Novo blog do Jornalista, radialista e acadêmico de Direito, Délio Pinheiro


























 
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Da vida não peço tanto assim, meus sonhos são tão banais, liberdade é o que peço, um pouco de amor, respeito e nada mais.



























Blog do Délio Pinheiro
 
Mensagens de amor e ódio: Domingo, Junho 28, 2009  

O Vale das possibilidades

Estive no Vale do Jequitinhonha nesta última semana. Mais precisamente em Carbonita. Ao contrário da máxima que os pessimistas vaticinam, e que já está enraizada em nossa consciência, não vi a pobreza que campeia e que faz da região uma das mais miseráveis do planeta.
O que vi, nos intervalos do trabalho e mesmo durante o labor, foi uma gente simples, de hábitos comedidos e cercada de recatos e desconfiança. E essa postura, na defensiva, se manifesta no primeiro olhar, na hora da primeira abordagem, logo após o primeiro “bom dia”.

Bastam alguns minutos, entretanto, para a verdade cabocla daquela gente aflorar. Então eles se abrem, sorriem e nos aceitam em seus mundos de simplicidade e aconchego. Foi assim em Carbonita, e desconfio que seja assim em todo o Vale.
A primeira, e boa, impressão foi dada por Norma. Ela é secretária municipal, e está prestando o mesmo serviço a três governos. Sai e entra prefeito em Carbonita, só não sai a habilidosa e competente funcionária. Essa parece ser a norma por lá.

A pobreza deste trocadilho contrasta com as virtudes da jovem senhora, que se encaixa perfeitamente no estereótipo que citei. No início ela ficou comedida, como boa mineira do Vale, mas depois, talvez ao perceber que éramos bons moços, (eu e meus dois companheiros de trabalho), ela nos brindou com sua boa vontade e sua simpatia, que não cessaram nem com o fim do expediente na secretaria.
Depois dela outras pessoas mostraram-se sem véus e pudores, sem inveja e sem discursos vazios. Como o arguto Wagner, funcionário da Emater, e mestre nas academias e na própria vida. Um rapaz brilhante e, sobretudo, simples. E é desse modo que essa qualidade deveria se manifestar sempre em todos os seres humanos.
Conheci também a octogenária, mas com alma de menina-moça, Dona Eva, que mora em um casarão colonial com dois séculos de vida, um tanto gasto pela ação deletéria do tempo, numa região chamada Gangorras.

De lá, das janelas de duzentos anos, ela espia o mundo sem pressa, e, debruçada no fogão de lenha de mesma idade, faz seus divinos queijos, que parecem carregar a tradição e o traquejo de tantos verões, em seu sabor brejeiro. Queijo esse que é oferecido de coração aberto, com a hospitalidade típica destes rincões.
Tive a honra ainda de encontrar, em meio ao burburinho do Mercado Municipal, uma senhora espevitada chamada Aparecida, artesã de mão cheia, que faz seus trabalhos com barro, dando vida a panelas, jarros e vasos de rara beleza. Assim como é bela a alma marota da artista que, com gestos precisos, materializa sua criatividade e assegura seu sustento, e de sua família. Nem foi possível fotografar muitas destas peças porque, segundo Aparecida, não sobra nada da sua produção. Tudo é vendido.

Nas artes da mesa, saboreei os quitutes de Dona Fiinha, ouvi as modas de viola de Cristal e Diamante, vi o imenso e preciso relógio e a bela igreja de Nossa Senhora da Abadia e admirei as estripulias do grupo teatral Trama, que estava por lá despertando o interesse para as artes cênicas nas crianças.
Uma bela cidade, que se faz ainda mais bela com os predicados de seu povo. Gente criativa e hospitaleira que faz-nos esquecer daquelas premissas que condenam o Vale a um penar sem fim. Desde que haja criatividade, força de vontade, honestidade e trabalho certamente a miséria dá espaço ao progresso. E por fim dedico essa crônica a todos de lá, sobretudo aqueles que conheci e em especial ao Benezinho.

12:29 PM

Mensagens de amor e ódio: Sexta-feira, Junho 12, 2009  
Para o Pará não vamos

Tenho ficado atento aos concursos públicos que pululam neste país, e minha esposa Camila já foi categórica: para o Pará não vamos. Ela até inclui o Rio de Janeiro, graças à sua notória violência urbana, uma vez ou outra nas “proibições”, mas a implicância com o Estado da região norte é definitiva, e não há argumento suficiente para demovê-la dessa imposição.

O problema é que a maior parte dos acontecimentos negativos neste país costuma acontecer no Estado cuja capital é Belém. Morte da missionária Dorothy Stang e vários conflitos agrários? Lá, é claro. Massacre de Eldorado de Carajás? Também. Uma moça presa numa cadeia junto de uma cambada de homens? Pará, off course. O assassinato de um velejador neozelandês tido como o “Pelé” daquele país? Precisa dizer?

O clima por lá, para nós, parece pesado, denso como as chuvas tropicais que desabam na Floresta Amazônica. Temos desmandos de todo tipo: Grileiros expulsam trabalhadores de suas terras, e encomendam assassinatos como por aqui pagamos por TV a cabo. Fazendeiros inescrupulosos mantêm funcionários escravizados em suas terras. 1% de fazendeiros paraenses dominam metade da extensão territorial do Estado, confirmando a triste sina de terra de latifúndios. Contra a governadora recaem suspeitas de corrupção ainda não completamente elucidadas, ou por acaso você acha normal a cabeleireira pessoal da governadora Ana Júlia Carepa ser nomeada sua assessora pessoal? A exploração da madeira faz do Estado o mais devastado da região amazônica. Por lá o sistema de saúde agoniza, a ponto de cidadãos paraenses acionarem a justiça para que haja intervenção federal no Estado, por omissão dos políticos locais.

Então o destino, como o mais sádico dos roteiristas de cinema me encaminha para ser promotor ou delegado lá naquelas plagas. Não, de jeito nenhum, segundo Camila. Seria assinar uma carta de adeus, caso eu pretenda levar a lei ao pé da letra e tente apagar algumas dessas nódoas.
O melhor é não incluir o Estado onde se consome pato com tucupi em qualquer tipo de plano para o futuro, quando meu curso de Direito me credenciar a essas ocupações citadas. Assim pensa minha esposa. Desconfio que sua impressão seja compartilhada por grande parte dos brasileiros, assombrados pela fama de “terra sem lei” que o Pará angariou, reforçada nos últimos anos por novos e desalentadores acontecimentos.

O Pará acaba de acrescentar mais um capítulo macabro em sua história de omissões e pecados há alguns dias, quando a revista eletrônica Fantástico, da Globo, mostrou uma cidade esquecida chamado Bordel, digo Portel.
Lá acontecem coisas terríveis, como a banalização da vida humana, retratada em uma mãe que admitiu “vender” sua filha menor de idade por quinhentos reais para um forasteiro de São Paulo que ela nunca vira na vida. A única exigência foi deixar com ela, uma mãe tão atenciosa, um número de telefone, para que pudesse ligar de vez em quando.

Um gesto bonito, de mãe zelosa, conforme podemos observar. Antes disso, na noite anterior, a mesma mãe “alugara” sua filha pelo equivalente a quatro cervejas para quem se dispusesse a pagar o programa.
A matéria levou-nos a crer que esse comportamento, naqueles confins tropicais, é normal. O prefeito chegou a dizer que o que acontecia na calada da noite não lhe dizia respeito. Sinto desapontá-lo prefeito, mas diz respeito sim. A menos que o senhor seja como os juízes que fazem vista grossa ou como alguns delegados daquela região, que fingem ignorar a realidade para continuar vivendo mais ou menos seguro em meio a esse faroeste caboclo, já que o Estado não os dota de condições mínimas para atuar com segurança.

Recentemente assisti a um filme chamado “Anjos do sol”, que chegou a causar-me mal-estar, devido ao assunto abordado: a prostituição infantil e o comércio de seres humanos. Mas ao olhar a realidade sem os filtros do cinema, descobrimos um mundo ainda mais cruel, onde direitos elementares são ignorados, imputando ao Estado da maniçoba a triste síntese de tudo aquilo que o Brasil tem de pior.
Sim, tem prostituição infantil no Rio Grande do Sul. E mais, tem mães que vendem os filhos, e filhos que “venderiam a própria mãe” para se dar bem aqui mesmo em Minas Gerais. Tem grileiros de terra no Paraná, tem trabalho escravo nas fazendas de cana de açúcar de São Paulo e tem político corrupto e omisso em cada esquina dessa nação. Mas no Pará, pelo menos para nós que acompanhamos à distância, é sempre pior.

Na mesma matéria do Fantástico uma deputada gaúcha, integrante da CPI da pedofilia, citou, en passant, que o clima de sexualidade precoce está em todo lugar do país, e isso contribui para a banalização do sexo e sua exploração, sobretudo entre os menores de idade e, pior ainda, entre as crianças e adolescentes paraenses, onde vender a virgindade para algum “barão estourar” vale mil reais, segundo o material jornalístico exibido pela emissora carioca.

A Globo não fez seu mea culpa, já que, provavelmente, editou a fala da deputada. Pois ela não falaria de erotização onipresente sem citar o papel nefando da tevê. Ou você acha normal alguém fazer qualquer negócio para aparecer no Big Brother e, logo depois, uma vez interrompido o confinamento, pular direto para as páginas das revistas eróticas?
É essa a triste sina de muitas garotas belas do Brasil, que descobriram o quanto é fácil angariar um salário mínimo cada vez que se deitam com um desconhecido. Assim elas pagam seus celulares caros e suas faculdades. Ou nos confins esquecidos do Pará, para aquelas que a deusa Afrodite não foi tão generosa, que percebem que conseguirão pagar as parcelas dos produtos da Avon ou da Natura com uma transadinha de nada, do tipo que a própria mãe agencia. Coisas absolutamente normais.

Claro que a Globo não admitiu seu papel neste processo e se limitou a expor a senhora paraense que vendeu a própria filha ao julgamento impiedoso de todos, inclusive o meu, e depois voltou a mostrá-la, devidamente presa pela “eficiente” polícia daquele Estado, ao lado de um cafetão muito querido na cidade.

Precisamos devolver a reputação perdida ao Pará. O Governo Federal, as ONGs, a Justiça, ou o sei lá o quê, precisam levar valores para essa gente, que se refestela com uma música de péssimo gosto apelidada de “techno brega”, e que se vê obrigada a conviver com problemas ainda mais sérios do que este. Aliás, muito mais sérios. Sou um otimista nato, mas por ora, infelizmente, darei ouvidos à minha esposa. O Pará não dá.

No mesmo dia em que a citada matéria foi ao ar, Belém, a capital daquele Estado, concorria a uma vaga como cidade sede da Copa do Mundo a ser realizada no Brasil em 2014. As obras de uma copa costumam ir além da construção de estádios e alojamentos. Toda a logística envolvida contribui para a melhoria da qualidade de vida da população, que passa a contar com melhores sistemas de transporte, segurança, infra-estrutura e ainda corroboram para uma melhoria na auto-estima das cidades e regiões bafejadas pela presença do organismo internacional mais abrangente do mundo. A ONU? Evidentemente que não. Refiro-me a FIFA. Pois bem, entre as capitais da região norte que esperavam o anúncio, o organismo máximo do futebol escolheu Manaus, no Amazonas.
E o Pará, belém, belém...

Citação oportuna: “Sou um otimista nato, do tipo que acredita que algum dia a juventude vai voltar a ouvir boa música renegando o funk, o axé e o sertanejo a seus nichos. Eu escrevi nicho. Qualquer semelhança com outra palavrinha paroxítona é meramente intencional”- Essa opinião é minha.

Filtro: Como escolher leguminosas musicais e diferenciar a categoria do Tomati do Jô Soares do Tomate da axé music, segundo esse catalogador de pitacos:

Filme: O menino do pijama listrado
Livro: A poeta Sylvia Marteleto lançou um excelente livro chamado: “Azedume”. Indico para todos os meus amigos. Se quiser adquirir basta procurar-me que passo o contato dessa talentosa escritora.
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Outras bossas: O Rock Cast ainda não caiu no gosto popular, mas continuo insistindo. Agora temos a edição 004. Confira.
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