Da vida não peço tanto assim, meus sonhos são tão banais, liberdade é o que peço, um pouco de amor, respeito e nada mais.
Blog do Délio Pinheiro
Comente aqui: Segunda-feira, Maio 14, 2012 Tempo, tempo, tempo, mano velho
Minha vida tem sido escrever. É esta a condição sine qua non a qual o jornalista de televisão se submete todos os dias. De maneira voluntária, entenda-se bem. Escrever textos que, em meio a imagens de forte apelo, levará os acontecimentos do cotidiano à casa de milhares de telespectadores. Trata-se de uma escrita importante, pois traz o chamado lead, que é a sucessão de explicações ditadas pelos manuais de redação à audiência do telejornal. Como? Quem? Porque, pelo amor de Deus?...
Texto conciso, sem firulas. Assim deve ser a escrita jornalística. Claro que há espaço para a criatividade, sobretudo em reportagens que fogem dos chamados factuais. Nas matérias de comportamento, de perfil de cidades ou de personalidades, ou nas aventuras ecológicas, gastronômicas e artísticas nas quais nos metemos a fina ironia, o humor e a perspicácia devem estar presentes.
À parte isso, tenho uma frustração: a de não ter mais tempo de escrever de maneira literária. Tenho alguns projetos, como um novo livro de poemas e, principalmente, um romance que já está pronto, mas sinto um desejo irrefreável de escrever contos e crônicas, desejo de povoar de criatividade, com a massa cinzenta, a alvura de uma página de Word e tornar a vida de poucos um tanto quanto multicor.
Mas a inspiração, que costuma ser espasmódica, depara-se quase sempre com a frieza dos ponteiros do relógio, que sempre dizem que o tempo acabou, que o compromissou chegou e que, se eu não largar este teclado agora mesmo com a frase visivelmente inacabada, não haverá como fechar o jornal, que o personagem da matéria só pode esperar até duas da tarde.
Depois eu continuo. O telefone tocou. Alguém morreu. Alguém foi cassado. Alguém se meteu com crianças indefesas. Alguém ganhou um concurso gastronômico. Alguém foi contratado para algum time decadente. Alguém acusou alguém de alguma coisa reprovável. E, o que é pior, alguém lançou um livro.
Indicações culturais deste blogueiro, embora tenha me faltado tempo também para ver filmes e ler:
Filmes: Shame e 50%
Livro: Primeira histórias, do Guimarães Rosa. Ótima leitura
Seriado: Mad Men
Uma imagem: Um citação:
O sonho era recorrente. Depois que acordava, invariavelmente, ele apalpava os dentes para saber se eram mesmo de verdade. Ele não se lembrava de quando aquela repetição começara, mas chegava a se preocupar com o realismo de algumas das “quimeras banguelas”, como passou a chamar o tipo de sonho.
O roteiro mudava. Algumas vezes era uma briga de bar e, num gesto brusco, antes que o adversário pudesse golpeá-lo, o sonhador sentia os dentões da frente saírem do lugar. Noutras ele estava diante do espelho, logo depois das abluções, e descobria horrorizado que usava uma espécie de rote, um implante mequetrefe. Desde quando? Como não se lembrava devia ser na infância, mas os dentes falsos eram do mesmo tamanho dos demais. Podiam se desenvolver como se fizessem parte da arcada dentária?
Procurou um livro com significados dos sonhos. Descobriu que “sonhar com dente é considerado de mau agouro, sobretudo se eles possuírem alguma enfermidade”. Depois desta explicação vinham dezenas e milhares para ele apostar nas loterias. Resolveu ignorar, uma vez que tinha o lance do mau agouro e ganhar a Mega Sena nestas circunstâncias devia corresponder a ser assassinado por alguém, ou mesmo ser seqüestrado. Lembrou da história do deficiente físico que foi apagado no Rio. Cruzes!
Preferia continuar a vida como contador. Conseguira algum conforto desempenhando esta profissão e quando chegava a época de declarar o imposto de renda não faltava serviço. Sempre se perguntava o porquê das próprias pessoas não fazerem a declaração, uma vez que era tão fácil e o site da Receita era auto-explicativo, mas depois não voltava a pensar nisso. Chegava a entregar oitenta declarações em um único dia, quando o prazo estava prestes a expirar. A trinta reais por vez. Não era um mau negócio.
Ele só se preocupou quando um dia um cliente chegou ao escritório e o ameaçou. Descobrira que, graças a um erro seu, teve que pagar quase quinhentos reais desnecessários ao Leão. Chegou fulo e fez a ameaça que, inconscientemente, mais assustava o sonhador: “Vou quebrar esses seus dentes da frente se você não me devolver o dinheiro”. O prazo tinha acabado e não era possível fazer mudanças na declaração. Morreu em quinhentos reais, mas conservou os dentes.
Agora, mais do que nunca, sempre que o sonho se repete, antes de tomar café descafeinado e ir para o trabalho assoviando, ele apalpa os dentões, e se certifica que eles estão inteiros.
Dicas culturais: Um filmaço: "Os 39 degraus", clássico de Hitchcock
Uma boa citação:
Comente aqui: Quarta-feira, Abril 25, 2012 A música do realejo
Era uma casa grande com muros laterais brancos e algumas árvores ressecadas no jardim. Apesar do muro elevado, a casa podia ser admirada, pois era alta e possuía certo glamour de alguma década esquecida. Suas longas fileiras de janelas resistiam ao tempo, junto com a pintura que descascava devido às mudanças do clima. Ora chovia por meses, ora o sol castigava sem piedade.
No verão, a casa costumava abrir-se para o sol. Era quando a imensa mansão, com jarros de flores nas janelas e hera espessa nos muros, tornava a rua e, porque não, a existência naquela cidade interiorana, mais interessante.
Mas, nos tempos em que a chuva vinha a casa se modificava. Havia algo de aterrador naquelas paredes porosas. Quem passava pela rua nas noites de tempestade podia ver uma casa triste, assolada por um peso que ia além das tradições seculares da família que a habitava. Pairava no ar certo sentimento funesto, como se dentro de suas paredes de adobe residisse um anátema, que só se dissipava pela manhã, quando o sol indistintamente imprimia um sorriso em cada janela e os seus moradores saudavam o dia, como sobreviventes de alguma guerra misteriosa.
Dona Sinhá, todos os dias, era a primeira a assomar na janela da cozinha. E bastava isso para que a imensa chaminé logo começasse a expelir uma fumaça preta, que poderia ser um café forte para despertar os moradores, mas também era como se a casa expurgasse a maldição que parecia dominar aquelas pessoas.
Em seguida, Seu Elias atravessava a imensa sala e chegava à copa para saborear o café com biscoitos. Apenas biscoitos. Não havia nenhum tipo de ostentação naquele senhor de voz grave e gestos econômicos.
Era o comerciante mais próspero da cidade, mas se negava veementemente a participar de qualquer evento social, nem de grupos secretos ou obras de caridade. Nada o impelia a fugir de sua rotina, que era ir e vir da mansão da esquina para a loja de secos e molhados, e da loja para a mansão da esquina, sempre com pressa, carrancudo e com poucas palavras.
A última a acordar naquela casa, invariavelmente, era Dulcina. Em outros tempos ela era uma moça encantadora, que despertava paixões nos rapazes da cidade quando a viam em alguma janela da casa por sobre o muro coberto de hera. O seu pai tratou de afastar, um por um, todos os pretendentes que declaravam seu interesse por ela, pois achava que nenhum homem naquela cidade provinciana era digno de sua filha.
Um por um, também foi assim que os anos se passaram e a beleza da moça se perdeu em algum lugar daquela imensa casa. Agora, ela já não aparecia mais à janela. Era como um fantasma, que caminhava através dos corredores tristes, e que agora se juntava aos pais para tomar aquele café encorpado, com biscoitos.
Durante o café não se ouvia nenhuma palavra. Apenas o monótono som das xícaras de porcelana barata se chocando com os pires e o barulho do líquido ralo sendo sorvido. De vez em quando Seu Elias fazia algum comentário sobre as dificuldades da vida e que seria uma boa idéia se pudessem fazer economia. Dona Sinhá sabia que não tinha nada a se economizar. Há anos tomavam banho frio e não havia naquela casa nenhum tipo de conforto eletrônico, nem sequer um simples rádio.
Depois do café, Seu Elias rumava para a mercearia, sempre a pé, embora possuísse um automóvel, que estava parado há muitos anos, desde quando precisou de conserto. O carro, a casa, a mercearia, uma chácara nas proximidades da cidade, tudo isso fazia parte da herança que seu pai lhe deixara. A localização da chácara era um bom motivo para não mandar consertar o carro. Situava-se praticamente na cidade. Bastavam vinte minutos de caminhada e pronto. Automóvel, portanto, era um luxo, como todos os outros, desnecessário.
Quando Seu Elias saía para a rua, o ambiente pesado da casa se dissipava em grande parte. Dona Sinhá era só sorrisos e Dulcina logo se punha a fazer suas obrigações domésticas. Ela ficava na varanda interna costurando, mas, enquanto seus dedos ágeis manipulavam os tecidos, os retroses e as agulhas, sua imaginação voava para bem longe dali. Ela pensava no Adolfo, sua grande paixão.
O único homem, excetuando seu pai, com o qual conversara na vida e por quem nutria um sentimento arrebatador. Adolfo era o primo que, nas férias, há muitos anos, ia passar uns dias na pequena cidade do interior. Fazia décadas que ele não aparecia por lá, mas Dulcina não se cansava de esperá-lo. Ela sonhava que de novo ele a beijasse, como fizera naquela época.
Um desejo febril tomara conta dos dois numa distante manhã de verão, e esta era a lembrança que nunca saía da cabeça de Dulcina. Tudo começou com a troca de olhares enviesados e, logo depois, um ardor qualquer lhes ferviam as veias. O beijo foi inevitável. Não havia nenhuma perícia, mas o beijo fora verdadeiro o suficiente para fazer surgir uma paixão resoluta entre os dois. Dulcina e Adolfo tinham treze anos.
Sabendo disso, Seu Elias pediu ao irmão da capital que não mandasse mais o filho para lá nas férias. E assim foi. Desde então muitos anos se passaram, quase trinta, e os dois nunca mais se viram.
Dulcina já havia se recuperado das diversas notícias que chegaram até ela da capital dando conta do noivado de Adolfo, outras que falaram de seu casamento e de sua viagem para Buenos Aires na lua-de-mel. Informações que lhe causaram soluços indissimuláveis e a revolta de Seu Elias que perguntava: “como puderam gastar tanto dinheiro em uma bobagem destas?”.
Estas lembranças, ao contrário do momento em que atingiram Dulcina feito uma lâmina afiadíssima, já não a mortificavam mais. Ainda levaria um bom tempo para se tornarem um sentimento extinto em seu coração que, passados tantos anos, era como se estivesse coberto por algo mais enraizado que a hera do muro daquela mansão. Algo que a sufocava e a fazia tiritar de frio, mesmo nas tardes ensolaradas.
Agora, a paixão de Dulcina transformara Adolfo em menino outra vez, com seus cabelos louros a caírem sobre os olhos. Ela se negava a imaginá-lo casado, e com filhos, essas bobagens que a vida lhe privara.
Os dois, em sua imaginação, eram jovens que corriam pelos corredores da casa, dando nomes fantásticos às coisas desconhecidas. Eles subiam nas árvores do jardim que, em contraste com a secura de atualmente, eram verdes e apinhadas de frutos. Depois exploravam os quartos fechados da casa, verdadeiras cavernas misteriosas.
E então acontecia o beijo. Um frescor de vida que em muito se assemelhava às tangerinas molhadas pelo sereno, colhidas pelos dois naquelas manhãs douradas. E esta sensação a assaltava, tocando seus lábios trêmulos de moça virgem, numa ânsia de volver o passado, de tornar a viver o mágico instante daquele beijo que, passados tantos anos, ainda tremulava em seus lábios, feito nódoa que não sai nem com simpatia de avó.
Àquela altura da manhã, Dona Sinhá se ocupava com a preparação do almoço. Seu Elias todos os dias almoçava em casa. Era quando a família se encontrava de novo, para comer a mesma ração e conversar o mínimo de sempre, ruminando súplicas, soluçando angústias e cuspindo os mesmos pretextos sobre a porcelana ordinária.
Por dentro, a imensa casa era como um túmulo: escura e silenciosa. E isso independia das estações do ano. Era como se um inverno secular cobrisse os móveis gastos e também as pessoas com uma casca de penumbra e frieza. Os cantos das salas eram escuros e o piso de madeira, eternamente encerado, ajudava a tornar o ambiente ainda mais lúgubre.
Após o almoço, Seu Elias religiosamente ia para o quarto. Levava a féria da manhã para ser guardada. Existia uma porta dentro do aposento cuja chave apenas ele possuía. Para abri-la, o velho tinha o cuidado de trancar antes a porta do quarto. Dentro do pequeno cômodo havia uma fortuna. Era mais dinheiro do que ele podia contar. Milhares de notas de cruzeiro, milhões e milhões de moedas, uma fortuna incalculável.
Muitos na cidade acreditavam que Seu Elias agia de má fé cobrando sempre mais nas contas da mercearia. Muitos aposentados se queixavam por nunca conseguirem saldar a dívida com o vendeiro. Sempre ficava um restante para o mês seguinte e, desta forma, eles passavam a vida inteira devendo para o comerciante.
As suspeitas só dirimiam graças à vida miserável que o comerciante e sua família levavam. Devia ser mesmo culpa da inflação, “as coisas mudam de preço constantemente”. Por isso não dava para saldar tudo de uma só vez, mas, no fundo, Seu Elias devia ser gente honesta, pois nunca se negara a vender fiado e ninguém jamais ousara deixar de pagá-lo. Mas o fato é que o velho amealhara uma fortuna notável.
Ninguém sabia, mas ele era dono de várias glebas de terra, e algumas ele sequer conhecia. As escrituras das propriedades ficavam sobre a mesa. Eram doze. Possuía ainda uma fortuna em dinheiro vivo, que ele cheirava e apalpava com um prazer extraordinário.
Depois do almoço, o velho sempre ficava no quarto secreto durante quase uma hora e à noite, o mesmo tempo, depois do jantar. Dona Sinhá acreditava que ele ficava fazendo contas do armazém e nunca demonstrara grande interesse naquela portinha que ficava ao lado do guarda-roupa. Enquanto Seu Elias se refestelava com sua fortuna, Dulcina voltava para suas costuras e Dona Sinhá tratava de arrumar a cozinha.
Naquela manhã, no entanto, um fato diferente trouxe um pouco de vida ao casarão da esquina. Um realejo fora colocado sobre a calçada em frente e uma música animada aos poucos foi se esgueirando pelas frestas e pelos corredores encerados da casa.
O operador da geringonça não se deu conta, mas um pequeno milagre se operou naquela família. Dona Sinhá foi a primeira a perceber a melodia que entrara pela casa. Sem notar, ela estava assobiando e remexendo suas enormes ancas em frente a uma pilha de louças.
No quarto contíguo, Seu Elias começou a dançar abraçado aos calhamaços de dinheiro, imaginando que a música que ouvia estivesse apenas em sua cabeça. Mas não estava. Ela agora se espalhara por toda a imensa casa, que parecia envolta em um clima diferente, de felicidade sem explicação.
Na varanda lágrimas brotavam dos olhos de Dulcina e ela ria extasiada pela canção arteira, imaginando que Adolfo poderia entrar correndo naquele instante pela casa chamando-a para brincar. De novo ele lhe daria um beijo e juntos dançariam ruidosamente. Como fazia agora seu pai, abraçado a um saco de dinheiro, com a mesma alegria que sua mãe assobiava e inventava letras para aquele som divino que lhe chegava aos ouvidos.
Dona Sinhá, após suspender por ora seus afazeres, foi até a varanda interna e ficou enternecida ao ver sua filha chorando e, ao mesmo tempo, rindo. Por certo se lembrando do Adolfo.
Nesta hora quase contou a verdade para Dulcina. Que Adolfo nunca havia se casado, que não tivera filhos e que nunca fora a Buenos Aires. Tudo isso havia sido inventado por Seu Elias para afastá-los, para não deixar que se perdessem em um amor impuro.
Adolfo agora era um solteirão, como bem sabia Dona Sinhá, que nunca deixara de mandar cartas para Dulcina, mas que sempre foram interceptadas por Seu Elias. Este que agora dançava com sua fortuna, erigida com a miséria de sua esposa e de sua filha. Dona Sinhá não disse nada sobre Adolfo para Dulcina. A esta altura, ela imaginava, não havia nada a ser feito.
Do lado de fora, o homem desligou o realejo e foi para outra esquina em busca de clientes. A música, pouco a pouco, foi sendo levada pelo vento. Quando o silêncio se apoderou de novo da casa, Seu Elias saiu de volta para a mercearia, Dona Sinhá foi cuidar dos afazeres da casa e Dulcina voltou para suas costuras.
Dicas culturais deste blog:
Dois bons filmes: "Drive", com Ryan Gosling e "Despedida em Las Vegas", com Nicolas Cage e Elizabeth Shue
Duas citações legais: "De qualquer maneira, case-se. Se conseguir uma boa esposa, você será feliz. Se arranjar uma esposa ruim, você se tornará um filósofo- Sócrates, filósofo.
"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe” - Oscar Wilde
O rádio é prodigioso em produzir gafes curiosas. O imediatismo do veículo aliado com o acaso são responsáveis pelos momentos em que uma situação engraçada acontece, por exemplo, quando se está anunciando uma nota de falecimento, como lerão a seguir. O objetivo desta compilação de situações curiosas é homenagear os comunicadores que levam alegria e informação aos ouvintes em todo o Brasil. O propósito de juntar essas gafes aqui se deve ao fato do meu projeto final da faculdade ter abordado justamente essa questão. Depois de uma primeira garimpagem sobre o assunto eu, Camila Chaves e Samuel Nunes, meus parceiros de projeto, reunimos algumas destas situações curiosas. À época tínhamos até mesmo a pretensão de lançar um livro sobre este tema. Quem sabe não é hora de retomar isso, heim Samuca?
Então, apreciem estes momentos impagáveis:
# O locutor se vangloriava de seu pique animado no ar e fazia disso uma das características de seu trabalho. Para ele rádio tinha que ser empolgante. Um dia ele se empolgou demais. Depois de dizer a hora, o locutor entrou no ar com todo o pique: "E aí galera, tá no ar o nosso programa, mas para começarmos com todo o gás tem a contagem regressiva: 1, 2, 3".
# Em Porteirinha e em Espinosa tem duas rádios homônimas. Ambas se chamam Educadora e trazem muitas características em comum como a prestação de serviço e o apelo popular. Um comunicador trabalhava na cidade de Espinosa e sempre começava seus programas da mesma forma: "Tô chegando aqui na Educadora, em Espinosa 10 horas". Era este o sinal que avisava os ouvintes que a atração entrara no ar. Quis o destino que o locutor mudasse de rádio e de cidade. Ele foi trabalhar na rádio Educadora de Porteirinha onde pretendia reproduzir o sucesso que obtivera em Espinosa. Já no primeiro dia ele começou do mesmo jeito o programa. "Tô chegando aqui na Educadora, em Espinosa 10 horas"- o locutor vacilou por um instante e arrematou: "E em Porteirinha também".
# O locutor era fã incondicional dos Beatles e repetiu essa gafe durante grande parte de sua carreira. Sempre que era possível programar um flashback na programação da rádio ele dava um jeito de colocar uma música do famoso quarteto de Liverpool e sempre caprichava no anúncio: "E agora você confere mais uma música da melhor banda de todos os tempos. Com vocês os The Beatles", e depois tocava a música.
# A velha concepção de que apenas uma voz grave basta para o sujeito se tornar locutor de rádio em detrimento, por exemplo, da formação intelectual, é responsável por momentos muito curiosos. E quando o comunicador tropeça na língua portuguesa o tombo geralmente é feio. Tem o caso daquele locutor que estava contagiado pela euforia do companheiro lá do departamento comercial, que acabara de receber a notícia que era tio pela primeira vez. Para comemorar o fato o locutor mandou um abraço para o amigo no ar: "Abraço pro Odair, todo contente, tá que não se agüenta... tá em polvoroso porque é titio pela primeira vez...".
# O locutor estava dando conselhos para as consumidoras na hora de fazer compras. Para ele era preciso sempre pesquisar antes de comprar. Então veio o conselho: "Pois é dona de casa não compre quando o preço estiver irrisório. Pesquise antes, preço irrisório jamais".
# O departamento de jornalismo de grande parte das rádios do interior se limita a um profissional altamente gabaritado, o operador de tesoura. Também conhecido por Gilette Press esta prática consiste em recortar as notícias impressas em jornais e levá-las para o locutor ler. Isso explica a razão de uma notícia como essa ter sido escolhida para o noticiário daquela rádio. O texto falava de uma tempestade de neve nos Estados Unidos que acontecera no estado de Ohio. O problema é que o locutor leu o nome do estado aportuguesando-o. O resultado foi muito curioso: "E atenção, uma nevasca repentina atingiu o ôio. Várias casas foram destruídas e pelo menos uma pessoa se feriu gravemente". E como se não bastasse esse disparate o locutor concluiu: "Essa pessoa deve ter ficado cega, eu presumo".
# Era a estréia do locutor em uma rádio de Janaúba. Ele avisara a família e os amigos que iria começar na rádio e todos ficaram esperando para ouvi-lo. Sabendo da expectativa de todos ele resolveu que a primeira música que anunciaria na rádio seria em inglês, porquê assim era muito mais chique e causaria mais impressão. O grande hit daquele ano era a música By my side, da banda australiana INXS, que deve ser lido desta forma: "In Excess", ou em bom português "Em excesso". Pois bem talvez tenha sido o excesso de nervosismo que tenha produzido esta pérola. Depois de memorizar a pronúncia da música em voz alta dizendo: "Bai mai saide, bai mai saide", o locutor estréia no rádio: "Olá gente, bom dia, a partir de hoje estarei sempre aqui na rádio e é bom contar com seu carinho. Para começar o programa tem a música By my side, Inquis".
# Um anúncio de açougue em Mirabela primou-se pela multiplicação da carne. O locutor falava sobre uma casa de carnes na cidade onde havia muitas variedades: "E no açougue do Gordo você encontra carne de boi, carne suína, carne bovina e carne de porco com os melhores preços da cidade".
# Em Mirabela também tinha um locutor que sempre começava os seus programas numa rádio comunitária com a seguinte frase de impacto: "Em Mirabela 11 horas da manhã, então bom dia Mirabela. Em Tóquio, Japão, 23 horas, então boa noite Japão". Vale lembrar que a emissora podia ser sintonizada em um raio de aproximadamente 5 quilômetros.
# O locutor possuía o vício de sempre terminar os seus programas da mesma maneira, dizendo com animação: "E taí a minha saidera". Mas um certo dia ele estava começando o programa e em um ato falho disparou que aquela seria sua saidera. Então com a maior seriedade ele corrigiu: "Quer dizer, a minha começadera...".
# Tem aquela do locutor de um programa vespertino. Naquele instante ele fazia a tradicional "nota de falecimento" quando anunciava que o sepultamento aconteceria as 7 horas da manhã. Então ele percebeu que deveria ter lido a nota há pelo menos uma hora atrás, pois já eram 7:05. Então ele tentou consertar a gafe e saiu com essa: "Se você correr ainda pega o defunto na igreja!".
# Tem um outro locutor que adotou durante sua carreira um chavão que ele sempre usa para pontuar suas frases: "Que beleza!". É sempre assim, na hora de passar uma música, por exemplo, ele diz: "Taí a música do Roberto Carlos, detalhes. Que beleza!". Certa vez ele foi ler uma nota de falecimento e imprimiu toda a seriedade na voz: "A família enlutada de José da Silva anuncia com pesar o seu falecimento. O enterro será hoje às 14 horas, saindo o féretro da sua residência para o cemitério local. A família antecipa os agradecimentos". E concluiu: "Que beleza".
# O locutor estava anunciando as músicas sempre do mesmo jeito: "E taí a música de Marisinha Monte", depois dizia "Marininha Lima". Então o diretor da rádio chamou-o na sua sala e disse que ele não poderia ter essas intimidades com os artistas e pediu para ele parar de falar o nome dos artistas no diminutivo. Depois da "colada" o locutor voltou para o estúdio e logo na próxima música disparou todo sério: "E agora a música Aquarela, Toco".
# O locutor apresentava um programa bem popular na rádio e se vangloriava da fama de "telefone do povo" que o programa ganhara graças aos recadinhos que eram dados ao longo da atração vespertina. Naquela manhã o locutor não conferiu um dos recadinhos que chegou em cima da hora. Uma ouvinte havia ido até a cidade onde pretendia vender o cavalo que pertencia ao seu marido. Uma parte do pagamento já tinha sido efetuada. O locutor, atendendo solicitamente a ouvinte, leu com toda convicção o bilhete: "E atenção José da Silva na fazenda Mato Escuro com relação ao negócio do cavalo sua esposa Maria avisa que só entrou a metade. Amanhã entra o resto".
# Presenciamos uma troca de microfones onde dois locutores faziam comentários à respeito daquele feriado em que os dois estavam trabalhando.
O primeiro locutor disse: - E aí Sérgio, que feriadão bacana heim?.
E o outro: - Legal heim Reinaldo e pensar que foi graças ao nosso D. Pedro que pudemos ter um feriado desses.
O primeiro: - Pode crer, pois é, Independência ou morte na cabeça.
O outro: - É, o cara mandou bem demais.
Depois deste colóquio altamente cultural vem a revelação: o feriado que se comemorava naquele dia era o da proclamação da república e não o da independência.
Música do dia: By my side- INXS
Filme do dia: Talk Radio
Citação do dia: "Legal mesmo é jogar no México. Lá a gente recebe semanalmente, a cada quinze dias..."- Ferreira, ex-ponta esquerda do Santos, ao ser entrevistado pela Rádio Tribuna.
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Comente aqui: Quarta-feira, Fevereiro 08, 2012 Os dizeres da Mercearia Guimarães
O dístico na parede da mercearia dizia: “A vingança é um prato que se come frio”. Não se sabia para quem era o recado que Moacir, o dono da venda, mandara gravar em letras de forma nas paredes de adobe pintadas de verde. Mas o fato é que o recado foi comentado durante muitas semanas no pequeno povoado. Muitos diziam que se referia a algum infeliz que o vendeiro mandara para a cidade dos pés juntos nas vezes em que ele viajava para fazer compras na capital. Outros acreditavam que era em razão de um ex-sócio do negócio ter sofrido um derrame em outra cidade para a qual se mudara.
Mas o fato é que a frase estava lá, estampada na mercearia, logo embaixo das letras garrafais que anunciavam “Mercearia Guimarães”. Ninguém ousou perguntar ao comerciante o significado da frase, e com o passar do tempo ela foi esquecida.
No outro ano o vendeiro trocou a frase por outra, ainda mais misteriosa: “Seus cabelos são para mim puro apelo”. Pronto, agora seria impossível não perguntar ao comerciante o que aquilo queria dizer. E coube a uma senhora distinta do distrito, de nome Lia, fiel freguesa de Moacir, a iniciativa. Ela, na juventude, teve um caso com o comerciante, mas a timidez de ambos os tornou meros conhecidos. Ela enviuvara no último ano, mas não perdera certo encanto mesmo beirando as cinco décadas de vida.
Lia disse:
- Me dá dois quilos de feijão, e o que esta frase na parede significa, Moacir?, e dois pacotes de macarrão.
O comerciante respondeu, de esguelha:
- O feijão pode ser o carioquinha, a frase só faz sentido para quem ela é dirigida, e o macarrão bom acabou, agora só tem esse quebradinho.
A dona de casa se enfezou e deixou as compras para trás. Mas logo ela tratou de espalhar nos grupos de oração da igreja, nas reuniões da melhor idade e na feira popular que as mensagens eram direcionadas para alguém do distrito. Burburinho geral. Quem seria a tal pessoa, com cabelos esvoaçantes, que estaria chamando a atenção do solteirão Moacir, que já passara dos cinquenta e ainda não arrumara um bom partido?
Não demorou e o dístico foi trocado. As frases maiores deram lugar a um insignificante: “Sim, eu a aceito”. O movimento na mercearia, que já tinha aumentado graças à tentativa de alguém em descobrir algum detalhe daquela história, agora levara o comerciante a ter que contratar um novo ajudante. A venda ficou cheia, com a presença de algumas solteironas que nunca saíam de casa e outras pessoas da comunidade que queriam saber o significado da frase. Mas o vendeiro fechava a cara caso alguém o perguntasse para quem eram dirigidas as mensagens. Depois de alguns meses uma nova, e definitiva frase, pôs fim aos dísticos de Jatobá: “Valeu enquanto durou”.
Ninguém nunca soube o que ocorreu naqueles meses, e para quem eram as frases. O fato é que hoje poucas pessoas da época ainda estão vivas e a mercearia de Moacir, que já partiu desta para uma melhor, está em ruínas. Se alguém se desse ao trabalho de esmiuçar os escombros certamente se surpreenderia com algumas cadernetas antigas do comerciante. Nelas ele anotava o fiado e também a encomenda, nunca cumprida, de uma nova frase ao pintor de paredes:
“Lia, é pra você que eu sempre dirigi minhas mensagens”.
Você tem que: Conhecer esta frase sobre jornalistas, mas sem levá-la a sério: "Primeiro, apure os fatos. Depois, pode distorcê-los à vontade"- Mark Twain, escritor americano.
E outra. Esta sim, para refletir:"O jornalismo consiste basicamente em dizer 'Lord Jones morreu' para pessoas que nunca souberam que Lord Jones estava vivo"- Gilbert Keith Chesterton, escritor inglês
Abra aspas novamente:
Ver os filmes de Cronemberg: Comece, obviamente, pela “A mosca”. Clássico!
Ouvir e baixar esta novidade: Depois de tentar alguns formatos para meu podcast acredito que tenha encontrado. Aqui tem um pouco de tudo: Rock, MPB, Pop, um dedo de prosa e até mesmo reflexões jornalísticas. Não necessariamente nesta ordem. Pode baixar e me diz o que achou.
Comente aqui: Sábado, Janeiro 28, 2012 Eufrásio e suas fases
Durante breves minutos Eufrásio sentiu que vivera uma epifania. Foi esta a primeira reação dele diante da boa ideia surgida no dia em que mudava de idade. Acabara de completar quarenta anos e nunca fizera grandes feitos na vida. Mas encontrara na coincidência dos números uma chance real de se tornar tudo que desejara. Imediatamente se lembrou de uma frase que lera em algum lugar: “Quem não é belo aos vinte, forte aos trinta, rico aos quarenta e sábio aos cinqüenta nunca será nem belo, nem forte, nem rico e nem sábio”. Era hora de mudar aquilo.
O primeiro passo era cuidar da aparência e bastou que o dia primeiro de janeiro de 2001 surgisse para ele procurar uma dermatologista. Mudou também o corte de cabelo e tirou o espesso bigode que cultivara durante vinte anos. Decidiu também que iria tocar violão. E ele teria até a próxima data redonda para ser como Yamandú Costa ou João Bosco.
Em dois de fevereiro de 2002 ele realmente aprendera a tocar violão, mas nos três acordes só cabiam roquinhos pueris e baladas sertanejas. Mas já era um bom começo. Agora ele tinha planos ainda mais ambiciosos. Se submeteria a uma lipoaspiração. Tinha um ano inteiro para juntar o dinheiro. Ao mesmo tempo resolveu nadar. Procurou uma academia próxima de sua casa e se dedicou febrilmente às braçadas.
Em três de março de 2003 ele fez a cirurgia. Foi particular e com um médico renomado, destes que aparecem em colunas sociais. Era o aluno mais aplicado da natação e não perdera uma só aula desde que descobrira sua vocação para peixe. As mudanças foram visíveis. Ele rejuvenesceu pelo menos dez anos e, se não ficou bonito, pelo menos deixou de ser o mais asqueroso dos homens. Os olhares femininos, que tantas vezes lhe foram negados, agora surgiam, aqui e acolá. Para a próxima data redonda era hora de novos desafios. Decidira malhar forte e tornear os músculos, que surgiram em meio à massa adiposa chupada na cirurgia. Outro desafio era aprender a jogar xadrez.
Em quatro de abril de 2004, ele se tornara um bom enxadrista e suava três horas todos os dias na academia. Já conseguia tocar músicas mais complexas ao violão e estava se engraçando com uma mulher um pouco mais jovem, que conhecera na natação. Ela era divorciada e os dois trocavam longos olhares, mas Eufrásio era incapaz de abordá-la. Depois de alguns meses, Soraia, era este o nome dela, parou de ir à academia. Dizem que se casou e foi morar em Santos. Era preciso fazer algo para evitar situações como aquela. E o novo desafio era se tornar mais dinâmico, decidido, focado. Procurou um coaching e decidiu, já na primeira aula, que assumiria permanentemente o arquétipo do tubarão. E foi a luta.
Em cinco de maio de 2005, Eufrásio dominava bem a arte da conquista. Conseguira levar para a cama umas três mulheres. Número equivalente a toda a quantidade antes de conhecer o coach Aderbal, que passou a ser um amigo. Nas sessões, surgiu um desejo, tornar-se dono de um negócio. Ele se cansara do trabalho burocrático da repartição e agora decidira que queria ficar rico, custasse o que custasse. E teria um ano inteiro para concretizar este novo plano.
Em seis de junho de 2006, Eufrásio já era dono de uma sorveteria especializada em sabores do Nordeste. Frutas como cupuaçu, cagaita e amora podiam ser encontradas na forma de um sorvete apetitoso, que logo conquistou a freguesia em um shopping. A ideia foi tão boa que Eufrásio resolveu abrir uma filial. Sua vida estava de vento em popa, mas havia um vazio nunca preenchido. Ele se lembrou de Maristela, a primeira namorada, e decidiu que iria procurá-la. Embora não soubesse de seu paradeiro há pelo menos vinte anos.
Em sete de julho de 2007, Eufrásio voltou à pequena cidade do interior de Minas, onde nascera. E em Virgem da Lapa encontrou Maristela. Para sua surpresa, ela nunca se casara, trabalhava na agência da EMATER da cidade e ainda era bela, embora os vincos nos cantos dos olhos mostrassem que já passara dos quarenta. Ela ficou surpresa com a aparição repentina, mas deixou-se cortejar. E ele a levou consigo para Belo Horizonte.
Oito de agosto de 2008: Eufrásio e Maristela se casaram no civil. Ele não tinha religião e ela era da Igreja Universal do Reino de Deus. Mesmo com as diferenças viviam bem, e os negócios prosperavam. O casal já tinha cinco sorveterias na capital. E mesmo sem tempo para a natação ou a musculação, Eufrásio fazia serenatas para a esposa com baladas de Tim Maia e Caetano Veloso. Mas ainda faltava um último item na frase que o motivara a mudar de vida. Tornar-se sábio. E talvez este fosse o mais complexo.
Ele era formado em Contabilidade, mas seu grande sonho era estudar Administração. Se entrasse na faculdade ainda naquele semestre se formaria antes de doze de dezembro de 2012 quando se encerraria seu ciclo de mudanças cronológicas. E assim fez. Procurou uma faculdade particular e mesmo com um mês de atraso começou a freqüentar as aulas. Ele também decidiu que iria ler todos os pensadores, desde os clássicos como Sócrates e Platão até os do século XX como Camus e Sartre.
Em nove de novembro de 2009 nasceu o filho do casal. Uma incrível coincidência que deu a Eufrásio a certeza que sua vida era mesmo abençoada. Por Deus? Decidiu que sim. E se tornou espírita. Passou a seguir os preceitos de Allan Kardec. Dentro de casa as diferenças ficaram ainda mais abissais, mas o sorriso de Marco Túlio punha panos quentes na disputa ideológica, e os dois viviam bem, em uma confortável casa no Belvedere. A faculdade ia bem e Eufrásio conseguia travar diálogos profundos com professores do curso de Filosofia que encontrava pelos corredores da faculdade.
Em 2010 Eufrásio completaria cinquenta anos. A frase dizia que ele deveria ter a sapiência nesta fase da vida. Com muita disciplina ele conquistara todas as demais, pelo menos era este o seu entendimento, e agora se preparava para o maior desafio. Escreveria um livro até a próxima data redonda e teria seu nome escrito para sempre no cânone da literatura brasileira. Procurou ajuda. Deixou os negócios a cargo da esposa, que tinha a difícil missão de administrar uma fábrica de sorvetes e mais treze sorveterias espalhadas pela Grande BH. Diante da incapacidade criativa, Eufrásio, sem que ninguém soubesse, contratou um ghost-writer. E o escritor fantasma, um renomado ficcionista da capital, topou escrever o livro por cem mil reais. Preço suficiente para comprar o talento e o silêncio de alguém.
Em dez de dezembro de 2010, Eufrásio Jardim debutava na Literatura com uma noite de autógrafos na Fnac do BH Shopping. Críticas positivas na imprensa belo horizontina e o convite para participar de feiras literárias e saraus de faculdade. Foi chamado de sábio pela primeira vez por uma leitora. Para o próximo ano não tinha ambições.
E quando surgiu a manhã de onze de novembro de 2011, Maristela encontrou o marido morto na cama. Em seu semblante calmo, que não se crispou diante do infarto fulminante, estava nitidamente os predicados que sempre procurou. Fora belo aos vinte, forte aos trinta, rico aos quarenta e sábio aos cinqüenta, de acordo com seu próprio entendimento.
Mas agora não passava de um cadáver.
Você tem que: Se ainda não sabe, saber: Ler: Estorvo, de Chico Buarque. O autor consegue enredar o leitor em digressões muito bem construídas
Comente aqui: Segunda-feira, Janeiro 23, 2012 Porteirinha sempre viva
Está na minha carteira de identidade: nasci em Porteirinha. E foi pelas mãos do doutor Noel Sanábria Vilazon numa tarde de setembro, no final da década de setenta do século passado. Na época, Serranópolis, onde meus pais moravam, era distrito de Porteirinha. Assim como Pai Pedro e Nova Porteirinha. Esta situação só mudou na década de noventa, quando o distrito ascendeu à condição de cidade, e os outros também. Neste dia deixei de ser porteirinhense? Nada disso. Continuo sendo. Assim como sou serranopolitano, onde vivi minha infância farta e feliz, e montesclarense, onde fiz família e, curiosamente ingressei em um trabalho que me permite estar praticamente todos os dias em Porteirinha e em Serranópolis, e em mais de cento e quarenta cidades, mesmo que apenas como uma etérea imagem na TV.
Porteirinha teve um papel muito importante em minha vida. Foi na cidade, conhecida nos prósperos anos oitenta como a “capital mineira do algodão”, que estudei o segundo grau, na Escola Técnica de Comércio. Nunca pensei em ser contador, apresso-me a dizer, mas à época, esta era uma das melhores escolas e posso dizer que tive bons ensinamentos e fiz ótimas amizades por lá, imunes a ação do tempo e a ferrugem da distância. Fay, Darley, Genilma, Flavinha, Fernanda, Geraldão, Dailson e Evandro são alguns deles. E tem outros dois com nomes absolutamente originais como a própria amizade que temos: Aneures e Castelhianny. A turma do “bezão” de 1995 certamente deixou saudade.
E teve ainda o início da minha carreira na Independente FM que, na época, era de propriedade do saudoso doutor Binha, meu primeiro patrão, quando eu tinha apenas dezesseis anos. E como esta fase foi decisiva para mim. Foi quando decidi, a princípio de maneira involuntária, que faria da comunicação algo perene em minha vida. E o início foi em Porteirinha. Na rádio tive a sorte de trabalhar com Rey Venturine, Serginho Moreira, Ana Paula, Ivan, Jane Cardoso, Manolo, Zezé Neto, Tom Mendes, João Cláudio, Djalma, Judson Porto e outros tantos.
Neste veículo de comunicação cheguei a duas das maiores emissoras de Montes Claros, a 98 FM e a Itatiaia, e atribuo isso a excelente escola da Quintino Bocaiúva, onde a emissora porteirinhense funcionava.
No inventário de minhas reminiscências afetivas, Porteirinha é prenúncio de aventura, graças aos banhos nas águas frias do Serrado. É ainda a melhor comida que um viajante pode encontrar no norte de Minas, ao passar pelo Mercado Municipal. Porteirinha são as pessoas hospitaleiras, sempre com um café quentinho, quitandas variadas e um papo acolhedor. São as ruas com cheiro de Dama da Noite. É a Cidade Alta, onde os moradores têm a urbe aos seus pés. É a tradicional Festa de Serra Branca, autêntica e única na região. É o rio Mosquito, que mesmo com a pequenez que seu nome sugere, sacia a sede com sua água fresca captada diretamente da Serra do Talhado. E, por fim, é o Cristo, no ponto mais alto, vigiando a todos solenemente.
Ser porteirinhense, em resumo, é uma condição que distingue e enobrece. Mesmo que a vida nos leve cada vez mais longe, sempre haverá este refúgio. Que certamente é geográfico, mas acima de tudo afetuoso.
Antes de escrever este texto fiz questão de ouvir a linda música “Porteirinha” de meu amigo Wanderdaick. E nada melhor, ao homenagear uma cidade tão querida, no dia em que ela faz aniversário, do que lançar mão da poesia: “Roda viva, passa história. A beleza é sempre glória, Porteirinha sempre viva, jamais sairá da memória”.
Filme do dia: Cinzas no paraíso- Este filme foi rodado nas chamadas "horas mágicas", que é exatamente o período antes de amanhecer e antes de entardecer. A intenção do incrível diretor Terrence Mallick ao optar por rodar nestes horários era conseguir um céu claro e sem sinal do sol. O resultado, do ponto de vista cinematográfico, é emocionante.
Frase do dia:
Foto do dia: Uns vinte e cinco quilos mais magro e com muito mais cabelo, em Porteirinha no início de minha carreira
Comente aqui: Domingo, Janeiro 15, 2012 Uma noite mágica
Na igreja de Santo Antônio de Inimutaba tecidos escuros e ramos colocados sobre o altar recriavam perfeitamente a manjedoura onde o menino Jesus nasceu. Um presépio gigante. Na assembleia, moradores da pequena cidade da região central de Minas aguardavam o início da peça que seria encenada naquela noite natalina. Enquanto reinava a tranquilidade no templo católico, com os fieis ainda refletindo acerca das palavras da homilia, o vai e vêm na sacristia, transformada em coxia por uma noite, era grande. A encenação teria música, folia de reis, dança coreografada e diálogos travados por crianças especialmente ensaiadas pela diretora Dicilda Trindade, a idealizadora de tudo.
E Didi, como muitos a conhecem, não parava um só instante. Nada passava despercebido por ela. Nem o figurino das dançarinas e tampouco a ordem de entrada dos esquetes que contariam fatos bíblicos misturados com mensagens de solidariedade e esperança.
Antes da encenação, ex-alunas da professora Dicilda entraram na igreja junto com a mestra. Quando começaram a dançar jazz muitas delas eram as mais encantadoras menininhas da cidade, e hoje, passados mais de vinte anos, continuam certamente encantadoras, só que a maioria como respeitáveis mães de família.
Imune ao tempo, que cobre de novas camadas de tinta o templo, substitui párocos e vinca os rostos dos fieis, tem Dicilda que, como por encanto, mantém-se com a mesma silhueta mostrada nas fotos de antigamente. O mesmo sorriso, a mesma fé inquebrantável no ofício da arte e o mesmo jeito jovial.
E no emocionado cortejo das pupilas tinha minha esposa que, além de sobrinha, foi sempre uma das mais aplicadas aprendizes da professora. E Camila, a exemplo de muitas de suas amigas, também se tornou mãe recentemente. Gabriel é a perfeita materialização de todos os nossos planos. E foi assim, em família, e com papeis importantes delegados pela diretora, que fomos passar a noite de espetáculo em Inimutaba. Camila foi convidada para ser Maria, a mãe do Salvador. E Gabriel, com apenas nove meses e olhos curiosos, foi chamado para representar, em sua pureza de bebê, Jesus, que estava próximo de renascer em mais um Natal.
Antes da entrada dos dois, o nosso Cristinho estava indócil. Ele passara o dia todo febril, acabrunhado, com uma tossinha que ia e vinha. E a apresentação demorou nos entretantos para, enfim, chegar aos finalmentes. Tínhamos medo que ele chorasse, fizesse birra, coisas de neném e não fosse o Menino-Santo que todos esperavam. Fiz de tudo para confortá-lo, enquanto a mãe se preparava junto com os demais atores. Mas ele queria mesmo o conforto do ventre materno, como de certo Jesus fez junto da doce Maria na distante noite do Oriente Médio em que tudo começou. Não os culpo. Mãe é mãe, sempre. E não há nada como colo materno.
Quando enfim chegou a hora de entrar na igreja, nosso filho estava choroso. Eu, que não tinha papel nenhum, nutria o pressentimento que ele iria ficar espantado com o espocar dos flashs das máquinas fotográficos, com o barulho das palmas, com o frio que circulava pela nave sacra apinhada de cristãos.
Acompanhados de um São José nascido em Inimutaba e não em Belém da Judeia, os três avançaram pelo corredor da igreja. E Gabriel, nos braços da mãe, foi enrolado numa manta de seda. Eu percebi que Camila pensara em deixá-lo assim, deitado, enquanto durasse a pequena procissão. Mas as perninhas começaram a se mover freneticamente no colo dela e não teve como segurar. Gabriel se desvencilhou do tecido e ficou sentadinho no colo da mãe no meio da igreja, como se tivesse ensaiado exaustivamente aquele momento, e fitou a todos com o olhar penetrante, sorridente que só. Um reizinho. No mesmo instante a assembléia, em uníssono, repetiu um “ohhh”, de admiração. Não precisa dizer que eu, ao lado de Camila, era o mais orgulhoso dos presentes ali, naquela mágica noite de Natal.
Ah, não posso deixar de mencionar que, no afã de entrar no santuário, uma Nossa Senhora um tanto nervosa não conseguiu colocar a fraldinha de pano no “recém nascido” e Gabriel pisou, pela primeira vez, na ribalta com uma de plástico mesmo, descartável, da “Turma da Mônica”. Diante da beleza do momento, eternizada por diversas fotografias, esta foi apenas uma licença poética. Algo para nos lembrar de nossa finitude e de nossa condição humana. Mas, através da arte sincera de Dicilda Trindade e dos olhos de nosso Gabriel, podemos crer que, em alguns momentos, rodeados por arcanjos distraídos, tocamos, ainda que delicadamente, nas bordas da Divindade.
Você tem que: Ver o momento que cito nesta crônica: A entrada triunfal
A chegada dos três Reis Magos
Saindo do personagem
Ouvir: O disco de músicas natalinas do cantor Michael Bublé. Coisa fina.
Ver este clássico da Sétima Arte: Crepúsculo dos deuses
Conhecer esta frase luminosa: "O falador diz tudo o que sabe. O desajuizado diz apenas o que não sabe. Os jovens, o que eles fazem. Os velhos, o que eles fizeram. E os tolos, o que pretendem fazer"- Pernard
Cada vez mais me encanto com Oscar Wilde. A leitura de "O retrato de Dorian Gray" nos mostra como a literatura tem o dever de ser esmerada e pode, aparentemente sem esforço, beirar as raias da perfeição. Na falta de uma metáfora melhor eu diria que Wilde fez um trabalho de ourives quando escreveu essa obra, na medida em que cada frase está absolutamente no lugar e cada trecho tem um significado próprio, e uma luz própria.
Veja você que quando comecei a ler, caí na imensa bobagem de sublinhar alguns trechos que ia achando geniais. Foi quando percebi que em cada parágrafo tinha uma frase assim, um achado, um assombro, que me fascina. Então fui percebendo que todo o livro estava sendo destacado, sem nenhuma página que fosse ficando imune ao talento do escritor dublinense.
Uma frase sobre poetas me fez refletir por longos minutos, me levando, inclusive, a suspender por alguns instantes a leitura: "Os bons artistas existem simplesmente no que fazem; eis por que, em pessoa, são tão desinteressantes. Um grande poeta, o verdadeiro grande poeta, é o menos poético dos indivíduos. Mas os poetas medíocres são encantadores. Quanto piores os versos, tanto mais pitoresco é o poeta. Ele vive a poesia que não soube escrever. Os outros escrevem a poesia que não conseguem concretizar".
Essa frase carrega uma carga de significados tão profundos que já a elegi uma de minhas preferidas na literatura wildeana. E não tem como não associar a frase a dois de nossos maiores poetas: Quintana e Drummond, ambos despidos de qualquer vaidade aparente.
Enveredei-me pela obra de Wilde, porque gostaria muito de poder comentar algo assim, digamos, em uma mesa de boteco, diante de uma generosa porção de carne de sol com pequi. Mas diante da impossibilidade de se encontrar bons interlocutores que ainda se dediquem ao chamado “papo cabeça”, termo um tanto presunçoso, mas absolutamente insubstituível, traço estas linhas digitais esperançoso que alguns entendam minha situação.
Portanto, lanço uma campanha neste blog. Precisamos urgentemente de mais gente que saiba transformar uma simples conversa de bar num agradável passatempo, gente que explane sobre música, literatura, que saiba dados importantes e aquelas bobagens deliciosas do cinema, que saiba pelo menos três poesias de cor, que saiba contar piadas, que saiba a última novidade da ciência ou que comente, acrescentando uma idéia original, ao que viram nos telejornais.
Gente sem máscara, sem receio de falar alto, de ficar no bar até os garçons começarem a virar as cadeiras de ponta cabeça, com a gente já se sentindo assim também. Gente que veja a lua com um suspiro e lembranças de não sei exatamente o quê. Gente que goste de futebol, mas que não fale somente de futebol. Gente que assista TV, mas que não se contenta apenas com novelas e BBB. E por fim, está faltando gente que ouça Chico Buarque ou Led Zeppelin, que assista aos clássicos de Hitchcock ou aos deliciosos filmes de Tarantino e, principalmente, que leia Oscar Wilde.
Filme do dia: O Marido Ideal- Peça de Wilde transportada para o cinema, com Julianne Moore, Cate Blanchett e Rupert Everett.
Citações do dia: "A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre"- Oscar Wilde
"Deus deve amar os homens medíocres. Fez vários deles"- Abraham Lincoln
Livro do dia: O Fantasma de Canterville- Outra jóia de Wilde
A obra de Wilde já foi representada diversas vezes no cinema. Tem uma versão nova para "Dorian Gray" que, embora não seja uma obra prima, garante a surpresa do final
Comente aqui: Sábado, Dezembro 10, 2011 Divina Comédia Humana
A Inter TV, através da Associação de Colaboradores, da qual eu, e os demais funcionários, fazemos parte, organiza pelo segundo ano consecutivo a campanha: “Natal feliz, criança feliz”, que tem a nobre intenção de angariar presentes junto aos mais afortunados e dividi-los entre as crianças carentes de Montes Claros, e de outras cidades. No ano passado foram quase cinco mil brinquedos e muitos sorrisos escancarados, de encantamento e magia. As meninas e suas bonecas, e os garotos, na febre de serem novos Neymares e Messis, com suas inseparáveis bolas. E ainda carrinhos, jogos de tabuleiro e muitos outros mimos entregues por um Papai Noel um tanto magro, mas de um coração gigantesco.
Tive a honra de fazer a entrevista ao vivo na TV com os organizadores e apoiadores no lançamento da campanha deste ano. E uma situação chamou minha atenção. O Arcebispo de Montes Claros, Dom José Alberto Moura, e o pastor da Igreja Batista, Allan Jefferson Taques ficaram lado a lado e falaram sobre o envolvimento de seus rebanhos na mobilização que se iniciara ali, com a presença da banda do décimo batalhão da PM, que atacou de “Noite Feliz” e “Jingle Bells” durante o bate papo no MGTV. Até aí tudo absolutamente normal.
O curioso é que, para tornar o ambiente ainda mais acolhedor, Dom José contou a seguinte piada: Uma professora pediu ao Joãozinho que conjugasse o verbo andar no presente. O menino lentamente começou: “Eu ando, tu andas, ele anda”. A professora ficou incomodada com a demora e sugeriu: “Vai mais depressa menino!”. Joãozinho então não teve dúvida: “Nós corremos, vós correis...”.
A anedota arrancou sorrisos de todos. Então, sem pestanejar, foi a vez de o pastor Jefferson contar a sua: O Joãozinho carregava duas moedas de um real. Uma era para comprar sorvete e a outra para fazer uma doação à igreja. No caminho o garotinho se distraiu e uma das moedas caiu em um bueiro. Ele não teve dúvida e exclamou: “Que pena, caiu justamente a moeda que eu ia levar para a igreja!”. Mais risadas. E Dom José partiu para a tréplica. Ele citou uma conversa entre duas mulheres. A primeira exibia um enorme brilhante no dedo. A segunda então perguntou: “É diamante?”. E a outra respondeu: “Não, foi meu marido que me deu”.
Mais uma vez todos explodiram em risadas. O pastor não contou uma nova piada, mas os dois líderes religiosos mostraram uma faceta que muitos, eventualmente, desconhecem, mas que, certamente, representa algo de bom no caráter de cada um: o senso de humor. E ele, neste caso, se revelou através destas piadas ingênuas. Aí foi minha vez de contar uma, embora eu seja um péssimo contador de anedotas: Um homem, morador de Curvelo, perdeu a carteira contendo todo o ordenado em frente à igreja do padroeiro da cidade. Ele ficou desesperado, mas recorreu ao santo: “Me ajuda São Geraldo. Se eu encontrar minha carteira doarei metade de meu salário para a paróquia”. Ele mal completou a frase e avistou a carteira há uns cinco metros dele. O homem, gaiato que só, comentou: “Uai, mas não se pode nem brincar com São Geraldo!”.
E o milagre se fez: todos riram da minha piada.
É, e depois desta crônica, só me resta convidar os leitores para colaborarem na campanha de Natal da TV doando brinquedos, ou ainda adotarem as cartinhas dos Correios, ou fazerem qualquer outra boa ação para lembrar este espírito único e cativante que é o nascimento do Salvador. E fica também o desejo de que todos tenham um Natal cheio de presentes e, principalmente, com muitas risadas.
Video do dia: Neste Natal ganhei um presente especial. Tive a honra de apresentar o MGTV.
Comente aqui: Terça-feira, Novembro 01, 2011 “Incaível” coisíssima nenhuma!
A derrocada do futebol mineiro neste ano produziu um neologismo que representa muito bem o estado de espírito da torcida de um dos chamados gigantes do futebol das alterosas, a do Cruzeiro. Agora se espalha por aí, nas esquinas de concreto das cidades e nas encruzilhadas virtuais, que o Cruzeiro, mediante suas páginas heróicas e imortais, seria “incaível”. Que não amargará, em hipótese alguma, a suprema humilhação de disputar a temida Série B do Brasileirão.
Estes mesmos torcedores apegam-se ao formidável time de 2003, as duas Libertadores da América conquistadas com brio, aos dois Campeonatos Brasileiros e a uma série de Copas do Brasil para falar que o “gigante adormecido regressará a vida” quando as últimas rodadas chegarem. E se tudo falhar, dizem, ainda restará malas brancas polpudas para encorajar adversários. E que no fim, claro, o Cruzeiro, a exemplo de Internacional, Flamengo e mais um ou dois baluartes do futebol imortal, jamais respirará o ar carregado da série de acesso, onde Salgueiro de Pernambuco e Duque de Caxias do Rio de Janeiro são alguns dos postulantes neste ano, que catapultou a esforçada Portuguesa de volta ao Éden.
Mais esperta é a torcida do Atlético. Cerzido no fio da paixão e da decepção, o coração atleticano é muito mais resistente que o celeste. O time a quem dedicam suas vidas, - e isso não é tão somente mera força de expressão-, capenga quase todos os anos e mantém a muito custo o título de grande do futebol brasileiro.
Mesmo assim o atleticano não perde a esperança. Roberto Drummond dizia que se houvesse uma camisa do Galo tremulando no varal os alvinegros torceriam contra o vento. E isso também não é apenas uma metáfora. É uma constatação. O atleticano encara a situação com os olhos acostumados às duras privações, ao escárnio e a gozação eterna dos rivais cruzeirenses. Mas são, antes de tudo, otimistas. A Série B provavelmente não virá novamente para o time que, escaldado, lutará até o fim, pois a torcida leva a ruindade dos pernas-de-pau nas costas e toma para si a responsabilidade.
Já a torcida do Cruzeiro não consegue entender o que os dirigentes fizeram com o time que, até poucos meses atrás, chegou a ser apontado, vejam só que piada!, como o Barcelona da América do Sul. Elenco milionário, o melhor goleiro e o melhor armador do país, mesmo sendo argentino, e a melhor estrutura. Os salários, altíssimos, em dia. E uma infindável cantilena de razões que dão a máxima certeza: o Cruzeiro é, certamente, incaível.
Não consigo nem imaginar o tamanho da decepção que pode recair sobre a metade celeste do estado de Minas, onde a China Azul, assustada, aguarda o desfecho do campeonato mais aterrorizante de todos os tempos. Isso poucos admitem, pois ainda não é possível conceber um Cruzeiro humilhado, destroçado, como um mero clube de segunda, com elenco condizente com a Série B. Um time B. Não, definitivamente, a segundona não foi feita para a Raposa.
Este texto não é um réquiem para o Cruzeiro e sim um chamado à realidade para que a torcida assuma uma nova postura e a equipe também. Ainda faltam meia dúzia de rodadas. E o segredo para o Cruzeiro não cair é entrar em campo como quem joga por um prato de comida, é enfrentar os adversários com sangue no olho, é acreditar que é possível vencer até vendavais quando se joga com amor e desprendimento.
A esta altura do campeonato não vejo outra forma. Esta é a melhor, senão a única forma, para evitar que as páginas heróicas e imortais sejam manchadas para todo o sempre.
O segredo, acreditem, é jogar e torcer, como atleticano.
Você tem que: Ouvir: O novo disco do Chico Buarque, que nós nos faz lembrar que ele não é somente um grande escritor
Ver: Um filme muito bem feito com o Edward Norton, chamado "O Ilusionista". Serão minutos de diversão e algum suspense
Elaborar uma lista de lacunas não preenchidas na literatura: Compartilho um grande autor que ainda vou ler, Jorge Luis Borges e também Ezra Pound, T.S. Elliot e outros poetas americanos. Pensando bem, uma vida apenas não é suficiente.
Comente aqui: Terça-feira, Setembro 06, 2011 À sombra da burocracia
Rubem Braga é um dos maiores cronistas de todos os tempos. O capixaba, de Cachoeiro do Itapemirim, foi um verdadeiro Midas das letras cotidianas, aquelas que encerram grandes feitos usando como matéria prima o banal, o cotidiano, a vida contemporânea, que explode na esquina numa manhã de sol, por exemplo.
O velho Braga cita em uma de suas milhares de crônicas, um fato ocorrido em uma Câmara de Vereadores. Um suplente, diante da morte do vereador titular, pediu a palavra e sugeriu que os edis o empossassem ali mesmo, depois do luto devotado ao morto, quando a assembléia estava novamente reunida. Mas o presidente da casa legislativa foi enfático. Só daria posse se o suplente apresentasse a certidão de óbito do titular. O interessado tentou argumentar dizendo que era do conhecimento de todos que o vereador titular havia morrido. O presidente insistiu: “Só com a apresentação da certidão de óbito”. O suplente não se deu por vencido: “O corpo do nobre colega foi velado aqui mesmo nesta Câmara. O senhor não lembra?”. “Só com a apresentação da certidão de óbito”, o presidente foi novamente lacônico. Enfurecido, o suplente lançou um último argumento: “Ora bolas, o senhor mesmo foi um dos que conduziram o caixão até o cemitério...”. Mas o presidente da Câmara foi inflexível: “Só com a apresentação da certidão de óbito”.
O fato, descrito elegante e comicamente por Braga, mostra a fixação do brasileiro pela burocracia e um tipo de admiração desmesurada pela papelada, pelos trâmites. O vereador era infenso a mudanças, um ser estático, estatal, oligárquico, pau mandado da inércia, incapaz de pensar e agir por si só.
Apresso-me em dizer que, de certa forma, a postura deste presidente de Câmara é corretíssima, mas ela não consegue abrandar o ranço de um Estado que não facilita pra ninguém. Caia na malha fina do Imposto de Renda e sinta o peso do leão em suas costas pra você ver o que é bom pra tosse. Tente abrir uma pequena empresa e note a quantidade absurda de taxas, reconhecimentos de firmas, e assinaturas em três vias que você terá que fazer. E depois de um eventual fracasso nos negócios, ou uma simples mudança de foco, tente se desfazer da firma criada para você notar o quanto a burocracia pode ser intolerável.
Agora tente ser atendido pelo SUS na hora em que você mais precisa. Ou melhor ainda, tente marcar uma cirurgia eletiva, que, em tese, pode esperar alguns dias e perceba, horrorizado, que ela pode acontecer depois de ano. É tanto papel, visto, perícia, fiador... Alguns bancos, inclusive estatais, negam crédito àqueles que, por ventura, tiverem um histórico pouco confiável, mesmo que suas contas estejam todas regiamente pagas. Agora a brilhante idéia é dar descontos nas taxas de juro a quem pagar em dia. Mas para ser aceito neste rol de notáveis é preciso comprovar um bocado de coisa. Tudo devidamente burocrático, como manda o figurino.
É como se estivéssemos no Castelo de Kafka, enredados em um Processo, sem saber quem somos, do que somos acusados e para onde iremos. O fato é que só chegaremos lá depois de todos os trâmites legais se tudo estiver nos trinques. E se dermos o imenso azar de encontrar uma bala perdida dando sopa por aí ou mesmo se aquela cirurgia eletiva demorar demais e sucumbirmos diante de alguma doença dos trópicos, o que nos aguarda pode ser sombrio. O azar supremo seria perceber que aquele presidente da Câmara, no Além Túmulo, tem um trabalho nos umbrais do paraíso. E, diante de nossa chegada esbaforida por lá, ele nos fuzilaria com seus olhos lívidos e mortiços e nos diria com uma voz de vampiro do cinema dos anos 30: “Aqui só entra com a apresentação da certidão de óbito”.
Comente aqui: Segunda-feira, Junho 20, 2011 Memórias vivas do rádio
Depois de tirar do baú de recordações uma história de meus tempos do rádio, quando comecei a carreira em Porteirinha, me vi diante de um campo fecundo para boas crônicas e pretendo retomá-lo sempre que possível, assim que os fatos pularem das gavetas da memória, onde dormitam. Em 2005 me formei em Jornalismo, e durante o trabalho de conclusão de curso tive a sorte de fazer uma verdadeira imersão no mundo do rádio, tendo as ótimas companhias de Samuel Nunes e Camila Chaves, que eram meus colegas. Nosso texto falou da característica imediata do discurso radiofônico e como isso podia resultar nas impagáveis gafes que anima qualquer conversa de bar, mas que, no calor dos fatos, podem causar constrangimentos diversos.
Lembro-me de termos escrito que o discurso no rádio podia ser exemplificado como um projétil em pleno curso. É impossível detê-lo e, tampouco, mudar sua rota depois do “disparo”. Muito mais que uma simples metáfora, esse exemplo mostrava que a característica do ao vivo, predominantemente presente no rádio, contribui em grande escala, para a ocorrência das chamadas gafes. Lembro-me de termos feito visitas a emissoras de Montes Claros e outras cidades, e de termos conversado com vários comunicadores. Em nossas conclusões, dissemos que o rádio no Brasil atende fundamentalmente as classes C e D, embora todas as classes econômicas e sociais utilizem, de certa forma, este veículo. Mas seria principalmente nas classes menos favorecidas que o veículo encontrava sua verdadeira identidade, uma vez que o alcance do rádio seria maior entre as classes inferiores.
Num arroubo sociológico cravamos que isso explicaria, em parte, a possível despreocupação dos profissionais com a baixa qualidade dos programas veiculados nas emissoras e que a baixa qualificação cultural destes funcionários aliada a defasagem tecnológica seriam fatores determinantes para o surgimento das histórias curiosas do rádio que pesquisamos na época.
Mas nos apressamos em salientar que grande parte das ratas não eram apenas fruto da baixa escolaridade e outros fatores desabonadores. Em alguns casos, mesmo o mais letrado dos comunicadores caiu em uma situação embaraçosa provocada pela instantaneidade do veículo aliada com as circunstâncias.
As histórias pitorescas acontecem, evidentemente, em todas as regiões do Brasil e são responsáveis por momentos impagáveis como, por exemplo, a rádio do interior gaúcho que estava apresentando um programa de terror, usando para tanto os efeitos de sonoplastia para criar um clima de suspense. Acontece que na hora de matar o lobisomem, o sonoplasta não tinha o efeito de tiro que pudesse retratar a bala de prata descrita no roteiro. Nesta hora o locutor resolveu improvisar e matou o lobisomem com “punhaladas de prata” mesmo.
Outra história deliciosa foi citada numa entrevista à revista “Isto É”. O locutor Rui Viotti, que trabalhava na rádio Globo, contou que numa partida do Vasco da Gama contra uma equipe Argentina na década de 1960, ele estava narrando direto do Brasil ouvindo uma rádio do país vizinho. A rádio carioca sempre mandava os locutores e repórteres acompanharem os times nas viagens internacionais, mas excepcionalmente eles optaram por uma solução mais econômica daquela vez. Funcionava assim: O narrador ouvia a descrição do lance e logo na seqüência narrava os mesmos fatos, só que em português. Mas casos assim estão sujeitos a intempéries. E foi isso que aconteceu. A rádio portenha saiu do ar. O tarimbado locutor passou a inventar os lances enquanto não se restabelecia o sinal. Como a rádio não voltava ao ar nem com reza brava, Viotti sintonizou a rival rádio Tupy que também transmitia o jogo e passou a dublar o radialista Doalcei Camargo: “Só que eu descobri que ele, que também não tinha viajado, estava com o mesmo problema com a falta de sinal da rádio argentina, e estava me dublando, ou seja, copiando o jogo que eu inventava”.
Antes de adentrarmos nas gafes acontecidas na região, citamos, em nosso trabalho, outro fato inacreditável acontecido em Ilhéus, Bahia, e descobrimos que as transmissões esportivas são uma seara fértil para a incidência de histórias pitorescas. Nos anos 1960 as condições de infra-estrutura em muitas emissoras eram precárias. O fato aconteceu com o narrador esportivo Paulo Kruschewsky, da rádio Cultura. O time da cidade iria fazer um jogo decisivo em Vitória da Conquista, e a rádio ilheense não dispunha de patrocínio para levar a equipe até o local do jogo. Kruschewsky e equipe decidiram que transmitiriam o jogo mesmo assim, em pleno estúdio da Cultura, simulando como se estivessem em Conquista. Para tanto, o locutor e os repórteres de campo se enfurnaram no estúdio, levando consigo víveres, para somente na segunda-feira “retornarem” à cidade.
Como parte do plano mirabolante, eles sintonizaram a rádio Sociedade de Salvador, que transmitia todos os jogos e, com um atraso de alguns segundos, passaram a transmitir o jogo como se de fato estivessem no estádio. Tudo estava dando muito certo. O som da Sociedade chegava limpo a Ilhéus e a equipe fazia uma bela transmissão. No calor do jogo aconteceu um pênalti a favor da equipe de Ilhéus. E justamente neste momento surgiu o “Sobrenatural de Almeida”, como diria Nélson Rodrigues. A rádio Sociedade saiu do ar repentinamente. O mais sensato, neste caso, seria a transmissão da Cultura também "sofrer uma pane", mas a ousadia do locutor parecia não teve limites e ele raciocinou que os pênaltis do time de Ilhéus eram cobrados pelo jogador Deco e que Deco, afinal de contas, não era de perder uma penalidade máxima. E assim, Kruschewsky prosseguiu a narração e anunciou com todo entusiasmo o gol da equipe ilheense.
A partir deste momento, a equipe da Cultura aguardava com expectativa a volta do sinal da rádio de Salvador, que confirmaria ou não o gol narrado entusiasticamente pelo audacioso locutor e que levou os torcedores do time de Ilhéus a soltarem fogos nas proximidades da rádio comemorando o feito. Passados dez minutos, o sinal da rádio Sociedade voltou com toda força e depois de três angustiantes minutos o locutor anunciou o placar do jogo: "Em Vitória da Conquista, vinte minutos do segundo tempo, Seleção de Ilhéus 1, Seleção de Conquista 0, gol de Deco, cobrando pênalti". Paulo Kruschewsky não resistiu e extravasou toda a sua emoção no microfone da Cultura: "Eu não disse... eu não disse...”. No fim da transmissão, na mesma noite, se esquecendo de que não poderia ter chegado de Conquista em tempo tão rápido, o locutor esportivo desfilava por Ilhéus, com seu fuscão 67, comemorando a heróica vitória do time de Ilhéus.
Você tem que: Ficar ligado neste blog: Vou citar algumas das histórias mais saborosas do rádio acontecidas na região nos próximos posts. O objetivo da compilação, além de entreter os leitores com um apanhado de situações cômicas e curiosas, é também homenagear os comunicadores que levam alegria e informação aos ouvintes da região.
Comente aqui: Segunda-feira, Junho 06, 2011 Em busca de uma identidade
Era o ano de 1994. O Brasil se preparava para estrear na Copa do Mundo dos Estados Unidos. Eu tinha começado a trabalhar no rádio há menos de um ano, na Independente FM de Porteirinha e vivia a expectativa, como toda a nação, da disputa do tetra e dos fatos novos que a incipiente carreira no rádio me proporcionava. Cada dia era novo, excitante.
Os primeiros indícios de popularidade eram medidos através de telefonemas apaixonados das ouvintes e quando eu abria a boca em qualquer lugar. “Você é o cara da rádio!”. Esta frase me fazia ganhar o dia.
Neste tempo o CD ainda era uma novidade e na emissora tinha um quadro patrocinado chamado “Momento Laser”, quando púnhamos para tocar os raros compact disks da rádio. A maioria das canções eram executadas nos velhos discos de vinil, e o chiado típico dos bolachões profanava a propagada limpidez da Freqüência Modulada, ainda uma novidade na região.
Nesta época tive ótimos companheiros de profissão, que me mostraram o encantamento que o rádio pode desempenhar na vida das pessoas: Rey Venturini, Serginho Moreira, Ana Paula e Tom Mendes foram alguns deles. Mas o mais marcante foi Judson Porto, que chegou em Porteirinha para ser o diretor artístico da rádio e também o principal locutor.
Engraçado, dinâmico e muito bem informado, este potiguar de Currais Novos imprimiu um jeitão de rádio de capital na Independente FM, nos cafundós do Vale do Gorutuba. Quadros criativos, promoções e uma programação diversificada, com foco na música pop, tornaram a rádio um sucesso, e fez escola na época. E eu tinha um orgulho danado de fazer parte daquilo.
Foi nesta época que conheci Manoel, um locutor talentoso vindo das bandas de Mato Verde, onde ainda não havia emissora de rádio. E ele foi ser meu colega de trabalho na Independente. A primeira impressão que tive foi a melhor possível. Um cara tranqüilo em busca de uma identidade.
Lembro-me da vez em que me perguntou se o nome dele soava bem. Agora não me lembro se era Manoel Barbosa, ou Manoel Bandeira, assim como o poeta, mas o fato é que ele achava o nome pouco radiofônico e me perguntou se eu tinha alguma sugestão.
Logo ali, perto de onde estávamos, num montinho de vinis que trazia a programação do “Clube do Flashback”, uma das atrações da programação da rádio, estava um álbum do cantor espanhol Manolo Otero, que tinha a licorosa “Champagne”, figurinha fácil nas listas de canções voltadas para os enamorados. O insight foi imediato. “Que tal Manolo?”, perguntei. Ele repetiu algumas vezes o nome. “Taí Délio, gostei!”. Minutos depois eu passei o microfone da rádio e o horário para ele chamando-o com o novo nome.
E ele continuou Manolo dali em diante. Depois de trabalhar em Porteirinha chegou a Janaúba, onde repetiu o sucesso, com uma marca própria e um registro vocal singular. Atualmente está na Transamérica FM de Montes Claros, é casado com uma prima minha e é, certamente, um dos principais locutores da região. E continua discreto e tranqüilo, como o conheci em Porteirinha.
Escrevo estas linhas porque na semana passada Manolo nos deixou. O Otero, evidentemente.
Você tem que: Conhecer esta frase: "Queremos livros que nos afetem como um desastre. Um livro deve ser como uma picareta diante de um mar congelado dentro de nós"- Franz Kafka
Ver o filme: A árvore da vida, de Mallick, com Sean Penn e Brad Pitt. Um dos mais aguardados por mim nos últimos tempos
Comente aqui: Terça-feira, Maio 24, 2011 A saga da “despocotização” continua
Mais considerações acerca do episódio do podcast Café Brasil, que versa sobre a indústria do jabá no Brasil, e que começei a abordar o post anterior. E neste caso não estou me referindo a nobre iniciativa de tornar o charque nordestino mais conhecido, e sim uma prática odiosa que determina o que vai ser tocado nas rádios e exibido na TV. Claro que existem honrosas exceções: emissoras que não se dobram diante desta situação. Mas compreender os mecanismos deste sistema é exigência sine qua non para desvendarmos, nem que seja em parte, o porquê de ter prevalecido nos últimos anos a idéia do quanto pior melhor quando pensamos na “música de sucesso” do país.
Há alguns anos aconteceu um show antológico em Montes Claros: João Bosco. Um de nossos maiores compositores e intérpretes, parceiro de Aldir Blanc. Presença certa em qualquer discoteca que se preze. Lembro de ter comentado na faculdade que ele tocaria na cidade em breve e que eu não iria perder de jeito nenhum. Um colega, que não chega a ser culpado pela demonstração de ignorância, perguntou se João Bosco tinha resolvido sair em carreira solo. Levei um tempo para formular uma resposta, mas só consegui dizer algo quando percebi que ele estava se referindo a dupla João Bosco e Vinícius, que faz muito sucesso por aí.
Este jornalista e o grande João Bosco
Aliás, alguém deveria impedir estes caras de usarem nomes sagrados de nossa MPB. Sim, porque Vinicius para mim será eternamente nosso poetinha, um dos autores de “Garota de Ipanema”. A menos que eles se chamem assim mesmo, coisa que, aliás, duvido. Se continuar assim, daqui a pouco vai surgir uma dupla alcunhada de Milton e João Gilberto. É só esperar.
Luciano Pires, que apresenta o podcast, é também autor do livro “Brasileiros Pocotó”, que faz importantes, e bem humoradas considerações ao que ele chama de pocotização de nossa música tupiniquim, desde que o indigesto MC Serginho lançou para o mundo sua canção inesquecível “eguinha pocotó” que, segundo o podcaster é o marco zero de uma fase vexatória de nossa música. Pires se lançou em uma cruzada tentando abrir as cabeças dos jovens, através de bem humoradas palestras e também com o podcast, para tentar livrá-los da ditadura das músicas ruins, lembrando-os que numa festa deve ter espaço também para um pouco que seja de inteligência e ar puro, longe das músicas tolas que abundam por aí. Desconfio que, como um Dom Quixote da Internet, o indigitado comunicador esteja lutando contra moinhos de vento. Chega a ser uma luta injusta, mas gostaria de dizer para ele que apoio a iniciativa.
Já que mencionei o assunto festa, gostaria de ampliá-lo um pouco mais. Em geral com o pretexto de que em uma farrinha descompromissada na família ou entre os colegas do trabalho, o objetivo é simplesmente entreter, deixa-se de lado por completo o senso estético e o resultado costuma ser desastroso. Pelo menos para os ouvintes acostumados com música como forma de representação artística, que é como a vejo.
Confesso que fico com uma preguiça danada de ir a certos lugares onde só se toca axé, sertanejo universitário, funk carioca, pagode e outras coisas do gênero. É hora de abrir espaço para a black music, para o rock brasileiro, para o forró autêntico, para o reggae, para a rumba ou o verdadeiro samba, e tantas outras coisas interessantes e divertidas. É só deixar de lado a mediocridade, nem que seja por um dia. E neste divã tecnológico que é meu blog, confesso ainda que fico de mau humor diante desta situação e me recuso terminantemente a replicar estes hábitos em minha casa. Todos os meus amigos serão muito bem vindos por lá, mas se formos ouvir música, certamente será música boa.
E quando digo música boa saiba que o leque é bastante variado. Tem coisas relevantes até mesmo na chamada axé music, por mais incrível que isso possa soar. O sertanejo está repleto de música irretocável, como Pena Branca e Xavantinho, Tião Carreiro e Pardinho e outras duplas que valorizam as modas de viola.
Pagode e funk carioca para mim não têm salvação. É tudo muito ruim. Mas o verdadeiro funk, aquele de James Brown e George Clinton, é uma das melhores coisas da música e o samba brasileiro, de Cartola a Diogo Nogueira, passando por Zeca Pagodinho, Clara Nunes, Beth Carvalho e a ótima Roberta Sá nos faz crer no amor numa boa e que isso valha para qualquer pessoa, como disse o velho Lulu, outro baluarte de nossa música.
Por falar no rock Brasil é inconcebível que todos os jovens urbanos ouçam Restart tendo ao alcance de um download Móveis Coloniais de Acaju, Pato Fu, Skank e Vanguart, os álbuns dos Los Hermanos e os dinossauros Capital Inicial, Paralamas, Barão Vermelho e Titãs. Para citar apenas alguns. Realmente precisamos dar um restart à parada toda e limar o que é fake, jabazeiro, mal intencionado e picareta.
É hora, portanto, de “despocotizar” e deixar que os ouvintes escolham suas músicas e façam o sucesso surgir de forma democrática, sem atravessadores, dando vazão a nossa diversidade artística e cultural. Já que citei a obra máxima de Cervantes, cabe agora citar uma frase dele dita bem antes da invenção do jabá, e que aparece sabiamente no podcast que citei aqui: “Onde há música não pode haver maldade”.
Ver: O ótimo filme “Rio”, animação que prima pelo bom humor e usa a “Cidade Maravilhosa” como pano de fundo para uma aventura encantadora.
Descobrir As ruínas da igreja da Barra do Guaicuí, às margens do rio das Velhas, próximo a Pirapora. Lugar incrível que meu filho Gabriel acabou de conhecer.
Minha esposa e meu filho
Comente aqui: Quinta-feira, Maio 12, 2011 Vamos “despocotizar” a nossa música
Em uma recente viagem de férias a Inimutaba, terra de minha esposa Camila, deparei-me com um podcast que havia baixado na Internet chamado Café Brasil, com apresentação de Luciano Pires, que me deu subsídios suficientes para alinhavar estas linhas sobre um assunto que me exaspera: o fato de as pessoas hoje em dia ouvirem músicas absolutamente ridículas e ninguém parecer se importar com isso. E nesta história a culpa não é apenas a ignorância e a mediocridade dos ouvintes e sim parte de uma bem urdida tática feita pela indústria do entretenimento para vender os seus “produtos”.
O comunicador lança um importante olhar sobre o jabá. Um expediente odioso que faz com que o pior da industrial do entretenimento chegue aos incautos ouvidos da população, e de que maneira isso altera o acesso das pessoas às músicas. Pires chega a estipular o valor para se criar um sucesso no Brasil. Segundo ele bastam setenta mil dólares para “fabricar” um sucesso. Com este dinheiro daria para colocar uma música de trabalho nas principais emissoras FM do país durante uma semana. Ato contínuo, pelo menos três mil rádios do interior, que baseiam suas playlists no que estas grandes emissoras tocam, também seguiriam o modismo. Desta forma em uma semana a banda ou a dupla já estaria suficientemente conhecida para fazer shows ou lançar seu novo trabalho por aí.
Uma fórmula que não costuma falhar e que produz uma situação que beira o surreal. A média de músicas brasileiras nas paradas de sucesso chega a duzentas e cinquenta durante um ano. Estas pouco mais de duas centenas de músicas serão tocadas até enjoar durante o ano inteiro e todas as emissoras do país, em alguns casos várias vezes ao dia, darão espaço para essas canções que, muitas vezes, não tem melodia e nem letra e representam uma ínfima proporção do que é gravado no país.
Sm, este número é absolutamente ridículo se pensarmos que no Brasil tem quase duzentos milhões de habitantes e milhares de cantores, cantoras, duplas e bandas dos mais variados ritmos. Quando se pensa em duplas do sertanejo universitário a impressão que dá é que elas são milhões. Só de “Marcos e Mateus” deve ter umas dezessete querendo um lugarzinho ao sol.
Acontece que diante desta fórmula maquiavélica muita música boa simplesmente não chega aos ouvidos das pessoas. Já me deparei com muita gente falando que a música produzida atualmente é muito ruim se comparada com as de outras décadas. Ledo engano.
Talvez seja um dos melhores momentos de nossa música em décadas. Somos contemporâneos de Vander Lee, Lenine, O Teatro Mágico, Zeca Baleiro, Céu, Mariana Aydar, Marisa Monte e muitos outros artistas que lançam discos inspiradíssimos. Temos a sorte de ter Milton, Caetano, Chico, Gil, Luiz Melodia, Zé Ramalho, Djavan, Maria Bethânia, Gal, Beto Guedes, Paulinho da Viola e tantos outros lançando discos com maior ou menor freqüência e nos encantando com sua arte.
Acontece que 99% do que essa gente lança não toca nas rádios populares, que disputam os primeiros lugares no IBOPE. Não espere que Alceu Valença e Oswaldo Montenegro paguem jabá para tocar em rádio. Quando eles começaram o jabá ainda não havia sido inventado e hoje eles não precisam mais disso. Todos são muitíssimo bem sucedidos em suas carreiras e ainda ganham muito dinheiro tocando para a classe média nas casas de shows das capitais. Longe, portanto, das feiras agropecuárias, das festas de aniversário das cidades e das micaretas. E longe, infelizmente, do povão. Este assunto requer ainda novas observações. E pretendo retomá-lo muito em breve.
Você tem que: Ver: A engraçada série “The big bang theory”, que versa sobre os mais variados assuntos sempre com muito humor.
Adquirir: Um tablet. Matéria da Época afirma que os notebooks e PCs estão com os dias contados. Pretendo comprar um I-pad assim que os ventos ficarem mais favoráveis.
Experimentar: Os pratos de alguns bares que concorreram ao Comida di Buteco 2011 em Montes Claros. Tive a sorte de experimentar alguns. Fui jurado e juro que a escolha deve ser muito acirrada.
Comente aqui: Sábado, Abril 16, 2011 Sentimentos humanos, demasiadamente humanos
Hamlet tem a fama, bastante justificada, de ser a peça teatral que melhor retrata a vingança em todos os tempos. Embora eu nunca tenha visto uma encenação do texto do dramaturgo inglês por absoluta inadequação geográfica, conheço este texto de Shakespeare e posso afirmar que é primoroso. Talvez seja por essa razão que vivo implicando com pessoas que citam um texto da Internet chamado “O menestrel”, atribuindo-o ao dramaturgo inglês. Isso me exaspera. Assim como os trocentos textos atribuídos a Quintana, Drummond e principalmente Luiz Fernando Veríssimo que estão aos montes nas caixas de saída dos e-mails.
Funciona assim: Basta o texto, escrito por algum anônimo criativo, passar a circular na web para algum cretino atribuí-lo a algum integrante do cânone tupiniquim, ou no caso do escrito inglês, no cânone universal das letras. Mas este texto não tem o propósito de analisar este fenômeno, coisa que, aliás, o próprio Veríssimo vive fazendo em suas bem urdidas crônicas.
Este texto aqui é para falar de outros pecados capitais representados com a mesma desenvoltura e criatividade através da literatura e do cinema. Recentemente li “Dois irmãos” do manauara Milton Hatoun. Romance muito bem escrito, ambientado na Manaus da década de 1950, que retrata o embate, movido a inveja e ódio, de dois irmãos. A saber: Yaqub e Omar. História fascinante do início ao fim, que projetou Hatoun ao posto de um dos principais escritores contemporâneos. Leitura obrigatória. Outra citação que me vem imediatamente na memória, enquanto tamborilo este texto no teclado de um notebook, é o Ahab de Moby Dick, prisioneiro ad eternum da maligna baleia branca que o mutilara. Uma obsessão doentia.
Já um grande exemplo de filme calcado também na vingança é o sul-coreano “Old boy”. Na película o sentimento, amargo como a lula viva engolida, ganha cores nunca vistas na história do cinema. Pelo menos entre os milhares de filmes que já vi ainda não encontrei um tão profundo e pesado. O diretor não faz nenhuma concessão à comiseração do espectador, que se sente nocauteado ao fim da exibição. Mas não é exatamente assim que a arte deve chegar até nós?
Tem ainda outros pecados capitais por aí prontos para despertar as lembranças de filmes vistos, livros lidos e álbuns escutados. Aleatoriamente elejo dois: a gula e a luxúria, e convido você, leitor, a partilhar comigo seus pensamentos. Quais filmes, livros e discos representam melhor estes pecados?
Em última análise: pecado maior é não gostar de bons filmes, deixar de ler os grandes escritores e viver eternamente sem saber que na música tem um mundo a se descobrir, literalmente de Abba a Zappa.
Você tem que: Saber que esta frase é mesmo do Veríssimo: "Antes nos indignávamos quando diziam que nossa capital era Buenos Aires. Hoje o que nos indigna é lembrar que é Brasília. E isso é um avanço”.
Descobrir esta balada: Better Day, do Ocean Colour Scene
Ler: 100 anos de solidão, de Gabriel Garcia Marquez. É sem contra indicações.
Ver: O novo filme dos Irmãos Coen, Bravura Indômita.
Comente aqui: Domingo, Março 20, 2011 Carta para meu filho, que acabou de nascer
Caro Gabriel,
É com esperança que escrevo esta carta, mas não aquela esperança vã de quem aguarda um milagre cair do céu ou algo assim. A minha esperança se baseia no que venho tentando fazer individualmente para tentar mudar o mundo ao meu redor e numa impressão que tenho em relação ao futuro. E é lá, no futuro, que hei de encontrá-lo, feliz, pleno e saudável, em um mundo bem diferente do que avisto através de minha janela nestes dias chuvosos de 2011.
O mundo que vejo, mesmo a despeito da manhã chuvosa e luminosa de março, tem muito pouco de agradável. A violência urbana nunca esteve tão escancarada, e o vício do crack desponta como o mais cruel inimigo da sociedade. A divisão de rendas no Brasil ainda é uma das mais injustas no mundo, e tem sido cada vez mais freqüente encontrar famílias inteiras pedindo esmolas no semáforo, indiferentes à ascensão do Brasil no “Clube do Bric” ou em qualquer outra lista parecida. E, mesmo assim, a juventude do país, aparentemente sem nenhum grande objetivo que possa inspirá-la, ainda se diverte em festas e micaretas movidas por músicas tolas, onde o limite parece ser o “quanto pior melhor”, em um mundo sem poesia, sem ideologia.
É exatamente o contrário disso que espero pra você, filho.
Quando você for um moleque bem esperto, daqui a alguns anos, e estiver correndo por nosso apartamento, espero que o mundo já tenha tomado um novo rumo. Atitudes simples como se preocupar com o próximo, fazer trabalho voluntário e dizer um "bom dia" para aquele seu vizinho, serão os primeiros passos deste Brasil que vem por aí, como vaticinava Gilberto Freyre, e que agora, se prevalecer esta minha abstração da realidade, começará a acontecer.
O mundo daqui a uns cinco anos já terá novos confortos tecnológicos, como as ultramodernas plataformas digitais, que ainda dormitam nas gavetas das empresas de tecnologia, com 6 zilhões de bytes e possibilidade de se fazer download das obras-primas da literatura mundial com um leve toque em um visor quântico. Mas saiba filho, que nada disso tirará de mim o hábito de ler uma fábula para que durma, num bom e velho livro de La Fontaine ou de Monteiro Lobato, com folhas um tanto amareladas e carcomidas. Esse mundo terá menos poluição e mais pássaros azuis e vermelhos no céu, e não apenas os pardais de asas rotas de nosso cotidiano.
Vejo-o daqui uns dez anos numa casa ampla, não necessariamente luxuosa, com uma rede branca, tendo ao fundo uma serra majestosa ou um rio sereno, ou mesmo numa metrópole, só que sem congestionamentos e sem crianças fazendo acrobacias nos semáforos ou mendigos dormindo em praças públicas. Nesta sua infância que está apenas começando teremos de volta valores como amizade e companheirismo. E as velhas brincadeiras de roda e de ciranda não serão vistas como algo ultrapassado, démodé, muito pelo contrário. A maior prova de nossa pós-modernidade será o retorno às coisas mais prazerosas da vida que são, exatamente, as mais simples.
Depois, quando você entrar na vida adulta, o mundo também estará maturado em suas mudanças. E as pessoas mal se lembrarão do tempo em que inocentes eram queimados vivos por vingança, inclusive crianças, em ônibus urbanos do Rio de Janeiro ou que algum dia tivemos a chance de desarmar a população brasileira e essa chance foi jogada fora, revelando uma faceta que eu, até então, me negava a perceber: o nosso embrutecimento coletivo.
E as pessoas, na aurora destes tempos vindouros, trarão no rosto o sorriso dos justos e motivos mais que suficientes para acreditarem na vida e no ser humano. Palavras como vingança e ódio correrão o sério risco de cair no esquecimento, pois cada vez mais não teremos motivos para citá-las. E, finalmente, o décimo segundo parágrafo dos estatutos do poeta amazonense fará o maior sentido, e chegaremos ao dia em que brincaremos com os rinocerontes e caminharemos pela tarde com uma enorme begônia na lapela.
Os avanços da tecnologia, da medicina, da genética e das ciências de uma maneira geral, nos darão mais anos saudáveis de vida, e vivendo cem anos sobrará tempo para a chamada “segunda adolescência”, que acometerão os cinquentões desta época, entre os quais me incluirei.
Pois só assim para aproveitar intensamente da sua companhia elétrica. A cura da AIDS, do câncer, do diabetes, da fome no mundo e da ignorância farão do mundo um lugar incrível para se viver. O homem, nesse futuro que vislumbro, conquistou Marte e agora anuncia temporadas no moderníssimo Resort Lunar e, talvez, se conseguirmos juntar o suficiente, nas próximas férias seguiremos pra lá, como a típica família terráquea em férias.
Com o fim das guerras, todas elas, o mundo caminha para uma espécie de Shangri-lá, como no romance de James Hilton. As pessoas de todos os credos, continentes e ideologias reconhecem o bem como o principal valor. E Deus será também chamado de Alá, de Maomé, de Buda ou de Oxalá e nem por isso ninguém discutirá em vão. A maior prova da existência de Deus se dará justamente quando ninguém precisar brigar sobre esse assunto.
O Brasil, depois de conquistar o deca campeonato mundial de futebol, também cumprirá a sina mais anunciada de todos os tempos, a de que um dia será o país do futuro. E você assistirá a esse tempo, em que seremos a grande potência econômica do mundo, e também o grande defensor da paz no planeta.
Trabalho infantil, abuso sexual de crianças, desigualdade social, violência urbana, conflitos de terra e o atendimento desumano e burocrático dos hospitais serão tópicos dos livros de história. Assim como o estereótipo de que algum dia o brasileiro foi enrolado, desonesto e que sempre quis levar vantagem em tudo.
E quando você for bem velhinho, no alvorecer do século XXII, e eu for apenas uma doce lembrança em seu cérebro geneticamente modificado para ficar lúcido até os cento e cinqüenta anos, que possa se orgulhar de seus feitos e da vida farta que teve e que toda humanidade, desde as metrópoles apinhadas até os campos serenos, possa experimentar essa mesma sensação que anseio para você, meu filho, neste arroubo, que contraria as previsões sombrias impressas na tela do computador, que falam de iminente desastre nuclear no Japão e de início da guerra na Líbia, e de novos assassinatos motivados pela guerra do tráfico.
Filho, mesmo com estas notícias, resolvi falar de esperança. Porque não há como vislumbrar nada diferente vendo a pureza de seus olhinhos de bebê.
Comente aqui: Quarta-feira, Março 09, 2011 Menino guerreiro
Eu vi o choro do guerreiro Henrique. Lágrimas de um soldado raso do futebol, um subalterno em um time de estrelas radiantes. Muito mais que as cinco estrelas do distintivo: Fábio, Wellington Paulista, Thiago Ribeiro, Roger, além dos gringos Farias, Montillo... Mas o técnico da seleção brasileira preferiu Henrique. E como conhece de futebol este Mano Menezes. E como foi bonita a reação de Henrique diante da honraria máxima dada a um jogador brasileiro, a de defender a “Seleção”. O único time pentacampeão do mundo, instituição magna do futebol mundial.
Receber a notícia da convocação deveria ser assim para todo jogador. Um choro sem patrocínio, sem jogada de marketing, sem assessores de comunicação, sem aparições espalhafatosas em carnaval e sem chegadas monumentais em helicópteros, que voam quase tão alto quanto o ego de neimares, fenômenos, ronaldinhos, beckhans...
Tenho certeza que o choro sincero de Henrique ficaria devidamente imortalizado numa crônica de Nelson Rodrigues ou mesmo num bem urdido texto do jornalista Armando Nogueira, exímios retratistas da vida brasileira, contada a partir do calor dos estádios, das paixões das torcidas e do fascínio despertado por uma bola rolando em um palco esverdeado, com milhares no campo e milhões de espectadores seguindo-a na trajetória perfeita de um chute indefensável, através da luz esmaecida e azulada dos televisores.
Até mesmo o atleticano Roberto Drummond, se vivo fosse, se renderia ao choro de menino guerreiro diante do prêmio máximo de uma vida de treinos, concentrações e cobranças, debulhando-se em lágrimas que representam a grandeza de ser chamado para defender as cores da “pátria de chuteiras”, conforme batizou-nos o “anjo pornográfico”.
Chego a imaginar o choro de Henrique há uns vinte anos, quando o pai ou algum tio lhe deu uma bola de futebol, lá pra bandas de Londrina, no Paraná. Acredito que seja o mesmo choro visto agora no desembarque dele, e de seus colegas cruzeirenses, depois de mais uma batalha na Libertadores da América, quando a imprensa o esperava para comentar a primeira, e justa, convocação.
Mas o soldado Henrique se sente à vontade no front. Ele sempre chama para si o jogo, sempre arrisca de fora da área e sempre se entrega de corpo e alma, assim como seu companheiro Fabrício. A mais notável dupla de volantes do futebol brasileiro, em um país que não costuma guardar seus volantes no mesmo panteão dos centroavantes ou mesmo dos “camisas 10”. Recentemente li um livro editado pela revista Bravo, que trás uma compilação de contos, crônicas e poemas feitos por uma seleção de escritores. Entre Drummonds e Clarices escolhi uma poesia de Ferreira Gullar sobre o momento mágico do gol, que poderia ser usada para descrever um hipotético gol de Henrique no jogo para o qual foi convocado.
Mas antes, o narrador esportivo diria que aos trinta minutos do segundo tempo Mano resolvera dar uma chance ao valente volante cruzeirense. E logo no primeiro lance ele berraria que Henrique “enfiou um tirambaço” sem defesa no “lugar onde a coruja dorme”, no gol do arqueiro escocês, abrindo o placar para o selecionado canarinho.
Mas no mundo dos sonhos, onde chavões são substituídos por versos, o gol de Henrique seria assim:
“A esfera desce do espaço, veloz
ele a apara no peito, e a para no ar,
depois com o joelho
a dispõe à meia altura
onde iluminada, a esfera espera
o chute que num relâmpago,
a dispara na direção de nosso coração.”
Você precisa: Ver: Bravura Indômita
Ouvir numa manhã chuvosa: The ghost of Tom Joad- Bruce Springsteen
Tentar convencer o Mano de reparar uma injustiça: Convocar o goleiro Fábio, do Cruzeiro
Comente aqui: Terça-feira, Março 01, 2011 Uma noite que precisa ser reinventada
“O Discurso do Rei” foi o grande vencedor do Oscar 2011. Para muitos era mesmo o favorito, embora “A Rede Social” seja responsável por uma precisa radiografia do atual momento em que vivemos e, pelo menos de minha parte, tinha a torcida. Mas levou o prêmio um filme intenso, inglês, aristocrático, humano, que fala de sentimentos, monarquia e gagueira, não exatamente nesta ordem.
De positivo mesmo a participação do veteraníssimo Kirk Douglas, que esteve em grandes clássicos como “Duelo de titãs”, “Ulysses”, “A montanha dos sete abutres”, “Sem lei e sem alma” e, claro, “Spartacus”. Aos 94 anos ele mostrou-se lúcido, e era só sorrisos e orelhas na entrega da estatueta de melhor atriz coadjuvante. Foi preciso mesmo nos beliscarmos diante de sua aparição. O pai de Michael Douglas teve sérios problemas de saúde e muitos já imaginavam que, ao invés do Oscar, ele já estivesse entregando os pontos. Sorte nossa que não.
Mas depois da luxuosa cerimônia, que mais uma vez preteriu uma produção brasileira, - desta vez um documentário-, ficou uma sensação de déja vu, que sempre acompanha este tipo de premiação. Afinal, são sempre as mesmas piadas com filmes e atores, o impreterível obituário, as animações gráficas, os intermináveis e chatíssimos musicais, os apresentadores engraçadinhos.
Creio que, a esta altura dos acontecimentos, uma repaginada seja mesmo necessária, para garantir mais fôlego à longeva noite de prêmios e egos em que se resume o Oscar. Outro aspecto positivo. Depois das premiações, confesso que estou ansioso para ver “Cisne Negro”, pois Natalie Portman é capaz de iluminar um filme, como fez no ótimo “Closer”. E quando ela mesma diz que este papel laureado com o Oscar é o melhor de sua carreira é melhor não duvidar.
Por fim pretendo nos próximos dias entender o que para muitos é a maior injustiça já cometida pela academia de notáveis que norteia as escolhas do Oscar. Estou com o DVD de “Como era verde o meu vale”, que venceu “Cidadão Kane” numa longínqua noite de 1942. John Ford versus Orson Welles. Já vi algumas vezes o filme que imortalizou a expressão “rosebud” e que traz uma contundente e intrigante visão do poder manipulador sobre a opinião pública, mas confesso que nunca adentrei no vale carcomido pela recessão que acometeu a Irlanda dos anos 1930, mote do filme de Ford.
Em um guia de cinema que tenho “Cidadão Kane” aparece com cinco estrelas e o título é precedido dos epítetos “uma das mais importantes obras da história do cinema” e “interessantíssimo para os cinéfilos”. Ao passo que o filme premiado com o Oscar está precedido do comentário “certo excesso de sentimentalismo envelheceu a película”. E na cotação estão apenas três estrelinhas. Ficou fácil saber qual é o melhor? Em 1942 a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood escolheu “Como era verde o meu vale”.
Você precisa: Conhecer esta versão: “O Google é o melhor amigo do homem. O Google é o cachorro computadorizado”- eu mesmo tratei de adaptar a conhecida citação de Vinícius acerca do cachorro e do uísque.
Ver: As bicicletas de Belleville
Entender que ninguém tem certeza de nada quando o assunto é fé: Guerra Santa- Gilberto Gil
Incrível placa que fotografei, há alguns anos, em Claraval, comunidade rural de Montes Claros
Comente aqui: Segunda-feira, Janeiro 17, 2011 Um dia difícil de esquecer
Fui surpreendido na semana passada com um convite da Globo Minas, de Belo Horizonte. A missão: cobrir as férias de um jornalista da emissora. Um desafio e tanto para quem, ao final deste mês, vai computar apenas dez meses de jornalismo televisivo em Montes Claros. Confesso que quando cheguei na sede da emissora, localizada no bairro Caiçara, fiquei apreensivo. A pergunta que me rondava era: será que darei conta de algo assim?
Cheguei em BH na sexta-feira para participar de um seminário do Globo Esporte sobre coberturas esportivas, em especial o Campeonato Mineiro de futebol que começa no fim do mês. Mas, em função do aeroporto de Montes Claros ter sido fechado para pousos e decolagens durante algumas horas, só cheguei na capital quase no fim da manhã. Mas ainda deu para aproveitar dicas importantes do Carlos Gil, repórter da Rede Globo que cobre a Fórmula 1 e outros grandes eventos, e do diretor do GE na capital fluminense, além dos diretores da Globo Minas.
Não é possível, por razões éticas e profissionais, emitir qualquer tipo de opinião sobre os assuntos tratados em uma reunião como essa, mas o fato é que a experiência foi muito rica. Depois das palestras, o almoço foi no restaurante da Globo e no final do dia conheci meu ambiente de trabalho pelos próximos dias: a redação do jornalismo. Até esse momento eu estava achando que iria começar na segunda-feira, mas eu estava escalado já no dia seguinte, um sábado. E logo de cara um plantão de sete da manhã às sete da noite. Não titubeei. No outro dia cedinho começava minha experiência na Globo Minas.
Camila veio passar o fim de semana comigo. Ela estava em Inimutaba, e foi fácil acabar de chegar em Belo Horizonte. Ficamos na casa da prima dela, Manuela. Ela e o marido Alexandre estavam no Rio de Janeiro, onde foram acompanhar um dos shows da Amy Winehouse. No táxi entre o Padre Eustáquio, onde estávamos hospedados, e a Globo, o motorista perguntou se eu era o âncora da emissora. Gostei do elogio, pois isso, instintivamente, comprovava que eu estava bem trajado.
Posso dizer que fui acometido da chamada “sorte de principiante”. O repórter cinematográfico e o auxiliar técnico que foram meus companheiros de plantão se revelaram excelentes companhias. Ambos muito brincalhões, mas extremamente zelosos e competentes.
Nestes ambientes costumam surgir ótimas histórias, como uma que o auxiliar técnico que nos acompanhou contou. Ele citou uma transmissão de carnaval onde uma repórter chamada Cristina Prochaska, entrevistava uma mulata. O cinegrafista que acompanhava a repórter recebeu um aviso, via rádio, para ele “fechar na Prochaska”. O bravo câmera man não teve dúvida: aproximou o zoom da câmera o mais que pôde das partes, digamos, pudendas da sílfide negra. Uma tremenda confusão.
Na primeira marcação encontrei dona Dórinha que, vejam vocês, é de Montes Claros. Fomos ao bairro Santa Terezinha fazer uma matéria sobre dengue e ela, instada entre uma sonora e outra, a falar sobre a cidade natal, disparou: “Sou de Montes Claros, terra da carne de sol e do pequi. O que eu não resolvo no papo eu resolvo aqui...”. Ela finalizou a frase certeira com um gesto com o braço chamando para a briga um eventual desafeto. Eu não gostaria de ser este inimigo, porque adoro Montes Claros de verdade.
Quando voltamos para a TV rolou o fascínio de ver a minha primeira matéria, que foi anunciada por uma apresentadora belíssima chamada Gislaine, que foi Miss Brasil e hoje brilha também na apresentação dos telejornais da emissora.
Na parte da tarde outro VT, desta vez sobre a Campanha de Popularização do Teatro e da Dança que acontece todos os anos na capital mineira. Entrevistei os atores da peça “Acredite: um espírito baixou em mim”, besteirol campeoníssimo de bilheteria em Beagá. Nesta marcação também rolou uma boa história. Falei para um dos atores que era meu primeiro dia de trabalho, e ele lembrou que um outro repórter disse para ele há alguns anos a mesma frase, acrescida de “Me desculpa, porque estou nervoso”. O repórter iniciante hoje é correspondente da Globo em uma capital européia. Nada mal.
Tenho certeza que terei desafios bem maiores do que os vistos hoje, mas gostei do trabalho e da cidade.
Essa matéria aí foi do segundo dia de trabalho na Globo Minas
Você tem que: Ver: Além da vida - Primoroso novo filme de Clint Eastwood. No caso do ex-Dirty Harry é até redundante ficar falando que é excelente. Mas é.
Ouvir: Grace- Jeff Buckley
Ouvir essa: "O brasileiro não tem medo do fim do mundo. Tem medo é do amanhã” - Jean Delumeau, historiador francês
Comente aqui: Quarta-feira, Janeiro 12, 2011 Brilho familiar
No ano passado minha sobrinha Gabriela, de onze anos, participou de um concurso de redações na escola onde frequenta em Janaúba. Até aí um fato absolutamente normal. O problema é que a diretora da escola a confundiu com outra Gabriela, que já estava no terceiro ano do ensino médio, enquanto a filha de minha irmã Leila estava no quinto ano do antes chamado “primeiro grau”, mas desconfio que esta nomenclatura não exista mais.
O fato é que a confusão só foi descoberta quando os três trabalhos finais já estavam em um site à cata dos votos dos internautas. Minha irmã foi reclamar e a diretora da escola, para espanto geral, disse que minha sobrinha estava desclassificada. Ela e a redação. Apesar das reclamações por parte da família o primeiro prêmio do concurso, que valeu um computador novinho, foi para outra redação e minha sobrinha ficou somente com um pálido pedido de desculpas.
Que oportunidade essa diretora perdeu!
Se ela tivesse assumido o erro, seria o caso de mostrar que mesmo nas classes introdutórias de sua escola tem joias do quilate de Gabriela. Capaz de impressionar, com seus argumentos, até mesmo o tio metido a escritor. Mas a pobre da diretora, pobre de espírito evidentemente, preferiu preterir Gabi da disputa a dar-lhe um prêmio extra, por ter chegado tão longe. A sorte muda, evidentemente, e ainda no ano passado Gabriela ganhou um computador, por obra e graça da tia Grazi e do tio Gilmar, e agora eu a presenteio com estes parágrafos que exprimem admiração e respeito. Você vai longe Gabi!
Quando eu estava no primeiro grau na escola que leva o nome do meu bisavô em Serranópolis de Minas, as professoras de português costumavam ler minhas redações, feitas na quarta ou na quinta séries, para os alunos mais adiantados, entre os quais minha irmã Leila, na oitava série. Eu ficava envaidecido com isso. Assim como me sinto orgulhoso de minhas duas sobrinhas de Janaúba gostarem de ler assim como eu gosto. A já citada Gabi e sua irmã Isabela são exímias leitoras. Elas tem onze e quatorze anos, respectivamente, e um futuro brilhante pela frente. Assim como Thayná, filha de minha irmã que mora em Montes Claros. O jeitinho curioso e irrequieto dela não nega. Também será uma moça brilhante nos tempos da escola que a aguardam.
Isto posto, agora só me resta torcer para que o filho que eu e Camila estamos esperando também seja assim. Livros à sua volta e bons exemplos não hão de faltar, mas os desígnios de Deus são misteriosos. Portanto nos resta torcer também para que ele faça jus ao nome que escolhemos para batizá-lo: Gabriel. Nome de anjo sim, mas também nome de prêmio Nobel de Literatura, e que Deus e Gabbo nos proteja.
Minhas sobrinhas amadas
Você tem que:
Conhecer os Irmãos Coen: Comece por Fargo
Ouvir, e se emocionar: Deep Dark Truthful Mirror- Elvis Costello
Ler: "Tem horas em que penso que a gente carecia, de repente, de acordar de alguma espécie de encanto” - Guimarães Rosa
Comente aqui: Quinta-feira, Janeiro 06, 2011 Novo ano, novos desafios
Para mim 2010 foi excelente. Foi o ano em que eu e Camila concebemos Gabriel, e foi também o ano em que aconteceram coisas que eu nem havia concebido. Sair da rádio e entrar na TV foi a principal. Nunca havia idealizado ser repórter de televisão, mas hoje acredito que tenha descoberto algo que quero fazer nos próximos anos, ou talvez nas próximas décadas.
É um trabalho excitante, importante e que tem me dado algum prestígio, o que é sempre bom para o apreço que nutrimos por nós mesmos. Mas o melhor de tudo é que é desafiador, bem diferente da zona de conforto em que eu estava no rádio, onde não era possível mais crescer profissionalmente em Montes Claros. Além do mais, devo admitir, passados alguns anos, eu não estava mais tão motivado no veículo ao qual serei eternamente grato pela projeção que me foi assegurada.
Agora é diferente. Ainda sei pouco de TV, e tento aprender a cada dia com meus colegas de profissão, a quem gostaria de agradecer publicamente através deste texto. Desde os chefes Cácio e Lílian, que me deram essa oportunidade, até os produtores, que sinalizam as trilhas suspeitas e ermas que os repórteres e os cinegrafistas vão percorrer. No trabalho diário ninguém é mais presente do que os repórteres cinematográficos, companheiros do cotidiano na busca pela melhor informação e melhor ângulo. Aqui cito o nome de todos com os quais trabalho: Alexandre Nobre, Geraldo Humberto, Messias Braga, Marcelo Pimenta e Robert Aguiar. Pessoas diametralmente diferentes umas das outras, mas que são fundamentais para o brilho do trabalho que chega às casas na hora do almoço e na hora do jantar. E também no café da manhã.
Para não cometer injustiça cito os editores de imagem, que dão o acabamento final nas ideias que trazemos da rua. Eles são, na falta de uma melhor metáfora, os cirurgiões plásticos do jornalismo. No Natal senti na pele a importância deste trabalho. Uma edição feita por Kelson Fabiano deu uma carga emocional incrível a uma reportagem feita por mim e Alexandre Nobre. A entrega de presentes a uma família com onze filhos, todos maltrapilhos, e a chegada do Papai Noel à casa de um garoto que ficou paraplégico após uma queda aos nove meses de idade, ficou emocionante com a edição de Kelson. Quem viu sabe do que estou falando.
2011 será de novas experiências. O primeiro semestre começa com a volta da cobertura da Superliga de vôlei e do Campeonato Mineiro da primeira divisão, onde o aguerrido Funorte vai representar a cidade, assim como o time de vôlei já vem fazendo no principal campeonato de voleibol do país. Terei a honra de trabalhar em muitas dessas coberturas, e ainda teremos as notícias do cotidiano, desde o trabalho comunitário, dos bairros que carecem de asfalto, coleta de lixo e dignidade, até a cobertura das notícias factuais, que costumam vir em grande número, e representa o maior desafio.
Portanto, é hora de encarar estes novos aprendizados, aceitando as críticas construtivas, tão necessárias para quem ainda encontra lugares obscuros na caminhada do jornalismo televisivo, mas com a certeza de que, com garra e sapiência, é possível galgar postos ainda mais representativos. Que a força esteja comigo, e com todos vocês, neste ano novo.
Em última análise, 2011 tem tudo para ser o ano mais importante da minha vida em todos os tempos, pois é quando Gabriel chegará. E essa será a melhor notícia que poderei dar.
Você tem que: Conhecer: O Parque Estadual de Serra Nova, em Serranópolis de Minas. Natureza e poesia que caminham lado a lado
Ouvir: Bandas como Porcas Borboletas e Móveis Coloniais de Acaju
Ver: A série brasileira em quatro capítulos "'Amor em quatro atos", baseada na obra de Chico. Está no ar na Globo.
Ler: "Budapeste"- Chico Buarque
Comente aqui: Domingo, Dezembro 12, 2010 Coisas que aprendi com o último tropeiro do Talhado
Alberto Montalvão pinçou frases amiúde e escreveu livros com citações diversas. Em meio a frases de Pascal, Cícero, Rui Barbosa e Shakespeare, além de outras centenas de pensadores, ele deixou contributos pessoais como: “O homem é o único animal que tropeça duas vezes na mesma pedra”. A citação é na mosca, uma vez que somos impelidos, seja por nossa natureza falível ou por nossa pretensão, a cometer erros sucessivos.
Diferentemente dos animais que, em seu instinto, evitam as pedras que os fazem tropeçar. Certamente o burro de carga do tropeiro do Talhado que retratei, juntamente com o repórter cinematográfico Geraldo Humberto, em uma elogiada matéria que passou na TV, age assim. Ele se chama Canário e é o companheiro do senhor João de Lé nas belas e perigosas trilhas da Serra do Talhado, onde os dois e mais o cavalo de montaria do geraiseiro, atravessam praticamente todas as semanas, levando adiante uma tradição que vem desde tempos imemoriais: o transporte de farinha e goma fabricadas artesanalmente nos Gerais, que fica no município de Rio Pardo de Minas, até Serranópolis.
Acompanhar “Seu João” em seu trabalho foi a experiência mais rica que tive neste primeiro ano de trabalho na InterTV. Seja pela dificuldade que eu e Geraldo tivemos ao atravessar as vazantes, o canyon e os despenhadeiros do Talhado, e ainda por termos aprendido algumas coisas com o jeito pacato e persistente do último tropeiro.
“Seu João” tem cinqüenta e cinco anos e desde os cinco faz a travessia. Meio século de trabalho, desde a época de menino, e desde o tempo em que não havia cavalo de montaria e o trajeto era feito a pé conduzindo os animais de carga. Décadas do século passado em que as privações eram muito maiores. Naqueles longínquos verões, entretanto, havia muitos como “Seu João”. Os tropeiros eram às dezenas, centenas.
Eles acampavam de noite na serra, ouviam o esturro das onças pintadas nas proximidades, atravessavam as cheias do rio Mosquito carregando “sessenta e tantos quilos na cacunda”, como nos relatou “Seu Lé”, o pai de João, que também nos presenteou com sua sabedoria e suas histórias de modesta valentia, sem precisar se gabar de nada, como cabe a um bom tropeiro. Uma vez que basta um instante fugaz para se forjar um herói, mas leva-se uma vida inteira, de privações e luta, para se formar um homem de bem, ciente de suas responsabilidades.
Lé, João e outros tantos que um dia fizeram a travessia, deram conta de tudo. Criaram suas famílias, mourejaram sem preguiça e sem ajuda de bolsas do governo, em um tempo em que elas sequer existiam. Com valentia, impulsionados pelo instinto da sobrevivência, transportaram a farinha, a cachaça e o pequi nas bruacas dos burros e levaram de volta os produtos industrializados da semana, como o precioso querosene dos lampiões e alguns trocados.
“Aquele que se apóia em uma vontade firme, vive num mundo a seu gosto”. A frase é de Goethe, mas poderia ter sido dita por um deles, sem esforço. “Seu Lé” tem oitenta anos e parou com as travessias quando o peso dos anos ficou mais forte que o peso das cargas vendidas em Serranópolis e em Porteirinha, nas feiras populares. E João de Lé continuou o legado. Até quando? “Enquanto Deus me der força”, ele respondeu, com a voz embargada e as pernas cansadas depois de mais um dia de trabalho, aos solavancos e mais demorado do que o ramerrão, porque tínhamos eu e Geraldo com nossa imperícia diante de obstáculos, a atrasá-lo um pouco mais.
Mas nosso trabalho também foi importante, pois registramos uma tradição centenária antes que ela se extinga, uma vez que não há ninguém para continuar a saga de João de Lé e de pelo menos trezentos geraiseiros que faziam o trajeto antes das estradas de rodagem e dos ônibus que levaram conforto onde antes reinava a tradição. “Seu João” sabe que é o último e lamenta que os “companheiros velhos não façam mais a travessia da serra”. Algo em torno de vinte e cinco quilômetros no dorso do cavalo conduzindo o burro apinhado de farinha e de goma é o desafio semanal, para levar até Serranópolis as iguarias feitas em seu sítio. Não é pelo dinheiro, uma vez que “Seu João” tem uma casa confortável, tem os filhos formados e parece não passar por nenhum tipo de dificuldade financeira. O jantar servido para nós em sua casa, na noite que antecedeu a aventura, mostrou isso claramente. João de Lé faz isso porque sente prazer em levar os produtos até Serranópolis, onde tudo é vendido. Faz porque gosta dos amigos que encontra por lá e faz, principalmente, porque ama ser tropeiro.
Um milionário certa vez, ao ver Madre Teresa de Calcutá limpar as feridas de um leproso teria dito: “Por dinheiro nenhum do mundo eu faria isso”. Madre Teresa teria respondido: “Eu também não faria isso por nenhum dinheiro”. Com esse exemplo talvez consigamos decifrar “Seu João” e, mais do que isso, admirá-lo e respeitá-lo.
E podemos também tirar ensinamentos do burro de carga do tropeiro. Canário, diante de uma pedra pontiaguda, e que um dia feriu seus calcanhares, como é de sua natureza, evitou-a e seguiu seu caminho, indiferente aos jornalistas que tratavam de eternizar minimamente na memória dos telespectadores a história de alguém especial. João de Lé, o último tropeiro da Serra do Talhado.
Assista o video com a matéria:
Você tem que: Ver: 11 de setembro - Reunião de curtas sobre o atentado do WTC feito com 11 filmes que tem a duração de 11 minutos e 9 segundos cada. Atente para o belíssimo curta de Sean Penn, com Ernest Borgnine
Se planejar: Vem aí o Rock n´ Rio 2011. Com Metallica, Coldplay e RHCP, mas ainda no aguardo de outras atrações
Ouvir o que disse Pablo Picasso: "Há pessoas que transformam o sol numa simples mancha amarela, mas há também aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol”
Ouvir uma das maiores bandas de todos os tempos: Wild horses- Rolling Stones
Acompanhei de perto a Semana Científica promovida pela Facomp, uma faculdade de computação de Montes Claros. Como mestre de cerimônias do evento eu apresentei os palestrantes, muitos com a biografia impecável de vida devotada ao conhecimento. Foram quatro dias de aprendizado para mim. Claro que não foram todos os assuntos que me interessaram, e nestes momentos terminei de ler “Dois irmãos” de Milton Hatoun e praticamente dei conta da Piauí de novembro. Mas foram vários os momentos em que me descobri encantado com as novidades fresquinhas do mundo da tecnologia.
A chamada “Computação nas Nuvens” é uma delas. Imagine um mundo sem HDs enormes, e com os seus arquivos mais valiosos disponíveis por aí, literalmente no mundo das nuvens, à espera de sua senha para separar o joio do trigo digital. É exatamente isso o que propõe as empresas de vanguarda na área tecnológica.
Em outra palestra foi informado que aproximadamente cem empresas morreram no atentado ao World Trade Center, há dez anos. O erro delas? O back up das atividades estava na torre ao lado. A informação ilustrou que é imprescindível organizar as informações e dinamizar as ações dentro de uma empresa com um pezinho, ou dois, no mundo digital.
Scrum e Kanban são técnicas para isso, mas a explicação delas foi tão truncada que acabei sendo transportado, como num passe de mágica, para a Manaus da infância do Hatoun e para os textos da Esquina da melhor revista do Brasil. Mas a palestra sobre design de games foi bastante proveitosa, assim como a que falou dos provedores ultramodernos do Google, que estão instalados em plataformas marítimas de águas internacionais. O vai e vem das marolas gera a energia necessária para manter ligada a traquitana, que não paga impostos e ajuda a levar a Internet aos rincões mais distantes da Terra. E pensar que durante séculos a única comunicação pelo mar era feita pelas garrafas arremessadas pelos náufragos!
Outra inquietação, e essa chega a ser de ordem filosófica, diz respeito à computação quântica. Um computador que, por enquanto, ainda não existe, seria capaz de interagir com o usuário. Não seria necessário teclado, e sim o desejo de entrar em um determinado site ou fazer uma pesquisa. Tudo com o poder da mente, numa perspectiva que só existe, por ora, nos contos de Isaac Asimov ou Orson Scott Card. Um assombro que as próximas gerações encararão com a mais completa naturalidade, off course.
Roque Cerávolo é professor da faculdade e coube a ele falar de física quântica, gato de Schrödinger e quejandos existenciais. Para o professor “A criatividade não tem bom senso”. Ele acredita que as grandes bobagens ditas, e feitas, pelos alunos, podem ser úteis na medida que é errando que se aprimora e que é delirando que se avança em uma área desprovida de muita lógica, como é a ciência quântica. Tal explicação me fez lembrar imediatamente das aulas de semiótica do professor Júlio Pinto na faculdade de Jornalismo. Aproveitei bastante da cultura e do bom gosto do mestre, que me fez avançar na compreensão do jazz. Mas confesso que as aulas não tinham muita lógica. Mas quem precisa da lógica quando o citado mestre nos leva para comer lingüiça com mel em um bar na Savassi em Belo Horizonte, ao som de John Coltrane?
Quanto ao citado gato é o seguinte: você prende um bichano numa caixa hermeticamente fechada e coloca veneno para ele. Ele pode ignorar a isca ou devorá-la. Para quem fizer a experiência, que certamente irritará a Sociedade Protetora dos Animais, restarão duas opções. Ou o gato estará vivo dentro da caixa ou estará morto. De certa forma ele está, simultaneamente, vivo e morto. E não é possível verificar o que acontece, pois interferir no experimento é o mesmo que anulá-lo. Complexo? Então se sinta convidado a pensar o futuro quântico.
Enquanto isso deixemos o gatinho vivo e morto ao mesmo tempo, tirando nosso sono e, simultaneamente, nos fazendo dormir como anjinhos, tudo ao mesmo tempo agora, na velocidade da informação que cai do céu.
Você tem que: Curtir: A Festa do Pequi de Montes Claros de 2010 traz dois shows interessantes: 14 Bis e Tetê Espíndola. Vai ser neste fim de semana. Hora de perceber que “As páginas de um livro bom estão escritas nas estrelas”.
Ouvir: Tem gente que não se abre ao novo. Ouça Snow Patrol e The Killers e perceba que a última banda legal que surgiu no rock não é o Radiohead.
Ver: Old Boy, filme incrível sobre vingança
Ler: “Obra Completa”, de Murilo Rubião, livro que ganhei do Poeta do Acaso, Damião Cordeiro. O livro é fantástico, literalmente.
Comente aqui: Segunda-feira, Setembro 27, 2010 No dia em que faço aniversário...
A vida explode do lado de fora do quarto acanhado que transformei em escritório. É o sol de setembro, abrasador e que traz as boas novas que campeiam como canta sabiamente Beto Guedes. Ele que nasceu aqui, na cidade em que rabisco estas linhas digitais.
Calorentos e hospitaleiros montes claros, terra de oportunidades. Eu não nasci aqui, nem minha esposa. Sou de Serranópolis de Minas, e ela é de Inimutaba. Mas o filho que estamos esperando será um montesclarense da gema, e este fato nos tornará mais apegados ainda à cidade que nos abrigou.
No dia em que computo mais um ano de vida e, automaticamente, subtraio mais um daqueles que me restam, percebo que tenho razões suficientes para comemorar. A principal conquista eu já citei. O filho que minha esposa traz no ventre, e que cresce a cada dia, é a principal conquista, de um ano em que comecei um trabalho novo, e que tem me dado muita satisfação também.
Além disso, finalizei um livro novo, que, se prevalecer o mais atual de meus insights, será lançado no mesmo mês em que Gabriel resolver deixar a barriga da mãe e conhecer este mundão sem porteiras. Março, possivelmente.
Com relação a paternidade, levarei em conta o ensinamento do poeta Ledo Ivo, para quem “ser pai é ensinar ao filho curioso o nome de tudo”. Ensinarei sim e, na falta de nomes correlatos, daremos nomes extraordinariamente inventados para as coisas.
O introduzirei no mundo mágico da literatura ainda bebê, quando a oralidade prevalecer e surgir introduzida com muitos “era uma vez...”, e serei o cicerone no labirinto das letras, com Vernes, Lobatos, Carrols, Grimms, Ziraldos, Plufts, e outros, quando ele for uma criança cheia de energia. E depois lhe legarei o manjar de Rosa, de Drummond, Quintana, Clarice, Borges e principalmente aquele em quem nos inspiramos para batizá-lo: Gabriel Garcia Marquez.
Mas o que seriam dos livros sem os bons conselhos? O que seria dos bons filmes e boa música que o cercarão se não houver harmonia, exemplos e principalmente amor? Absolutamente nada.
Alguém já deve ter dito: “Todos os conselhos que os pais dão aos jovens têm por objetivo impedir-lhes que sejam jovens”. Mas ouso discordar. Não faltarão aventuras e risco para ele, principalmente quando for um jovem eivado de desejos. Somente no mundo do faz de conta podemos sonhar com um Brasil livre de perigos. Mas algo me diz que ele saberá dizer não às drogas, a imbecilização e outros males que tenho acompanhado in loco no meu trabalho no jornalismo televisivo nestes dias de setembro de 2010.
Porque sei disso? Porque também consegui. Meus pais, em sua simplicidade, me legaram valores que moldaram meu comportamento, e passarei isso adiante.
Um trabalho que me inspira e me faz projetar novas conquistas, uma esposa que amo e que preenche as lacunas que, vez e outra, surgem no cotidiano. Um livro e um filho a caminho. Tenho ou não tenho direito de estar feliz?
Você tem que: Citar algo assim: "Povo que não sabe a sua história é povo condenado a irrevogável morte. Pode produzir brilhantes personalidades isoladas, manifestações de paixão, de engenho e até de gênio, mas serão relâmpagos que evidenciarão ainda mais o negror da sua noite” - Menendez y Palaio
Ver que existem super-heróis bem desajustados: Watchmen- O filme
Ouvir: Hallelujah - Leonard Cohen
Comente aqui: Segunda-feira, Setembro 13, 2010 Os limites da democracia
Ontem me peguei cantarolando no chuveiro um jingle de um candidato a deputado estadual. É incrível como esse artifício funciona para ajudar o eleitor em sua inglória missão de escolher os menos ruins entre os piores, que é como, infelizmente, a política brasileira tem se apresentado. Na hora de escolher basta se lembrar da musiquinha do candidato para o número dele se materializar na urna eletrônica. Simples assim. E tem candidato, já com alguns mandatos nas costas, que não trocam seus jingles por nada neste mundo.
O eleitor destes candidatos dirá que é para haver uma identificação imediata, ao passo que o crítico sustentará que ao não renovar nem o jingle o candidato se nega a fazer a reciclagem de ideias, tão importante nos homens públicos. Mas a verdade é que uma boa musiquinha já é meio caminho andado para o sucesso no escrutínio do dia 3 de outubro. Dia desses eu vi o músico de Montes Claros Pedro Boi contar uma ótima história. Ele disse que numa outra eleição havia composto uma música para um candidato a deputado chamado Kiko. Mas que o político não havia gostado de suas frases lapidares, que enalteciam as qualidades imediatas do homem público: “Kiko lindo, Kiko legal, o Kiko é o meu Estadual...”. E o Boi ainda finalizava o papo dizendo não entender as alegações do indigitado político ao recusar a bem urdida peça publicitária.
Atrevo-me a dizer que em um país onde as mulheres frutas do funk, Tiririca, Marcelinho Carioca, Batoré, Kleber Bambam, Túlio Maravilha, Ronaldo Ésper, Frank Aguiar, e seus inacreditáveis clones forrozeiros, são candidatos a cargos públicos é possível imaginar que o citado jingle seria o hit das eleições, levando consigo o Kiko para a Assembléia.
Você tem que: Ouvir: O novo disco do pernambucano Otto. O nome do disco é uma sacada. Trata-se da primeira frase do clássico de Kafka, A Metamorfose: “Certa manhã acordei de sonhos intranqüilos”.
Ver: Tenho visto filmes diversos em função da gravidez de Camila. Com ela só vejo filmes levezinhos. Um dos mais simpáticos foi “Onde estão os Morgan?”. Sozinho vejo filmes mais densos. Destaque para os de Akira Kurosawa.
Sentir: A sensação única de ver um filho seu na imagem escura de um ultrassom. Não tem filme no mundo, nem mesmo de Kurosawa, para realizar uma obra mais perfeita que essa.
Ler: Os cavalinhos de Platiplanto, de José J. Veiga. Um grande contista sem nenhuma dúvida
É por isso que as brasileiras são tão famosas por seus derrieres.
Todos temos sonhos e um dos mais recorrentes e terríveis, é o de ficar em locais escuros e ermos. Um ataúde, uma caverna, ou uma mina sempre aparece nestes sonhos, assim como a ilusão passageira de voar ou de tropeçar em algum objeto e “chutá-lo” já no mundo dos despertos. Acontece que tal pesadelo se tornou realidade para os mineiros chilenos, que aguardam o trabalho de formiguinha, - ou seria de minhoquinha?-, de uma broca gigantesca que, se tudo der certo, vai salvá-los até o Natal. Acontece que agora eles serão testados diariamente, e todos os sentimentos humanos, e até mesmo os desumanos, virão à tona. Medo, desespero, revolta, resignação...
Tal situação extrema foi vivida por milhões de negros nos infectos navios negreiros em numerosos séculos de ignorância e certamente aconteceu com outros milhões nos campos de concentração na Segunda Grande Guerra, antes da “solução final”. Há alguns anos a TV também noticiou que dezenas de militares soviéticos estavam presos no núcleo de ferro de um submarino nuclear, que acabou sendo o esquife para todos eles, uma vez que o resgate não pôde acontecer.
A ficção também se incumbiu de mostrar essa condição em diversos filmes. E um, em especial, merece ser citado. “A montanha dos setes abutres” mostra o drama de um mineiro preso numa mina americana. Um jornalista sem escrúpulos prolonga desnecessariamente o sofrimento do operário em troca da possibilidade de aparecer na “rede nacional” contando o drama na TV. Não demora para a cidadezinha do mineiro atrair milhares de pessoas. Até um parque de diversões se muda pra lá. Enquanto isso, soterrado pelas pedras que despencaram das paredes da mina e pelo oportunismo do jornalista, o mineiro padece. E sua morte comove os americanos.
Nas imediações do acidente da mina chilena também tem muita gente. Centenas de parentes, familiares e amigos dos mineiros se reuniram para introduzir via sonda mensagens de conforto até os confins da caverna esculpida pelos homens. Pedidos de casamento soergueram-se dos calabouços, declarações de amor para casais já arruinados pela rotina também. E muita esperança.
Serão quatro meses até que sejam resgatados, todos eles, que, diante da filmadora que viajou através do duto, são capazes de brincar com a tragédia que os envolve. Até quando esperar? Até quando as palavras sagradas poderão dar conforto? Até quando eles permanecerão lúcidos? E, principalmente, até quando é seguro garantir que a tal broca chegará a seu destino final?
Você tem que... Ver: O excelente documentário que conta a história do Wilson Simonal, “Você não sabe o duro que dei”.
Ouvir: Faro, o mais recente álbum do músico belo-horizontino Vander Lee e Árias, o lado crooner do Djavan
Guardar para citar: "O brasileiro não tem medo do fim do mundo. Tem medo é do amanhã"- Jean Delumeau, historiador francês
Conhecer: Montes Claros no mês de agosto. É quando carroceiros e sapateiros viram estrelas, viram mestres dos festejos, e quando caboclinhos, catopés e marujos mostram que a cultura popular resiste às imposições da mídia.
Linda foto de Júnia Rabelo
Comente aqui: Sexta-feira, Agosto 06, 2010
Hoje recebi a notícia do falecimento de Tio Bira, por isso compartilho novamente um texto que fiz em homenagem a ele:
Tio Bira e seus oitenta anos
“Saudade, um lenço roxo lá distante, na curva do caminho, a tremular. Um riso amargo, um peito soluçante, um olhar triste em busca de um outro olhar”. Era com poesia que começava os programas românticos comandados pelo radialista Ubirajara Toledo na rádio Sociedade ZYD-7. O popular Tio Bira comandou programas como “Clube do Tio Bira” e “Pingos de saudade”, além do vigoroso e combativo “Tribunal da opinião pública”.
Ubirajara Ferreira de Toledo, que conheci pessoalmente quando fiz o trabalho experimental da faculdade de Jornalismo há quatro anos, nasceu em Juiz de Fora no dia dois de setembro de 1929. Começou na imprensa em 1949, na rádio Tiradentes e trabalhou também em jornais impressos dos Diários Associados e na TV Industrial. Paralelo a seu trabalho na imprensa, Ubirajara era funcionário público federal. E foi nestas condições que ele foi transferido para Montes Claros. Atendendo a um convite de João Teixeira Bastos, ingressou no quadro de locutores da rádio ZYD-7 em 1962.
Ainda nos tempos de Juiz de Fora, discursou para Assis Chateaubriand, o jornalista mais influente da história do Brasil. Foi secretário fundador da AMAMS, Associação dos Municípios da Área Mineira da Sudene, e liderou diversas campanhas sociais. Teve seu trabalho reconhecido pela Câmara Municipal de Vereadores, que em 1980 concedeu-lhe o título de Cidadão Honorário de Montes Claros. Em 2003, o ex-radialista voltou a ser laureado com um título de Cidadão Benemérito, oferecido, outra vez, pelos vereadores, em nome do povo de Montes Claros.
Esse texto, escrito por um mero aprendiz de radialista, se propõe a homenagear o grande Tio Bira e lembrar que no próximo mês de setembro ele completa oitenta anos. Acredito que seja uma efeméride das mais justas. Tomara que o atual prefeito, que foi radialista, preste uma nova e merecida homenagem em nome do povo de Montes Claros, a esse comunicador que tanto contribuiu para nossa cidade e para o rádio mineiro.
Contrariando a máxima de Nelson Rodrigues, que afirmava que toda unanimidade é burra, Tio Bira se locomove faceiro por aí, acarinhado e admirado por seus pares e pelo público, que um dia teve a honra de tê-lo por perto, através de sua voz, emanada nas ondas médias e um tanto roufenhas da ZYD-7.
Lembro-me de ter lido no site www.montesclaros.com que Tio Bira pretendia se mudar para sua terra natal, Juiz de Fora, depois de tantas décadas em Montes Claros. Não sei de seu atual paradeiro, se ele está na terra de Itamar ou aqui na terra de Mestre Zanza, mas certamente estará sempre em um local onde a melancolia e a solidão não podem entrar: os nossos corações.
Tio Bira, pouco antes de voltar para Juiz de Fora
Você tem que: Refletir: "Chegamos tão perto da árvore da ilusão que os sonhos voaram"- Mário Flecha
Conhecer uma das melhores cenas de espadachins do cinema: A última de “Scaramouche”
Se emocionar: She, com Charles Aznavour, ou com Elvis Costello
Experimentar a maior emoção da vida: ter um filho
Comente aqui: Quarta-feira, Julho 07, 2010 Um mimo para os leitores de meu blog: Capítulo inédito de meu livro "Almagasta"
Nos meses de setembro e outubro os ipês floridos rebentavam por toda parte e cobria de amarelo e rosa todos os cantos da fazenda, em especial a alameda que dava acesso à casa-grande.
A via, pavimentada com pedras geometricamente encaixadas, era constituída em suas margens, por palmeiras imperiais e uma dúzia de ipês, que emprestavam ares palacianos ao casarão colonial da estância, que se destacava por suas paredes brancas e suas mais de vinte janelas frontais, dispostas em dois andares.
No oitão outras dezenas de janelas se perfilavam e muitas delas eram ornamentadas com flores vistosas, regadas todas as manhãs pelas serviçais da fazenda. A sede tinha mais de quarenta cômodos, contando com dezoito quartos.
Na frente do casarão duas imponentes escadas, apontadas para lados opostos, ressaltavam a beleza e o luxo da habitação. Em uma das encostas estava o lustroso canhão inativo, talvez à espera de um outro canhão, que o coronel não se cansava de procurar, mas sua busca teimava em se mostrar infrutífera.
Não era possível notar nenhum traço de sujeira ou abandono, por menor que fosse, em qualquer cantinho da fazenda, mesmo se um visitante se esforçasse para descobrir eventuais escorregadelas no capricho zeloso das serviçais. A fazenda era como as luxuosas botas do coronel, limpa e reluzente.
Entretanto, havia algo de jocoso naquele homem riquíssimo, que nunca fora visto sorrindo por ninguém naquelas redondezas, exceto quando ele ouvia os programas humorísticos da Nacional em seu enorme rádio de válvulas, cercado pelo séquito de dezenas de empregados, em seu enorme alpendre apinhado de samambaias, orquídeas e outras plantas ornamentais.
O coronel era visto como um homem justo em alguns particulares e extremamente maldoso noutros. A sua sanha por terras, onde pouco importava os meios empregados para convencer os eventuais vendedores, se encaixava nesta última característica. Mas havia um quê de benevolência também, só que essa faceta era discreta demais para se destacar.
Ele mandara construir uma capela para os agregados de sua fazenda, na Vila dos Colonos, mas nunca pisara as botas encomendadas no Pantanal por lá.
As negras que moravam na fazenda só podiam fazer suas preces a São Benedito nas dependências da minúscula capela. Jamais na sede da fazenda, nem em seu imenso terreiro. Eram ordens expressas do coronel, que não queria saber de rezação com ele por perto.
O coronel amparava o povo da região, como seus serviçais tratavam de divulgar, pagando dez centavos a mais que os outros fazendeiros nas diárias dos lavradores que plantavam e cuidavam das diversas culturas de sua fazenda.
Para as lidas diárias eram necessários muito mais serviçais que aqueles que moravam na Vila dos Colonos. Por essa razão eles chegavam de longe e se arranjavam em Jatobá, onde um bairro sem nenhuma estrutura abrigava-os.
O bairro era chamado pelos detratores do coronel - que não eram poucos - como bairro das Almas Penadas, já que, além das péssimas condições, o bairro era vizinho do cemitério do pequeno arraial. Não havia água nem esgoto tratado. Viviam numa penúria de dar dó e o coronel fazia vista grossa e ouvidos moucos para essa situação.
A maior parte das casas do bairro fora construída incluindo o muro do cemitério como uma de suas paredes, muitas vezes a única, uma vez que a habitação era concluída com folhas de coqueiro trançadas e lonas pretas, entregues por um político mau intencionado que foi lá certa vez, com a autorização do coronel, e deu-lhes aquele paliativo infeliz.
O político, em seu périplo por votos, fez questão de almoçar em latas de banha nas casas dos agregados do coronel, embora estes tivessem bons pratos e talheres em suas modestas residências. O encantamento foi imediato. Finalmente eles estavam diante de um deles, um político que falava a língua simples daquele povo. Mas, depois de eleito, o tal deputado nunca mais pisou os pés na fazenda. Só as tais lonas pretas ficaram pra trás, lembrando o infortúnio de se votar em políticos mequetrefes como aquele.
O coronel não movia uma palha sequer por aquela gente, que vivia à sua sombra.
Apenas a imensa fazenda despertava verdadeiramente sua benevolência e sua atenção.
Para morar nas dependências da Fazenda das Almas era preciso obedecer algumas regras claras: o coronel mantinha, na Vila dos Colonos, apenas famílias onde pelo menos três pessoas trabalhassem. Se o chefe da família morresse, e só ficasse a mulher e um filho adolescente, esses tinham que deixar a propriedade.
Nessas ocasiões, o coronel abria uma disputada vaga e uma família eleita se mudava do bairro das Almas Penadas para a Vila dos Colonos.
Para seu lugar, no bairro arruinado, provavelmente se mudaria a viúva e o filho daquele que tivera o azar de morrer e deixar de ser útil para o delírio do coronel, que sonhava comprar toda aquela região até abocanhar beiradas de seu estado natal.
Tal expediente cruel fazia com que crianças trabalhassem como adultas para cumprir a cota de produtividade exigida pelo fazendeiro.
Muitos moradores pobres de Jatobá, em número superior a sessentas miseráveis, se dirigiam até o curral da fazenda, no fim de cada dia, para buscar o leite, muitas vezes talho, que sobrava da manufatura de queijos, doces e requeijões. Evidentemente que essa oferenda somente era sacramentada depois que os robustos porcos da fazenda se fartassem de tanto leite. O leite que sobrava, portanto, era distribuído gratuitamente, mas o coronel pedia a seus empregados que lembrassem o povo que no ano seguinte teria pleito para governador, e que era, como sempre, para apoiarem o candidato que ele escolhesse.
O povo nunca decepcionara o prócer matuto, que se tornara o fiel da balança nas eleições que aconteciam naquela região norte das Minas Gerais. E seu poder era tanto que, muitas vezes, políticos importantes da capital, e seus automóveis empoeirados, em turnê pela região, passavam os fins de semana na sede da fazenda, inclusive senadores e um ex-governador, que pretendia retornar ao Palácio da Liberdade, na longínqua Belo Horizonte.
Apesar de apreciar a política com seus sucessivos êxitos eleitorais, o coronel jamais se candidatara a qualquer cargo eletivo. O fato da sede do município em que sua fazenda estava instalada ser na distante Grão Mogol o levou a preferir controlar os votos de uma região extensa, que ia de Jatobá até os arredores do estado da Bahia, de onde viera ainda na juventude.
O processo eleitoral era totalmente controlado pelo coronel. A única urna da região era instalada na sede da fazenda, e os criados do fazendeiro recebiam as cédulas devidamente preenchidas com o voto no candidato que ele apoiava naquele pleito.
O mesmo não era possível fazer com os eleitores de Jatobá e, por isso, o coronel lançava mão de pequenos gestos como distribuir o leite de graça para conseguir seus índices invejáveis de votação, que beirava, obviamente, a totalidade.
O poder dos votos de cabresto que ele arregimentava na época das eleições era tanto que os políticos mandavam generosas quantias em dinheiro, antes e depois das contendas, para o coronel, como forma de retribuí-lo pelo apoio imprescindível.
O fato de o fazendeiro preferir apoiar homens ao invés de ideologias ou partidos fazia com que seu apoio fosse disputado a preço de ouro, seja pela situação ou pela oposição.
Quem pagasse mais teria os votos de Jatobá e região.
Aos moradores da região ele dizia que aquele sujeito da vez era o mais honesto de todos daquela disputa, pois ele sentia cheiro de gente honrada de longe. E as pessoas votavam sem contestar e sem ao menos conhecer o rosto do candidato.
O coronel não permitia que ninguém colasse nas paredes das casas da Vila dos Colonos qualquer tipo de santinho de candidatos. Só precisavam saber o número do sujeito, e nada mais.
Candidatos que, a julgar pelas condições do abandonado bairro das Almas Penadas em Jatobá, não moviam uma palha sequer para aquela gente sofrida, que convivia com as privações da fome e da seca todos os dias.
Excetuando-se, evidentemente, aqueles que se alimentavam da fortuna descomunal do coronel, nem que fosse apenas das migalhas que se desprendiam de sua imensa riqueza, e que caíam desabridas no solo magicamente fértil da Fazenda das Almas.
Certa vez, ao ouvir o coronel comentar que o voto era secreto, um capataz da fazenda indagou-o sobre o nome do candidato da vez em que ele iria votar.
O serviçal estivera fora da Vila dos Colonos nos últimos meses, após conduzir uma imensa boiada ao mangueiro mais distante do coronel, e não ficara sabendo o nome do candidato a prefeito de Grão Mogol que ele apoiava naquele pleito.
O coronel, após matutar por um instante, comentou:
- Mas como é que você quer saber o nome do candidato, se o voto é secreto? Ora...
Filtro: Citação do dia: "A TV é um grande instrumento de cultura. Toda vez que alguém liga um aparelho eu saio da sala e pego um livro"- Grouxo Marx
Filme do dia: Amarcord- Do mestre Fellini
Música do dia: Sing- Travis
Comente aqui: Quarta-feira, Junho 23, 2010 Chega de pisar macio
Estou lendo um livrinho da série "Pra gostar de ler", o de número 23, que traz uma preciosa seleção de crônicas de Stanislaw Ponte Preta, pseudônimo no qual se escondia o jornalista Sérgio Porto. O que começa na página 100 é um achado. Stanislaw diz que em um café, tinha uma porção de sujeitos de diversas naturalidades. Havia brasileiros, portugueses, alemães, franceses e outros. Logo um alemão desafiou qualquer um naquela espelunca. Bem, Stanislaw não diz que o café era um pardieiro. Esse detalhe ficou por minha conta. Mas vamos continuando.
Respondendo à provocação do alemão, surgiu um turco tão grande quanto o "comedor de chucrutes". Então, o alemão deu uma traulitada tão forte que derrubou o turco. Depois, ele repetiu que naquele lugar não havia homem para desafiá-lo no braço. Nesse instante, surgiu um inglês "troncudo pra cachorro", como imaginou Stanislaw. Esse também levou uma bordoada que o quase levou para a "Cornuália”. E assim, o alemão foi derrubando todos: franceses, noruegueses etc. etc. Nestes etc. vamos colocar também um argentino, apenas para nos vingarmos da postura de Dom Dieguito na Copa. Mas pensando bem, a do Dunga também está péssima.
Pois bem, depois de derrubar todos, surgiu um brasileiro, "magrinho e cheio de picardia", como descreveu o Ponte Preta. O brasileiro, cheio de bossa, se aproximou do alemão e levou uma porrada na cabeça, que quase desmontou.
Bom, a história do Stanislaw acaba nesse exato momento. Assim mesmo, com o brasileiro "perdendo essa mania de pisar macio e pensando que são mais malandros que os outros". Genial né?
Chico Buarque sonhava, não sei se sonha ainda, em seu Fado Tropical, que o Brasil um dia poderia se tornar um "imenso Portugal". E essa afirmativa, desprovida de qualquer ranço "colônia versus metrópole", seria uma sina notável para nós, diante da crescente imbecilização de nosso país. Mas, infelizmente, o Brasil caminha a passos largos para se tornar um "imenso Paraguai", com suas calçadas cheias de muambas, com seus roubos de cargas e de automóveis e sua muy eficiente classe politíca. E depois os portugueses é que são sacaneados através de piadinhas infames, que os rotulam como burros. Quem serão os idiotas afinal?
Filtro- Para mostrar que existe poesia até mesmo no som enfadonho das vuvuzelas
CINEMA: Gostei demais neste mês de "Um sonho possível", "Preciosa", "O livro de Eli" e "Rock n´Rolla"
MÚSICA: Outros carnavais- Disco do vocalista da Banda de Pau e Corda, Sérgio de Andrade. Coisa fina.
LIVRO: O último que li foi "O fantasma de Canterville", de Oscar Wilde
ENTREVISTA: Fui entrevistado sobre literatura:
Clique aqui e leia
Comente aqui: Terça-feira, Maio 11, 2010 Quando o lead derrota a lide
Estávamos em minha casa em Serranópolis de Minas. Provavelmente era época de férias escolares. Uma certeza: éramos crianças elétricas, que brincavam de pique-esconde indiferentes à ameaça dos videogames manifestada naqueles tempos nos jurássicos Ataris. Depois de correr pelas ruas do então distrito de Porteirinha a voz imperiosa da mãe chamava pra dentro da casa. E na sala modesta outra vez brincávamos, de stop, jogos de tabuleiro, em especial o onipresente ludo. Outra certeza: uma vez aboletados na sala ninguém deveria reparar na TV ligada, ainda mais que havia tantos brinquedos espalhados pelo chão.
A atração exibida era um telejornal vespertino. Ou seria de manhã? A imprecisão do passar do tempo eclipsa os detalhes, mas não retira a força da frase proferida pelo garoto enquanto assistia a TV. Sim, pelo menos uma das crianças estava vidrada na imagem do apresentador engravatado. O homem era Sérgio Chapelin, e a criança era eu. “Um dia estarei na TV como esse moço aí”, eu disse.
Noutra ocasião, e essa de fato me recordo, brinquei com minha irmã Graziela de apresentar telejornal, improvisando uma caixa de papelão como se fosse um monitor. Eu me enfiei dentro do objeto e dei as notícias, com voz impostada como faziam os apresentadores. Minha única telespectadora certamente gostou, embora talvez ela nem lembre disso.
O fato é que sempre sonhei em trabalhar com comunicação, mesmo sem saber o que um jornalista faz. E hoje, passados mais de trinta anos desde que vim ao mundo na maternidade de Porteirinha, posso dizer que alcancei este objetivo. Trabalho na InterTV, afiliada Globo em Montes Claros, cidade que me acolheu há quinze anos.
Uma carreira sólida no rádio da região precedeu minha ida para a TV. Trabalhei na Independente FM de Porteirinha e nas duas principais emissoras de Montes Claros: 98 e Itatiaia. Antes da InterTV, tive uma experiência na televisão, no programa “Revista Geraes”, da TV Geraes, e certamente foi um excelente laboratório, mas nada que se compare com o atual momento.
Hoje me aventuro neste veículo cheio de mistérios ao qual ingressei ciente de que nada sabia. E continuo não sabendo quase nada, passados mais de um mês de minha estréia. Esta aconteceu em um dia pouco recomendável para alguém que preza a verdade e faz dela o dínamo de seu ofício: primeiro de abril.
E como fui afortunado neste primeiro mês de trabalho. Tive a honra de trabalhar com excelentes repórteres cinegrafistas, companheiros inseparáveis na lida direta com as notícias. Desde o tranqüilo Geraldo Humberto ao espevitado Messias Braga, passando por Robert, Xandão e Marcelo Pimenta. E todos eles acrescentaram muito ao meu trabalho, assim como os editores e produtores.
Neste primeiro mês deparei-me com todo tipo de matéria: acidentes prosaicos de trânsito, cobertura do esforçado Funorte no futebol, shows musicais, atividades ecológicas, falta de medicamentos e vacinas nos postos de saúde, animais soltos em bairros periféricos, mau cheiro advindo da Estação de Tratamento de Esgoto em outros, denúncias de desmandos em cidades da região, visita ao presídio da cidade onde os presos não condenados irão votar nas próximas eleições, a morte de uma moça da Bahia possivelmente vítima de dengue hemorrágica.
Mas a principal pauta foi, sem dúvida, a campanha surpreendente do Montes Claros na Superliga de vôlei. Em função do vôlei aconteceram coisas incríveis para um repórter iniciante. Saíram matérias minhas no Bom Dia Minas e no Globo Esporte e também no canal SportTV, emissora por assinatura que pode ser sintonizada em todo Brasil. E o vôlei também me levou a São Paulo, para a primeira viagem interestadual que fiz, na cobertura da grande final. Foi na cobertura do vôlei também que fiz meu primeiro “vivo”, situação em que o repórter entra ao vivo no telejornal via link. Na ocasião entrevistei o diretor do time, Vítor Oliveira.
Certamente foram situações ricas, e todas elas com sua carga particular de complexidade, mas teve uma situação específica que me mostrou o quanto o trabalho do jornalista pode ser dinâmico e desafiador. Eu e Messias Braga estávamos entrevistando os torcedores do Montes Claros na partida decisiva em casa contra o Brasil Vôlei, nova nomenclatura do Banespa, que fez história no voleibol nacional dos anos 1980. A partida foi uma batalha épica de cinco sets, mas eu e Messias só vimos o primeiro, pois fomos surpreendidos pelo telefonema da redação: “Parem tudo aí e sigam direto para o Delfino Magalhães. Aconteceu um duplo assassinato lá”.
No Ibirapuera
Para a partida de vôlei foram escaladas duas equipes, e Cácio Xavier e Robert ficaram lá. Eu e Messias seguimos, feito corisco, para o populoso bairro. E lá chegamos pouco depois que os assassinos, em número desconhecido, invadiram uma casa e mataram dois jovens. O crime foi mais um tenebroso capítulo da disputa por pontos de distribuição de drogas em Montes Claros. Eu e Messias, com autorização da polícia, entramos na cena do crime, e pude notar o quanto as drogas podem aniquilar a vida de alguém. Um dos mortos, de vinte anos, tinha uma folha corrida de pelo menos oito assassinatos nas costas, e o outro, um rapazote de dezoito anos, acabara de ganhar a maioridade há apenas três dias. A cena do crime, com drogas e dinheiro espalhados, dificilmente se dissipará de minha cabeça.
E foi lá que vi uma cena horripilante. O celular de uma das vítimas tocando e vibrando de maneira alucinada na poça de sangue que se formou sob o corpo cravejado de balas do jovem traficante. Quem seria do outro lado da linha? Uma mãe zelosa preocupada com a dor no peito que lhe dizia algo sobre seu filho? Ou um playboy da classe média pedindo mais uma entrega de crack em sua casa do bairro Ibituruna ou São Luis? Nunca saberemos. O policial não atendeu a chamada. Enquanto o perito não chega nada pode ser tocado. Nunca havia visto uma pedra de crack em minha vida, e logo vi umas seiscentas, segundo a PM.
Eu e Messias colhemos diversas sonoras com policiais e moradores da pacata rua escolhida para servir de depósito para as drogas de uma das duas facções do crime em Montes Claros. Foi justamente a outra facção que disparou mais de cinqüenta tiros na chacina, que poderia ser ainda maior, já que havia pelo menos cinco pessoas na casa. Dois fugiram e outro foi atingido e levado, acompanhado pela polícia, ao hospital. Eu e Messias ainda fomos para o hospital e só fechamos a matéria por volta da meia noite, quando ficamos sabendo que o Montes Claros havia vencido o Brasil Vôlei por três sets a dois e que estava na semifinal da Superliga, onde enfrentaria o poderoso Sada Cruzeiro, de Betim. Se no ginásio a cidade se sentia vitoriosa, ali, relativamente perto, estávamos perdendo de goleada para a violência.
No dia seguinte a cobertura do vôlei foi brilhante, com a matéria de Cácio, mas a minha matéria sobre o crime também se fez presente mostrando que precisamos dar uma cortada definitiva na violência sob pena de perdemos essa luta no tie break. Por enquanto a minha impressão é que já perdemos os dois primeiros sets.
Essa foi a principal experiência do primeiro mês, juntamente com a viagem a São Paulo, onde fiz uma inspirada passagem no ônibus da torcida quando atravessávamos a divida de Minas e São Paulo na Serra da Mantiqueira. Passagem no linguajar jornalístico é quando o repórter surge no video e seu nome aparece nos créditos.
A matéria foi, modéstia à parte, muito boa e reforçou a idéia que mesmo perdendo a final, o time, e a torcida, deveriam se orgulhar do feito. Chegar numa final de Superliga no primeiro ano de existência de clube é algo para se comemorar. E isso foi feito. E a InterTV, que apostou no time desde o início, tem uma grande parcela de responsabilidade pelo fenômeno que o Montes Claros se tornou nas quadras e nos corações de milhares de pessoas no norte de Minas. Por isso os jogadores e a comissão técnica eram sempre tão atenciosos conosco. Para mim foi uma honra participar deste momento.
A equipe da InterTV em São Paulo
À guisa de justificativa para o título aparentemente maluco desta crônica, cabe-me esclarecê-lo: no linguajar jornalístico existe a palavra lead, que sintetiza nos famosos “O que”, “Quem”, “Quando”, “Como”, “Onde” e “Porque”, qualquer tipo de notícia. Basta respondê-las e teremos um texto conciso e preciso, puramente jornalístico. No Direito temos a questão da lide, que é justamente qualquer situação em que as partes disputam o que quer que seja. É o embate, o choque de opiniões, o que justifica a existência de processos, julgamentos e sentenças.
Eu curso Direito, mas resolvi trancar minha matrícula neste quarto período, pois julguei que não daria conta de tanta responsabilidade. Vale registrar que também trabalho na assessoria de comunicação do CAA, além do já citado trabalho na InterTV. E Direito deve ser feito com esmero, pois se trata de um dos cursos mais difíceis que tem por aí. Por isso o título da crônica.
Agora o que quero é crescer cada vez mais no conhecimento de jornalismo televisivo e galgar os espaços para os quais eu for merecedor, ciente que tenho muito trabalho, e responsabilidade, pela frente. E que cada vez mais tenhamos notícias alvissareiras no esporte, e na vida em geral, e cada vez menos notícias policiais. É este o meu desejo, quixotesco é verdade, mas não devemos nunca perder a fé em nossos semelhantes.
Filtro- Coisas que valem a pena conferir
Filme: O surpreendente "Os infiltrados", do Scorsese
Música: No Brasil dominado pelo rebolation o melhor antídoto pode ser:
01- Evacuation, tion tion- Pearl Jam
02- Satisfaction, tio, tion- Rolling Stones
03- Just my imagination, tion, tion- Stevie Wonder
e outras...
Mais um podcast pra você:
Comente aqui: Sexta-feira, Abril 02, 2010 Revirei meu baú de espantos literários e me deparei com uma crônica que, à epoca, saiu na imprensa de Montes Claros. Resolvi reeditá-la. Ao final explico as razões.
Do Tibete a Serranópolis
Em uma aldeia no norte do Tibete uma jovem mãe que acabara de perder seu único filho, saiu correndo pelas ruas da cidade, levando nos braços o corpo inerte do menininho de um ano. Ela foi direto na casa do líder espiritual da aldeia e pediu ao sábio que lhe desse um remédio que pudesse "curar" a morte de seu filho. O sábio aconselhou-a a procurar uma semente de mostarda em uma das casas da aldeia onde nunca tivesse ocorrido uma perda. Com as sementes, o sábio pretendia fazer um chá para resgatar a criança da morte. A mãe saiu correndo pelas ruas empoeiradas da aldeia em busca da tal semente de mostarda. Mas em todas as casas as pessoas diziam: "Aqui já perdemos muita gente", "Semana passada perdi meu velho pai", "Eu também perdi um bebê como o seu há alguns anos". Então, a mãe entendeu a lição do velho sábio. Ela voltou até a casa do velho e disse: "O sofrimento me deixou cega a ponto de achar que era a única pessoa a sofrer nas mãos da morte".
Bom, é possível tirar duas conclusões dessa pequena introdução. A primeira é que o Paulo Coelho deve conhecer essa passagem da sabedoria milenar, essa e outras 378 mil, e que ela deve aparecer em algum de seus livros de auto-ajuda, a segunda, e mais importante, é que não devemos deixar essa espécie de egoísmo diante da dor universal influenciar nossa maneira de ver os fatos. A morte é inevitável, e ponto. Se bem que quando somos bafejados por seu hálito mortífero sentimos que estamos carregando um fardo insuportável. Mas isso também não é verdade. Não sei bem de onde, mas o fato é que a vida continua nesse país de 3° Mundo mesmo depois da morte de um presidente ou daquele seu avô que luta contra a "doença ruim". A vida simplesmente não seria completa sem esse detalhe macabro. "Nascer, crescer, reproduzir e bater as botas", lembra?
Pois é, o que me levou a escrever sobre esse assunto para o blog foi uma notícia que li no jornal "O Norte" de Montes Claros sobre um estupro que aconteceu em Serranópolis de Minas, onde um rapaz de 26 anos estuprou uma anciã de 84. Para mim essa notícia teve um sabor mais amargo ainda, porque eu conheço tanto a vítima quanto o estuprador. E quando a informação, que por si só já é terrível, é acrescida de fisionomias, cheiros e lembranças da infância, isso se torna ainda mais aterrador. Eu nasci em Serranópolis e minha família mora lá. A senhora que foi vítima dessa barbaridade provavelmente é freguesa de meus pais, que são comerciantes desde sempre na minha "pequena aldeia", e o rapaz que cometeu o crime é meu conhecido de infância.
Essa notícia me levou a refletir sobre as escolhas que temos na vida. Optar pelas escolhas erradas é, seguramente, a forma mais rápida de nos aproximarmos do "grande vazio". Pois perder gradativamente sentimentos como educação, gentileza e respeito nos enreda cada vez mais numa existência vazia, e ter uma vida vazia equivale a morrer.
E se a morte é mesmo inevitável, e nesse particular ninguém parece discordar, o mais importante é que tornemos os nossos dias os mais agradáveis possíveis. Aquele velho receituário para uma vida saudável que prega que devemos fugir do stress, evitar a ingestão de gorduras, exercitar-se fisicamente e manter a mente sempre ativa, é extremamente importante. Mas eu acrescentaria que cuidar da alma, fazer trabalho voluntário e se importar com os problemas dos outros também é essencial.
Por isso, gostaria de "pedir a benção" para a senhora que foi seviciada em Serranópolis, como forma de mostrar todo o respeito que ela merece, e, ao contrário do que nossos sentimentos urgentes possam indicar, desejo uma recuperação para o jovem. Que algum dia ele possa perceber as coisas boas da vida e se emendar. Porque precisamos ter sempre esperança, - eis aí mais um item do receituário que eu já ia me esquecendo-, pois as escolhas estão aí bem debaixo do nosso nariz, e ser bom ou mal, útil ou inútil, só depende de nós.
Santo Agostinho, um dos grandes sábios do cristianismo, disse certa vez que a "medida de amar é amar sem medida". Só nos resta concordar.
Adendo necessário: Publiquei novamente a matéria porque o rapaz que cito aqui morreu no ano passado. Depois de ficar preso alguns meses ele voltou pra Serranópolis e continuou a se equilibrar na corda bamba do destino. A corda se rompeu, porque se o acaso protege quando andamos distraídos, é prudente esticar uma rede de segurança em algum lugar. Igreja, família, sei lá.
Filtro- Dicas absolutamente necessárias sobre assuntos até mesmo desnecessários Música do dia: Grace- Jeff Buckley
E tem mais um programa com o melhor da MPB pra você:
Filme do dia: Caché
Citação do dia: "Há pessoas que transformam o sol numa simples mancha amarela, mas há também aquelas que fazem de uma simples mancha amarela o próprio sol"- Pablo Picasso, mas até poderia ter sido dita por outro Pablo, o Neruda.
Pixels: Enquanto isso em um dos inacreditáveis programas das madrugadas:
Comente aqui: Quarta-feira, Março 03, 2010 Último suspiro
Uma crônica com esse nome em tempos de dinheiro na meia para os lados de Brasília só poderia mesmo se tratar do famigerado “Mensalão do DEM” e a derrocada final do ex-Governador Arruda, que não se safou nem com toda a arruda e pé de coelho do mundo. Mas, contrariando essa tendência, eu preferi dirigir este texto para um aspecto mais interessante: você já imaginou qual será a última frase que você dirá nessa vida, antes de abotoar o paletó? Pesquisando sobre esse assunto, digamos, fúnebre, descobri histórias interessantes envolvendo alguns grandes talentos de nossa humanidade e de que forma eles partiram desta para uma melhor.
Os primeiros relatos de palavras comprovadamente ditas por figuras históricas em seu leito de morte remontam ao ano de 399 antes de Cristo, quando Sócrates “cingiu a túnica”, já que naquele tempo ainda não se “abotoava o paletó”.
O grande filósofo disse uma frase apropriadamente socrática: “Eu devo um galo a Esclépio, você vai se lembrar da dívida?”, perguntou a um discípulo segundos antes de empacotar.
Outro grande pensador, Platão, morreu em 347 antes de Cristo. Ninguém registrou a fase lapidar em si, mas diversos discípulos afirmaram que ele morreu agradecendo por ter nascido homem, grego e no mesmo século de Péricles. Se começamos essa lista com dois exemplos de seres humanos notáveis, o mesmo não se pode dizer de Nero que, além de seu apreço pela pirofagia, mostrou-se também um grande arrogante, ao anunciar “Que grande artista o mundo vai perder!”.
François Rabelais divide os biógrafos. Alguns dizem que por ocasião de sua morte, em 1553, ele teria dito: “Desçam as cortinas, a farsa acabou”. Outros dizem que a frase derradeira teria sido: “Estou indo para o grande talvez”.
Outras frases ditas na hora H: “Vou ver o sol pela última vez”, Rousseau. “Me deixem morrer em paz”, Voltaire. É curioso lembrar que esses dois últimos morreram no mesmo ano, 1778, mas demonstraram reações diferentes diante do desconhecido.
O filósofo Denis Diderot, seis anos depois, ao bater as botas, disse “O primeiro passo rumo à filosofia é a incredulidade”, filosofou antes de dar o último suspiro.
Entre os poetas as últimas frases costumam ser verdadeiros achados. Um bom exemplo é o tuberculoso John Keats, em 1821, pouco antes de esticar as canelas: “Graças a Deus ela chegou. Já sinto as flores crescendo em cima de mim”. Lord Byron, em 1824, no entanto, apenas anunciou que iria dormir e não acordou mais. O adeus de Goethe talvez seja o mais conhecido: “Mais luz!”, teria dito o gênio alemão, que escrevia seus livros em pé numa escrivaninha alta que ele mandou fazer especialmente para facilitar essa maneira sui generis de criar.
O escritor O. Henry, pseudônimo usado por William Sydney Porter, disse algo parecido em 1910: “Acendam as luzes! Eu não quero ir para casa no escuro”. O idealista absoluto Hegel, desencarnou com uma conclusão tristonha: “Só um homem conseguiu me entender... e ele não me entendeu direito”. A incredulidade, e uma pitada farta de niilismo, também se fez presente na passagem de James Joyce: “Será que ninguém entende?”.
Edgar Alan Poe morreu como um personagem de seus contos, pedindo a Deus que tivesse pena de sua alma. O filósofo Thomas Carlyle, em 1881, desdenhou a morte: “Então morrer é assim? Ora...”. Henry James aparentemente encontrou alguma resposta na hora de comer alface pela raiz: “Então é isso, enfim as coisas distintas...”.
Oscar Wilde, em 1900, pediu um drinque, disse que estava morrendo como sempre vivera, além de suas posses, e cruzou a fronteira. Para quem achava que apenas o supérfluo era necessário, essa despedida foi coerente.
O escritor russo Tchekhov se empirulitou de maneira sublime, dizendo “tin tin”, após erguer um brinde de champanhe. Outro grande escritor russo, Tolstoi, expirou perguntando como os camponeses morriam. George Bernard Shaw ficou indignado com a insistência da enfermeira em mantê-lo vivo: “Você está tentando me manter vivo como uma curiosidade, mas eu acabei, estou no fim, estou morrendo”. Ele estava certo. D.H. Lawrence foi exatamente o contrário. Ele se virou para o médico e disparou: “Acho que estou me sentindo melhor”. Não estava.
Aqui no Brasil também temos ótimas histórias de últimas frases ditas. Eu não sei exatamente qual frase Vinícius de Morais possa ter dito, mas é conhecida a história do “poetinha” que, hospitalizado, conseguia seu uísquinho sagrado subornando as enfermeiras com poeminhas inéditos. Para quem achava o uísque o melhor amigo do homem, a ponto de considerar a bebida o cachorro engarrafado, é muito fácil entender as razões do parceiro de Tom em bebericar até o momento de subir para o degrau de cima.
Machado de Assis teria sussurrado: “A vida é boa”. Graciliano Ramos sentenciou: “Estou acabado”. Sérgio Porto apagou pedindo à empregada que não olhasse para ele.
José do Patrocínio Filho, herdeiro do jornalista e romancista José do Patrocínio, disse: “Doutor, não é melhor eu mamar?”. Nesse caso, eu reconheço, é preciso explicar as razões de uma frase tão lapidar no momento em que a cortina da vida se fechou para o intelectual. Condenado a tomar leite humano, como último recurso da medicina, já que nenhum outro alimento lhe apetecia, e percebendo a dificuldade da ama-seca em extrair de seus belos seios o líquido precioso, o nosso Zé não titubeou e deu sua idéia para o médico. Não teve tempo.
Quando estava finalizando essa crônica, ainda no feriado de Carnaval, lembrei de quando o Jô Soares entrevistou o impagável Miéle em seu programa. Como o assunto da conversa, em um determinado momento foi justamente sobre a morte, Miéle disse que em sua lápide estará a seguinte frase: “Absolutamente contra a minha vontade”. Espero que alguém tenha um gravador por perto quando uma figura destas esticar o pernil. Com certeza vem coisa boa por aí.
Antes de finalizar essa crônica eu gostaria de me desculpar pela grande quantidade de metáforas, algumas de gosto duvidoso, usadas para caracterizar a morte. Creio, de verdade, que é necessário despir a morte de tantos subterfúgios, lugares-comuns e assombros poéticos, por que no fundo a morte é morte mesmo, e acabou. Literalmente.
Filtro- Pra mostrar que a vida pode ir além das aparências Citações do dia: “Uma vida inútil equivale a uma morte prematura”- Goethe
“O melhor amigo do homem é o Google. O Google é o cachorro computadorizado”- Essa frase é minha e ninguém tasca.
Pixels: Flagrante em Montes Claros
Filme do dia: “O sétimo Selo” - filme de Bergman onde a morte é convidada para um jogo de xadrez.
Música do dia: Baixe mais um programa com as 100 melhores músicas da MPB, segundo a prestigiada revista musical Rolling Stone e este humilde blog:
Comente aqui: Quinta-feira, Fevereiro 04, 2010 Um passeio no coração sofrido das Gerais
No último mês de janeiro, já findo graças à incansável sanha do tempo, iniciei um novo trabalho. Agora me dedico às assessorias de comunicação do CAA, Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas, e da AMA, Articulação Mineira de Agroecologia.
O CAA é uma ONG respeitadíssima, que se esforça há quase 25 anos para assegurar melhor qualidade de vida aos pequenos produtores rurais de comunidades tradicionais do Norte de Minas. Vazanteiros do rio São Francisco, índios xacriabás, comunidades quilombolas e geraizeiros, entre outros, se enquadram neste rol de prioridades do CAA. Trata-se de um trabalho sério, com muitos serviços prestados ao povo, sobretudo o mais humilde, da região.
Uma das minhas pretensões neste ano de 2010 é não trabalhar em rádio, coisa que fiz na maior parte de minha vida até aqui. Refiro-me a trabalhar em uma emissora, uma vez que alguns dos trabalhos que consegui para este ano incluem, justamente, programas radiofônicos, para prefeituras, Câmaras Municipais e o próprio CAA. Mas este trabalho em “rádio” será um trabalho prazeroso, feito nos cinco dias da semana que Deus planejou para trabalharmos. Deixando os fins de semana para descansar, viajar e outras coisas que fiquei tanto tempo praticamente impedido de fazer graças ao trabalho diário em uma emissora.
Criança da comunidade de Araruba
Mas vamos ao que interessa, logo no meu primeiro dia de trabalho no CAA fui escalado para fazer uma visita ao tradicional Brejo dos Crioulos, comunidade quilombola que se localiza no vórtice de três municípios do Norte de Minas: São João da Ponte, Verdelândia e Varzelândia. A luta e os costumes daquela gente já foram estudados em teses de mestrado, doutorado e são bastante conhecidas também fora dos anais acadêmicos. Mas era a primeira vez que eu iria conhecer in loco tal realidade e qual não foi a minha surpresa ao me deparar com algumas das pessoas mais gentis que conheci na vida até agora.
Sim, são os quilombolas do Brejo dos Crioulos. Esta denominação abrange os moradores de algumas comunidades como Caxambu, Furado de Modesto e Orion, todas nas redondezas. Mas é como Brejo dos Crioulos, nome forte e acolhedor, que eles se uniram para lutar.
Saímos de Montes Claros na fumaça do dia, quando o alvorecer anunciou uma quarta-feira de sol. No carro do CAA, além de mim, estavam Carlos Dayrell, Adriana Rocha e minha querida ex-colega de Jornalismo, Helen Santa Rosa, que precisou se despedir de seu filho de apenas seis meses, deixando-o com a avó, antes de pegarmos a estrada. Ócios do ofício.
A atenção do pai e da filha na reunião
Chegamos à comunidade de Araruba por volta das 10h da manhã, após sacolejarmos durante mais de três horas em estradas de asfalto e de terra. Ao chegarmos conheci uma figura muito divertida chamada Nequinha. Ele vive fazendo gracejos, alguns incompreensíveis, e truques de mágica, estes muito bons. Além de possuir uma inocência comovente, Nequinha é uma espécie de guia, quando ciceroneia os visitantes pelas entranhas do território quilombola já reconquistado na justiça. Uma ínfima parte daquilo que eles, efetivamente, são merecedores.
Tudo lá é simples. As casas, as acomodações para as reuniões, os hábitos. Mas nesta simplicidade esconde-se uma notável vontade de viver e de se libertar das amarras da injustiça. Os pioneiros da região, que viviam em um quilombo nos tempos árduos da escravidão, prezavam por sua liberdade, e os descendentes destes escravos, alguns bastante estudados e escolados na vida, se dedicam ao mesmo metié tantos anos depois.
A luta parece nunca cessar. Os capitães do mato de hoje são ricos fazendeiros que se apossaram da terra há muitas décadas acenando com suas falsas escrituras, expropriando os moradores de suas campinas férteis e de seu jeito de viver, confinando-os em lugarejos empoeirados, sem horta, sem plantação. Lugarejos como Araruba.
Criança quilombola na janela
Mas a alma dessa gente clama por justiça e liberdade, como diz a música do Grupo Agreste: "Pois quem nasceu pra ser guerreiro não aceita cativeiro". E eles foram à luta. Já reconquistaram um naco importante da suas antigas terras e esperam que o STJ, onde foi parar a pendência, possa autorizar a ocupação de todo o território.
Enquanto isso não acontece a luta continua. Tive a honra de ser chamado por eles de "aliado", de ter almoçado sua comida simples e salgada, de ter fotografado seus filhos e seus pais e ter conhecido "Seo" Elizeu, um negro retinto, de quase 80 anos, com seus olhos faiscantes e vivazes e uma energia invejável. Basta informar que sua esposa ainda está na casa dos 20 anos e o casal tem filhos ainda pequerruchos. Ao final da visita, devidamente municiado de fotografias e emoções, ainda fui presenteado com uma garrafa pet até o gargalo com fava, uma delícia produzida por lá. Uma gentileza de "seo" Elizeu para seus amigos e "aliados". Não precisava.
Conhecer essa gente batalhadora foi o melhor presente que podia ganhar.
Comente aqui: Terça-feira, Janeiro 26, 2010 Um livro e uma ilha deserta alguns anos depois
Há alguns anos eu colhi os frutos da enquete que propus aos leitores do blog e resolvi reeditar esta crônica neste nosso espaço digital. Para quem não lembra, eu fiz a pergunta clássica da ilha deserta: "Se você fosse pra uma e pudesse levar só um livro, qual seria?". Citei o renomado crítico inglês Harold Bloom, que disse que ficaria entre a Bíblia na tradução do rei James, as obras completas de Shakespeare, e o "romance dos romances", Dom Quixote, de Cervantes. Pois bem, não posso dizer que houve uma tsunami de e-mails na ocasião, mas os que chegaram até mim trouxeram bons subsídios para este texto. Foram quatro opiniões, todas elas femininas e das mais supimpas.
A primeira foi de minha amiga Genecy Adaime, de Porto Alegre. Ela citou o livro "O Rubayat", de Omar Khayyan que, para ela, tem uma "estética consisa e objetiva, e transita pela filosofia e poesia com naturalidade e elegância". Uma ótima opção, portanto, para aquelas tardes em que os mosquitos do tédio atacarem em nossa ilha solitária.
A jornalista Railda Botelho citou a autobiografia do também jornalista Samuel Wainer, "Minha razão de viver". Criador do jornal Zero Hora e ex-marido de Danuza Leão, o magnata do jornalismo tem mesmo boas histórias a nos contar.
A locutora Michelle Parron, que emprestava seu talento e seu vasto conhecimento às saudosas quintas jazzísticas da Rádio Unimontes, em Montes Claros, sugeriu o livro "Macunaíma", de Mário de Andrade, um clássico de nossa antropofagia surgida com a "Semana de 22". O herói, ou anti-herói, brasileiro desprovido de qualquer caráter está em voga atualmente, se é que deixou de estar em outros momentos e, portanto, é sempre atual.
Outra sugestão foi da publicitária Ana Luisa Tomé, minha amiga virtual. Ela tinha, à época, uma das profissões mais legais que eu conheço. Imagine alguém ser pago para assistir aos filmes do cinema. Sim, não se trata de ganhar convites apenas, mas sim ser pago para ver as peripécias de Kidmans e Cruises por aí. E como nessa ilha não há cinemas, a Ana disse que levaria "Nem mesmo todo o oceano", de Alcione Araújo. Um livro, segundo ela, anti-entediante.
Todas essas respostas foram interessantes, mas a solução mais original que recebi foi a da também jornalista Camila Chaves, minha esposa, que disse que levaria o livro "Como construir uma jangada em sete dias". Assim ela poderia atravessar o oceano da imaginação, chegar ao continente e pegar todos os livros que pudesse e, desta forma, povoaria de sonhos os dias tediosos de nossa ilha. Ilha essa que, se prevalecesse minha opinião, seria habitada por pessoas agradáveis e espirituosas como Genecy, Railda, Michelle, Ana Luisa e Camila e seria cercada por bons livros por todos os lados. E eu numa tarde qualquer, aboletado numa rede branca, comentaria vendo o sol se pôr: "Essa é a vida que pedi a Deus".
E você, qual livro levaria? Comente
Citação do dia: "É melhor vencermos a nós mesmos, do que ao mundo"- Jean Paul Sartre
Música do dia: Poucas coisas são tão agradáveis como ouvir os CDs de Billie Holiday
Filme do dia: Macunaíma- de Joaquim Pedro de Andrade
Pixels:
Comente aqui: Sábado, Janeiro 16, 2010
Um brinde especial!
Estou saindo de férias, mas deixo pra vocês, meus fiéis seis leitores, um presente. e conferir o melhor da MPB, segundo a Rolling Stone. Aqui as posições de 80 a 71.
É SÓ CLICAR AQUI
Comente aqui: Sábado, Janeiro 09, 2010 Um novo trono na MPB
Em uma recente viagem de carro ocorreu-me de ouvir um álbum chamado “duetos” de Roberto Carlos. O que se seguiu na audição mais ou menos atenta foi um CD cheio de altos e baixos. E acho que estas características simplistas são úteis para entender a carreira daquele que, para muitos, é o “Rei”.
Se por um lado o álbum, que tem faixas pinçadas nos indefectíveis e inevitáveis especiais de fim de ano na TV, tem momentos brilhantes como quando Roberto canta com seu parceiro Erasmo um medley de rockões sessentistas como “tutti frutti” no especial de 77 e quando ele passa uma quase descompostura em Tom Jobim no dueto de Ligia do especial de 1978, tem também momentos bobos e pouco inspirados como na canja com Ivete Sangalo e com Chitãozinho e Xororó, para citar apenas dois.
Este é o problema de Roberto Carlos, a falta de maior critério em suas escolhas. Seja no repertório insuportável que ele adotou desde os anos 80 com suas xaropadas românticas e músicas religiosas e, o que é pior, com as verdadeiras derrapadas artísticas como nas músicas bobas dedicadas a gordinhas, baixinhas, mulheres que usam óculos, mulheres que tem o pé grande e outras que não merecem nem uma nota de roda-pé em sua biografia. Biografia que ele, aliás, censurou.
O mencionado álbum ainda traz um emocionado Raimundo Fagner dizendo que sua carreira deslanchou após Roberto ter gravado “As velas do Mucuripe” no início da carreira do cantor cearense e outros bons momentos como os duetos com Milton e Caetano Veloso. Mas a inexpressiva Ivete Sangalo deixa claro que a opção do cantor e compositor capixaba é nivelar a todos no mesmo patamar. Patamar que, a julgar pela presença inacreditável de uma certa banda chamada “Calcinha Preta” em seu último especial de fim de ano, ficará ainda mais mal freqüentado daqui pra frente.
Juro que presenciei a presença desta “banda” no especial do cara. E ainda por cima tive o desprazer de ver o “diálogo” que se seguiu. Roberto perguntou para uma das vocalistas porque o nome da “banda” era Calcinha Preta e não Calcinha Azul, como seria de seu agrado. Depois os “músicos” atacaram com o tema da Norminha da novela Caminho das Índias.
É Roberto, você valia muito e eu gostava de você. Principalmente do roqueiro dos anos 60 que queria que tudo fosse para o inferno a bordo de seu calhambeque e de seus álbuns de soul nos anos 70, mas lamento profundamente seu ocaso.
Portanto para mim, depois de analisar com acuidade a carreira dos grandes nomes da MPB vou eleger um novo “Rei”, levando em conta a qualidade de suas letras, sua postura diante dos anos de trevas, a maravilhosa Literatura que ele nos premia desde o fim dos anos 90 do século passado e também por sua coerência artística. Chico Buarque de Holanda, você é, pelo menos pra mim, o verdadeiro “Rei” de nossa música.
Adendo necessário: Antes que os fãs de Ivete Sangalo me atirem ovos na rua gostaria de explicar o “inexpressivo”. Ela tem inegavelmente muita beleza, carisma e uma bela voz, mas sua escolha de repertório é péssima. Ela poderia fazer, por exemplo, como Daniela Mercury, que entre um e outro disco bobo de axé se lança em vôos mais arrojados como no excelente álbum “Clássica” ou nos flertes com a eletrônica. Mas Ivete não. Ela deitou-se no panteão da música, está milionária e só grava música boa quando é convidada por gente como Zé Ramalho e o grupo Roupa Nova para dar as caras em duetos improváveis. E só.
Quanto ao Calcinha Preta, não é necessário nenhum comentário adicional. A banda é de um empresário. Os “vocalistas” são substituídos quando ficam velhos, como no antigo Menudo e seu sucesso é uma das coisas mais tristes de nossa música. E ainda tem coragem de afirmar que é uma banda de forró. Forró é aquela música feita por Gonzagão, o resto é lingerie barata.
Filtro- Dicas para derrubar os deuses da mesmice
Música do dia: O novo CD do U2 é realmente inspirado. Vale a pena.
Filme do dia: O excelente "O escafandro e a borboleta"
Comente aqui: Terça-feira, Dezembro 29, 2009 Beber até cair?
Consta no antigo livro "Observações médicas doutrinais de cem casos gravíssimos", de 1727, e que foi escrito pelo praticamente anônimo João Curvo Semedo, alguns remédios curiosos contra o crescente hábito da "bebedice", que assolava as terras brasilis em seu tempo. Uma dessas medidas era servir ao bebum o "suor dos companhões de um cavalo, quando este estiver suado". Companhões são, justamente, os testículos do animal. Estranho? E que tal servir ao ébrio "vinho em que se afogaram duas enguias vivas" ou "vinho em que se misturou um pouco de esterco de homem".
Se essas duas últimas opções pareceram também disparatadas, o que dizer de servir um "copo de vinho em que deitaram uma fatia de pão que estivesse duas horas no sovaco de um agonizante". Pois essas observações médicas acerca dos hábitos da colônia mostram que a bebida sempre esteve presente no dia a dia de nossa história. Basta lembrar que a aguardente brasileira, conhecida por jeribita pelos africanos, foi o principal produto de troca por escravos nas feiras e portos da África central desde o século XVII.
Em fins de ano como esse no qual nos despedimos de 2009 costumamos exagerar na jeribita, mas ainda bem que a indústria farmacêutica providenciou o engov e outros paliativos diminutos, do tipo que cabem no bolso da camisa para nos dar a certeza de que 2010 começará sem dor de cabeça.
E será um ano importante em termos macros, com Copa do Mundo e eleições presidenciais, e em termos micros, afinal que data mais apropriada para começar a cuidar da saúde e entrar numa academia ou passar a fazer caminhadas do que um ano começado com 00? Não vejo outra melhor, e pretendo incluir uma vida mais saudável em minha rotina no ano novo, com mais atividade física e menos noites mal dormidas e jeribitas. Pretendo também ver mais filmes bons, como o excelente “A vida dos outros”, e ler mais livros, como aqueles que figuram em minha pilha a serem lidos. E pretendo trabalhar menos, pelo menos salvaguardando os fins de semana. Durante nove anos eu trabalhei nos fins de semana e agora, desvencilhado do trabalho que me obrigava a isso, pretendo viajar mais, sorrir mais e tentar fazer de 2010 o melhor ano de minha vida.
Convido você que lê esse texto a fazer o mesmo. Se nossa Medicina deixou de lado as crendices e é umas das melhores do mundo, pelo menos do 3° mundo, significa que é possível evoluir em todas as áreas do conhecimento. Por isso movimente-se. Os anos 10 vem aí.
Filtro- Dicas para tornar a vida menos previsível Citação do dia: "Estragamos nossa saúde brindando à saúde dos outros"- Não conheço quem disse isso, mas concordo inteiramente.
Música do dia: Sonnet- The Verve
E abram alas para o novo podcast Brasileiríssimo:
Filme do dia: Já que o assunto aqui foi, de certa maneira, o alcoolismo, vale assistir a "Despedida em Las Vegas", com uma monumental interpretação de Nicolas Cage. Talvez a única de sua carreira.
Blog que indico: Tambores dos Montes
Comente aqui: Segunda-feira, Dezembro 21, 2009 A arte nossa de cada dia
A arte é, por natureza, novidadeira. E mesmo que essa palavra não exista, aí está a novidade. É desta forma, com os neologismos do Rosa e com a as novas formas de criação, que a arte se renova em um processo contínuo. Quando João Gilberto sacou seu violão e começou a tocar de maneira diferente, surgiu a Bossa Nova. Quando Godard subverteu os preceitos estabelecidos do cinema e tirou a câmera do pedestal e a levou nos ombros surgiu a Novelle Vague. A novidade, desta forma, assegura o sucesso e a permanência de uma expressão artística.
A imaginação é imprescindível no processo de criação. É preciso "dar asas à imaginação", sem, por exemplo, cair em um desses lugares comuns.
A poesia, eis aqui um caso exemplar, não pode ser feita, definitivamente, por qualquer um, embora muitos pensem que suas bobagens sentimentais possam merecer essa distinção. A poesia é algo grandioso, capaz de caracterizar a importância dos povos e das nações. Assim sendo, temos o Chile de Neruda e a França de Rimbaud.
Um crítico norte americano, terra de Ezra Pound e T.S. Elliot, disse que um poeta é grande pela qualidade e pela diversidade de sua obra, quando ele é capaz de olhar o mundo em sua riqueza. Por isso, a poesia é indispensável. O grande poeta Manuel Bandeira disse certa vez que ele não fazia poesia quando ele queria e sim quando ela, a poesia, queria. E ela sempre queria, ou quer, em momentos improváveis.
Existem também os insights, -êta palavrinha boba-, que nos acometem e são responsáveis por momentos como o Poeminha do contra de Quintana: "...Eles passarão, eu passarinho", ou o riff de Starway to heaven do Led Zeppelin. Momentos de inspiração ímpar, algo mediúnico, quase divino. Mas momentos assim só premiam quem se esforça como um Hércules, como dizia o cientista Pasteur, "o acaso só favorece aos espíritos preparados".
Então, não espere que o sucesso caia do céu. Tenha em mente a máxima dos 90% de transpiração e 10% de inspiração. É este o nascedouro das grandes pinturas, dos avanços da medicina, das poesias, dos filmes de Kurosawa, e toda forma de expressão humana. Mas nunca é demais finalizar com um velho clichê: "Nada substitui o talento".
Filtro- Tá chegando o ano novo. Vamos refrescar as ideias em 2010! Música do dia: Young boy- do velho Macca
Filme do dia: Houve uma vez dois verões
Citação do dia: "O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia"- Do grande Millôr Fernandes, diagnosticando que a corrupção estará suspensa no Brasil durante a Copa do Mundo no ano que vem, já que as pautas do JN e congêneres se limitarão a mostrar os jogos. A corrupção não dá audiência nessas situações futebolísticas.
Pixels: Pintura criativa em uma área de fumantes de um bar
Comente aqui: Quinta-feira, Dezembro 17, 2009 Um surto de sinceridade
Consta que o humorista Groucho Marx mandou um bilhete para um escritor que havia lhe enviado seu primeiro livro para sua apreciação. O bilhete dizia: "Do momento em que o peguei, até a hora em que o larguei, seu livro me fez rolar de rir. Um dia pretendo lê-lo". Achou mordaz né? Pois é, quase sempre a sinceridade dói pra caramba. E uma de minhas proposições para 2010 é ser sincero. "Duela a quien duela", como diria o Collor, ex-presidente de triste memória. Já começo exercitando meu surto de sinceridade dizendo que a maioria esmagadora dos políticos são canalhas. Isso não é nenhuma novidade. Mas é preciso guardar numa agendinha o nome de todos os personagens do mensalão do PT, do valerioduto tucano, do recente mensalão do DEM em Brasília e de todos os outros escândalos recentes, para no ano que vem darmos o troco. Não é possível reeleger gente assim.
O meu surto de sinceridade também vai sair do âmbito da política e penetrar em todas as áreas. Se alguém me perguntar, por exemplo, se gosto de funk porque é a música que a mídia empurra como sendo a do momento, eu direi que repudio esse tipo de modismo, e funk pra mim continua sendo aquela música feita por George Clinton e James Brown, e não falamos mais nisso. Se me perguntarem se gostei da nova comédia da Jennifer Aniston ou do X-Men 4 ou do Transformers 3, direi que vejo cinema como arte e não como um espetáculo sem idéia, produzidos em série como numa linha de montagem.
Ainda bem que temos diretores atuais como Gus van Sant, Lars von Trier e David Lynch, para citar apenas alguns, que nos salvam e nos salvarão dessas trevas, e nada mais.
Pois é, a sinceridade que sempre esteve comigo, agora será meu GPS, minha bússola e meu dínamo. Mas talvez sem o sardonismo de Groucho Marx, pois assim poderia conquistar alguns desafetos, mas firme o suficiente para dizer que o mínimo não me interessa, assim como não me convém música tola, cinema vazio e políticos canalhas.
Filtro- Para seguir a máxima de Antunes, “Abre-te cérebro” Filme do dia: Dogville
Música do dia: Viva o grande Lobão. Tive a honra de apresentar o show dele em Janaúba. O cara continua mandando muito bem. Ao contrário do público de
Janaúba. O público foi aquém do esperado. Ouça "Uma delicada forma de calor" e se emocione.
Lobão estraçalha
Eu e Camila no show
Fazendo a abertura do show
Outa novidade musical é que saiu o segundo podcast com as 100 melhores músicas de todos os tempos, segundo a revista Rolling Stone. Fique à vontade para fazer o download. É só clicar na figura aí:
Citação do dia: "Um amador pensa que é engraçado vestir um homem como uma velhinha, sentá-lo numa cadeira de rodas e dar um empurrão na cadeira, pra que ele desça uma ladeira feito uma bala e se esborrache contra um muro de pedra. Um profissional sabe que isso tem de ser feito com uma velhinha de verdade"- Frase do profissional Groucho Marx.
Comente aqui: Quinta-feira, Dezembro 10, 2009 Impressões acerca de meu próximo livro
O fantástico argentino Jorge Luis Borges dizia que "pensar é o prazer mais complexo que existe", e escrever é incutir idéias onde antes só havia o silêncio das linhas em branco. É dar vida a personagens tão emblemáticos como a Capitu de Machado ou a Madame Bovary de Flaubert, é criar cidades fictícias como Macondo de Marquez ou a Tubiacanga de Lima Barreto, é erigir um pequeno mundo, como um Deus chinfrim, alinhavando diálogos e esculpindo palavras com o formão de um hábil carpinteiro das letras, ou pelo menos com o esforço hercúleo de um profissional honesto de repartições públicas diante do mistério das letras.
Apesar de trabalhoso, escrever é reconfortante, é prazeroso. Saber que algo que você escreveu na solidão de seu quarto, cercado por seus vinis, livros e fantasmas, encontra repercussão em alguém é o melhor prêmio que pode existir.
O projeto de meu próximo livro, um romance, está bastante avançado, pois antes de expô-lo ao julgamento público é preciso esculpi-lo como um ourives faria com uma pedra bruta na qual tanto pode está um belo diamante em seu interior, ou um pedaço de vidro sem nenhuma relevância. O lapidar é justamente a busca, a incessante arte de cortar, de ajustar, de fazer o "masoquismo das palavras", como algum escritor sentenciou certa vez. E depois de tirar leite das pedras é só esperar, afinal, o sumo, a essência, o tutano, a matéria viva fina que chamamos de arte literária, se é que ela efetivamente dará as caras em “Almagasta”. É este o nome da obra, que está sendo corrigida e devidamente pitacada pelo poeta do acaso, Damião Cordeiro.
Mas antes de chegar ao paraíso da notoriedade na literatura, panteão dificílimo de se alcançar principalmente no nosso país de não-leitores que chegam até mesmo às faculdades, é preciso despir-se, entregar-se e acreditar muitas vezes no imponderável.
Eu li certa vez que se você quiser ficar rico escrevendo, escreva o tipo de coisa que pessoas que movem os lábios quando lêem, leriam. É preciso certa dose de "mediocridade estudada" para ser um escritor de bests sellers nestes tempos de auto-ajuda, de quem mexeu no queijo de alguém, dos mil conselhos para se tornar rico, de Paulo Coelho, da Stephenie Meyer e da J.K Rowling.
Oscar Wilde dizia que para ser popular é preciso ser medíocre, ou algo assim, e isso continua válido até hoje, ainda mais com o advento de garotas de programa que cismam de escrever, e ex-participantes de reality shows que cismam de atuar.
Depois da poesia, agora quero me aventurar no romance, nem que seja para descobrir que na verdade sou apenas um jornalista esforçado, ou nem isso. Mas a vida precisa ser feita de desafios. E meu primeiro livro lançado, de poesia, mostra que não receio tais desafios, sejam eles quais forem.
Se bem que a odiosa falta de leitura dos nossos jovens, geração da qual sempre me recusei a fazer parte, pode gerar uma constante predileção por obras de auto-ajuda, e aí sim, um dia roubarão o nosso queijo, o nosso saboroso queijo camembert da literatura. Neste dia experimentaremos o "doce veneno do escorpião", e morreremos asfixiados implorando por uma dose de James Joyce, de Dalton Trevisan ou de Graciliano Ramos.
Filtro: Para tornar a vida um pouco menos ordinária Filme do dia: Segredos e mentiras, de Mike Leigh- a interpretação da mãe nesse filme é uma das coisas mais pungentes que já vi, aliás o filme todo é assim, humano, insuportavelmente humano
Citação do dia: "Saravá, Sarah Vaughan!"- bela frase do Chico César
Música do dia: Read my mind- The Killers
Pixels:
Comente aqui: Sexta-feira, Dezembro 04, 2009 Abismos insuperáveis e canções impenetráveis
”Absurdos me fariam feliz!", o líder dos Paralamas do Sucesso me cochicha essa estranha sentença em sua música. E depois lista que jogar uma vaca do décimo andar o faria feliz. É a primeira música que ouço nessa quinta-feira de sol. Estamos no fim do mês de novembro, e já abençoados pela chegada da primavera, embora eu ainda não tenha visto as flores que a caracterizam. Aliás, as flores mais belas, a dos ipês, não dão a menor bola para a primavera e florescem em meio à aridez. Talvez seja o melhor jeito para se fazer notar no competitivo mundo vegetal. Talvez esse seja o segredo também do mundo animal, mundo em que compositores esforçados sonham em arremessar bovinos de arranha-céus.
Por acaso me lembrei de uma outra música impenetrável, aquela do Seu Jorge e da Ana Carolina: "Um vendedor de flores, ensinar seus filhos, a escolher seus amores". Trata-se do trecho mais hermético, incompreensível e tolo que ouvi nos últimos tempos. Simplesmente porque não faz sentido. Assim como as músicas do Djavan, do Zé Ramalho e do Jorge Ben. Mas e daí? Eu tenho CDs dos três e ouço Avohai ou Açaí de vez em quando, embora não faça o menor sentido. E o disco Tábua de Esmeralda, do Jorge Ben é um de meus preferidos na MPB. Embora seja incompreensível. Que papo é aquele de gravatas floridas e deuses astronautas?
Mas quem disse que apenas o que é tangível é apropriado? Senão nem nos importaríamos com a chegada da primavera, simplesmente por que não é possível notá-la assim de chinfra, em meio ao cinza das metrópoles. Precisamos recorrer aos poetas e aos compositores para nos fazer sonhar com os jardins da fantasia e com o que há além do horizonte. Quem sabe com as cachoeiras soberbas de Minas, como as Sete Quedas em Serranópolis de Minas ou a do Serrado em Porteirinha, emolduradas pelo mais vistoso dos verdes, onde as pessoas cinzas das metrópoles se refugiam sempre que a agenda permite.
E depois estas pessoas voltam para seus lares, para o rush, para a fumaça, para os dias óbvios e sem nenhuma poesia. E ainda enchem suas mentes com músicas tolas, novelas tolas, papos tolos, atitudes tolas. Sendo, em resumo, um tolo.
O dia sonhado pelo poeta do Amazonas, em que brincaremos com os rinocerontes e sairemos com uma imensa begônia na lapela por aí até que seria uma boa. E pensando bem, absurdos assim me fariam muito feliz.
P.S:Trabalhei este texto na fila do Itaú, enquanto esperava minha vez para ser atendido.
Comente aqui: Domingo, Novembro 29, 2009 Entre a dor e o nada, prefiro a dor
A velhice nunca é vista com bons olhos. Ao contrário, costumamos camuflá-la com quilos de botox e de presunção. Nós, jovens, ou mais ou menos jovens, imaginamos que jamais seremos como aquele nosso avô, cheio de rugas e rancores. E nunca imaginamos que o viço de nossa pele e a clareza de nosso pensamento possam um dia se dissipar. E fatalmente isso vai acontecer, em maior ou menor escala.
É assim o fim de nossa aventura existencial, dessa coisa inexplicável que é a vida e que nos foi oferecida sem nossa anuência. A vida, aos olhos de quem já está mais pra lá do que pra cá, teima em parecer injusta, insuficiente. Mas para uma criança parece ser algo inalcançável, impossível de se imaginar de uma só vez. "80 anos", "60 anos", parecem promessas de eternidade para quem tem uma década de vida, ou menos.
A literatura está repleta de ótimos textos que abordam a velhice. Um conto de Herbert G. Wells, que foge da ficção científica, conta a história de um jovem que é escolhido como herdeiro universal por um velho desconhecido, com a condição de que ele aceite sem reclamar o nome do ancião. No dia seguinte, já de posse do dinheiro e da imensa mansão do velho, ele acorda e olha para as próprias mãos, e elas se tornaram enrugadas. Em seguida ele olha para o espelho: ele se tornara o velho. No mesmo instante ele percebe que o velho agora estava em algum lugar, vivendo sua vida e sua juventude.
Ainda nem que neste particular a velhice, e posteriormente a morte, não fazem a menor distinção entre os seres humanos, nem entre aqueles semi-endeusados como os atores de Hollywood ou da Globo, e o mais humilde dos vendedores de laranja de feira suburbana. Elas são democráticas.
Assim como nenhum dinheiro do mundo é suficiente para se comprar uma Coca Cola melhor do que aquela que o garoto que faz malabarismo nos sinais toma em seus raros momentos de prazer, a velhice também não faz distinção. E Bill Gates, fique certo, bebe da mesma Coca que você e se tornará um velhinho altruísta e cheio de manias. Não muito diferente daquele seu avô, cheio de rugas e rancores.
Já que falei em celebridades, nessa semana eu vi uma foto da Brigitte Bardot que me deu um belo baque, já que a imaginava como a vi numa Sessão de Gala destas aí da TV aberta, linda e sestrosa. Mas ela está exatamente como alguém com mais de setenta anos deveria estar, ou seja, respeitável e antenada com os problemas do mundo, já que é notório o esforço da ex-atriz em defender a ecologia, e sem um pingo sequer daquela sexualidade latente e da beleza hipnótica que a tornaram mundialmente conhecida. Tão diferente da atriz brasileira Suzana Vieira que, ao assumir sua adolescência tardia, também passou a agir como uma garotinha carioca sangue bom, com toda a futilidade e burrice que isso significa.
Nada contra querer se sentir bem consigo mesmo, mas a energia da velhice deve se converter também em sabedoria, e não tornar a última etapa da vida uma alegoria irresponsável e vazia, à custa de botox e outros quejandos.
E foi sob as luzes da ribalta que aconteceu uma história ótima sobre a aceitação e a renúncia frente à velhice. Um ator interpretava durante anos a fio a mesma peça de Shakespeare. E seu papel na trama era de um velho. E todas as noites o ator se maquiava para se parecer com o personagem do bardo inglês. Ele ficou quase vinte anos encenando a peça e, àquela altura, a vida o tornara um velho de verdade, mas ele continuou a se maquiar até o último dia de sua vida, quando foi apanhado por um ataque cardíaco fulminante em pleno palco.
A verdade é que não podemos fazer nada frente à iminente chegada da velhice, mesmo que ela ainda vá demorar um pouco, ou mesmo se ela estiver devidamente acomodada em sua casa, fazendo-lhe companhia nas tardes quentes e solitárias.
Acho que o que dá pra fazer, com o intuito de tornar o fim da vida mais atraente, é ler um bom livro a cada semana, acompanhar com interesse e afeto o crescimento dos netos, viajar sempre que possível e, de vez em quando, tomar uma Coca Cola gelada e em seguida dar uma bela arrotada na cara da velhice, que a essa hora, estará tocando uma sonata de Bach em seu velho piano de cauda.
Filtro- Para você separar o antigo Zé Carioca e seu terninho de cafajeste do Zé Carioca funkeiro que a Disney inventou, segundo este leitor de quadrinhos:
Livro: Nas férias pretendo ler uns cinco livros, nenhum de Direito. Apenas a boa e insuperável literatura. Começarei com "Azedume", de Sylvia Marteleto, mas passarei por Dalton Trevisan, Borges e outros.
Pixels: Música do dia: Caras como eu- Titãs
Filme do dia: Elza e Fred
Comente aqui: Quinta-feira, Novembro 12, 2009 Havia uma mureta no meio do caminho de Léo
No caminho de Léo havia uma mureta. O jovem volante, com seu estilo clássico, boa marcação e liderança natural, granjeara até aquele momento muitos capítulos felizes em sua carreira de jogador profissional. Mas naquela fatídica noite de quinze de maio de 2004 uma distração pôs fim a sua carreira.
Nascido em cinco de janeiro de 1978, Leonardo Alves Rodrigues é natural de Montes Claros, cidade que assistiu a seus primeiros gols ainda menino. Léo demonstrou seu interesse pela bola desde muito jovem, atuando em times amadores como o Cruzeirinho do Renascença, o América do Alto São João e o Colorado do Santos Reis. Logo ele chamou a atenção dos maiores times da cidade à época, Ateneu e Cassimiro de Abreu.
Tantos elogios o levaram a fazer testes nos principais clubes de Minas Gerais, Atlético e Cruzeiro. Um então funcionário da Transnorte, Maria Bonita, providenciou as passagens para Léo e mais dois destaques dos campos amadores da cidade, Du Onça e Cassiano.
Os três amigos, todos com dezesseis anos, foram para a capital levando consigo seus sonhos de meninos e quase nenhum dinheiro no bolso. Eles não tinham ajuda de custo para a breve temporada em Belo Horizonte, e o dinheiro mal dava para eles lancharem e se locomoverem pela capital. Os garotos pela manhã treinavam no Atlético e de tarde no Cruzeiro, ansiosos pela oportunidade de permanecerem em algum deles após a dura semana de treinamentos.
Ao final da peneira no Atlético, Léo e Du Onça foram aprovados. Mas não havia alojamentos para eles na Vila Olímpica. Os rapazes teriam que arrumar, por conta própria, lugar pra morar em Belo Horizonte.
No mesmo dia, uma sexta-feira, saiu o resultado no Cruzeiro: todos os jovens talentos foram aprovados e na Toca da Raposa havia lugares para abrigá-los. Não pensaram duas vezes. Léo e Du eram cruzeirenses desde menino e sentiram imediatamente o quanto aquela oportunidade representava e o atleticano Cassiano teve que se contentar em começar sua carreira no arqui-rival.
Os três foram incorporados ao grupo do infantil do Cruzeiro e disputaram diversos jogos. Mas o destino deles iria tomar rumos diferentes. Du Onça foi dispensado devido a um problema crônico no joelho e logo depois Cassiano voltou para Montes Claros, após o diagnóstico de “deficiência técnica”. Léo permaneceu. A presença dos conterrâneos fazia com que a rotina de treinamentos e concentrações fosse mais amena e a saudade de sua terra natal, tão quente e acolhedora, fosse minimizada.
A realidade de um jogador iniciante é bem diferente da vida de um craque consagrado. Léo não tinha dinheiro sequer para comprar fichas de telefone público para falar com sua família. Seus anseios, medos e conquistas foram relatados em cartas, escritas no silêncio da Toca.
Depois disso sua vida mudou. Integrado ao time junior da Raposa, ele teve oportunidade de conviver, nos primeiros anos da década de 1990, com jogadores que se consagrariam no futebol, como Dida, Giovani, Marcelo Ramos e Ronaldo Nazário, que mais tarde tornaria-se um fenômeno, futebolístico e midiático.
Corria o ano de 1997. Nesta temporada Léo foi convocado para fazer parte do time principal do Cruzeiro, que teria pela frente a Supercopa e a Libertadores da América. Era um volante combativo e inteligente, mesmo tendo somente dezenove anos de idade. O meio de campo titular do Cruzeiro contava com jogadores como Ricardinho, Fabinho e Donizete Oliveira e todas as oportunidades que apareciam Léo agarrava com ardor.
No instante em que o Cruzeiro chegava às fases decisivas da Libertadores, Léo recebeu uma grande notícia: a convocação para a Seleção Brasileira Sub-20. O jovem garoto de Montes Claros chegou ao topo da pirâmide dos sonhos de dez em cada dez boleiros: defender a mística “amarelinha”. Ele o fez com muito profissionalismo, atuando ao lado de jogadores hoje consagrados, como os zagueiros Cris e Álvaro e os atacantes Roni e Alex Mineiro, entre muitos outros.
Entrevistando Léo para essa reportagem no bar de Pedro Cantinflas, em Montes Claros
Léo estava servindo à Seleção, que estava no Chile para uma partida, quando foi informado pela comissão técnica, que ele se tornara campeão da Copa Libertadores, uma vez que o Cruzeiro vencera o Sporting Cristal em uma noite memorável no Mineirão. Léo, que compunha o grupo campeão, curtiu na concentração o feito, não cabendo em si de satisfação. No fundo, claro, ele gostaria de estar no Mineirão e ver os comandados de Paulo Autuori, seus colegas de clube, levantarem o caneco.
Apesar de ter muito potencial faltava ao jogador maior experiência, e o Cruzeiro resolveu emprestá-lo em 1998 para o recém fundado Ipatinga Futebol Clube, do Vale do Aço. Lá Léo ganhou a confiança de todos e chegou ao posto de capitão, levando o time a se projetar em nível estadual. Como havia outros Léo no clube, o montesclarense adotou o “Mineiro” em seu nome profissional.
Um dos orgulhos do jogador era a amizade com o presidente do clube, Itair Machado, descrito por ele como a pessoa que mais o ajudou no futebol. Mas a grande motivação de sua vida Léo obtinha da própria família, que sempre o apoiou. Quando aconteceu o acidente, a força espiritual da família e o suporte oferecido por Itair foram fundamentais em sua vida.
Numa noite de 2004 em Belo Horizonte, Léo Mineiro se distraiu por um ínfimo instante, possivelmente ao procurar seu celular no banco do carona, e seu Polo novinho se chocou violentamente contra a mureta de proteção da Avenida dos Andradas com a Alameda Ezequiel Dias.
Somente sete dias depois, depois de sair do coma, é que o jogador percebeu a gravidade de seu acidente. O volante do carro chocara-se violentamente contra seu pescoço, provocando esfacelamento da laringe, obstruindo-a. O fortíssimo impacto causou traumatismo craniano e mudou drasticamente o destino do jogador. Ainda no local do acidente ele foi submetido a uma traqueostomia, procedimento cirúrgico que estabelece um orifício artificial na traquéia, abaixo da laringe, indicado em emergências e nas intubações prolongadas. As cordas vocais do atleta foram seriamente afetadas. Foi no período de internação que Léo ficou sabendo que teria que abandonar o futebol aos 26 anos de idade, no auge de sua forma física.
Logo após o acidente, com Léo correndo risco de morte, seu pai esteve na residência do presidente do Ipatinga, Itair, quando o dirigente, após prestar toda a assistência necessária ao seu capitão, pediu o RG do jogador. O pai o entregou e ouviu do dirigente que ele entregaria de novo o documento pessoalmente para Léo quando ele saísse daquela situação.
Um mês depois, usando muletas e já usando a cânula chamada de cuff que o acompanha até hoje, e que permite que Léo respire adequadamente, os dois se abraçaram e selaram uma amizade verdadeira.
Até hoje Léo tem excelentes colegas de trabalho no Ipatinga, time que ele aprendeu a amar e respeitar. Claro que a paixão pelo Cruzeiro permanece intacta, ainda mais que foi graças ao time celeste que ele chegou a Seleção e pode realizar o sonho de conhecer diversos países em três continentes. Mas Léo tem o sonho de, no futuro, voltar a trabalhar no Ipatinga, desempenhando alguma função técnica.
Os amigos o apontam como um homem educado, de bom caráter e equilibrado. Apesar de falar com dificuldade em função da cânula, Léo esbanja otimismo quando fala do futuro: “Vou operar em janeiro para retirar esse aparelho que me acompanha. Na verdade sinto saudade de fazer coisas simples, como correr e jogar uma pelada no fim de semana. Se Deus quiser conseguirei reverter essa situação”, sonha o ex-jogador.
A cirurgia em janeiro será feita pelo médico Gabriel Guimarães, a quem caberá devolver a Léo mais fôlego, para que ele possa sentir intensamente o carinho dos amigos e o amor de seus familiares.
Instado a imaginar como seria sua situação hoje, caso não tivesse se envolvido no acidente, Léo afirma que teria permanecido no Ipatinga, teria ganhado o Campeonato Mineiro em 2005 e teria ascendido à primeira divisão do Campeonato Brasileiro em 2007 com o Tigre.
Apesar de seu infortúnio o jogador vê sua carreira como vitoriosa: “Saí de Montes Claros praticamente com 15 anos, tive a honra de jogar no meu time do coração, o Cruzeiro, conheci vários países do mundo, joguei na Seleção Brasileira sub-20, estava no grupo que venceu uma Libertadores. Graças a Deus cheguei muito longe e só tenho a agradecer”- afirma Léo, com a voz vacilante que só aparece depois dele apertar o orifício da cânula.
Hoje Léo vive cercado pelos amigos e pela família. Tem um filho de treze anos de seu primeiro casamento e hoje é casado novamente, com Cristiane Alves Rodrigues. Voltou a morar em Montes Claros e passou a dar muito valor a coisas aparentemente simples, como se sentar com os amigos em um bar e brindar a vida.
O ex-jogador acredita piamente em Deus e atribui a Ele o fato de estar vivo.
Filtro- Para você escolher qual apagão foi pior, o dos tucanos ou o dos petistas, segundo este escriba digital:
Comente aqui: Terça-feira, Outubro 27, 2009 Autorretrato do aprendiz de escritor aos trinta*
Antes de mais nada sou caos. Mas também sou silêncio nas noites regadas a blues. Sou fotografia analógica, sou fusível, sou vinil e filmes em preto e branco. Sou história muito mais que geografia. Sou mil vezes literatura à qualquer tipo de arte. Portanto sou livros, muitos livros. Sou mais livros que cinema.
Sou de fazer listas para tudo, menos para fazer compras. Sou vintage e sou saraus. Sou café forte, muito forte, quente e em boa companhia. Não sou água mineral com gás. Sou cheiro de mofo, sou revistas antigas e sou páginas amareladas. Sou fazer poesias nas madrugadas, sou acordar com cara de sono. Não sou dormir com nenhum barulho, que não seja o eco de meu sonhos.
Sou finais de semana na roça, mas apenas finais de semana. Sou cachoeira muito mais que praia. Sou apenas o pseudônimo do que pretendo ser, e sou anônimo em minha relativa notoriedade. Sou velocidade. Sou informação. Não sou demonstrações de afeto, embora me farte deles. Sou um eterno aprendiz de violão, que está pousado num canto de meu quarto, como um mausoléu de melodias.
Sou hiperatividade cerebral. Gostaria de ser trabalho voluntário. Gostaria de trabalhar menos. Sou começar a malhar, para depois me entregar à ociosidade. Sou viajar. De preferência sem rumo. Mas muito bem acompanhado. Sou Bach, manhãs de domingo, Goethe, Google, Kafka, cerveja gelada, jornais empilhados, papo cabeça, Chico Buarque, cinema europeu, rock, chiado de vinil, Jack Daniels, lojas de conveniência nas madrugadas. Sou as paisagens que vi, as pessoas de cuja companhia desfrutei.
Não sou bate-bocas. Não sou cinto de segurança. Sou jornalismo e sou absolutamente apaixonado por essa profissão. Sou cobrir alguma guerra, embora torça para que elas não aconteçam. Sou Minas. Sou Cruzeiro. Sou Clube da Esquina. Sou jeans. Não sou discutir a vida alheia. Não sou horário de verão. Sou água quente no chuveiro em qualquer estação.
Não sou fanatismo de qualquer espécie. Não sou protocolos. Não sou formalidades. Não sou inveja. Sou escrever. Sou ouvir. Não sou carne. Não sou carência de nenhuma espécie. Não sou saudade. Não sou fantasmas do passado. Não sou Carnaval.
*PS: Prefiro "auto-retrato" a "autorretrato". Essa reforma ortográfica criou algumas palavras muito feias, não é mesmo Cyntia Pinheiro.
Filtro- Para distinguir, se é que é possível, Star Wars de Star Trek, segundo este terráqueo: Filme: Bastardos Inglórios- Pelo menos neste delírio do Taranta a gente se vinga um pouco do pulha do Hitler.
Site do dia:Mande um e-mail pra você mesmo e que será entregue no futuro Livro: Veja que bacana, o Desembargador Tibagy mandou mesmo seu livro de memórias, conforme prometera. Já comecei a ler.
Veja-o em meu cantinho de leitura:
Música: Procure ouvir as novas cantoras Roberta Sá e Mariana Aydar. Não tem contra indicação
Pixels: Abro espaço para mostrar o competente trabalho feito pela fotógrafa de Montes Claros, Gizelle Souto:
A Câmara de Vereadores daquela pequena cidade ficava cheia uma vez por mês. Era quando os edis se juntavam para discutir os assuntos da pauta, apresentar projetos, quase sempre inócuos, como dispor sobre a criação de novas datas municipais e atribuir nomes aos prédios públicos e logradouros diversos. Recentemente havia sido criado o “Dia do Entregador de Leite em Garrafas de Vidro” e o “Dia Municipal dos Lambe-Lambes”, embora essas duas atividades profissionais estivessem extintas na cidade. O último entregador de leite de porta em porta fora, literalmente, atropelado pelo caminhão de uma rica empresa de laticínios que comprava, a preços módicos, o leitinho produzido pelas vacas do município, e o Juca Retratista, que preservara a memória fotográfica do município nas últimas quatro décadas, caíra em profunda depressão depois que inventaram as “tenebrosas máquinas digitais”, segundo seu entendimento. Desde então ele tornara-se arredio e chegava a passar semanas inteiras no meio da mata tirando fotografias de pássaros imaginários, com sua antiga máquina, logicamente analógica.
Um vereador entrara com o projeto de denominar o alambique comunitário recém construído de “Alambique Municipal Jerônimo Pires”, uma homenagem ao farmacêutico prático da cidade, mas o tributo ficara estranho à beça, na medida em que o profissional gostava de exceder-se nos destilados e ganhara, muito a propósito e a contragosto, o nada lisonjeiro apelido de “pudim de cana”.
Em torno dos trabalhos da Câmara gravitavam algumas figuras pitorescas. Uma delas era a “Ana Doida”, que não perdia nenhuma reunião e ficava sempre na última fileira da platéia ouvindo a fala empolada de certos vereadores, transmutando-as em frases de amor em seu juízo desterrado. Ela dizia que todos os vereadores eram seus namorados, com exceção do professor de Letras, Aroldo, que era homossexual militante.
Outra figura que sempre aparecia nas reuniões da Câmara era o Bira, um baixinho irritadiço que tinha um parafuso a menos, assim como “Ana Doida”, mas que, ao contrário da anciã, era dado a falatórios em praça pública, sentindo-se o décimo vereador daquela casa, chegando ao extremo de interromper os verdadeiros vereadores, como da vez em que, ao discordar da fala anasalada do vereador Aroldo, disparou, cheio de si: “Pela orde, excrecência!”
Naquela manhã o presidente da Câmara resolvera discutir o autismo, já que alguns moradores do município padeciam daquela característica. Entre as ideias estava, claro, a criação do “Dia Municipal do Austista”.
Aquele assunto, assim que foi mencionado da tribuna, tirou Bira do sério. Falava-se em valorizar os austistas. Na primeira brecha, ele emendou, lá do meio da respeitável plateia: “Abaixo esse povo alto! Precisamos discutir o baixismo nesta casa, incelença”, disparou.
“Ana Doida”, fez que sim com a cabeça, concordando com aquele pitaco embasado.
Filtro- Para escolher o Rio de Janeiro em detrimento a Madrid, Tóquio e Chicago, meras cidades semiolímpicas, segundo a ótica positiva do COI e deste blogueiro das horas ociosas:
Filme: Linha de passe
Livro: Estou numa fase de imersão no curso de Direito. Por isso tenho lido autores como Fernando Capez e Diógenes Gasparini
Música: Abram alas para o novo podcast "Brasileiríssimo". É só clicar no disco de vinil aí e baixar essa novidade:
Atenção meus leitores. Preparei um presentinho para vocês. Trata-se do novo podcast deste blog. O tema abordado a partir de agora é a MPB. Daqui pra frente sempre que esse disquinho aparecer significa que tem um novo programa com o melhor da MPB, para você baixar. As músicas são criteriosamente escolhidas por mim. Espero que gostem.
É só clicar no disco e fazer o download. Comentem e boa diversão
Sou do tipo que adora programas de receitas na TV aberta. Fico encantado com a habilidade dos apresentadores que cozinham seus pratos com aquela indisfarçável cara de paisagem, entremeada por uma ou outra promoção da Tek Pix, que anuncia que nos “próximos quinze minutos o preço da câmera que tem 37 funções cai pela metade”. A câmera é lastimável, mas as receitas são ótimas. Gosto até das receitas da Ana Maria Braga apesar de achar engraçado o Louro José comentar que deve estar uma delícia alguma ave, prima distante dele nos labirintos da evolução, ao ser apresentada pela loira que confunde fauna e flora e que dá graça, e alguma brejeirice, às manhãs globais em que perco aula na faculdade ou quando o professor de Direito Administrativo não aparece por lá e eu posso sair mais cedo.
Tem ainda a Palmirinha, o Daniel Bork, a Olga, o Eduardo Guedes e outros heróis das caçarolas tupiniquins destilando toda sua sapiência gastronômica. Lembro-me de já gostar de ver tais atrações quando a Ofélia comandava as manhãs modorrentas da Bandeirantes nos anos 1990 e gosto até das atrações da TV paga, mesmo achando que os ingredientes do Oliver são muito exóticos, e caros, para esse jornalista e sua esposa professora de português. Mas de uns tempos pra cá eu e Camila temos apreciado até comida japonesa, apesar da imensa dificuldade para achar salmão fresco em Montes Claros quando tentamos dar vida, como sushimans amadores, a nossas iguarias particulares.
Minhas sobrinhas Isabela e Gabriela são categóricas ao afirmar que “ou a comida é doce ou é salgada”. O conceito de agridoce não faz o menor sentido para elas e, portanto, os bolinhos de arroz oriental com manga ou goiabada devem soar estranhos demais para seus estômagos gorutubanos. Mas desconfio que, com o tempo, elas passarão a gostar também, já que vamos descobrindo novos sabores à medida que crescemos. E assistir a tais programas vespertinos já é um bom começo. Assistindo a uma dessas atrações matutinas comecei a lembrar de fatos curiosos e engraçados envolvendo comida. Desta maneira subverto a máxima dos Titãs: “A gente não quer só arte, quer também comida”. De preferência acompanhada de lembranças familiares e reminiscências infantis, com uma pitada generosa de humor.
Quando estudava Jornalismo e a situação era mais difícil financeiramente, lembro de ter tido o primeiro acesso à comida oriental. Foi quando saboreei meu primeiro miojo. Eu morava em uma república e justamente no fim de semana o gás de cozinha acabou. Como eu estava sozinho no apartamento e não tinha dinheiro para um botijão novo, passei os dois intermináveis dias do fim de semana comendo um troço chamado cup noodles, um miojo vendido em um copo de plástico. Só precisava de água quente e esperar três minutinhos para saborear esse “quitute dos deuses”, budistas evidentemente. E para conseguir tal água era só colocar o chuveiro da república na posição “inverno” e abrir o registro só um pouquinho e despejar a água “quente pelando”, como se diz em Montes Claros, dentro do copão e partir para o abraço.
Neste mesmo período de vacas magras comecei a namorar Camila. Aos domingos almoçávamos juntos. Como eu só tinha dinheiro no fim de semana seguinte ao quinto dia útil de cada mês, - glorioso dia em que íamos ao restaurante Tia Ceiça-, precisávamos ser criativos em nossos almoços dominicais. Camila dividia aluguel com uma moça, que também cursava Jornalismo. Essa moça tinha uma cachorrinha poodle, que raramente saía do quarto, que ela decorava com muitos ursinhos de pelúcia. Eu e Camila preparamos os pratos com esmero, após passar no açougue e comprar dois suculentos bifes. Quando estávamos diante dos pratos, resolvemos que faltava um detalhe importante: uma refrescante Coca Cola de um litro. Pois bem, saímos e fomos buscar o refrigerante na mercearia da rua. O leitor mais atento neste momento já imaginou que a cachorrinha saiu do quarto de fininho e fez a festa com os bifes, não é mesmo? Pois foi a pura verdade. Quando chegamos ela já palitava os dentes, metaforicamente falando, e nós tivemos que nos contentar com o arroz e o feijão que ficara na panela. E foi apenas isso que sobrou, já que na fuga da cachorra, denominada Miúcha, ela esbarrou na Coca Cola que eu deixara na entrada da casa e espalhou o valioso líquido escuro para sempre.
A comida sempre desperta nossos sentidos, inclusive aqueles aguçados pela saudade. Lembro-me, por exemplo, do inigualável bife feito por minha avó Cida, que ainda hoje povoa meu imaginário, a ponto de sentir seu cheiro inalcançável na cozinha modesta e aconchegante de Serranópolis, como se fosse ontem. E olha que já faz algum tempo. A sopa de vó também era divina e meu avô João a sorvia com paixão, fazendo aquele barulhinho que eu adoraria ouvir de novo, mas que na época poderia ser tomado como falta de educação. Que nada, feliz era ele.
Serranópolis de Minas, minha terra
Quando eu era criança em Serranópolis, lembro-me que meus tios de Janaúba, Vilma e Eujácio, ambos serranopolitanos, estavam nos visitando. A visita se deu, provavelmente, no dia de Finados, que em nossa casa nunca foi sinônimo de dia triste. Muito pelo contrário. A casa estava sempre cheia, o café era refeito várias vezes ao dia e sempre tinha panela no fogo, pois nunca se sabia quando algum familiar apareceria, ou mesmo o andarilho João Doido, que sempre nos visitava para alegria de meu pai, que parecia gostar dele.
Eu e meu primo Gustavo, que na época usava um estranho óculos com lentes de cores diferentes para sanar algum problema na visão, ficamos sozinhos na cozinha de casa e começamos a comer uns biscoitos gordurosos que lá em Serranópolis são conhecidos como “fofão”. Não demorou muito para nos desafiarmos para ver quem dava cabo da maior quantidade daquela iguaria enorme. Não me lembro mais quantos comemos, mas sempre que contava a história aumentava um ou dois. Deve ter sido uns vinte biscoitos cada um. Deu empate na disputa. Outra competição, evidentemente, aconteceu depois, quando o objeto mais disputado não eram troféus ou medalhas e sim a louça reluzente do banheiro mais próximo.
De meus tempos de menino lembro com nitidez da primeira vez que tomei Coca Cola. Foi em uma viagem até Montes Claros com meu avô João. Uma das paradas do ônibus era em Capitão Enéas, que na minha cabeça de garoto eu teimava em chamar de “Capitão América”. Lembro-me dos soluços que tive e de minha expressão de contentamento em ter dado conta de uma Coca sozinho. É desta época também a lembrança do doce mais gostoso que saboreei e que até hoje persigo silenciosamente sempre que vou a algum supermercado ou em alguma parada nas viagens. Trata-se de um doce feito com bolinhas de queijo. Uma delícia que comi na fazenda da amiga Maria, no Gerais. Quer dizer, comi uma ou duas bolinhas, já que meu tio Zé Martins, um tremendo glutão, deu conta de praticamente todo o pote.
Nunca comi nada, digamos, diferente, em minha casa, na infância. Minha mãe sempre gostou das dobradinhas, fígados, chouriços e toda sorte de órgãos de bovinos e suínos, sem falar nos “avelinos”, mas humildemente abriu mão de fazê-los em nossa casa. Já meu pai, que, segundo um gastroenterologista, tem o estômago de menino até os tempos atuais, era muito chato pra comer. Nem ovo meu pai come, o que dirá de comidas gordurosas e “exóticas” como moela, coração de boi ou mocotó. Lembro dele contar sobre uma viagem que fazia com um amigo até São Paulo nos tempos da juventude. No restaurante, às margens da rodovia, o companheiro de pai pediu um PF com dobradinha. Meu pai nunca ouvira falar naquele prato e pediu o mesmo. Mas quando ele viu chegar nos braços do garçom um prato imenso coberto com uma espessa cobertura de bucho bovino ele cancelou o pedido na mesma hora.
Outra história parecida aconteceu com meu tio Elizio, que nos primeiros anos da década de 1990 ainda levava trabalhadores para as colheitas do sul de Minas em seu caminhão amarelo, contrariando as leis de trânsito da época. Em uma dessas paradas, Tio Elizio conta que um rapaz, “querendo dar uma de esperto”, pediu para o garçom um PFL. Ele confundira a sigla do então partido com as iniciais do prato feito. Diante do sorriso do garçom, coube a tio Elizio desfazer a confusão: “Lá em Serranópolis a gente chama assim mesmo, quer dizer prato feito com linguiça”. E olha que naquele tempo linguiça tinha até trema.
Por falar nestas aventuras rocambolescas de Tio Elizio e seu caminhão, lembro-me que em 1994 fomos para Bom Jesus da Lapa, a família toda, motivada por uma promessa feita por meu tio, no dorso de seu incansável caminhão 1113 amarelo, como autênticos retirantes da seca em seu “pau de arara”. Claro que depois dos banquinhos duros sob a lona, Tio Elizio reservava, na parte da frente da carroceria, um espaço onde forrávamos com colchões. Era uma festa. E a paçoca que levávamos, e que era sorvida até depois de Guanambi, era muito gostosa. E os peixes saboreados nos restaurantes na cidade de romeiros, localizada na margem direita do São Francisco, também representaram capítulos gloriosos dessa minha odisseia gastronômica.
Minha saga pelas sendas da culinária ainda reservou outras boas paradas. Tenho na família de pai grandes cozinheiras, como tia Santa, dona Zinha e, principalmente, vó Laurinda. No lado materno desponta tia Dei. Grandes cozinheiras, que lapidaram seus talentos natos nas cozinhas de fazendas e nas casas de adobe de antigamente, e que hoje gozam, merecidamente, da fama de “mestre cuca” entre seus familiares e admiradores.
Dupla imbatível, vó Lau e dona Zinha
Certa vez, no curso de Jornalismo, fui pra Belo Horizonte participar de algumas visitas profissionais. Fizemos incursões ao jornal Hoje em Dia, a Assembleia Legislativa, ao Sindicato dos Jornalistas, e outros. Numa noite de folga fomos convidados, eu e alguns colegas, pelo doutor em semiótica Júlio Pinto, que era professor no curso, para dar umas bandas por BH. O programa escolhido por ele incluía um restaurante na Savassi, uma banda de jazz azeitada e um tira gosto original, linguiça com mel. O programa foi ótimo. A banda, que tinha na bateria um ex-integrante da banda roqueira Steppenwolf, deu um show particular. As histórias do professor, que afirmou que conhecera Ella Fitzgerald em um enfumaçado bar de New Orleans, abriu novos horizontes musicais para mim. E o acepipe, que minhas sobrinhas iriam detestar, trazia a tradição da comida mineira com a doçura do néctar das flores. Uma delícia. Só esperávamos que o grande mestre pudesse ser mais generoso na hora de fazer o rateio. Ele pagou seu quinhão, igualmente dividido por umas dezoito almas saciadas, por jazz, papo-cabeça e linguicinha com mel de engenho. Nem um centavo a mais.
Noutras ocasiões, em viagens para o litoral, passei por situações interessantes. Uma foi em Maceió. Eu, Camila e uma turma de Montes Claros estávamos fazendo um périplo pelas capitais e praias do Nordeste quando nos vimos em Maceió na penúltima noite da viagem. Os recursos financeiros do tour já estavam no fim, afinal era o 13° dia de viagem, e optamos por um restaurante modesto próximo do hotel em que estávamos. A diversão foi grande, misturada com risos nervosos, porque o local parecia ser sede do “Encontro Anual das Baratas de Maceió”, pois vimos muitas delas passearem por entre as mesas. Mas, para nossa surpresa, o peixe era muito bom. Um dos melhores que saboreamos na terra do Djavan.
A turma na capital de Alagoas
Por essas e outras é que não perco os programas de culinária na TV. O fato de ter nascido no estado onde se encontra a melhor comida do Brasil também corrobora para essa predileção pelos gostos e cheiros. Montes Claros, onde moro, é conhecida por seu baião de dois, seu frango com ora pro nobis e o tradicional arroz com pequi, algumas delícias que deveriam ser conhecidas por todo o país. Assim como a globalizada comida japonesa, que consumimos com gosto por aqui.
Os detratores da comida oriental, e que não são poucos, poderiam até argumentar que os japoneses usam os tais pauzinhos de maneira equivocada. Bem melhor do que agarrar os alimentos com tais objetos seria juntá-los e fazer uma fogueirinha. Desta maneira o citado salmão deixaria de ser cru e passaria a ser um suculento assado, bem ao gosto do brasileiro médio.
Ainda bem que defendo os sushis, sashimis e rolinhos primaveras que vem do oriente, mas gosto também da comida simples, feita nos fogões de lenha de meu estado. Na verdade não tenho preconceito com comida, só não admito deixar de lado tantas delícias da carne, afinal não cheguei ao topo da cadeia alimentar para me tornar vegetariano.
Filtro- Para separar a Seleção Brasileira do time do Maradona, segundo esse peladeiro eventual:
Filme: A festa de Babette
Livro: Ganhei o 7° livro consecutivo em sete anos de amizade, da querida Emile. Este se chama "O guardião de memórias", de Kim Edwards.
Música: "Não é proibido"- Marisa Monte
Pixels:
Comente aqui: Terça-feira, Setembro 08, 2009 Benícia das latas
Benícia vivia de juntar latinhas. Para ela não tinha tempo ruim. Nem chuva nem sol a impediam de cumprir seu trabalho silencioso, tanto nas ruas, fustigando latas de lixo, como nos shows que sempre aconteciam naquele bairro boêmio onde trabalhava.
Benícia gostava mais dos shows sertanejos. Era quando se jogava mais latinhas no asfalto e também nos cestos de lixo. Ela também gostava de música sertaneja e algumas vezes se permitia olhar um cadinho para o cantor ou a dupla que se apresentava. E chegava a cantar trechos de “Menino da porteira” e “Rio de lágrimas”, que para ela era “Rio de Piracicaba”.
Benícia nunca fora a Piracicaba e a nenhum lugar a mais de cinquenta quilômetros de sua cidade do interior de Minas. Nem quando ela ficara sem fôlego de repente e não havia chá ou unguento que dessem jeito e seu caso hospitalar foi considerado irreversível, ela quis deixar sua Janaúba. “Se você não for se tratar em Montes Claros não vai durar nem seis meses”, predissera o médico, e isso tinha sido há quase cinco anos.
Mas Benícia, naquele dia em que recebeu a notícia, não foi buscar a ficha de internação que o médico colocara a sua disposição no posto de saúde de seu bairro. Era carnaval e ela preferiu ir para a Praia do Copo Sujo recolher suas latinhas. O médico afirmara que o coração de Benícia estava quase do tamanho de um balão cheio, desses de festa infantil. Mas Benícia decidiu, em sua humildade silenciosa, que seguiria com seu trabalho até quando Deus quisesse.
E aquele foi um carnaval especial. Um número bem maior de turistas invadiu a cidade ribeirinha e espalhou latinhas de cerveja por todos os lados. De música baiana Benícia não gostava, e era justamente esse tipo de música que animava o carnaval por lá. Ela era do tempo em que as antigas marchinhas comandavam as folias momescas e, às vezes, em meio ao alarido de jovens beijoqueiros, chegava a cantar baixinho, pra si mesma, essas canções, enquanto juntava suas latas, coberta pelo manto da invisibilidade dos trabalhos humildes.
No fim das contas, na quarta-feira em que tudo vira cinza, e com uma baita dor nas costas, Benícia faturou quase oitenta reais vendendo suas pepitas de latão na usina de reciclagem. Nunca ela ficara com tanto dinheiro no bolso. Neste dia, Benícia comprou um saboroso wafer de morango e, para acompanhar, se deu ao luxo de comprar uma refrescante lata de Coca Cola.
Benícia então se lembrou que tinha um coração grande, do tipo que só faltava explodir, e sorriu resignada. Ela foi a pé para sua casa no bairro distante e sem asfalto. No caminho se deparou com um menininho sujo e magrinho, que levava consigo um pequeno saco de linhagem, onde colocava latinhas de refrigerante e cerveja que encontrava pelo caminho.
Benícia chamou o menino e jogou a lata de Coca para que ele a guardasse consigo. O menino agradeceu e Benícia seguiu seu caminho, arrotando seu wafer de morango e sentindo pulsar, bem ali, sob suas vestes modestas, seu coração grandão.
Filtro- Para acessar o vibrante Twitter e delegar ao limbo o insosso Orkut, segundo este que vos escreve em linhas digitais, tortas evidentemente:
Filme: Mr. Brooks, com Kevin Costner- O título em português é tão bobo que nem me lembro
Livro: O excelente Gomorra, de Roberto Saviano
Net: O blog de Thuany: Música: Em breve novidades na seara da MPB Último Rockcast da temporada Pixels: 7:46 PM
Comente aqui: Quarta-feira, Agosto 19, 2009 Encantos de uma esquina qualquer
Olhos atentos, máquina fotográfica sempre por perto. É assim que costumo andar. Nunca se sabe quando um bom flagrante se desenhará em nossa frente ou quando uma inspiração surgirá, nítida e bela, capturada no ínfimo instante de um clique.
No sábado me deparei com uma mamãe beija-flor, que fez seu ninho na garagem da rádio Itatiaia, onde trabalho. Mesmo com o movimento dos carros e das pessoas ela permanece impassível, aninhando o melhor que pode os dois minúsculos ovinhos sob suas penas de mãe.
Ver um beija-flor imóvel durante vários dias, logo ele que voa freneticamente, é uma cena inspiradora para se dar vida a uma boa crônica. Eu já estava decidido a abordar este assunto, quando apareceu uma outra inspiração, ainda melhor. E foi logo na esquina, literalmente.
No bairro Melo tem uma residência imponente, que se parece com aquelas aristocráticas mansões americanas, nas proximidades da Funorte, e seu jardim é um alento para os olhos cansados que passam diariamente naqueles cantos, inclusive eu que passo pela citada esquina sempre que retorno para casa.
No instante em que passei por lá, após uma manhã de trabalho, vi a seguinte cena. Uma moça vestida com um hábito puído e ocre, sem que ninguém pedisse, cortava minúsculos raminhos apodrecidos de uma palmeira, que se projetava para o lado de fora do belo jardim.
Ela cuidava da planta, que nascera para embelezar aquele jardim distinto, com a mesma acuidade e afinco que a mamãe beija-flor cuidava de seus "filhinhos" no ninho ali perto. E a moça, bonita e recatada, cumpria sua missão com serenidade, contribuindo, com seu gesto anônimo, para deixar a planta, e a mansão, ainda mais viçosa.
A menina-moça era uma dessas jovens que participam da comunidade "Toca de Assis" e suas vestes remetiam imediatamente a um dos santos do catolicismo, São Francisco, cuja história de simplicidade e amor ao próximo continua a inspirar jovens em todos os lugares da Terra.
Ela, como tantos outros que dizem ouvir o chamado de Deus, fazem voto de pobreza e se vestem e vivem seus dias com o máximo de simplicidade que podem. Por isso a cena causou-me tanta admiração.
Aproximei-me com cuidado, com receio de assustar aquele beija-flor divino,
e pedi para registrar aquele momento com minha máquina fotográfica. Momento este que, em sua involuntariedade, se fez tão belo.
O contraste do luxo excessivo da moradia e da simplicidade tocante daquela mocinha, verdadeiramente bonita, embora este adjetivo não lhe deva causar grande impressão, devido a seu voto de castidade, me atingiu profundamente, e me fez escrever essa crônica.
Um pequeno e irrelevante fato para olhares mais descuidados, mas elementos certeiros para se refletir sobre a importância que damos a vida e como ela pode ter significado se vista com o ângulo correto, pelo viés da moça anônima vestida como um padre da Idade Média, que cuidou da planta da mansão da esquina, ou da mamãe beija-flor, que naquele mesmíssimo instante, talvez estivesse pensando na sensação boa de voar, mesmo resignada em sua posição de mãe vigilante.
Lemierre escreveu que "mesmo quando um pássaro caminha, ele sente que tem asas". A frase pode ser adaptada, sem prejuízo algum, para a moça que não disse o nome e que deixou que eu a fotografasse, contanto que a foto não fosse parar nas páginas indiscretas da Internet: "Mesmo com suas vestes simples e seu voto de humildade, a menina sabe que dentro de si tem uma riqueza imensurável".
Filtro: Hora de diferenciar o alagoano Djavan da inacreditável banda Djavu, nova porcaria do mercado a espalhar seus tentáculos por aí:
Filme: Não tive tempo de ver nenhum filme neste período. Uma lástima
Livro: Desatados, nós- Cyntia Pinheiro
Net: Não dá pra ficar de fora do Twitter. Entra lá e me siga
Outras bossas: Está no ar o penúltimo Rock Cast. Não deixe de baixar Pixels: Essa é a foto da mamãe beija-flor, a da mocinha realmente eu vou ficar devendo 7:07 PM
Comente aqui: Sábado, Agosto 08, 2009 Não é só o mal que se expande
Perdi um avô vitimado por aquela doença que os mais velhos se recusam a dizer o nome. Como se a simples menção de sua terrível alcunha pudesse trazê-la perigosamente para perto, ou mesmo pudesse fazê-la se instalar em algum órgão sadio de nosso corpo. Refiro-me ao câncer, evidentemente. Como tenho esse histórico na família, e que vitimou, além de meu avô, alguns tios, procuro me informar acerca dos tratamentos que a medicina coloca à disposição todos os anos.
Certamente podemos comemorar saltos qualitativos formidáveis, avanços estes que chegaram tarde demais para o avô que sequer tive a honra de conhecer, embora carregue comigo seu nome e sobrenome acrescido do Neto, fato este que me orgulha bastante.
Por falar em orgulho, Montes Claros nutre especial apreço pela Fundação Sara, instituição sem fins lucrativos que visa acolher, com carinho e dedicação, crianças fustigadas pelo aceno indistinto dessa doença terrível, que tenta, muitas vezes em vão, ceifar o brilho de crianças tão vivazes. Grande parte do êxito desta batalha contra a doença, feita com quimioterapia, radioterapia e muito sofrimento, se deve ao empenho de instituições como a Fundação Sara, comandada pelo casal Marlene e Álvaro.
Na semana passada foi anunciada a expansão da Sara para Belo Horizonte. Seu trabalho, sério e abnegado, agora também estará à disposição das crianças de todo o Estado de Minas, já que para a capital são conduzidos os casos mais complexos, oriundos dos mais recônditos cantinhos de nosso Estado. E a presença da fundação nas alterosas representará um alento para famílias carentes que buscam obstinadamente a cura para seus filhos, que, muitas vezes, chegam a desconhecer a complexidade do mal que carregam e do quão sofrido pode ser o tratamento.
Estive na Fundação Sara na semana passada, na condição de mestre de cerimônias voluntário, e pude ver, ciceroneado pelo casal Marlene e Álvaro, o esmero com o qual eles cuidam daquelas crianças e o conforto com o qual elas são abrigadas. Uma situação bem diferente, certamente, da vida modesta que levam em suas cidades de origem. Álvaro, que além de seus predicados conhecidos traz uma qualidade adicional, já que é serranopolitano assim como eu, disse que a Fundação Sara passou a construir casas, na medida de suas possibilidades, para estas famílias e que todos, ao partirem de lá rumo a seus lares, depois do período de acolhimento, levam consigo cestas básicas. É uma condição mínima para se assegurar o êxito do tratamento longe dos cuidados, das camas confortáveis e das refeições balanceadas da Fundação Sara.
Os olhos de Marlene e Álvaro brilham intensamente quando eles falam sobre a fundação, erigida a partir de seu drama particular com a perda da pequena Sara, cuja luta pela vida emocionou Montes Claros há uma década. Sara certamente não sucumbiu à toa. Sua vida teve um significado, ao contrário de tantas outras que passam insípidas por essa terra.
E Sara, agora devidamente transfigurada em um anjinho, vive presente ali, na esperança de cada mãe, no olhar curioso daquelas crianças e no coração bondoso de seus pais Álvaro e Marlene, que atraem para si outras pessoas de coração bom. E estes, os colaboradores, injetam recursos e carinho, subsídios para a Sara crescer cada vez mais e ajudar centenas de crianças, quiçá milhares, em Minas Gerais.
Sugeri a Álvaro que escrevesse um livro sobre a história da fundação, desde a luta renhida de sua filha pela vida até os dias atuais, perfazendo mais de dez anos de trajetória. Ele disse-me que já tentou, mas que as lágrimas inundam o papel, a alma e o coração sempre que ele tenta organizar as informações disponíveis. Mas uma dessas histórias eu quero compartilhar com vocês.
Há algum tempo a Fundação Sara recebeu uma paciente, uma mocinha de treze anos, vinda de uma pequena cidade da região. O caso dela, segundo os médicos, era irreversível. Não havia recursos disponíveis na ciência para ajudá-la a realizar um sonho, como tantas meninas-moças. Ela sonhava com uma festa de debutante dali a dois anos. Sabendo disso a Fundação Sara se organizou e realizou uma grande festa, com valsa, príncipe, convidados, refrigerantes e música alegre em seu aniversário de quatorze anos.
Se a vida, e seus desígnios misteriosos, pregou essa peça na moça de sorriso esperançoso, não havia mal nenhum em trocar o “14” pelo “15” no alto do bolo. E assim foi feito. A festa foi linda. A mocinha realizou seu sonho e nem mesmo sua morte, acontecida semanas depois, tirou-lhe a chance de realizar esse projeto derradeiro: o seu baile de debutante.
Citação oportuna: “Ah”, disse o rato,“o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro.” ― “Você só precisa mudar de direção”, disse o gato e devorou-o.
Este é um conto curto do tcheco Kafka. Genial né?
Filtro: Como separar o trabalho útil das emissoras all news da inconcebível "A voz do Brasil", segundo este defensor da liberdade de expressão: Filme: Che, com o Benício Del Toro
Livro: Neuromancer- Willian Gibson
Net: Site excelente para disputar partidas de sinuca on line: Passe o giz no taco! Outras bossas: Em breve mais um Rock Cast
Pixels: Na Fundação Sara com seus colaboradores 7:36 PM
Comente aqui: Segunda-feira, Agosto 03, 2009 João Dama da Noite
A infância de João Donato tinha cheiro de dama da noite. Era esse o cheiro que ele sentia quando sua mãe o chamava para jantar, nas tardes silentes de sua cidade de interior. E os aromas dos pratos feitos com algum capricho se misturavam com o aroma de noite fresca, trazidos pela dama da noite, cujos galhos roçavam-se na madeira rota do quarto do menino.
Mas havia outro cheiro que o acompanhava na infância, o cheiro de cachaça, que se desprendia da boca de seu pai todas as noites, quando ele chegava do bar. E havia também a promessa do cheiro de sangue, já que o pai batia na mãe todos os dias e só não batia em João Donato porque a mãe trancava a porta do menino com cadeado e guardava a chave em um lugar que só ela sabia. Mas a promessa do cheiro de sangue se derramando naquela casinha humilde aumentava cada vez mais, assim como o cheiro doce da dama da noite, cujo caule era o receptáculo da chave do cadeado que impedia que o pai molestasse o filho, como tantas vezes ele murmurava na porta do menino: “Eu vou te arrebentar seu viadinho”.
O pai imaginava que aquele menino aloirado não fosse seu filho, e mesmo os argumentos da mãe de que seu avô era das “Oropa” resolveu o problema. Para livrar o filho do ódio do marido, a mãe o prendia no único cômodo de tijolos daquela casa miserável. Principalmente a noite, quando o marido chegava da rua, fedendo à cachaça. Para o filho não ficar sem fazer nada, a mãe comprara um radinho de pilha para ele, e era ouvindo os programas de humor da noite, com o radinho colado no ouvido, que o menino tentava não se ater aos fatos que aconteciam naquela casa, enfurnado em sua misantropia forçada.
Sem que a mãe soubesse ele tinha uma peixeira debaixo do travesseiro para o caso das ameaças do pai se concretizassem algum dia. O menino tinha só dez anos quando aconteceu a desgraça.
Numa noite, silenciosa como todas as outras naquele subúrbio sem eletricidade, a pancada que o pai bêbado deu na mãe de João foi forte demais e ela desmaiou. Apenas de manhã, o pai do menino percebeu que a mulher havia morrido durante a noite. O pai chorou desesperadamente e chamou pelo filho para que ele o ajudasse com sua mãe, que estava passando mal.
Depois de vacilar por alguns instantes, João disse onde o pai poderia encontrar a chave do quarto: num prego fincado no caule da dama da noite. O pai praticamente se arrastou sob os galhos da planta e encontrou a chave. Depois abriu a porta e implorou que o filho o ajudasse. Mas quando o menino viu a mãe roxa e com hematomas no rosto, não teve dúvidas:
- Você a matou seu desgraçado!- o menino correu até o quarto.
O pai foi atrás dele e quando entrou no quarto escuro só sentiu a peixeira atravessar-lhe a barriga mole. O menino ainda deu mais três estocadas para se certificar e depois fugiu de casa, deixando para trás sua mãe amada, seu pai odiado e o cheiro inebriante da dama da noite, que continuou perfumando aquela casa, mesmo depois do enterro das duas vítimas do filho malvado, como a vizinhança, a polícia e os jornais passaram a considerar aquele caso. O menino, antes de partir, levou consigo seu radinho de pilha e fez um raminho com as flores da dama da noite. E depois ganhou a estrada, com o ramo da flor cheirosa em seu bolso surrado de estudante.
Depois de chegar à adolescência nas ruas do Recife, o menino se tornou um perigoso pistoleiro lá para as bandas do Maranhão e do Pará. A ele são atribuídas pelo menos dez mortes nos últimos anos. João Dama da Noite é sua alcunha de assassino.
Em sua ficha corrida de assassinatos não tem nenhum padre, nenhum pai de família honesto e nenhuma mulher honrada. Apenas políticos corruptos, posseiros de terra e assassinos se acabaram no ferro incandescente do matador.
Antes de fazer qualquer serviço, João analisa bem sua vítima e só aí, diz sim ou não para o contratante. Isso já é um hábito conhecido do matador. E os que solicitam o serviço sabem que, mesmo diante da recusa do assassino, não há com que se preocupar, já que a discrição é parte importante nesse tipo de trabalho, e João Dama da Noite conseguira o respeito de todos naquela região.
Mas tem outro hábito que ninguém sabe: João, depois de cada serviço feito, tateia cuidadosamente seu bolso de paletó, e encontra seu radinho de pilha, onde escuta as pregações de seu pastor, enquanto foge do flagrante. Depois ele remexe mais uma vez o outro bolso e encontra as flores ressecadas da dama da noite e dá uma cheirada cada vez mais profunda, em busca do cheiro perdido, da infância perdida e da vida, irremediavelmente perdida.
Citação oportuna: A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez"- Friedrich Nietzsche
Filtro:Como separar os blockbusters do cinema dos filmes de Kurosawa, Capra, Hithcock e outros gênios e tornar sua vida um pouco menos ordinária, segundo este apreciador de cinema de verdade que adora pitacar, se é que este verbo existe:
Comente aqui: Segunda-feira, Julho 20, 2009 A humildade de um santo
Foi revelado por um ex-secretário do Papa João Paulo II, monsenhor Stanislaw Dziwisz, que o pontífice adorara dar suas escapulidas do trono de Pedro e se divertir, como um mero mortal, nos Alpes italianos. As escapadas não teriam cessado nem após o atentado que o Papa sofreu em 1981.
A revelação está no livro “Testemunho”, de autoria do monsenhor. Segundo ele, era preciso enganar a guarda suíça, que faz a segurança do Vaticano. “Partíamos às 9 da manhã, no carro do padre Josef, para não despertar suspeitas nos guardas suíços”, relata Dziwisz. Assim que chegaram à estação de Ovindoli, o Papa vestia-se com casaco, gorro e óculos. “Ele ficava na fila como os outros, mas, por segurança, um de nós ficava na frente dele e outro ficava atrás”, contou o ex-secretário. “Pode parecer incrível que ninguém o tenha reconhecido. Mas quem podia imaginar que o Papa poderia ir esquiar assim?”, indaga o religioso.
Bela pergunta essa. É de conhecimento público que o Papa polonês praticava seu esporte favorito, o esqui. Mas imaginá-lo incógnito como um simples esquiador seria uma tremenda prova da humildade do pontífice, já que o poder do papa, sobretudo na Itália, é imenso. Vale mencionar que bastaria um desejo seu de esquiar em qualquer lugar, para que a pista fosse interditada aos outros seres humanos e o Papa teria a montanha gelada todinha pra si. Acredito até que se ele quisesse esquiar no Pão de Açúcar, as autoridades brasileiras dariam o seu famoso “jeitinho”.
Mas não se pode negar que essa revelação é bastante oportuna, já que surgiu em pleno processo de canonização do pontífice, e ela pode ser interpretada como uma tentativa de se acelerar esses trâmites. E esse é o tipo de factóide que conta muitos pontos no intricado processo.
Um outro fato mundano, entretanto, pode retardar um pouco mais esse desfecho: a correspondência que o falecido Papa mantinha com uma amiga de juventude, e que apareceu agora. Não sei que tipo de revelação poderia depor contra o ex-líder da maior religião cristã do mundo, mas a análise desse conteúdo é visto como condição sine qua non para que o processo burocrático o ascenda à condição de santo no panteão celestial da igreja de Roma.
Mas voltemos aos passeios do Papa nas estações de esqui. Lembro-me de um livro que li chamado “As sandálias do pescador”, onde um Papa fazia seus passeios incógnitos, no meio do povo. E acredito que esse talvez seja o melhor termômetro para se avaliar o sucesso de um pontificado, ou de um governo. Ouvir a voz rouca das ruas, angariar um pitaco sincero aqui e outro acolá pode responder à pergunta essencial:
Será que estou agradando?
Acho até que o presidente Lula deveria fazer o mesmo. Imaginemos nosso presidente acordando às três da manhã e se dirigindo até uma agência da Caixa, a fim de fazer algum dos recadastramentos mensais exigidos pela insaciável burocracia. Chegando lá, para sua surpresa, ele se depararia com uma fila. Veria estupefato que algumas pessoas vivem de vender lugares por lá, e em outros lugares onde as senhas são escassas. Depois, alegando uma dor qualquer, ele pediria para ser atendido em um hospital público e veria o quanto os atendentes são ríspidos e as vagas são raras.
Pensando bem, até que vai ser bom o Papa esportista se tornar santo, pois de lá, do firmamento, ele poderá proteger todos nós. Poderá impedir, por exemplo, o avanço belicoso do anão norte-coreano e seus mísseis cada vez mais potentes. Talvez até consiga resolver alguns dos grandes problemas nacionais: desemprego, violência e corrupção.
Pensando melhor ainda, acho que vai ser muito trabalho para um santo só.
Filtro- Como separar o carismático Herbie dos insuportáveis Transformers segundo o senso crítico deste que vos relega pitacos e mais pitacos, a mancheias
Filme: O iluminado
Livro: Noites Tropicais- Nelson Motta
Net: Para musicar aquele seu poema Outras bossas: O mimo sonoro deste post é uma dobradinha, minha com o Poeta do Acaso. O texto é dele e a interpretação um tanto canastrona é minha. Tire suas conclusões. Clique aqui Pixels: 9:45 PM
Comente aqui: Domingo, Julho 12, 2009 Assuntos importantes
Muitos fatos relevantes aconteceram nos últimos dias e, certamente, representam farto material para bons cronistas. O Veríssimo, por exemplo, deverá se esbaldar. Tivemos a morte do Michael Jackson, e ainda a morte da pantera Farrah Fawcett. Este último evento foi totalmente eclipsado pela partida do excêntrico músico, mas representou bastante para quem, assim como eu, gostava de assistir a “Sessão Aventura” na Globo nos anos 1980. “As Panteras”, “Super Máquina” e “Duro na Queda” eram alguns dos enlatados que a emissora servia à sua audiência. Os seriados não eram exatamente um primor de técnica, mas divertiam à beça. E a loira calipígia representava a materialização do “american way of life”, que secretamente, em algum momento, invejamos.
Quanto a Michael, fica a sensação de termos testemunhado uma história incompleta. Vimos seu sucesso avassalador e assistimos, estupefatos, sua decadência, moral, física e artística. No instante em que era possível intuir sua volta por cima, feito a famosa Fênix, a foice indistinta da morte o ceifou. Ele não teve a chance derradeira de retomar seu trono de “rei do pop”, ocupado nos tempos atuais por gente como Chris Brown, Ja Rule e Beyonce no panteão da música americana.
Sua turnê de retorno, que previa shows ao redor do mundo, tinha esse como um de seus propósitos. O outro seria pagar as dívidas do astro, que se avolumaram nos últimos anos. Não teve tempo para nada disso.
Sobrou apenas o ocaso de um astro decadente, mas que agora, evidentemente, voltará a ser tocado nas emissoras de rádio e elevado a condição de lenda, já que a morte costuma restituir a honra perdida, pelo menos entre os notórios deste planeta.
Meu sogro Majella diagnosticou esse fato in loco. Ao fazer um passeio no centro de Montes Claros, ele se deparou com uma vendedora de CDs e DVDs piratas que anunciava o fim do estoque de produtos de Michael Jackson. Tudo foi vendido. Da época doce e romântica dos Jackson 5 até os últimos suspiros criativos da última década. Não sobrou nada. Certamente o mesmo fenômeno se repetiu nas lojas e shoppings virtuais do mercado formal. As vendagens explodiram. Provavelmente sua família, em pouquíssimo tempo, até consiga honrar as dívidas deixadas por ele.
A banda mineira Pato Fu, em uma de suas músicas, cita a chamada “Necrofilia da arte”. O pendor que temos de valorizar aqueles artistas que partem rumo ao desconhecido, em detrimento àqueles que já gozaram de prestígio e hoje se encontram no limbo da irrelevância artística. Desconfio que muitos destes que compraram o CD de MJ nos últimos dias tenham se comportado desta maneira. Claro que os fãs do cantor, entre os quais me incluo, nunca deixaram de prestigiá-lo.
“Zunfus trunchus que eu nem conhecia, virou meu star no outro dia”. Foi só bater as botas. Botas repletas de brilhos e paetês, diga-se de passagem.
Outro assunto relevante dos últimos dias foi o fim da obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para o desempenho desta atividade, segundo a ótica distorcida do STF. Mas deixarei para abordar esse assunto em outra ocasião, pois o espaço que me resta aqui neste minifúndio digital é insuficiente para abrigar meu imensurável descontentamento.
Como diferenciar o genial Michael Jackson dos anos 70 e 80 da figura sinistra que morreu em junho, segundo o arguto senso crítico deste que não faz o "moon walk", mas escreve seus pitacos
Filme: A era do gelo 3, porque, afinal de conta, é época de férias
Livro: Estou lendo o clássico de Truman Capote, "A sangue frio", mas vale a pena conhecer a bela escrita de Gay Talese. Estes dois autores são do chamado "new journalism".
Net: Para retocar a imagem sem Photoshop clique aqui Outras bossas: O Rock Cast apresenta de uma só vez suas duas últimas aventuras sonoras. Baixe os dois de uma vez. São as edições 6 e 7. Boa diversão:
Clique aqui- Edição 006 Clique aqui- Edição 007
Estive no Vale do Jequitinhonha nesta última semana. Mais precisamente em Carbonita. Ao contrário da máxima que os pessimistas vaticinam, e que já está enraizada em nossa consciência, não vi a pobreza que campeia e que faz da região uma das mais miseráveis do planeta.
O que vi, nos intervalos do trabalho e mesmo durante o labor, foi uma gente simples, de hábitos comedidos e cercada de recatos e desconfiança. E essa postura, na defensiva, se manifesta no primeiro olhar, na hora da primeira abordagem, logo após o primeiro “bom dia”.
Bastam alguns minutos, entretanto, para a verdade cabocla daquela gente aflorar. Então eles se abrem, sorriem e nos aceitam em seus mundos de simplicidade e aconchego. Foi assim em Carbonita, e desconfio que seja assim em todo o Vale.
A primeira, e boa, impressão foi dada por Norma. Ela é secretária municipal, e está prestando o mesmo serviço a três governos. Sai e entra prefeito em Carbonita, só não sai a habilidosa e competente funcionária. Essa parece ser a norma por lá.
A pobreza deste trocadilho contrasta com as virtudes da jovem senhora, que se encaixa perfeitamente no estereótipo que citei. No início ela ficou comedida, como boa mineira do Vale, mas depois, talvez ao perceber que éramos bons moços, (eu e meus dois companheiros de trabalho), ela nos brindou com sua boa vontade e sua simpatia, que não cessaram nem com o fim do expediente na secretaria.
Depois dela outras pessoas mostraram-se sem véus e pudores, sem inveja e sem discursos vazios. Como o arguto Wagner, funcionário da Emater, e mestre nas academias e na própria vida. Um rapaz brilhante e, sobretudo, simples. E é desse modo que essa qualidade deveria se manifestar sempre em todos os seres humanos.
Conheci também a octogenária, mas com alma de menina-moça, Dona Eva, que mora em um casarão colonial com dois séculos de vida, um tanto gasto pela ação deletéria do tempo, numa região chamada Gangorras.
De lá, das janelas de duzentos anos, ela espia o mundo sem pressa, e, debruçada no fogão de lenha de mesma idade, faz seus divinos queijos, que parecem carregar a tradição e o traquejo de tantos verões, em seu sabor brejeiro. Queijo esse que é oferecido de coração aberto, com a hospitalidade típica destes rincões.
Tive a honra ainda de encontrar, em meio ao burburinho do Mercado Municipal, uma senhora espevitada chamada Aparecida, artesã de mão cheia, que faz seus trabalhos com barro, dando vida a panelas, jarros e vasos de rara beleza. Assim como é bela a alma marota da artista que, com gestos precisos, materializa sua criatividade e assegura seu sustento, e de sua família. Nem foi possível fotografar muitas destas peças porque, segundo Aparecida, não sobra nada da sua produção. Tudo é vendido.
Nas artes da mesa, saboreei os quitutes de Dona Fiinha, ouvi as modas de viola de Cristal e Diamante, vi o imenso e preciso relógio e a bela igreja de Nossa Senhora da Abadia e admirei as estripulias do grupo teatral Trama, que estava por lá despertando o interesse para as artes cênicas nas crianças.
Uma bela cidade, que se faz ainda mais bela com os predicados de seu povo. Gente criativa e hospitaleira que faz-nos esquecer daquelas premissas que condenam o Vale a um penar sem fim. Desde que haja criatividade, força de vontade, honestidade e trabalho certamente a miséria dá espaço ao progresso. E por fim dedico essa crônica a todos de lá, sobretudo aqueles que conheci e em especial ao Benezinho.
Citação oportuna: "Só existem duas maneiras de fazer carreira em jornalismo. Construindo uma boa reputação ou destruindo uma"- Tom Wolfe, jornalista e escritor
Filtro: Como diferenciar Nutella daquelas margarinas com sabor de chocolate, segundo este que vos escreve:
Filme: Agora que estou de férias vou colocar o cineminha em dia. Pretendo ver "O filho de Ranbow"
Livro: O mesmo se aplica aos livros. Preciso dar uma olhada na Palimontes
Net: Está no ar o blog do vereador João de Deus, a quem tenho a honra de assessorar. Clique e confira Outras bossas: Vamos lá. Edição 005 do Rock Cast. É só clicar e ouvir o melhor do rock Pixels: 12:29 PM
Comente aqui: Sexta-feira, Junho 12, 2009 Para o Pará não vamos
Tenho ficado atento aos concursos públicos que pululam neste país, e minha esposa Camila já foi categórica: para o Pará não vamos. Ela até inclui o Rio de Janeiro, graças à sua notória violência urbana, uma vez ou outra nas “proibições”, mas a implicância com o Estado da região norte é definitiva, e não há argumento suficiente para demovê-la dessa imposição.
O problema é que a maior parte dos acontecimentos negativos neste país costuma acontecer no Estado cuja capital é Belém. Morte da missionária Dorothy Stang e vários conflitos agrários? Lá, é claro. Massacre de Eldorado de Carajás? Também. Uma moça presa numa cadeia junto de uma cambada de homens? Pará, off course. O assassinato de um velejador neozelandês tido como o “Pelé” daquele país? Precisa dizer?
O clima por lá, para nós, parece pesado, denso como as chuvas tropicais que desabam na Floresta Amazônica. Temos desmandos de todo tipo: Grileiros expulsam trabalhadores de suas terras, e encomendam assassinatos como por aqui pagamos por TV a cabo. Fazendeiros inescrupulosos mantêm funcionários escravizados em suas terras. 1% de fazendeiros paraenses dominam metade da extensão territorial do Estado, confirmando a triste sina de terra de latifúndios. Contra a governadora recaem suspeitas de corrupção ainda não completamente elucidadas, ou por acaso você acha normal a cabeleireira pessoal da governadora Ana Júlia Carepa ser nomeada sua assessora pessoal? A exploração da madeira faz do Estado o mais devastado da região amazônica. Por lá o sistema de saúde agoniza, a ponto de cidadãos paraenses acionarem a justiça para que haja intervenção federal no Estado, por omissão dos políticos locais.
Então o destino, como o mais sádico dos roteiristas de cinema me encaminha para ser promotor ou delegado lá naquelas plagas. Não, de jeito nenhum, segundo Camila. Seria assinar uma carta de adeus, caso eu pretenda levar a lei ao pé da letra e tente apagar algumas dessas nódoas.
O melhor é não incluir o Estado onde se consome pato com tucupi em qualquer tipo de plano para o futuro, quando meu curso de Direito me credenciar a essas ocupações citadas. Assim pensa minha esposa. Desconfio que sua impressão seja compartilhada por grande parte dos brasileiros, assombrados pela fama de “terra sem lei” que o Pará angariou, reforçada nos últimos anos por novos e desalentadores acontecimentos.
O Pará acaba de acrescentar mais um capítulo macabro em sua história de omissões e pecados há alguns dias, quando a revista eletrônica Fantástico, da Globo, mostrou uma cidade esquecida chamado Bordel, digo Portel.
Lá acontecem coisas terríveis, como a banalização da vida humana, retratada em uma mãe que admitiu “vender” sua filha menor de idade por quinhentos reais para um forasteiro de São Paulo que ela nunca vira na vida. A única exigência foi deixar com ela, uma mãe tão atenciosa, um número de telefone, para que pudesse ligar de vez em quando.
Um gesto bonito, de mãe zelosa, conforme podemos observar. Antes disso, na noite anterior, a mesma mãe “alugara” sua filha pelo equivalente a quatro cervejas para quem se dispusesse a pagar o programa.
A matéria levou-nos a crer que esse comportamento, naqueles confins tropicais, é normal. O prefeito chegou a dizer que o que acontecia na calada da noite não lhe dizia respeito. Sinto desapontá-lo prefeito, mas diz respeito sim. A menos que o senhor seja como os juízes que fazem vista grossa ou como alguns delegados daquela região, que fingem ignorar a realidade para continuar vivendo mais ou menos seguro em meio a esse faroeste caboclo, já que o Estado não os dota de condições mínimas para atuar com segurança.
Recentemente assisti a um filme chamado “Anjos do sol”, que chegou a causar-me mal-estar, devido ao assunto abordado: a prostituição infantil e o comércio de seres humanos. Mas ao olhar a realidade sem os filtros do cinema, descobrimos um mundo ainda mais cruel, onde direitos elementares são ignorados, imputando ao Estado da maniçoba a triste síntese de tudo aquilo que o Brasil tem de pior.
Sim, tem prostituição infantil no Rio Grande do Sul. E mais, tem mães que vendem os filhos, e filhos que “venderiam a própria mãe” para se dar bem aqui mesmo em Minas Gerais. Tem grileiros de terra no Paraná, tem trabalho escravo nas fazendas de cana de açúcar de São Paulo e tem político corrupto e omisso em cada esquina dessa nação. Mas no Pará, pelo menos para nós que acompanhamos à distância, é sempre pior.
Na mesma matéria do Fantástico uma deputada gaúcha, integrante da CPI da pedofilia, citou, en passant, que o clima de sexualidade precoce está em todo lugar do país, e isso contribui para a banalização do sexo e sua exploração, sobretudo entre os menores de idade e, pior ainda, entre as crianças e adolescentes paraenses, onde vender a virgindade para algum “barão estourar” vale mil reais, segundo o material jornalístico exibido pela emissora carioca.
A Globo não fez seu mea culpa, já que, provavelmente, editou a fala da deputada. Pois ela não falaria de erotização onipresente sem citar o papel nefando da tevê. Ou você acha normal alguém fazer qualquer negócio para aparecer no Big Brother e, logo depois, uma vez interrompido o confinamento, pular direto para as páginas das revistas eróticas?
É essa a triste sina de muitas garotas belas do Brasil, que descobriram o quanto é fácil angariar um salário mínimo cada vez que se deitam com um desconhecido. Assim elas pagam seus celulares caros e suas faculdades. Ou nos confins esquecidos do Pará, para aquelas que a deusa Afrodite não foi tão generosa, que percebem que conseguirão pagar as parcelas dos produtos da Avon ou da Natura com uma transadinha de nada, do tipo que a própria mãe agencia. Coisas absolutamente normais.
Claro que a Globo não admitiu seu papel neste processo e se limitou a expor a senhora paraense que vendeu a própria filha ao julgamento impiedoso de todos, inclusive o meu, e depois voltou a mostrá-la, devidamente presa pela “eficiente” polícia daquele Estado, ao lado de um cafetão muito querido na cidade.
Precisamos devolver a reputação perdida ao Pará. O Governo Federal, as ONGs, a Justiça, ou o sei lá o quê, precisam levar valores para essa gente, que se refestela com uma música de péssimo gosto apelidada de “techno brega”, e que se vê obrigada a conviver com problemas ainda mais sérios do que este. Aliás, muito mais sérios. Sou um otimista nato, mas por ora, infelizmente, darei ouvidos à minha esposa. O Pará não dá.
No mesmo dia em que a citada matéria foi ao ar, Belém, a capital daquele Estado, concorria a uma vaga como cidade sede da Copa do Mundo a ser realizada no Brasil em 2014. As obras de uma copa costumam ir além da construção de estádios e alojamentos. Toda a logística envolvida contribui para a melhoria da qualidade de vida da população, que passa a contar com melhores sistemas de transporte, segurança, infra-estrutura e ainda corroboram para uma melhoria na auto-estima das cidades e regiões bafejadas pela presença do organismo internacional mais abrangente do mundo. A ONU? Evidentemente que não. Refiro-me a FIFA. Pois bem, entre as capitais da região norte que esperavam o anúncio, o organismo máximo do futebol escolheu Manaus, no Amazonas.
E o Pará, belém, belém...
Citação oportuna: “Sou um otimista nato, do tipo que acredita que algum dia a juventude vai voltar a ouvir boa música renegando o funk, o axé e o sertanejo a seus nichos. Eu escrevi nicho. Qualquer semelhança com outra palavrinha paroxítona é meramente intencional”- Essa opinião é minha.
Filtro: Como escolher leguminosas musicais e diferenciar a categoria do Tomati do Jô Soares do Tomate da axé music, segundo esse catalogador de pitacos:
Filme: O menino do pijama listrado
Livro: A poeta Sylvia Marteleto lançou um excelente livro chamado: “Azedume”. Indico para todos os meus amigos. Se quiser adquirir basta procurar-me que passo o contato dessa talentosa escritora.
Net: Um site utilíssimo e gratuito para converter arquivos em formato pdf para o doc, extensão do famoso word. Clique aqui Outras bossas: O Rock Cast ainda não caiu no gosto popular, mas continuo insistindo. Agora temos a edição 004. Confira. Pixels: 7:16 PM
Sempre que vou a Serranópolis de Minas, minha terra natal, me surpreendo mais e mais com os ares de progresso que a cidade experimenta, em função da criação do parque Estadual do Talhado e Serra Nova e do asfalto que liga a jovem cidade a Porteirinha, inaugurado há pouco tempo, e que poderá representar a redenção do município, graças a sua vocação turística e seus rios cristalinos, cachoeiras e pinturas rupestres. Mas desta vez não foram esses dois assuntos, asfalto e turismo, que me apeteceram.
Na verdade me apaixonei pela biblioteca da cidade. Depois de muitos trâmites, desentendidos e toda sorte de burocracia, Serranópolis foi premiada com mais de dois mil livros novos, entre os quais se destacam as obras completas de García Márquez, Borges, Drummond e Oscar Wilde, para citar apenas alguns que manuseei com prazer e curiosidade numa rápida visita lá.
A bibliotecária Zilma, que, por sinal, é minha tia, é a guardiã deste valioso tesouro e passa o seu dia cercada por Vinicius, Cecílias e Nerudas. Ela estava na fase da catalogação dos acepipes literários recém chegados. Um trabalho que poderia ser maçante se não fosse um detalhe importante: “Eu vou catalogando e aí chego a um livro que me chama a atenção, então o jeito é parar e ler um pouco”, suspirou minha tia.
Assim que os livros chegaram, eles foram acondicionados numa rua pouco movimentada da cidade, numa sede provisória. Aliás, nenhuma das ruas por lá é agitada, o que é um dos encantos do antigo arraial de Jatobá.
Zilma, ao ver concluída a nova prefeitura, comemora, afinal a biblioteca passa a ter uma sala ampla e nova para acomodar mais adequadamente os “tesouros encadernados”.
O escritor João do Rio escreveu certa vez: “Oh! Sim, as ruas têm alma. Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira”. Isso Zilma talvez ainda não soubesse, mas a simples presença da biblioteca naquela ruazinha sem grandes encantos já a tornava a rua mais importante de Serranópolis, onde o conhecimento, o encantamento e a arte maior de Machados e Eças estava à disposição para quem quiser ter uma vida menos previsível.
No dia em que me deparei com esse pote de ouro no fim do arco-íris, lembro de ter chegado empolgado na casa de meus pais, já imaginando que nas próximas férias ocuparia meu tempo em Serranópolis com os papos amistosos, com as peladinhas no fim da tarde, com os passeios na serra e na barragem do rio Mosquito e com as visitas à biblioteca.
Eu mencionei a riqueza dos livros para minha mãe e a empregada doméstica de minha casa, a Ana, que é praticamente como alguém da família, disse que seu filho Wesley adora ler e que já beirou a biblioteca algumas vezes tentando vencer a timidez, mas que ainda não tinha tido coragem de entrar.
Vale ressaltar que Wesley é afilhado de minha tia Zilma, e mesmo assim ele ainda não lograra êxito em suas investidas. Depois de passar algumas vezes nos arredores da biblioteca, à espera de um sinal de aprovação de sua “dinha”, Leizinho, como é conhecido, sempre voltava para casa, sem conseguir vencer a esfinge de sua timidez.
Tenho certeza que Zilma lerá essa crônica. Assim ela saberá que basta um sorriso acolhedor para o imberbe Leizinho descobrir os encantos daquela sala mágica. E espero também que outras pessoas em Serranópolis leiam esse relato e possam freqüentar assiduamente os bancos confortáveis da nova biblioteca, e se deixar conduzir por Macondos empoeiradas e Veronas líricas tendo os grandes escritores da humanidade como cicerones.
E se você quiser saber onde fica essa biblioteca em Serranópolis, saiba que ela se localiza agora no endereço mais nobre da cidade, na moderna Prefeitura Municipal, na praça da Matriz, mas mesmo se ficasse na rua mais modesta, no rincão mais ermo ou nos cafundós mais empoeirados, ainda assim seria o endereço mais nobre de lá, aliás, de qualquer lugar.
Citação oportuna: "Deus nos deu um pênis e um cérebro, mas sangue suficiente para usar apenas um de cada vez” - Robin Willians
Filtro: Como achar um pote de ouro no fim do arco íris em meio a tanta quinquilharia, segundo esse serranopolitano arretado Filme: Com esse friozinho nada melhor do que um filme do mestre Hitchcock. Sugiro "O homem que sabia demais"
Música do dia: Com esse friozinho nada melhor do que Madeleine Peiroux
Livro: Orador dos mortos- Orson Scott Card
Net: Como seria aquela mulher com os olhos daquele homem? Descubra clicando aqui: Outras Bossas: Decidi que 2010 será o ano em que lançarei meu próximo livro. Essa obra, já em fase final de revisão, será um romance. Aguarde maiores detalhes.
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Inacreditável uma promoção lançada na semana passada em um inferninho de Montes Claros. Seria até engraçado se não fosse deprimente. O Brasil implica com o bingo e rifa de mulher vale? 2:02 PM
Coube ao conceituado professor argentino Ricardo Rabinovich proferir a última palestra do Congresso de Direito realizado pelas Faculdades Santo Agostinho, neste mês de maio. O palestrante ocupou-se de um tema bastante espinhoso: a eutanásia.
As palavras iniciais do professor foram que a sala de aula deve ser um lugar de conflito, onde as idéias precisam ser confrontadas. Diante de um assunto tão controverso como o que ele iria abordar, a impressão que se deu é que aquele momento, o de sua palestra, também seria de confronto.
Grande parte da platéia certamente discordava do assunto antes do professor começar a demonstrar sua erudição através de citações e personagens históricos. O assunto, graças à sua complexidade e rejeição naturais, merecia um arcabouço teórico irrepreensível, e o palestrante se jogou neste desafio, embalando-nos com seu português cheio de sotaque portenho. Rabinovich desnudou o conceito de eutanásia ao longo dos séculos e mitigou os efeitos deletérios do tempo, que depuseram contra o sentido original da palavra “eutanásia”.
A palavra é oriunda do grego, e é formada pela junção de “eu” e “thanasia”. A palavra “thanasia” significava o processo de morrer, diferente de “thanatos” que significava, efetivamente, a morte.
Graças ao processo diacrônico urdido ao longo dos séculos, o sentido original se perdeu, e a palavra eutanásia passou a acumular uma carga valorativa malfazeja. O empenho do professor foi no sentido de restituir a idéia original, aproximando o termo do “ato de morrer com dignidade”, depois de cessadas as tentativas de se restituir a saúde, procurando não insistir em procedimentos fadados ao fracasso. E esse “direito”, segundo ele, é do “eu”, é individual, e deveria ser benquisto pela sociedade, sob pena de mascararmos nossa efêmera condição humana.
O palestrante citou diversas passagens literárias onde o termo original foi citado, desprovido de qualquer ranço negativo. Na obra de Myrmiki, por exemplo, estava escrito que “de todas as coisas que o homem deseja obter, nada há melhor que uma eutanásia”. Essa, por sinal, foi a citação mais antiga pinçada por ele em sua pesquisa. Rabinovich mencionou que a origem da palavra não está em sisudos tratados médicos ou jurídicos, mas sim nas antigas comédias gregas, o que demonstra inequivocamente que em sua gênese a palavra não coadunava com os sentimentos contraproducentes que atualmente a cercam.
Ático, contemporâneo e melhor amigo do grande orador Cícero, também empregou a palavra em seus textos. O mesmo se deu, muitos séculos adiante, com Francis Bacon, que dizia que “a eutanásia é uma coisa médica e um direito do paciente”. Foi citado o exemplo de Epicuro, que também se referiu a eutanásia de uma maneira positiva, como algo virtuoso.
Lembro-me de ter lido um artigo recente onde seu autor aborda o que ele chama de “erro de interpretação” por parte dos estudiosos no tocante à obra de Epicuro, que vem a calhar na proposta defendida por Rabinovich, de que a palavra eutanásia perdeu seus predicados originais com o passar do tempo. Epicuro é lembrado como alguém hedonista, daí a expressão epicurismo, que, entre outros significados, está associada à sensualidade e ao desregramento de costumes.
Mas, segundo o autor do artigo, seus ensinamentos foram incompreendidos, já que o “prazer” proposto por ele passava por um modus vivendi desprovido de luxos e excessos, e não ligado ao prazer sexual, propriamente dito.
Assim como o autor deste artigo lançou um novo olhar sobre a obra de Epicuro, atribuindo-lhe novos significados, Rabinovich trouxe à tona novas percepções sobre um tema delicado como a eutanásia.
O palestrante citou, além de Bacon, outro pensador católico, Tomas More, que também defendia a eutanásia como algo aceitável e, até certo ponto, provido de nobreza. Este último pensador, por sinal, acabou se tornando um santo da religião de Roma, e “patrono dos políticos” na hierarquia celestial ditada pelos ritos católicos.
Rabinovich também abordou em sua palestra episódios relativamente atuais, como os estudos que precederam à chamada “solução final”, impetrada pelos oficiais nazistas comandados por Adolf Hitler, e que culminaram nos “genocídios”. Assim mesmo, no plural, já que o professor argentino lembrou em sua fala que, além dos judeus, também os negros, ciganos, homossexuais e outras minorias, foram aniquiladas a mancheias, adotando o preceito, evidentemente distorcido, da eliminação das “vidas que não merecem serem vidas”.
Alexis Carrel foi um desses pensadores. Para ele “o melhor tratamento para criminosos e deficientes mentais são as câmaras de gás”. Essa premissa foi usada, e cruelmente adaptada, para legitimar a mancha indelével que foi o nazismo e seus extermínios em massa. A Segunda Grande Mundial, segundo o palestrante, foi um marco na diacronia da palavra eutanásia. Ela passou a designar a “morte boa para a comunidade”, e não mais para o “eu”.
O argentino, depois de dezenas de citações, defendeu abertamente que todas as pessoas deveriam escolher seu destino, quando é possível interferir. Essa autonomia em relação a todos os aspectos da vida, incluindo a própria morte, está em não aceitar certos procedimentos médicos que só servem, segundo ele, para mascarar o inevitável, e que deveria ser pessoal a decisão de interromper o fluxo de oxigênio e nutrientes para um corpo fadado à morte.
“O direito sobre a vida inclui escolher, quando se pode, sua própria eutanásia”, com essa frase o palestrante chegou onde queria. Ele fizera uma defesa concisa e sem lacunas sobre o assunto, desarmando muitos dos que assistiam a seu discurso. Ele havia vencido o confronto, ao expor elementos tão convincentes acerca do assunto. Claro que muitos continuariam a defender apaixonadamente o veto pessoal a eutanásia, mas a antítese de tudo aquilo em que acreditavam havia sido apresentada com maestria.
Na tentativa de apaziguar as almas presentes, certamente angustiadas, Rabinovich lembrou que ninguém gosta de falar da própria morte. A idéia de termos controle sobre o desfecho dessa história, quando é possível intervir, nos devolveria a paz interior e faria com que fizéssemos as pazes com a idéia de sermos mortais.
O gesto derradeiro do palestrante foi projetar o último slide de sua apresentação de power point, onde estava escrito que a mesma era dedicada a seu filho de quinze anos, que morrera precocemente, e que pôde, dentro de suas possibilidades, optar por uma morte digna, já que não havia recurso na medicina que pudesse dar jeito em sua enfermidade. Uma última frase foi dita, e ela deve está reverberando até agora para quem teve, assim como eu, o privilégio de ver a palestra: “O Direito deve servir para se obter a felicidade, do contrário não serve pra nada”. A platéia, seduzida e vencida, aplaudiu durante mais de um minuto.
Poema Ligeiro:
Ah, Quem Me Dera
Ah, quem me dera ser poeta
Pra cantar em seu louvor
Belas canções, lindos poemas
Doces frases de amor
Tom Jobim
Citação oportuna: "É verdade que existem vários idiotas no congresso. Mas os idiotas constituem boa parte da população e merecem estar bem representados"- Hubert Humphrey, vice presidente americano no governo Johnson
Filtro: Como diferenciar a Bahia de João Gilberto da Bahia do Chiclete com Banana, segundo esse escrevinhador de pitacos Filme: 12 homens e uma sentença- Básico
Música do dia: Poucas coisas no mundo são mais emocionantes do que algumas canções de Leonard Cohen
Livro: Estou louco para ler Herman Hesse. Já está na fila.
Net:Um blog cheio de ternura e inteligência: Outras Bossas: O "Rockcast" é um programa formatado para a internet que eu bolei e que está, como diria Marcelo Tás, "tchuc thuc". Nesta semana teremos a segunda edição com o melhor do rock. Fique atento e atenta.
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Comente aqui: Sexta-feira, Maio 15, 2009 Tio Bira e seus oitenta anos
“Saudade, um lenço roxo lá distante, na curva do caminho, a tremular. Um riso amargo, um peito soluçante, um olhar triste em busca de um outro olhar”. Era com poesia que começava os programas românticos comandados pelo radialista Ubirajara Toledo na rádio Sociedade ZYD-7. O popular Tio Bira comandou programas como “Clube do Tio Bira” e “Pingos de saudade”, além do vigoroso e combativo “Tribunal da opinião pública”.
Ubirajara Ferreira de Toledo, que conheci pessoalmente quando fiz o trabalho experimental da faculdade de Jornalismo há quatro anos, nasceu em Juiz de Fora no dia dois de setembro de 1929. Começou na imprensa em 1949, na rádio Tiradentes e trabalhou também em jornais impressos dos Diários Associados e na TV Industrial. Paralelo a seu trabalho na imprensa, Ubirajara era funcionário público federal. E foi nestas condições que ele foi transferido para Montes Claros. Atendendo a um convite de João Teixeira Bastos, ingressou no quadro de locutores da rádio ZYD-7 em 1962.
Ainda nos tempos de Juiz de Fora, discursou para Assis Chateaubriand, o jornalista mais influente da história do Brasil. Foi secretário fundador da AMAMS, Associação dos Municípios da Área Mineira da Sudene, e liderou diversas campanhas sociais. Teve seu trabalho reconhecido pela Câmara Municipal de Vereadores, que em 1980 concedeu-lhe o título de Cidadão Honorário de Montes Claros. Em 2003, o ex-radialista voltou a ser laureado com um título de Cidadão Benemérito, oferecido, outra vez, pelos vereadores, em nome do povo de Montes Claros.
Esse texto, escrito por um mero aprendiz de radialista, se propõe a homenagear o grande Tio Bira e lembrar que no próximo mês de setembro ele completa oitenta anos. Acredito que seja uma efeméride das mais justas. Tomara que o atual prefeito, que foi radialista, preste uma nova e merecida homenagem em nome do povo de Montes Claros, a esse comunicador que tanto contribuiu para nossa cidade e para o rádio mineiro.
Contrariando a máxima de Nelson Rodrigues, que afirmava que toda unanimidade é burra, Tio Bira se locomove faceiro por aí, acarinhado e admirado por seus pares e pelo público, que um dia teve a honra de tê-lo por perto, através de sua voz, emanada nas ondas médias e um tanto roufenhas da ZYD-7.
Lembro-me de ter lido no site www.montesclaros.com que Tio Bira pretendia se mudar para sua terra natal, Juiz de Fora, depois de tantas décadas em Montes Claros. Não sei de seu atual paradeiro, se ele está na terra de Itamar ou aqui na terra de Mestre Zanza, mas certamente estará sempre em um local onde a melancolia e a solidão não podem entrar: os nossos corações.
Poema ligeiro: Envelhecer
Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.
Mário Quintana
Como separar o joio do trigo, mesmo sem ter visto um joio na vida, segundo este humilde escriba:
Comente aqui: Terça-feira, Maio 05, 2009 Crônica de um nome incomum
Tem uma crônica ótima do meu amigo e padrinho de casamento Itamaury Telles que versa sobre as agruras de se ter um nome incomum. Itamaury cita, em seu estilo inconfundível, que chegavam a confundir seu prenome com "Itamaraty". Claro que de uns tempos para cá Itamaury se tornou muito famoso em Montes Claros e ninguém mais deve incorrer nesta gafe.
Nos meus tempos de segundo grau em Porteirinha, eu tive um colega chamado Aneures. Outro nome bastante incomum, como podem observar. Quantos Itamaurys ou Aneures você conhece? Provavelmente os mesmos que eu. Apenas estes.
Acredito que, de certa forma, o meu nome também se localize nesse panteão de originalidade. E essa é uma das vantagens de se ter um nome singular.
Claro que tem também suas desvantagens, e uma delas foi citada por Itamaury: a impossibilidade de se debitar a algum homônimo nossos erros de percursos. E isso se dá pela quase total ausência de homônimos.
Eu conheço somente outro Délio aqui em Montes Claros, e ele é frentista de um posto de gasolina nas proximidades da prefeitura. O outro Délio que conheço é um ex-vereador de Porteirinha. E tem um vereador de Belo Horizonte chamado Délio Malheiros e um advogado ilustre que tinha o esquisito nome de Délio Jardim de Matos. E só.
Nenhum personagem de novela e nenhum jogador de futebol foi batizado com esse nome.
Um total descaso com os Délios espalhados por esse país. Inclusive, conclamo os Délios de Montes Claros e da região para se manifestarem depois de lerem essa crônica.
Vamos ver se dá pra encher pelo menos uma van com os xarás que tem a honra de carregar esse nome, que designa os moradores da ilha grega de Delos.
Eu tenho muito orgulho de meu nome. É uma homenagem ao meu avô que eu sequer tive o prazer de conhecer. Apesar desse orgulho, eu sei que se trata, talvez, do nome mais fácil de se confundir no Brasil.
Meu nome é Délio. “Alguém aí disse Hélio, ou Célio, ou Nélio?”. A verdade é que quase todos os dias eu preciso dizer: “É Délio, com d de dado”.
O espantoso é que já chegaram a confundir com Pélio. Você por acaso conhece algum Pélio, ou Zélio por aí? Se bem que o irmão do Ziraldo tem esse nome...
Alguns dias atrás eu pedi um churrasco no delivery de um restaurante e quando chegou a entrega e vi lá na notinha o meu nome corrompido, “Bélio”, eu imaginei que essa versão até que tinha algum significado, pois fiquei mesmo com vontade de pegar um arsenal bélico e dar cabo de quem escreveu aquela atrocidade.
Quando comecei no rádio e poucos me conheciam em Montes Claros, foi uma verdadeira prova de paciência. Quando os ouvintes ligavam pra rádio 98 FM e perguntavam quem estava falando e eu respondia que era Délio, o ouvinte, invariavelmente, sempre confundia “Célio, Nélio?”. “Não, Délio, com d de doido”.
Lembro-me de ter ficado tão chateado com esse negócio que, já no final do programa, quando o telefone tocou pela centésima vez e a ouvinte perguntou quem estava falando, eu disse: “É o Hélio”. Do outro lado da linha a ouvinte perguntou: “Délio?”.
Citação oportuna: “O falador diz tudo o que sabe. O desajuizado diz apenas o que não sabe. Os jovens, o que eles fazem. Os velhos, o que eles fizeram. E os tolos, o que pretendem fazer”- Pernard
Como distinguir entre Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes na concepção crítica deste que vos tecla:
Filme: Meu nome não é Johnny - Um excelente filme nacional
Música: Ouça o novo álbum de Mariana Aydar. É samba fino à beça.
Livro: Leite derramado- Chico Buarque
Na Net: Fui entrevistado pelo blog da Sociedade Mutuante. Uma honra que divido com vocês: Outras Bossas: Por falar em cinema nacional, é curioso observar o quanto o filme “Cazuza” fez mal para a memória do roqueiro vitimado pela aids. Pelo menos entre as pessoas mais caretas. Não que o filme seja ruim. O problema é que o filme não economizou nas cores e mostra um jovem perdido e inconseqüente, relegando para segundo plano o artista original e ótimo letrista que ele foi. Esse mesmo erro acometeu o Jim Morrison, do filme de Oliver Stone. É uma injustiça com o Cazuza, que deixou uma obra coesa e excelentes letras. Agora só não me venha com a expressão “poeta” para designar o “cara”, porque aí é um pouco demais.
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Comente aqui: Quinta-feira, Abril 16, 2009 Imagens que eletrizam
O saudoso e premiado jornalista Joel Silveira, instado a citar a melhor imagem do jornalismo em todos os tempos, optou pela quixotesca tentativa de um chinês de conter a fúria de tanques de guerra, postando-se diante das bestas de metal, impedindo, pelo menos por alguns segundos, a intervenção militar na Praça da Paz Celestial de Beijing, no final dos anos 1990.
Essa imagem é mesmo emblemática. O tanque desviou porque, afinal de contas, ali dentro, protegido pela carapaça e pela carapuça, estava outro ser humano. O contraste entre a força bruta do tanque e o gesto frágil de um estudante correu o mundo através dos aparelhos de televisão e chegou aos mais recônditos grotões do planeta.
Ao lado da imagem da ruína do Muro de Berlin, do ataque aéreo ao World Trade Center e dos frames apocalípticos do enorme tsunami que varreu a Ásia há alguns anos, essa imagem registrada na China, estão entre aquelas que dificilmente nos esqueceremos, passe o tempo que passar. E, se considerarmos a opinião ilibada de Silveira, trata-se do momento mais relevante da contribuição do jornalismo para a compreensão do ser humano em todos os tempos em que a atividade jornalística esteve presente, em todas as revoluções e guerras das últimas décadas.
Nesta semana surgiu uma imagem com força para perdurar alguns meses na nossa memória. Quiçá anos. Aquela que mostra os funcionários da concessionária que explora o trem metropolitano no Rio de Janeiro descendo o sarrafo indistintamente nos cidadãos, que deram o azar de não encontrar um lugar mais confortável dentro dos vagões lotados, e que ficaram na mira dos capangas disfarçados de funcionários públicos.
Não havia lugares disponíveis para tanta gente e, ao tentarem mostrar para esses funcionários que os acotovelavam que ali não estavam bovinos e sim seres humanos, a reação foi de extrema violência.
Esses imbecis, devidamente demitidos após as imagens serem veiculadas na TV, não perceberam que ali dentro, aboletados feito sardinhas, tinha uma matéria viva e pulsante chamada ser humano.
Se o soldadinho de merda, com seu brinquedo sinistro, na China, desviou em nome de não sei qual sentimento, o mesmo não se pode dizer dos macacos adestrados que espancaram a nós todos, naqueles vagões lotados de penúria na tarde tropical do bairro de Madureira.
Parabéns ao nobre jornalista cinematográfico que, ao ser escalado para fazer algumas imagens das estações suburbanas no Rio em dia de greve dos metroviários, nos brindou com uma imagem tão forte e tão necessária, ainda que por pura sorte. Joel Silveira ficaria orgulhoso.
Em tempo: Dedico essa crônica, quase um desabafo, a meu ex-colega de jornalismo Alexandre Nobre, o Xandão, que é o cinegrafista mais completo que pode existir em nosso meio, porque também é jornalista diplomado. E dos bons, por sinal.
Poema Ligeiro: Noturno para o sertão
Os dormentes frios da ferrovia
testemunham a viagem do trem fantasma.
Somente os dormentes vêem.
Enquanto crianças cor de cobre
olham assustadas através das janelas.
Um apito é ouvido entre os ruídos da noite.
Um arrepio atravessa a alma de quem ouve.
Mas apenas os dormentes podem ver.
Enquanto uma criança de boina acena,
o trem avança noite à dentro.
Esse poema, para meu orgulho, está nas páginas iniciais do ótimo livro "Noturno para o sertão", do escritor porteirinhense Itamaury Telles
Citação oportuna: “Se nos oferecessem a imortalidade aqui na Terra, quem iria aceitar esta triste dádiva?”- Frase certeira de Rousseau.
Filtro: Como o céu de Ícaro pode ter mais poesia que o de Galileu, segundo este escriba digital
Filme: Se você ainda não viu um filme do Kurosawa, desculpe-me mas você ainda não conhece cinema. Sugiro “Ran”
Música do dia: Admirável gado novo- Zé Ramalho. Finalmente os versos “Êh, oh, oh, vida de gado, povo marcado êh, povo feliz...” encontraram uma síntese perfeita em imagens. As chibatadas na estação de Madureira, evidentemente.
Livro: Estou lendo “As travessuras da menina má”, do peruano Mario Vargas Llosa e “Grande sertão: Veredas” do filho mais famoso de Cordisburgo, Guimarães Rosa.
Net: Esse site é uma fonte inesgotável. O trocadilho é ruim, mas o site é excelente. Clique aqui Outras Bossas: O citado jornalista Joel Silveira era crítico ferrenho de Guimarães Rosa, a quem chamou de "Joyce caboclo", devido ao seu estilo único que, segundo Silveira, não passava de pedantismo. Tire suas próprias conclusões. De preferência leia James Joyce e o próprio Rosa.
Pixels: 8:36 AM
A tarde de primavera que avança ruidosa para as trevas da noite, parece se liquefazer, tamanha é a quantidade de água que cai das nuvens negras na fazenda distante da civilização de onde Sandoval a contempla, absorto e saudoso. Seu coração de matuto também troveja na mesma cadência da tempestade, e também se liquefaz de saudade de um tempo impreciso de sua infância, quando descobriu o doce mourejar da água da chuva, que escoava pela bica diretamente em seu corpo de criança, e do cheiro inebriante do biscoito de chuva que sua saudosa mãe fritava no fogão a lenha em dias longínquos como aquele que ele observava de sua janela.
O cheiro de terra molhada se confundia com o cheiro do quitute e ainda se misturava ao cheiro de afeto, quase palpável, em sua doce lembrança da meninice vivida ali mesmo, naquele sítio bem cuidado, mas ainda assim esquecido.
Sandoval jamais ouviu falar de Aubrey de Grey, e certamente este jamais saberá quem é nosso matuto, que vive na região de Claraval, município de Montes Claros, no norte das Minas Gerais. Grey é um brilhante cientista que acredita que o ser humano pode um dia ser imortal, ou, numa perspectiva menos otimista, viver alguns séculos com saúde e viço. Ele trabalha, em seu laboratório londrino, tentando reverter os processos químicos que desencadeiam os danos que ocorrem às células de nosso organismo, evitando assim o envelhecimento e a morte celular.
Seria a descoberta do milênio. A chave que nos permitiria prolongar a juventude por tempo indeterminado e que rejuvesceria nossos velhos como no conto de F. Scott Fitzgerald, que recentemente chegou às telonas do cinema. Milhares de Benjamins Buttons remoçariam a cada dia, e nem seria preciso vender a alma, como fez um quase homônimo do cientista, o belo Dorian Gray. A descoberta estaria aí, a princípio caríssima, mas depois disponível até mesmo para os Sandovais da vida.
Basta lembrar que muito em breve, segundo pares de Aubrey Grey, por algo em torno de quatrocentos reais, qualquer ser humano poderá ter seu genoma decifrado. Antigamente seria impossível quantificar um procedimento desses para um reles mortal, mas hoje é perfeitamente crível. Portanto, é uma questão de tempo e esperança até que o doutor Grey consiga êxito em seus objetivos instigantes. Decifrar nosso código genético nos pouparia de doenças como o câncer, que seria tratado antes mesmo de se manifestar.
Sandoval talvez nunca saiba de algo assim. Seu único vínculo com o mundo é um rádio de pilha constantemente ligado nas emissoras AM de Montes Claros, com suas modas de viola ao cair da tarde.
Mas naquele momento o único ruído que se nota em seu humilde rancho é o farfalhar da chuva, que tem o poder de transportá-lo para dias amenos, longe da lembrança atroz que o empréstimo não saudado com o banco lhe provoca e da dor da perda de sua amada, tão recente e amarga, que lhe assalta repentinamente.
Lágrimas espessas, quase do tamanho dos pingos da chuva, brotam-lhe da mais recôndita esquina de sua alma sertaneja, quando se dá conta que a noite escura e sem estrelas, que se sobressai, será na mais completa solidão.
Não, Sandoval nem desconfia que nos Estados Unidos um grupo de pesquisadores acredita que em breve será possível apagar de nossas mentes todas as lembranças ruins, alterando uma enzima misteriosa que existe em nosso cérebro. As mentes brilhantes de lá fizeram os experimentos em ratos e os resultados foram animadores. Os pobres roedores se esqueciam de seu sofrimento e viviam seus dias confinados na mais absoluta felicidade artificial.
Humanos e ratos tem muito em comum, portanto é uma questão de tempo, e possivelmente dinheiro, para apagar de nossas lembranças os momentos de desgosto, de ingratidão e de inveja que vivemos em nosso cotidiano, e também apagar para sempre a dor lancinante de perder um ente querido ou mesmo de ver nosso time do coração ser rebaixado para a segunda divisão.
Mas o que seria de nós, talvez perguntasse Sandoval, se um dia soubesse dessas coisas que relato, vivendo sem data para nos encantarmos, absolutamente errantes e desumanizados?
O que nos confere alguma virtude é o fato de sabermos nossas limitações. É o estranho dom de perceber que dia menos dia, talvez numa tarde chuvosa como aquela, como um sinal inequívoco de boa sorte, partiremos rumo ao desconhecido. Isso torna a vida um assombro e um milagre que precisa ser saboreado com ardor.
Pensando bem, o doutor Grey e os cientistas americanos deveriam conhecer Sandoval, um brasileiro como tantos outros: que ri ao se recordar da infância feliz e que chora quando se lembra das perdas que teve ao longo da vida atribulada. Mas que, ao anoitecer, e com a chegada pacificadora do estio, matuta que ainda pode haver uma esperança, desde que o fruto nasça graúdo, que o produto tenha preço no Mercado Municipal e que o banco, como em um milagre divino, o anistie de seus débitos.
Uma vida cingida em meio à tempestade, mas que vale a pena justamente devido a alguns lampejos, como os relâmpagos que alumiam as trevas e refletem, mesmo que num átimo, sua beleza complexa. Uma vida humana tem Sandoval, demasiadamente humana.
Citação oportuna: "O fim do mundo não é tão assustador quanto o fim do mês"- Frase pinçada pelo Poeta do Acaso, Damião Cordeiro
Filtro: Como diferenciar o CQC do Pânico na TV! baseando-se tão somente nos pitacos digitais deste que vos tecla
Filme: O divertido “Motoqueiros Selvagens”
Música: Uma daquelas certeiras do Kiss, para comemorar os shows desta lendária banda no Brasil
Livro: Código da vida, de Saulo Ramos
Net: A próxima grande onda da internet deve mesmo ser o Twitter. Eu já fiz o meu. Faça o mesmo e depois comece a seguir e ser seguido por centenas de outros usuários. Entre aqui: Outras Bossas: Montes Claros viveu um dia atípico na última segunda-feira. Tivemos a presença por aqui do presidente Lula, do vice, do governador Aécio, de onze ministros e todos os governadores do Nordeste, além de outras autoridades. Está aí uma das milhares de fotos do dia em que a cidade em que moro foi o centro político do Brasil:
Pixels: 5:43 PM
Comente aqui: Domingo, Março 29, 2009 Emoção da descoberta
O jornalismo tem me proporcionado grandes momentos profissionais nos últimos anos. O trabalho como assessor de imprensa e mestre de cerimônias fez com que eu apresentasse os pronunciamentos de importantes políticos e outras autoridades, civis e militares. Entre eles o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, e o vice-presidente da República, José Alencar. Este último com um detalhe importante. Quando o apresentei, na condução do cerimonial do sesquicentenário de Montes Claros, ele era o presidente da república em exercício.
Tornar-se presidente em exercício do Brasil sendo vice do Lula não é muito difícil de se conseguir, apresso-me em mencionar, uma vez que temos um presidente que adora viajar para outras nações, sobretudo àquelas de presidentes brancos e de olhos azuis.
Ministros, deputados, senadores, secretários estaduais e outros de igual quilate estão nesta lista extensa. Mas nesta semana tive uma satisfação diferente em um destes eventos, motivada pelo fato de ter escolhido o Direito como meu novo curso superior, e ao qual tenho dedicado meus esforços intelectuais.
A minha amiga e “chefe” Rosangela Silveira me informou, com seu jeito sem rodeios, que tinha um “evento de juízes no fórum” e que era para eu apresentar. Sendo um convite de Rosa, topei na hora, claro.
Só depois fui saber que se tratava de uma reunião da prestigiada Amagis, a Associação dos Magistrados Mineiros, que está completando cinquenta e cinco anos de serviços prestados à justiça brasileira. Na composição da mesa de honra e na platéia teríamos juízes, desembargadores e alguns advogados. Um seleto grupo de nossa justiça mineira. E eu lá, aboletado no parlatório, na condição de mestre de cerimônia, dando conta dessa responsabilidade toda.
Confesso que, quando percebi que eu era um mero estudante do segundo período de Direito em meio a tantas feras, senti um friozinho na alma. Mas me recompus quando me dei conta que minha porção “jornalista profissional” estava pronta para tornar este trabalho mais um numa lista de cerimônias relevantes e inesquecíveis. E foi de fato, mas não sem um pouco de emoção.
A Amagis tomou emprestado o nome de um grande juiz mineiro, hoje desembargador, para alcunhar a seccional do órgão em Montes Claros. E o escolhido foi Tibagy Salles de Oliveira, um personagem jurídico descrito por seus pares como “ícone da justiça”, “fogueira do saber jurídico” e “um dos últimos grandes guerreiros da justiça”. A metáfora da fogueira foi usada depois que a idéia de “chama do saber” pareceu insuficiente para falar desse homem notável, que há quase trinta anos trabalhou na comarca de Montes Claros. Quando aqui esteve os processos de sua vara se acumulavam aos milhares e em pouco tempo ele conseguiu diminuir sensivelmente este número, à base de muito trabalho e disciplina. Portanto uma homenagem das mais justas.
Coube a outro desembargador, o notório José Nepomuceno Silva, o papel de orador oficial da cerimônia. E esta incumbência foi concluída brilhantemente com a fala que, em certa medida, poderia ser de um Ruy Barbosa ou de um Cícero, mas que pertenciam a um senhor de setenta e muitos anos. E este brilhante orador vivia naquele momento uma situação particularmente delicada que, ao final da solenidade, revelou-se emblemática acerca de sua grandeza.
Mas antes disso, outro fato chamou minha atenção. Coube a um dos diretores regionais da Amagis, o juiz Laílson Braga Baeta Neves, que atua em Montes Claros, ler uma mensagem para o homenageado.
O magistrado, tão sisudo em seu cotidiano, deu lugar a um garoto que se lembrou do dia em que entrou pela primeira vez em um tribunal e viu o juiz Tibagy trabalhar. A atenção dispensada pelo experiente juiz ao então jovem estudante foi decisiva para definir o futuro do menino Laílson que, ao rememorar tais fatos, desfez-se em lágrimas sinceras, que contrastavam com seu rosto rijo e compenetrado. Outros juízes também se emocionaram, talvez por perceberem semelhanças com a história de cada um.
O homenageado, ao final de sua fala, se viu surpreso por não ter chorado naquela noite enquanto desfazia os nós antigos de sua memória, ao se recordar de pessoas e fatos que fizeram sua história até aquele momento, em que seus pares prestavam-lhe tributo.
Quando o presidente da Amagis fez uso da palavra, um fato interessante veio à tona. O juiz Nelson Missias de Morais parabenizou o homenageado e lembrou que, além de Tibagy, estava na mesa de honra outro “ícone da justiça brasileira”, o desembargador José Nepomuceno. Este, segundo Missias, no dia anterior, havia travado mais uma luta contra uma doença devastadora que, em sua impessoalidade, iguala juízes e lavradores diante de sua crueldade, o câncer.
E nem mesmo uma sessão de quimioterapia tirara dele o raciocínio arguto e o desejo de homenagear um “irmão e companheiro de pescarias”, revelando mais uma característica de Tibagy.
Quando a cerimônia terminou e minha porção jornalista saiu de cena, eu assumi a minha postura de estudante diante de tantos mestres e pedi, de maneira uma tanto acanhada, para tirar uma foto ao lado da iminente figura do desembargador homenageado. Ele, de imediato, se postou do meu lado e ficamos ombreados, com nossos paletós coincidentemente claros, deixando bastante tênue, pelo menos naquele ínfimo instante do flash, o imenso abismo que nos separa.
E seu lado acessível, tantas vezes mencionado nos discursos, assomou com um oferecimento sincero e espontâneo, que me encheu de alegria: “Escuta rapaz, se você quiser posso te mandar minha autobiografia. De repente você gosta. Ainda tenho alguns exemplares. Você quer?” - perguntou Tibagy.
Claro que quero mestre, e quero mais, quero que todos os meus colegas de curso de Direito consigam fazer carreiras consolidadas na ética e na transparência, quero que a justiça brasileira dê conta dos assombrosos 67 milhões de processos que emperram as varas criminais e cíveis, em todas as instâncias, e quero ser como o senhor. Juiz? Desembargador? Talvez, se assim se encaminharem os desígnios de Deus.
Refiro, sobretudo, a seu caráter e a seu jeito simples, que um dia, no caótico fórum Lafayette em Belo Horizonte, inspirou o garoto Laílson a se tornar magistrado e que teve também a força de atingir-me feito um aríete, abrindo paredes espessas, onde se escondiam objetivos que eu sequer supunha que existissem, e que agora terão a força de conduzir-me na longa e acidentada caminhada do Direito.
Desconfio que seu exemplo Tibagy, continuará inspirando outros tantos jovens, ad eternum.
E quero mais. Quero que o bravo Nepomuceno vença essa batalha e que vocês dois possam curtir suas aposentadorias em meio à gratidão dos amigos, o respeito das famílias e cercados por peixes e mais peixes, graúdos e encantados.
O aprendiz e o mestre
Poema ligeiro: Almas em geral Gerais...
O vento, tão incerto e poderoso
Rompe as distâncias desde o Gerais
E burila as sempre-vivas espalhafatoso
Espalhando vida a homens e animais.
O arquejante burrinho, tão pedrês, resfolega
No caminho pétreo, sem olhar para trás
Com suas gomas e bebidas para adegas
Vindas do lado de lá, dos canaviais.
Sua travessia até o comércio é uma epopéia
Quando o vento assobia no tronco da madeira
Em seu dorso o geraizeiro tem uma idéia
“Que bom seria se não existissem tantas ladeiras”.
Mas elas existem, feito assombrações, aqui e acolá
E os barrigudinhos famintos esperam no pé da ladeira
Que virem balas sortidas os negócios do pai em Jatobá
E que lhes traga roupas para a festa da padroeira.
Citação oportuna: "Os problema financeiros foram criados por gente branca e de olhos azuis"- A análise aprofundada de Lula diante da crise.
Filtro: Como diferenciar astronomia de astrologia segundo a ótica sui generis deste que vos escreve Filme: Gran Torino
Música: Conheça o Porcas Borboletas, de Uberlândia
Livro: Grande Sertão: Veredas, do Rosa
Net: A Hora do Planeta é uma tentativa de abrir os olhos da humanidade para um assunto sério e inadiável. Assista e reflita Outras Bossas: O blog tem experimentado uma mistura inédita de ficção e realidade nos últimos posts. Pretendo insistir com esse formato, mas sem descartar as dicas e sugestões que tem surgido aos montes. Continue comentando. Esse é o aditivo para meu cérebro continuar atento.
Comente aqui: Quinta-feira, Março 19, 2009 Pitacos, pílulas e pixels:
O mundo moderno requer, muitas vezes, uma análise rápida, porém substanciosa, dos fatos. É isso que essa coluna digital se propõe a mostrar. Sua presença neste blog será sazonal e conto com seu comentário para avançarmos com as discussões aqui aventadas.
Protojuiz- Em abril tem Protógenes Queiroz na “TV Justiça”. O homem deve abalar a república com suas declarações bombásticas. Ele acaba de dizer, em uma palestra em Alagoas, que o MST fez muito bem ao invadir a fazenda do Daniel Dantas, e que esse é o destino de terras de "banqueiro bandido". O delegado disse, noutra ocasião, que gostaria de ser o carcereiro da prisão onde Dantas deveria passar o resto de seus dias. Pensando bem, se fossem abertas vagas para tal função teríamos milhares de candidatos. Quiçá milhões.
Sugestão: Em maio a Faculdade Santo Agostinho de Montes Claros promove seu Congresso Nacional de Direito e o Congresso Internacional de Direitos Humanos. Gostaria de sugerir aos organizadores que tentem trazer a bola da vez da justiça brasileira, o delegado Protógenes, que nesta semana foi indiciado pela PF pela suposta farra de grampos denunciada pela Veja. Ele costuma polemizar em suas palestras e seria o chamariz ideal para se promover os congressos.
Súmula Dantas: A Súmula Vinculante número 11 foi criada com o intuito de preservar os acusados presos em flagrante da humilhação de aparecem nos jornais impressos e na TV com algemas. Esse fato foi responsável indiretamente para o suicídio acontecido no hospital Alfeu de Quadros, em Montes Claros, na última semana. O suicida tomou a arma do policial que o acompanhava e, depois de atirar a esmo, atirou em si mesmo. A presença das algemas impediria esse ato desesperado.
CQC- Entrou para os anais da TV brasileira a perseguição do CQC, ótimo programa de humor da Band, ao deputado Edmar Moreira, aquele mesmo do castelo no interior de Minas Gerais, nos corredores da Câmara. As perguntas capciosas do humorista foram solenemente ignoradas pelo nobre deputado, mas o momento foi impagável. No mesmo dia o programa tentou vender o tal castelo ao Príncipe Charles, que esteve visitando o Brasil. Nota dez para os pauteiros deste programa, que alegra as noites de segunda-feira.
A volta do careca- Um fato que me deixou comovido na semana passada foi a declaração de Marcos Valério de que teria apanhado muito no presídio de segurança máxima para o qual fora mandado por uns três meses. Valério é aquele sujeito de Curvelo, que ficou conhecido no "Mensalão" como o administrador do estratagema urdido ainda nos tempos do FHC e potencializado pelos "aloprados" do PT. Se por um lado a sova serviu para arrancar de sua cara lavada o risinho irônico que desmoralizou as CPIs por onde passou, por outro levanta uma questão séria: tem muita gente de rabo preso com o cara.
Pensamento típico da Veja- Eu pensei em escrever que tem também "gente com a língua presa", mas é melhor deixar pra lá. Foi um típico pensamento “burguês-direitista-neoliberal” do qual me arrependo profundamente.
Apelido do Marcos Valério- Jornalista vive de furo e eu gostaria de lembrar o apelido de infância de Marcos Valério em Curvelo. Ele fazia pequenos negócios por lá, e meu sogro, que é da vizinha Inimutaba, o conhece desta época. Marcos Valério era conhecido como "Flechinha". Um apelido que mostrava o quanto ele era célere e audaz em seus pequenos trambiques. Informações valiosas assim você só fica sabendo aqui, neste vosso humilde blog.
Quase quatro meses e nada- Não abordarei apenas a política, a imprensa e a justiça em níveis nacionais nesta estreia da coluna digital que vai escarafunchar a vida na “reles pública”. É preciso lançar luzes também nos péssimos primeiros meses da administração de Tadeu Leite em Montes Claros. O incrível aumento dos cargos de confiança e a criação desnecessária de novas secretarias deixam claro que os compromissos de campanha podem pôr a perder uma administração que surgiu com a proposta de "arrumar" a cidade, mas que até agora não resiste a uma comparação séria com a gestão anterior, suplantada pelo populismo do atual prefeito. Se antes tínhamos apenas a figura do secretário como catalisador do maior salário em cada secretaria, agora temos em cada uma delas um secretário adjunto e um assessor político, todos com salários altíssimos, além do próprio secretário.
Uma imagem emblemática:
Sinceridade rara- De uma hora para outra descobri o meu mais novo herói na política nacional. E ele atende pelo nome de Jarbas Vasconcelos. Até então ele grassava no mundão da política brasileira como apenas mais um, pelo menos pra mim, que até então não o diferenciara dos ignóbeis políticos de colarinho branco. Mas ao escancarar a “caixa de pandora” do PMDB ele fez um favor para sua própria biografia e para o Brasil. Mostrou o quanto é sincero e quanto o citado partido parece ter se perdido no tempo.
Sean de fora- Esse caso do menino Sean, que é motivo de disputa entre o pai americano e a família da mãe brasileira, parece-me um completo disparate. Não há nada que me convença, enquanto cidadão, que a guarda deva permanecer com o padrasto brasileiro depois que a mãe do garoto faleceu. É claro que do ponto de vista jurídico a história tem nuances mais complexas, mas o senso comum não admite a possibilidade do pai biológico ser preterido em um caso assim. A passeata que aconteceu no Rio de Janeiro neste fim de semana afirmou que o Sean é de dentro, mas o Sean é de fora.
A Cesare o que é de Cesare- Outro clássico jurídico está sendo disputado pelo Brasil. Desta vez contra a Itália. Estamos prestes a conhecer o destino de Cesare Batistti. O Brasil resolveu acolhê-lo mesmo com os crimes de assassinato que lhe são imputados. E olha que são quatro. Ele já foi condenado no país da bota, que o julgou à revelia, e uma prisão perpétua o aguarda por lá caso o STF julgue que é a vez do Brasil dar-lhe uma botinada nos fundilhos. Acredito que o ex-guerrilheiro italiano deva permanecer por aqui. Fomos muito longe em nossa posição para fraquejar agora.
Reforço de peso- A Itália demonstrou interesse em escalar o zagueiro Materazzi para xingar a mãe dos ministros do STF quando a coisa “pegar” de verdade. Uma cabeçada de nossos juristas poderá por a perder tudo que o que conseguimos até agora. Ou você pensa que deixar irritado o Berlusconi é pouca coisa?
Para Refletir: Escute essa gravação primorosa do artista Paulo Varella sobre a política brasileira. Com sua sinceridade, essa mensagem suplanta centenas de artigos políticos de sociólogos que tentaram decifrar porque os demagogos ainda têm vez em nossa democracia.
Baixe aqui: 11:43 PM
O poeta chinfrim olha através das persianas marrons do apartamento. Seus olhos observam a avenida furiosa, entrecortada por carros velozes e caminhões pesados. Seus olhos também estão pesados depois de uma noite às claras, escrevendo haicais amadores. O nome do poeta é João, e João é como seus haicais, amador.
Com as primeiras horas da manhã primaveril, ele se deu conta que não podia ter deixado sua namorada sair no meio da noite, como ela fizera, sutil feito uma assombração, depois de trancar seu coração de moça direita com cadeados espessos, forjados com o amor ferido e o desapontamento.
João, naquela noite furiosa, antes dos fatos já descritos, escutou-a perguntar qual chá ele preferia: verde ou de camomila. O poeta raso optou pela segunda opção somente por que este lembrava o nome de sua namorada.
Depois eles se amaram vorazmente sobre o sofá amarelado daquele apartamento na avenida movimentada.
E foi ainda na brisa fria da madrugada que Camila se foi, destruída por evidências loquazes das canalhices de João. Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite. Uma carta endereçada a uma certa Isabel, com declarações de amor e recortes de poesia barata, jogou Camila na contramão da avenida movimentada, a mesma que agora João esquadrinha em busca de um sorriso ou de um perdão, coisas intangíveis para ele.
Mas o que ele vê são os caminhões pesados e os carros velozes que parecem debochar de seus olhos tristes e de seus haicais amadores, feitos para Camila, naquela noite em que ele percebeu que a amava perdidamente, assim como amava o chá de camomila frio, que sorvia entre soluços sinceros.
Poema ligeiro: Pinçei para este blog um poema do Alisson Villa, descoberto por Daiane em seu Mil ternurinhas, blog que merece uma visita mais demorada
Má influência
Quando dei pinga ao telefone, ele embolou a fala dos amantes até terminarem o namoro.
Quando dei pinga à xícara, ela tentou voar com sua única asa e terminou em caquinhos.
Quando dei pinga ao sol, ele adormeceu sobre uma nuvem atrapalhando a passagem da noite.
Quando dei pinga ao dado, ele cambaleou incerto sobre que número oferecer.
Quando dei pinga ao jornalista, ele escreveu um poema sobre a alta dos juros.
Quando dei pinga ao texto, suas letras ficaram em itálico.
Quando dei pinga à bailarina clássica, todos assistiram uma apresentação contemporânea.
Quando dei pinga ao maestro, a orquestra afrouxou o smoking e tocou um samba.
Quando dei pinga ao camaleão, ele trajou um arco-íris.
Quando dei pinga ao pente, ele sorriu seus dentes.
Quando dei pinga à estrada, ela insinuou-se para todos.
Quando dei pinga à pilha, em meia hora ela gastou sua energia.
Quando dei pinga ao cabide, ele despiu-se da blusa para realçar o balançar de seus ombros.
Quando dei pinga ao guarda-chuva, ele perdeu até os pingos mais gordos.
Quando dei pinga ao criado mudo, ele desinibiu-se puxando muita conversa.
Quando dei pinga ao mineiro, a cachaça sentiu-se uma verdadeira água mineral.
Citação oportuna: "Eu acho que não dá nada nem tem nada demais. Não tem nenhum estudo comprovando os benefícios ou problemas. Na dúvida, pode ser passivo"- Ronaldo, sobre fazer sexo antes das partidas no programa do Serginho Groisman. Teria sido um ato falho?
Filtro: Maneiras para se aguentar tantas loas televisivas ao "fenômeno" e afugentar a mesmice nas horas de ócio, segundo este escriba Filme: O belo "Bella"
Música: O novo disco de Nando Reis, que contará com 12 inéditas e um dueto com Ana Canãs
Livro: "O código da vida", de Saulo Ramos
Net: Excelente site para fazer montagens Outras Bossas: Essa montagem aqui eu fiz usando o site aí de cima. Aprecie com moderação.
12:42 AM
Comente aqui: Quarta-feira, Março 04, 2009 Da série: Poesia em tempos de crise mundial?
Pessoas entardecidas
Foi-se o tempo que o tempo era abundante
como a água dos oceanos
e as estrelas do infinito.
Vivia-se num transe lúdico,
brincando de lego e ludo.
As caras tinham a pele de pêssego
e alma leve, feito colibris.
Os domingos eram longos,
com guaraná e sermões.
E vivia-se intensamente
como se o amanhã fosse algo impreciso.
Mesmo as segundas tinham lá seus encantos,
as partidas de futebol, os namorinhos, o pôr do sol.
Mas a vida, num triste dia, resolveu andar
e agora corre loucamente.
E eu, no fim de cada dia, me sinto mais entardecido.
Enquanto crianças barulhentas
exercitam sua felicidade eterna.
7:46 PM
Comente aqui: Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009 O cerco se fecha
Conheço uma frase interessante, mas desconheço seu autor. A frase vaticina que “nenhum adulto tem o direito de criar filhos sem antes cercá-los de livros”. Sempre gostei desta frase e cheguei a usá-la em ocasiões em que fui convidado a falar sobre o prazer da leitura e a importância da literatura na vida das pessoas. Mas hoje, durante uma aula de Sociologia do Direito, precisei revê-la. A contragosto, é verdade. Um adulto não pode criar um filho sem antes cercá-lo de muitas outras coisas, algumas mais essenciais do que os livros. Remédios e alimentos vêm em primeiro lugar neste ranking, que ainda tem outros itens antes de chegar aos famigerados livros.
É uma pena que seja assim, mas o Brasil e outros países em desenvolvimento precisa lidar com pessoas cujo único objetivo é sobreviver, e essa luta é travada todos os dias, nas franjas das metrópoles e nos rincões profundos do país.
E a arte de sobreviver para essa brava gente brasileira, e indiana, chinesa e outras, independe de manuais, como os que abundam na classe média com o rótulo de auto-ajuda. O que importa, neste particular, são os nutrientes e os fármacos, e estes não podem faltar nas casas de milhões de terráqueos.
“País em desenvolvimento” é um eufemismo criado para referir-se a nações com graves abismos sociais, mas com algum pendor para ascender nos índices de qualidade de vida, nem que seja num futuro abstrato, e isso inclui certamente os países “Bric”, sigla que abriga Brasil, Rússia, Índia e China.
Estes países serão importantes, graças a seus mercados aquecidos e auto-sustentáveis, no esforço planetário para se evitar que a vaca vá para o brejo com a crise mundial. Se bem que essa metáfora bovina não fica bem para os indianos, aonde a vaca vai para onde quiser sem ser importunada.
Esses países carregam semelhanças quanto ao abismo que separa ricos e pobres e quanto ao tamanho de seus mercados consumidores.
Mas o Brasil leva uma série de vantagens em relação a seus companheiros “bric bracs”. O “Bolsa Família” é coisa nossa. Nenhum outro país conta com um programa de divisão de renda como esse, onde o governo não exige quase nada em troca. É praticamente um ato de caridade, para não usar o termo “esmola”, que ficaria deselegante. Mas quem sou eu para criticar um programa desses, sabendo que milhões de pessoas sobrevivem apenas com a caridade institucional do governo Lula.
Esse dado é interessante, vejam vocês, pois assim chegamos à constatação surpreendente que o salário mínimo é alto neste país de contrastes que é o Brasil. Veja bem: se um cidadão consegue sustentar a si próprio e a sua prole com o “Bolsa Família”, imagine o dia em que ele angariar, com seu suor, um salário mínimo? Seria a glória. Ele fatalmente compraria remédios na farmácia popular, uma cesta básica no supermercado, roupas em algum magazine popular e, finalmente, um objeto que certamente lhe trará a cultura que tão ansiada por ele e por seus filhos. Um livro? Não, uma antena parabólica.
Poema ligeiro: Palhaço arruinado A piada do palhaço triste
ecoa sob a lona imunda do circo.
O riso das crianças tristes
se mistura ao cheiro de mofo.
Os pais, promovidos a crianças, tristes,
compram quebra-queixo com asas de barata.
A cidade inteira assiste
ao monólogo do palhaço arruinado.
Citação oportuna: “Os medíocres lêem os menos medíocres, mas ainda assim, medíocres! Mas os intelectuais lêem os mais intelectuais ainda, e intelectualizam-se” – Frase da poeta Cyntia Pinheiro, formosa mãe e fabulosa musicista.
Filtro: Como separar o Coringa de Heath Ledger do Batman de Michael Keaton na humilde, porém embasada, opinião deste escrevedor Filme: Quem quer ser um milionário?- Ganhadores do Oscar passam a ser, automaticamente filmes imperdíveis.
Música: O novo disco de Bruce Springsteen é ótimo: Working on a dream
Livro: 1001 filmes para ver antes de morrer
Net: Conheça o site da melhor revista do Brasil Outras Bossas: Muito boa a repercussão da volta do blog. Diversos comentários interessantes. Começamos bem. E já que é hora de retornos, em breve teremos mais um podcast, com o tema "Músicas Nordestinas". Aguarde o próximo post. Ah, e feliz ano novo. Afinal de contas terminou o carnaval...
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11:27 PM
Comente aqui: Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009 Jornalismo gonzo - Diário da viagem ao Nordeste
18 de janeiro - O início da aventura
Saímos de Montes Claros por volta das 18h20 de domingo, 18 de janeiro. Começamos mal porque o horário previsto para o início dessa verdadeira odisséia era 17h. Mas seguimos em frente, com cinqüenta e duas pessoas a bordo de um ônibus imponente de dois andares. Imponente sim, mas velho.
Antes de embarcarmos ficamos conhecendo o tio da namorada do irmão de minha esposa. E pude verificar que um colega de rádio, o Jean da Transamérica, também embarcou conosco. Além disso, tem Daiane, que é uma grande amiga nossa, e que também fará esse “cruzeiro rodoviário” através do nordeste.
Eu, Camila e nossa amiga Daiane na hora do embarque
Os motoristas se apresentaram antes da partida. Um deles ganhou minha simpatia de cara. O Almir. É o mesmo nome de meu pai, e se esse xará tiver uns 10% das qualidades de meu velho, certamente estaremos em ótimas mãos.
A nossa torcida, minha e de Camila, é que o ônibus seja confiável o suficiente para percorrermos oito estados do Brasil em quinze dias. É esse nosso desafio a partir de agora quando já sentimos o seu balançar impreciso nas estradas pouco conservadas de Minas Gerais. Mas, além das poucas pessoas que conhecemos, e que embarcaram conosco, é de se presumir que boas companhias surjam à medida que formos conhecendo os demais personagens desta aventura.
Ainda em Montes Claros a voz anasalada de nossa guia informou superficialmente sobre o trajeto que faremos e que a hora prevista para chegarmos em Recife é um pouco além do que imaginávamos quando compramos o pacote.
Uma viagem de umas vinte e seis horas aproximadamente nos aguarda. Serão quase sete mil quilômetros percorridos ao final destas duas semanas. Quem já fez esse trajeto costuma dizer que o esforço vale a pena diante das belas praias e paisagens que encontraremos.
Ponto positivo: Não teremos pagodeiros no fundo do ônibus ao longo da viagem. Um pessoal mais velho e de bom poder aquisitivo parece ser a maioria.
Ponto negativo: Receio que a idade avançada de alguns passageiros possa atrapalhar, de alguma maneira, o bom andamento da viagem. Tomara que sejam animados e prefiram praias a compras, por exemplo.
Logo depois que saímos começou a ser exibido no ônibus um filme fraco com o ator Cuba Gooding Jr. Os tiros e a violência da película não combinaram com o clima de paz que uma oração puxada pela guia turística estabeleceu no recinto móvel. Eu e Camila optamos pelo drama familiar “A lula e a baleia”, que vimos em nosso lap top.
A primeira parada foi em Salinas, capital mundial da cachaça. Tomei um gole de uma autodenominada cachaça light, que estava sendo servida por uma moça simpática no posto de combustível escolhido para abrigar nossa excursão. Optamos por não jantar, porque estávamos levando diversos sanduíches e outras bobagens em meio a nossa bagagem de mão. Depois do jantar o ônibus percorreu um bom trecho e um cochilo foi inevitável.
19 de janeiro - Umbaubar-nos?
De madrugada, por volta das 2h20, apareceu um problema mecânico no ônibus. Ficamos parados por quase duas horas na cidade baiana de Vitória da Conquista para os motoristas tentarem arrumar as coisas. A viagem ficou bastante atrasada.
O nosso café da manhã foi na cidade de Milagres, no estado de Dorival Caymmi. Encontramos lá o caos típico dos grotões do país.
Cascas de banana eram arremessadas sem nenhuma cerimônia pelas janelas dos outros ônibus. O alarido e a má educação se juntavam ao som de músicas péssimas que eram tocadas nas ruas e, como se não bastasse, o leite que nos foi servido estava frio e azedo. Uma porcaria. Pelo menos as gigantescas pedras que emolduram a paisagem da cidade se salvaram.
Bela paisagen da viagem, em Milagres, Bahia
Percorremos um longo trecho até a divisa da inacabável Bahia com Sergipe. Paramos numa cidade chamada Umbaúba para almoçar. Neste local perdido de Sergipe aconteceu uma situação curiosa com Daiane. Um anúncio de uma festa na cidade trazia a inscrição “UMBAÚBA-SE”. Daiane, que é professora de português, imaginou que se tratasse de algum verbo desconhecido e coube a Camila informá-la que aquele era o nome da cidade acompanhado das iniciais do estado.
“Como assim umbaubar-me?” - Foi essa a pergunta que nossa amiga formulou.
Na parada para o almoço uma carreta e um automóvel quase se chocaram com nosso ônibus no momento em que o motorista contornava a movimentada BR em direção ao acanhado restaurante de beira de estrada. Foi por um triz.
Depois do almoço a programação do DVD continuou fraca. Foi exibido um show de um comediante cearense, e algumas senhoras reclamaram, à boca pequena, das piadas sujas do sujeito chamado Pudim. Depois foi a vez de César Menotti e Fabiano entrarem em cena. Neste instante não tínhamos mais bateria no lap top e o jeito foi recorrer ao mp3 player, que nos ofereceu um pouco de música boa, enquanto os dois irmãos mineiros se esgoelavam nos monitores de catorze polegadas do ônibus.
As imagens foram se sucedendo nas janelas, à medida que avançávamos através de Sergipe. A pobreza e a seca eram vistosas, quase palpáveis.
Casinhas minúsculas, motoqueiros sem capacetes, crianças e cachorros magros, casebres com portentosas parabólicas. Foi neste instante que percebemos que a ida seria muito mais demorada do que supúnhamos.
Trilha sonora da viagem, em nosso player:
- Skank- Estandarte
- Trilha sonora do filme “Alta Fidelidade”
- Julieta Venegas- Acústico MTV
- Trilha sonora da minissérie “Queridos Amigos”
- In the rainbows- Radiohead
No roteiro estava previsto o almoço na divisa de Sergipe com Alagoas, em um lugar chamado Propriá, mas passamos por lá quando o dia quase dava lugar para a noite na dança cósmica do tempo. Estávamos a apenas 60 KM de Penedo, onde o nosso “Velho Chico” encontra com o mar, e foi emocionante vê-lo do alto de uma ponte na divisa entre os dois estados. Fez-nos esquecer até do atraso da viagem. Se antes imaginávamos chegar em Recife, nossa primeira parada, depois de umas vinte e cinco horas de viagem agora a previsão pulara para quase trinta horas, se outros contratempos não aparecerem.
Chegamos em Recife por volta da meia-noite. Fomos diretos para o confortável hotel, absolutamente moídos da viagem. Mas ouvir o barulhinho do mar fez com que tivéssemos ótimos sonhos.
Neste mesmo dia em Recife eu liguei para uma amiga que conheço via Orkut, a Soraia. Infelizmente não foi possível nos vermos nesta breve incursão à cidade dela. Imaginei que teríamos duas noites na capital pernambucana, mas o atraso na viagem nos deu apenas uma noite por aqui, e ficou impossível marcar alguma coisa em cima da hora. Tentei falar também com a Damiana, outra boa amiga encontrada nas entranhas da Internet, mas seu telefone deu ocupado.
Mas meu maior lamento foi não ter tido a oportunidade de conhecer uma pessoa que mora em Paulista, cidade da região metropolitana de Recife, a Karla. Nós nos correspondemos a mais de quinze anos e não consegui contactá-la para pormos fim a essa longa espera. A gente se escrevia, quando nem havia e-mail, e depois nos falamos por longos anos pelo telefone. Até que nos descobrimos no mundo admirável e louco da Internet. Mas o número que tinha dela, e que liguei do hotel, não existia mais e ela não respondeu ao recado deixado no Orkut. Desta forma não nos vimos. Uma pena.
Curiosidade: Conheci Karla quando uma cartinha enviada por mim foi parar na revista de mexericos Contigo. Eu convidava fãs de Airton Senna para se corresponderem comigo. Dezenas de cartinhas chegaram até mim, em Serranópolis, minha cidade, mas apenas a amizade virtual de Karla sobreviveu, e sobreviverá, mesmo com esse contratempo.
De noite, eu, Cá e Daiane fizemos uma verdadeira via-crúcis em busca de um restaurante para jantarmos. E fechamos nossa noite no Carrefour, onde funciona um restaurante oriental. A comida e o papo foram ótimos. Biscoitinhos da sorte, consumidos no fim da refeição, falavam de realizar sonhos neste novo ano. Certamente estamos começando muito bem esse 2009 com essa viagem, que certamente terá novos e emocionantes capítulos nos próximos dias.
Insight: Vinte de janeiro entrou pra história mundial como o dia em que Barack Obama se transformou numa lenda ainda vivo, e muito vivo. Citação oportuna: “A figura política de mais viva personalidade é sempre a que está mais sujeita ao perigo do assassinato, pois motiva profundos e contraditórios impulsos em amigos e inimigos e, assim, agita a oscilação dos desequilibrados” – frase de Norman Mailer, ao falar de Kennedy, numa Piauí que estou lendo durante esta viagem. Mas a frase é oportuna também para Obama, que acaba de tomar posse como o homem mais poderoso da Via Láctea.
Acabei de descobrir: Um jornalista nunca tira férias por completo.
20 de janeiro - Havia uma pedra no meio do caminho
Na primeira hora do dia chegamos em Recife. Encontramos a cidade, com seus arranha-céus, bastante tranqüila. Todos estavam cansadíssimos após sacudirmos por intermináveis trinta e duas horas dentro do ônibus. O hotel em que nos hospedamos era bom e rapidinho subimos com as malas e fomos dormir, ansiosos pelo primeiro dia de praia.
O mar, que nós mineiros, em sua maioria, vemos apenas uma vez por ano, estava lá, logo depois da avenida, em frente ao prédio, e bastou seu vulto negro e seu cheiro e barulho inconfundíveis para nos dar a certeza: as férias estavam, enfim, começando para valer.
Por volta das nove da manhã seguimos para Porto de Galinhas. Sei que é estranho começar um passeio assim logo pela cereja do bolo, mas a ida na “praia mais bela do Brasil” como a maioria das pessoas se refere a esse paraíso, foi o primeiro item de nossa programação.
O que Porto de Galinhas tem: Coqueiros espalhados por quatro quilômetros de areia branca e batida, com águas transparentes e mornas. A melhor hora para se visitar os aquários naturais é na maré baixa.
Eu estava tão anestesiado com a beleza da praia que não vi uma enorme pedra em minha frente quando entrava no mar pela primeira vez. Meu dedão encontrou a tal pedra e uma dor lancinante tomou conta de mim. Doeu demais. A unha ficou azul na mesma hora.
Eu e minha esposa entretidos com milhares de peixinhos
Mas o passeio valeu a pena mesmo assim. Fomos de jangadas até as piscinas naturais famosas e nadamos com os peixinhos. Um espetáculo. Depois eu, Cá e Daiane comemos uma deliciosa tapioca na charmosa vila de Porto de Galinhas, na rua Beijupirá, onde tudo acontece.
História: “Tem galinha-d´angola nova no porto!” - essa era a senha dos contrabandistas de escravos para avisar os senhores de engenho da chegada de uma nova carga vinda da África, no tempo em que já estava pegando mal essa história de escravidão. Daí o nome da praia.
Outro destino certo, após o dia na praia, foi à farmácia, onde comprei um anti-séptico para o dedo, que latejava. Mesmo com esse percalço tive a nítida sensação de ter conhecido um lugar único, talvez até a mais bela praia do Brasil. A se lamentar apenas o fato de ficarmos somente um dia neste lugar.
11:09 AM
Comente aqui: 21 de janeiro - Máscaras, e não apenas as carnavalescas
Nossa estadia em Recife terminou e, antes de fechar a conta no hotel, dei um mergulho nas águas da Praia de Boa Viagem, onde tem alguns tubarões e é prudente nadar apenas no rasinho.
Depois seguimos para um passeio em Olinda, a bela e histórica primeira capital de Pernambuco, após fazermos um city tour por Recife, cidade conhecida como “Veneza Brasileira”, graças a seus diversos rios e pontes.
O passeio foi excelente. Vimos em Olinda as primeiras demonstrações de que o carnaval se aproxima, com os famosos bonecões espiando das casas antigas aqui e acolá. Conhecemos também igrejas, o Mosteiro de São Bento, o túmulo de Dom Hélder Câmara, notável figura religiosa e política do Brasil, e subimos e descemos ladeiras. Nas lojas de artesanato encontramos coisas belas e caras, inclusive lindas máscaras de carnaval.
O carnaval chega mais cedo por lá
Um grande passeio que alimentou em mim e em Camila o desejo de passar um carnaval nesta terra abençoada, ao som de muito frevo e maracatu. Se bem que basta ficar longe do axé de Salvador para o carnaval ser minimamente suportável. Mas certamente aqui as folias momescas são verdadeiramente especiais.
Outros atrativos: O guia mostrou de onde parte o famoso “Bacalhau do batata” e mostrou também a casa de Alceu Valença, que virou atração turística. Ele não estava lá. Aliás, ele nem mora lá.
Hoje tivemos um erro de estratégia por parte dos organizadores da excursão. O problema é que depois de subir e descer as ladeiras centenárias de Olinda seguimos direto para o suposto “por do sol mais bonito do Brasil”, na Praia do Jacaré, na Paraíba, nas proximidades de João Pessoa. Pegar a estrada sem tomar banho não é uma boa experiência, a não ser que você seja da mesma terra de Sarkozy, e como tragédia pouca é bobagem, o ar condicionado do ônibus pifou.
Comecei a observar muitas coisas erradas nas atitudes dos guias turísticos que nos acompanham. A principal delas é a ausência de uma certa postura que deve acompanhar esses profissionais. Foi dito pra gente na saída em Montes Claros que nós estávamos de férias e eles, guias, estavam a trabalho. Não é o que parece. Atrasos, informações truncadas e o péssimo estado do ônibus depois destes dias corroboram essa impressão.
Hoje aconteceu um evento na hora do almoço, já de volta a Recife, que uniu bastante os viajantes. Até então todos ainda estavam muito reservados, mas bastou um almoço em um restaurante caro para unir toda a trupe, com direito a muitas risadas ao final desta aventura gastronômica. O problema era o preço do quilo de comida, R$ 39,90. Ninguém perguntou o preço e foi colocando suas pratadas, devidamente reforçadas com a energia exigida nas ladeiras de Olinda.
O restaurante era mal intencionado, pois os atendentes colocavam nas notinhas números como 520 ou 630. Todos imaginaram que esses números representavam o valor a pagar, ou seja: R$ 5,20 e R$ 6,30 respectivamente. Mas esse número representava o peso da comida em gramas, e muitos, diante do “preço” módico e da comida excelente, repetiram a dose.
Na hora de pagar foi um susto. Eu e Camila pagamos mais de R$ 40,00 reais e o papo no ônibus a partir daquele momento foi só sobre as “facadas” que todos levamos. E, já que todos se deram mal, o jeito foi rir da desgraça coletiva. Quer dizer, apenas o Renê, um empresário que viaja com sua família, disse que o restaurante talvez tenha errado sua conta, já que a comida dele, da esposa e das duas filhas ficara em R$ 34,00 reais. Pelo visto só ele se salvou.
Piadinha que fiz sobre a situação: Na hora da sobremesa uma dona foi pesar uma cereja e apareceu o preço da iguaria: R$ 1,20.
A idéia era chegar na tal Praia do Jacaré antes das 16h30, quando o espetáculo começa, mas chegamos por volta das 18 horas. E o pior, estava nublado. Ninguém viu nada de por do sol e eu confesso que fiquei decepcionado. Primeiro porque a tal praia é fluvial, e segundo porque estávamos de mau humor com a falta de ar condicionado. Um fiasco. Talvez em outra ocasião o poente naquela região possa ser apreciado, mas desta vez foi um mico.
Seguimos viagem para Fortaleza, debaixo de chuva. De madrugada, quando passamos por um posto de gasolina no interior do Rio Grande do Norte, eu e outros companheiros de viagem resolvemos usar as mantas do ônibus como toalha e fomos tomar banho nos banheiros imundos da parada. Senti-me um presidiário, já que o chão era sujo e a água fria. Pelo menos diminuiu o calor senegalesco e pude dormir um pouco na jornada rumo a Fortaleza.
22 de janeiro - As novas amizades
Chegamos no ponto mais distante de nossa viagem, a bela e violenta Fortaleza. Uma metrópole a beira-mar do porte de Belo Horizonte, e com uma vida noturna invejável. Mas cheguei aqui com bastante medo, pois a criminalidade da cidade é grande, conforme uma matéria que assisti ainda em Minas e que mostrava a ação de trombadões em plena orla de Iracema. E para onde fomos nos hospedar? Em Iracema, claro. Portanto a ordem era ficar alerta.
Chegamos cedinho e fomos logo nos hospedando em um flat, equipado com micro-ondas, fogão e outros confortos, e o nosso quarto era de frente para o mar. Uma beleza.
De tarde fomos para a Praia do Futuro, aquela mesma eternizada na música Terral, de Ednardo. A praia, que fica dentro de Fortaleza, é linda. Águas limpinhas e azuis e ótima estrutura para receber os turistas. Foi uma tarde ociosa e divertida.
Na volta uma roda de piadas e causos no fundo do ônibus tratou de nos aproximar ainda mais da família de Renê e de meu colega de profissão, Jean Paulo, que viaja em companhia de sua esposa Cláudia. Renê mora seis meses na Suíça e seis meses no Brasil e tem um papo excelente, e Jean Paulo é divertido e espirituoso.
Eu e Jean, embora sejamos conhecidos, nunca fomos amigos de fato, mas a convivência que estamos tendo me fizeram ver o quanto ele é bacana e gente boa. Eu o conheço há quase uma década e precisou viajarmos tantos milhares de quilômetros para perceber que podemos ser excelentes amigos. Como diria o “filósofo” Ritchie, “A vida tem dessas coisas”.
Ah, por falar em René, hoje ele conferiu o extrato do cartão e o almoço de ontem em Recife custou-lhe exatos R$ 134,00 reais. Risadas gerais.
23 de janeiro - Adrenalina e risadas
De manhã eu e Cá fizemos uma caminhada pelo calçadão. Tivemos o cuidado de não levar nada de valor. Caminhamos até um caixa do Banco do Brasil, onde sacamos uma pequena quantia. Logo depois do farto café da manhã seguimos para o Beach Park.
Foi um dia de aventuras, tendo Camila e Daiane como companheiras, já que a maior parte da excursão preferiu ficar do lado de fora do “parquão”, cuja entrada era R$ 95,00 reais por pessoa. Um assalto, ainda mais se levarmos em conta o valor de nosso salário mínimo. Mas o incrível é que depois de um dia de lazer por lá fica a nítida impressão de que valeu a pena o “investimento”. A estrutura é incrível, coisa de primeiro mundo. E as atrações são inacreditáveis.
Fiquei assustado e pensativo sobre o limite do que é considerado “radical”. Fui em toboáguas que se encaixam nesta definição e a sensação que posso descrever é a de completo pânico. Não é divertido. É assombroso. A sensação é que vamos partir desta para uma melhor.
O pavor em forma de brinquedo
Lá tem o auto-intitulado “maior toboágua do mundo”, o Insano. São 41 metros de queda e um torpor parecido com o de morrer. Coisa mole para a galera que precisa provar pra si mesmo sua masculinidade, mas que, na verdade, é uma completa estupidez. Fui nesse e ainda fui no Sarcófago, que muitos juram ser ainda mais radical do que o Insano, já que a queda íngreme se dá no mais absoluto breu. Consegui, é verdade, mas não pretendo voltar e tampouco recomendo pra ninguém. A sorte é que o parque aquático tem dezenas de outras atrações, algumas verdadeiramente divertidas.
Onde vamos parar: acredito que em breve teremos brinquedos onde a morte vai aparecer de vez em quando. Algo como “venha saltar no Estupidator X, que só na semana passada matou três”. O limite do “radical”, por definição, só pode ser a morte.
A volta para o hotel foi divertidíssima. Muitas piadas e de novo situações envolvendo os altos preços da temporada de férias. Uma cerveja Antartica Original na praia próxima do Beach Park, custava inacreditáveis R$ 9,90. Jean, sempre espirituoso, disse que ao invés de copos eles pediram tampinhas de garrafas para os garçons e que passaram o dia inteiro com uma única Skol, comprada por R$ 6,50.
De noite fomos a um show de humor. Os comediantes Papudin e Alex Nogueira fizeram apresentações muito engraçadas. Em especial este último, que foi o vencedor de um quadro no Faustão, que revelou humoristas no ano passado.
Mineiros: Não vi muitos conterrâneos em Fortaleza. A maior parte dos turistas parece ser de São Paulo, Rio, Goiás e Manaus.
Nosso programa se estendeu um pouco além da conta e, depois de um filé a chateaubriand insosso degustado na própria orla do hotel, voltamos a pé por volta da meia noite. Ainda bem que nossos anjos da guarda estavam de plantão, e olha que o meu provavelmente se recusou a acompanhar-me hoje em alguns momentos, como no Insano, no Sarcófago...
24 de janeiro - Encontro marcado
Logo cedinho fomos para a Praia de Cumbuco, nas proximidades da capital Fortaleza. Esta praia não está entre as mais cobiçadas do Nordeste, mas tem lá seus encantos, sobretudo no que diz respeito a passeios de cavalo e de quadriciclos, mas confesso que não gostei muito, ainda mais porque o mar estava cheio de algas.
Nós em Cumbuco
De lá saímos para as compras no enorme mercado de Fortaleza. De novo decepcionei-me. Imaginava algo mais rústico, só com artesanato, mas é incrível a grande quantidade de comércio de roupas que de artesanais não tem absolutamente nada. Pelo menos arrumamos um bom e barato almoço e compramos algumas lembrancinhas.
Mencionei aqui que Fortaleza tem uma excelente vida noturna. Basta analisar os principais shows que a cidade oferecia neste sábado. Tinha Jota Quest de graça numa certa Reserva do Cocó, tinha a cantora canadense Alanis Morissete numa sofisticada casa de shows e tinha o mineiro Vander Lee no Dragão do Mar. Fomos para este último, graças, sobretudo, à tietagem de Daiane em relação a este promissor cantor mineiro.
A ida a Fortaleza fez com que eu conhecesse um amigo do Orkut, o Márcio Fernandes. Ele é músico e foi nosso cicerone no amplo centro de cultura denominado “Dragão do Mar”. Coube a Márcio dar-nos uma má notícia, quando ele ligou para falar comigo no hotel. Não havia mais ingressos para o show de Vander Lee. Estavam esgotados.
Mesmo assim seguimos pra lá, na esperança frívola de uma desistência ou de um milagre. Mas não teve jeito. Vimos o show de uma passarela, que ficava ao lado do anfiteatro. No final Daiane conseguiu tirar fotos com o cantor e eu, Cá e Márcio saímos para conhecer um pouco do imponente prédio, que abriga shows, exposições e toda sorte de gente em seus milhares de metros quadrados. O lugar é lindo, mas o seu entorno é perigoso.
Eu e Cá pedindo a benção para Patativa do Assaré
Encontramos Daiane, Jean e Cláudia assustados com a quantidade de brigas que presenciaram. Então decidimos pegar um táxi e encerrar a noite.
O programa noturno foi bom porque pude conhecer Márcio, que agora faz parte da minha lista de amigos reais, deixando de ser apenas um profile do Orkut. Ele me presenteou com um CD e um DVD com suas performances musicais e certamente agora tenho um grande amigo na bela e perigosa Fortaleza.
25 de janeiro- “De Canoa Quebrada até Cochabamba...”
O passeio tinha jeito de ser imperdível. Iríamos conhecer a mítica e riponga Canoa Quebrada. Fechamos a conta do hotel e nos pusemos a caminho logo cedo.
Antes de chegarmos na praia, tivemos um contratempo. O ônibus foi parado pela polícia do Ceará, que se movimenta nas viaturas mais modernas do país, e o vigilante rodoviário aplicou uma multa no motorista Agenor. As razões ficaram nebulosas. Ele me disse, após o incidente, que foi porque o velocímetro estava com defeito, mas depois surgiram outras versões, uma delas dando conta que o responsável pela multa seria alguns pneus carecas do ônibus. Mas isso não importa, já que estávamos indo para uma das praias mais famosas do Brasil.
O passeio foi emocionante. A praia é lindíssima, com suas falésias alaranjadas contrastando com o mar esverdeado. A paisagem impressiona e é necessário caminhar pela praia para ver as belas barracas que tem lá, principalmente a Lazy Days, onde tomamos água de coco.
O que Canoa Quebrada tem: Faixa de areia fofa e clara, vila de pescadores, falésias cor de laranja madura em forma de meia lua, mar verde e morno e jangadas, muitas jangadas.
A gravação dos capítulos iniciais da temporada 2009 de “Malhação” na praia parece ter ajudado na divulgação ainda maior deste cantinho do Brasil. Tinha muita gente na praia e grande parte queria ver a casa onde foram gravadas as cenas e o barzinho que abrigava a produção, o já citado Lazy Days. Para mim, e tenho certeza que para Camila, estes detalhes não tem a menor importância. Mas o fato é que Canoa Quebrada não deveria ser visitada em apenas um dia. Fiquei sabendo que lá tem luais imperdíveis e outras atrações que um dia somente não dão conta de contemplar. Pretendo voltar aqui, algum dia.
Comemos um saboroso peixe na telha, com uma cervejinha gelada. Passeamos pelas falésias e tiramos dezenas de fotos, inclusive do famoso Jegs Bar, um barzinho ambulante puxado, claro, por um jegue. E depois seguimos para Natal.
Conferindo o menu do famoso bar ambulante
Nosso jantar foi na cidade de Lajes, no Rio Grande do Norte. Desta vez encontramos uma ótima estrutura. Chegamos na capital potiguar às 22 horas. O cansaço era grande e fomos dormir. A viagem só está na metade.
26 de janeiro - Com emoção
Em Natal o sol nasce muito cedo e antes das 5 da manhã ele espiava por sobre os prédios da bela e limpa capital do Rio Grande do Norte. A cidade me impressionou com seu jeito de Dumbai sertaneja, e sua imponente ponte recém construída e suas ruas cobertas de areia.
O hotel, como os das outras capitais, é muito bom. Mas o daqui tem até elevador panorâmico. Em Recife ficamos no Jangadeiros. Em Fortaleza no Iracema Residence. E agora estamos no Olimpo, muito próximos do principal cartão postal da capital, o Morro do Careca, na Praia de Ponta Negra.
Riqueza e pobreza: O Rio Grande do Norte é o segundo maior produtor de petróleo do Brasil. Só perde para o Rio de Janeiro. Mas seus índices de desenvolvimento estão entre os mais baixos do país. É o famoso abismo da desigualdade social.
Nosso passeio foi na famosa praia de Genipabu, que fica no município de Extremoz, pertinho de Natal. Começamos com uma volta de buggy nas famosas dunas e o passeio foi “com emoção”. É esta a senha para o bugueiro caprichar nas manobras radicais. Foram muito boas as quase duas horas sobre as dunas. Fotos ótimas e muito calor na moleira. Confesso que cheguei a ver dromedários lá em cima, mas acho que deve ter sido uma miragem depois de tanto sol.
Um árábe?
É difícil descrever a beleza das dunas de Genipabu sem recorrer a lugares-comuns, mas certamente a visão da lagoa preservada que fica no parque das dunas é essencial para entendermos porque o Brasil requer para si a primazia de ser a morada de Deus. E se ele é realmente brasileiro certamente tem uma casa de verão por aqui.
O nosso passeio demorou mais do que o normal porque uma senhora de Recife que conhecemos na hora de sair com o buggy, e que nos acompanhou no passeio radical, resolveu, lá no alto das dunas, dar uma volta no tal dromedário. Desta forma ganhamos minutos preciosos no alto das dunas, mas depois de duas horas o que mais queríamos era mesmo um bom banho de mar. O passeio vale a pena, mas é meio caro. Custa R$ 45,00 por pessoa.
Dando corda na bailarina
Quando enfim voltamos para a praia eu não resisti e dormir umas duas horas na sombra do guarda-sol, após uma rápida leitura de um livro de crônicas de Paulo Mendes Campos. Foi providencial porque o sol quente me deixou cansado.
Depois desta pausa o jeito foi saborear uma cerveja geladinha e curtir o resto da tarde neste lugar lindo.
10:50 AM