Apenas de manhã, o pai do menino percebeu que a mulher havia morrido durante a noite. O pai chorou desesperadamente e chamou pelo filho para que ele o ajudasse com sua mãe, que estava passando mal.

Depois de vacilar por alguns instantes, João disse onde o pai poderia encontrar a chave do quarto: num prego fincado no caule da dama da noite. O pai praticamente se arrastou sob os galhos da planta e encontrou a chave. Depois abriu a porta e implorou que o filho o ajudasse. Mas quando o menino viu a mãe roxa e com hematomas no rosto, não teve dúvidas:

- Você a matou seu desgraçado!- o menino correu até o quarto.

O pai foi atrás dele e quando entrou no quarto escuro só sentiu a peixeira atravessar-lhe a barriga mole. O menino ainda deu mais três estocadas para se certificar e depois fugiu de casa, deixando para trás sua mãe amada, seu pai odiado e o cheiro inebriante da dama da noite, que continuou perfumando aquela casa, mesmo depois do enterro das duas vítimas do filho malvado, como a vizinhança, a polícia e os jornais passaram a considerar aquele caso. O menino, antes de partir, levou consigo seu radinho de pilha e fez um raminho com as flores da dama da noite. E depois ganhou a estrada, com o ramo da flor cheirosa em seu bolso surrado de estudante.

Depois de chegar à adolescência nas ruas do Recife, o menino se tornou um perigoso pistoleiro lá para as bandas do Maranhão e do Pará. A ele são atribuídas pelo menos dez mortes nos últimos anos. João Dama da Noite é sua alcunha de assassino.

Em sua ficha corrida de assassinatos não tem nenhum padre, nenhum pai de família honesto e nenhuma mulher honrada. Apenas políticos corruptos, posseiros de terra e assassinos se acabaram no ferro incandescente do matador.

Antes de fazer qualquer serviço, João analisa bem sua vítima e só aí, diz sim ou não para o contratante. Isso já é um hábito conhecido do matador. E os que solicitam o serviço sabem que, mesmo diante da recusa do assassino, não há com que se preocupar, já que a discrição é parte importante nesse tipo de trabalho, e João Dama da Noite conseguira o respeito de todos naquela região.

Mas tem outro hábito que ninguém sabe: João, depois de cada serviço feito, tateia cuidadosamente seu bolso de paletó, e encontra seu radinho de pilha, onde escuta as pregações de seu pastor, enquanto foge do flagrante. Depois ele remexe mais uma vez o outro bolso e encontra as flores ressecadas da dama da noite e dá uma cheirada cada vez mais profunda, em busca do cheiro perdido, da infância perdida e da vida, irremediavelmente perdida.

Citação oportuna: A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez"- Friedrich Nietzsche

Filtro: Como separar os blockbusters do cinema dos filmes de Kurosawa, Capra, Hithcock e outros gênios e tornar sua vida um pouco menos ordinária, segundo este apreciador de cinema de verdade que adora pitacar, se é que este verbo existe:

Filme: O excelente "A Erva do Rato"
Livro: Uma biografia nova sobre o Santos Dumont, que desmonta a tese de que ele seria gay
Net: Mande um e-mail pra você mesmo e que será entregue no futuro
Outras bossas: E tem mais um Rock Cast na área. Agora a edição 008. Clique aqui e curta o melhor do rock
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12:01 AM

 
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