Novo blog do Jornalista, radialista e acadêmico de Direito, Délio Pinheiro
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Da vida não peço tanto assim, meus sonhos são tão banais, liberdade é o que peço, um pouco de amor, respeito e nada mais.
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Mensagens de amor e ódio:
Quinta-feira, Abril 16, 2009
Imagens que eletrizam
O saudoso e premiado jornalista Joel Silveira, instado a citar a melhor imagem do jornalismo em todos os tempos, optou pela quixotesca tentativa de um chinês de conter a fúria de tanques de guerra, postando-se diante das bestas de metal, impedindo, pelo menos por alguns segundos, a intervenção militar na Praça da Paz Celestial de Beijing, no final dos anos 1990.
Essa imagem é mesmo emblemática. O tanque desviou porque, afinal de contas, ali dentro, protegido pela carapaça e pela carapuça, estava outro ser humano. O contraste entre a força bruta do tanque e o gesto frágil de um estudante correu o mundo através dos aparelhos de televisão e chegou aos mais recônditos grotões do planeta.
Ao lado da imagem da ruína do Muro de Berlin, do ataque aéreo ao World Trade Center e dos frames apocalípticos do enorme tsunami que varreu a Ásia há alguns anos, essa imagem registrada na China, estão entre aquelas que dificilmente nos esqueceremos, passe o tempo que passar. E, se considerarmos a opinião ilibada de Silveira, trata-se do momento mais relevante da contribuição do jornalismo para a compreensão do ser humano em todos os tempos em que a atividade jornalística esteve presente, em todas as revoluções e guerras das últimas décadas.
Nesta semana surgiu uma imagem com força para perdurar alguns meses na nossa memória. Quiçá anos. Aquela que mostra os funcionários da concessionária que explora o trem metropolitano no Rio de Janeiro descendo o sarrafo indistintamente nos cidadãos, que deram o azar de não encontrar um lugar mais confortável dentro dos vagões lotados, e que ficaram na mira dos capangas disfarçados de funcionários públicos.
Não havia lugares disponíveis para tanta gente e, ao tentarem mostrar para esses funcionários que os acotovelavam que ali não estavam bovinos e sim seres humanos, a reação foi de extrema violência.
Esses imbecis, devidamente demitidos após as imagens serem veiculadas na TV, não perceberam que ali dentro, aboletados feito sardinhas, tinha uma matéria viva e pulsante chamada ser humano.
Se o soldadinho de merda, com seu brinquedo sinistro, na China, desviou em nome de não sei qual sentimento, o mesmo não se pode dizer dos macacos adestrados que espancaram a nós todos, naqueles vagões lotados de penúria na tarde tropical do bairro de Madureira.
Parabéns ao nobre jornalista cinematográfico que, ao ser escalado para fazer algumas imagens das estações suburbanas no Rio em dia de greve dos metroviários, nos brindou com uma imagem tão forte e tão necessária, ainda que por pura sorte. Joel Silveira ficaria orgulhoso.
Em tempo: Dedico essa crônica, quase um desabafo, a meu ex-colega de jornalismo Alexandre Nobre, o Xandão, que é o cinegrafista mais completo que pode existir em nosso meio, porque também é jornalista diplomado. E dos bons, por sinal.
Poema Ligeiro:
Noturno para o sertão
Os dormentes frios da ferrovia
testemunham a viagem do trem fantasma.
Somente os dormentes vêem.
Enquanto crianças cor de cobre
olham assustadas através das janelas.
Um apito é ouvido entre os ruídos da noite.
Um arrepio atravessa a alma de quem ouve.
Mas apenas os dormentes podem ver.
Enquanto uma criança de boina acena,
o trem avança noite à dentro.
Esse poema, para meu orgulho, está nas páginas iniciais do ótimo livro "Noturno para o sertão", do escritor porteirinhense Itamaury Telles
Citação oportuna: “Se nos oferecessem a imortalidade aqui na Terra, quem iria aceitar esta triste dádiva?”- Frase certeira de Rousseau.
Filtro: Como o céu de Ícaro pode ter mais poesia que o de Galileu, segundo este escriba digital
Filme: Se você ainda não viu um filme do Kurosawa, desculpe-me mas você ainda não conhece cinema. Sugiro “Ran”
Música do dia: Admirável gado novo- Zé Ramalho. Finalmente os versos “Êh, oh, oh, vida de gado, povo marcado êh, povo feliz...” encontraram uma síntese perfeita em imagens. As chibatadas na estação de Madureira, evidentemente.
Livro: Estou lendo “As travessuras da menina má”, do peruano Mario Vargas Llosa e “Grande sertão: Veredas” do filho mais famoso de Cordisburgo, Guimarães Rosa.
Net:
Outras Bossas:
8:36 AM
Mensagens de amor e ódio:
Quarta-feira, Abril 08, 2009
Brilho fugaz de uma mente repleta de lembranças
A tarde de primavera que avança ruidosa para as trevas da noite, parece se liquefazer, tamanha é a quantidade de água que cai das nuvens negras na fazenda distante da civilização de onde Sandoval a contempla, absorto e saudoso. Seu coração de matuto também troveja na mesma cadência da tempestade, e também se liquefaz de saudade de um tempo impreciso de sua infância, quando descobriu o doce mourejar da água da chuva, que escoava pela bica diretamente em seu corpo de criança, e do cheiro inebriante do biscoito de chuva que sua saudosa mãe fritava no fogão a lenha em dias longínquos como aquele que ele observava de sua janela.
O cheiro de terra molhada se confundia com o cheiro do quitute e ainda se misturava ao cheiro de afeto, quase palpável, em sua doce lembrança da meninice vivida ali mesmo, naquele sítio bem cuidado, mas ainda assim esquecido.
Sandoval jamais ouviu falar de Aubrey de Grey, e certamente este jamais saberá quem é nosso matuto, que vive na região de Claraval, município de Montes Claros, no norte das Minas Gerais. Grey é um brilhante cientista que acredita que o ser humano pode um dia ser imortal, ou, numa perspectiva menos otimista, viver alguns séculos com saúde e viço. Ele trabalha, em seu laboratório londrino, tentando reverter os processos químicos que desencadeiam os danos que ocorrem às células de nosso organismo, evitando assim o envelhecimento e a morte celular.
Seria a descoberta do milênio. A chave que nos permitiria prolongar a juventude por tempo indeterminado e que rejuvesceria nossos velhos como no conto de F. Scott Fitzgerald, que recentemente chegou às telonas do cinema. Milhares de Benjamins Buttons remoçariam a cada dia, e nem seria preciso vender a alma, como fez um quase homônimo do cientista, o belo Dorian Gray. A descoberta estaria aí, a princípio caríssima, mas depois disponível até mesmo para os Sandovais da vida.
Basta lembrar que muito em breve, segundo pares de Aubrey Grey, por algo em torno de quatrocentos reais, qualquer ser humano poderá ter seu genoma decifrado. Antigamente seria impossível quantificar um procedimento desses para um reles mortal, mas hoje é perfeitamente crível. Portanto, é uma questão de tempo e esperança até que o doutor Grey consiga êxito em seus objetivos instigantes. Decifrar nosso código genético nos pouparia de doenças como o câncer, que seria tratado antes mesmo de se manifestar.
Sandoval talvez nunca saiba de algo assim. Seu único vínculo com o mundo é um rádio de pilha constantemente ligado nas emissoras AM de Montes Claros, com suas modas de viola ao cair da tarde.
Mas naquele momento o único ruído que se nota em seu humilde rancho é o farfalhar da chuva, que tem o poder de transportá-lo para dias amenos, longe da lembrança atroz que o empréstimo não saudado com o banco lhe provoca e da dor da perda de sua amada, tão recente e amarga, que lhe assalta repentinamente.
Lágrimas espessas, quase do tamanho dos pingos da chuva, brotam-lhe da mais recôndita esquina de sua alma sertaneja, quando se dá conta que a noite escura e sem estrelas, que se sobressai, será na mais completa solidão.
Não, Sandoval nem desconfia que nos Estados Unidos um grupo de pesquisadores acredita que em breve será possível apagar de nossas mentes todas as lembranças ruins, alterando uma enzima misteriosa que existe em nosso cérebro. As mentes brilhantes de lá fizeram os experimentos em ratos e os resultados foram animadores. Os pobres roedores se esqueciam de seu sofrimento e viviam seus dias confinados na mais absoluta felicidade artificial.
Humanos e ratos tem muito em comum, portanto é uma questão de tempo, e possivelmente dinheiro, para apagar de nossas lembranças os momentos de desgosto, de ingratidão e de inveja que vivemos em nosso cotidiano, e também apagar para sempre a dor lancinante de perder um ente querido ou mesmo de ver nosso time do coração ser rebaixado para a segunda divisão.
Mas o que seria de nós, talvez perguntasse Sandoval, se um dia soubesse dessas coisas que relato, vivendo sem data para nos encantarmos, absolutamente errantes e desumanizados?
O que nos confere alguma virtude é o fato de sabermos nossas limitações. É o estranho dom de perceber que dia menos dia, talvez numa tarde chuvosa como aquela, como um sinal inequívoco de boa sorte, partiremos rumo ao desconhecido. Isso torna a vida um assombro e um milagre que precisa ser saboreado com ardor.
Pensando bem, o doutor Grey e os cientistas americanos deveriam conhecer Sandoval, um brasileiro como tantos outros: que ri ao se recordar da infância feliz e que chora quando se lembra das perdas que teve ao longo da vida atribulada. Mas que, ao anoitecer, e com a chegada pacificadora do estio, matuta que ainda pode haver uma esperança, desde que o fruto nasça graúdo, que o produto tenha preço no Mercado Municipal e que o banco, como em um milagre divino, o anistie de seus débitos.
Uma vida cingida em meio à tempestade, mas que vale a pena justamente devido a alguns lampejos, como os relâmpagos que alumiam as trevas e refletem, mesmo que num átimo, sua beleza complexa. Uma vida humana tem Sandoval, demasiadamente humana.
Citação oportuna: "O fim do mundo não é tão assustador quanto o fim do mês"- Frase pinçada pelo Poeta do Acaso, Damião Cordeiro
Filtro: Como diferenciar o CQC do Pânico na TV! baseando-se tão somente nos pitacos digitais deste que vos tecla
Filme: O divertido “Motoqueiros Selvagens”
Música: Uma daquelas certeiras do Kiss, para comemorar os shows desta lendária banda no Brasil
Livro: Código da vida, de Saulo Ramos
Net: A próxima grande onda da internet deve mesmo ser o Twitter. Eu já fiz o meu. Faça o mesmo e depois comece a seguir e ser seguido por centenas de outros usuários. Entre aqui:
Outras Bossas: Montes Claros viveu um dia atípico na última segunda-feira. Tivemos a presença por aqui do presidente Lula, do vice, do governador Aécio, de onze ministros e todos os governadores do Nordeste, além de outras autoridades. Está aí uma das milhares de fotos do dia em que a cidade em que moro foi o centro político do Brasil:
5:43 PM
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