Novo blog do Jornalista, radialista e acadêmico de Direito, Délio Pinheiro


























 
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Da vida não peço tanto assim, meus sonhos são tão banais, liberdade é o que peço, um pouco de amor, respeito e nada mais.



























Blog do Délio Pinheiro
 
Comente aqui: Quinta-feira, Novembro 12, 2009  
Havia uma mureta no meio do caminho de Léo

No caminho de Léo havia uma mureta. O jovem volante, com seu estilo clássico, boa marcação e liderança natural, granjeara até aquele momento muitos capítulos felizes em sua carreira de jogador profissional. Mas naquela fatídica noite de quinze de maio de 2004 uma distração pôs fim a sua carreira.
Nascido em cinco de janeiro de 1978, Leonardo Alves Rodrigues é natural de Montes Claros, cidade que assistiu a seus primeiros gols ainda menino. Léo demonstrou seu interesse pela bola desde muito jovem, atuando em times amadores como o Cruzeirinho do Renascença, o América do Alto São João e o Colorado do Santos Reis. Logo ele chamou a atenção dos maiores times da cidade à época, Ateneu e Cassimiro de Abreu.

Tantos elogios o levaram a fazer testes nos principais clubes de Minas Gerais, Atlético e Cruzeiro. Um então funcionário da Transnorte, Maria Bonita, providenciou as passagens para Léo e mais dois destaques dos campos amadores da cidade, Du Onça e Cassiano.
Os três amigos, todos com dezesseis anos, foram para a capital levando consigo seus sonhos de meninos e quase nenhum dinheiro no bolso. Eles não tinham ajuda de custo para a breve temporada em Belo Horizonte, e o dinheiro mal dava para eles lancharem e se locomoverem pela capital. Os garotos pela manhã treinavam no Atlético e de tarde no Cruzeiro, ansiosos pela oportunidade de permanecerem em algum deles após a dura semana de treinamentos.

Ao final da peneira no Atlético, Léo e Du Onça foram aprovados. Mas não havia alojamentos para eles na Vila Olímpica. Os rapazes teriam que arrumar, por conta própria, lugar pra morar em Belo Horizonte.
No mesmo dia, uma sexta-feira, saiu o resultado no Cruzeiro: todos os jovens talentos foram aprovados e na Toca da Raposa havia lugares para abrigá-los. Não pensaram duas vezes. Léo e Du eram cruzeirenses desde menino e sentiram imediatamente o quanto aquela oportunidade representava e o atleticano Cassiano teve que se contentar em começar sua carreira no arqui-rival.

Os três foram incorporados ao grupo do infantil do Cruzeiro e disputaram diversos jogos. Mas o destino deles iria tomar rumos diferentes. Du Onça foi dispensado devido a um problema crônico no joelho e logo depois Cassiano voltou para Montes Claros, após o diagnóstico de “deficiência técnica”. Léo permaneceu. A presença dos conterrâneos fazia com que a rotina de treinamentos e concentrações fosse mais amena e a saudade de sua terra natal, tão quente e acolhedora, fosse minimizada.
A realidade de um jogador iniciante é bem diferente da vida de um craque consagrado. Léo não tinha dinheiro sequer para comprar fichas de telefone público para falar com sua família. Seus anseios, medos e conquistas foram relatados em cartas, escritas no silêncio da Toca.

Depois disso sua vida mudou. Integrado ao time junior da Raposa, ele teve oportunidade de conviver, nos primeiros anos da década de 1990, com jogadores que se consagrariam no futebol, como Dida, Giovani, Marcelo Ramos e Ronaldo Nazário, que mais tarde tornaria-se um fenômeno, futebolístico e midiático.
Corria o ano de 1997. Nesta temporada Léo foi convocado para fazer parte do time principal do Cruzeiro, que teria pela frente a Supercopa e a Libertadores da América. Era um volante combativo e inteligente, mesmo tendo somente dezenove anos de idade. O meio de campo titular do Cruzeiro contava com jogadores como Ricardinho, Fabinho e Donizete Oliveira e todas as oportunidades que apareciam Léo agarrava com ardor.

No instante em que o Cruzeiro chegava às fases decisivas da Libertadores, Léo recebeu uma grande notícia: a convocação para a Seleção Brasileira Sub-20. O jovem garoto de Montes Claros chegou ao topo da pirâmide dos sonhos de dez em cada dez boleiros: defender a mística “amarelinha”. Ele o fez com muito profissionalismo, atuando ao lado de jogadores hoje consagrados, como os zagueiros Cris e Álvaro e os atacantes Roni e Alex Mineiro, entre muitos outros.


Entrevistando Léo para essa reportagem no bar de Pedro Cantinflas, em Montes Claros

Léo estava servindo à Seleção, que estava no Chile para uma partida, quando foi informado pela comissão técnica, que ele se tornara campeão da Copa Libertadores, uma vez que o Cruzeiro vencera o Sporting Cristal em uma noite memorável no Mineirão. Léo, que compunha o grupo campeão, curtiu na concentração o feito, não cabendo em si de satisfação. No fundo, claro, ele gostaria de estar no Mineirão e ver os comandados de Paulo Autuori, seus colegas de clube, levantarem o caneco.
Apesar de ter muito potencial faltava ao jogador maior experiência, e o Cruzeiro resolveu emprestá-lo em 1998 para o recém fundado Ipatinga Futebol Clube, do Vale do Aço. Lá Léo ganhou a confiança de todos e chegou ao posto de capitão, levando o time a se projetar em nível estadual. Como havia outros Léo no clube, o montesclarense adotou o “Mineiro” em seu nome profissional.

Um dos orgulhos do jogador era a amizade com o presidente do clube, Itair Machado, descrito por ele como a pessoa que mais o ajudou no futebol. Mas a grande motivação de sua vida Léo obtinha da própria família, que sempre o apoiou. Quando aconteceu o acidente, a força espiritual da família e o suporte oferecido por Itair foram fundamentais em sua vida.

Numa noite de 2004 em Belo Horizonte, Léo Mineiro se distraiu por um ínfimo instante, possivelmente ao procurar seu celular no banco do carona, e seu Polo novinho se chocou violentamente contra a mureta de proteção da Avenida dos Andradas com a Alameda Ezequiel Dias.
Somente sete dias depois, depois de sair do coma, é que o jogador percebeu a gravidade de seu acidente. O volante do carro chocara-se violentamente contra seu pescoço, provocando esfacelamento da laringe, obstruindo-a. O fortíssimo impacto causou traumatismo craniano e mudou drasticamente o destino do jogador. Ainda no local do acidente ele foi submetido a uma traqueostomia, procedimento cirúrgico que estabelece um orifício artificial na traquéia, abaixo da laringe, indicado em emergências e nas intubações prolongadas. As cordas vocais do atleta foram seriamente afetadas. Foi no período de internação que Léo ficou sabendo que teria que abandonar o futebol aos 26 anos de idade, no auge de sua forma física.

Logo após o acidente, com Léo correndo risco de morte, seu pai esteve na residência do presidente do Ipatinga, Itair, quando o dirigente, após prestar toda a assistência necessária ao seu capitão, pediu o RG do jogador. O pai o entregou e ouviu do dirigente que ele entregaria de novo o documento pessoalmente para Léo quando ele saísse daquela situação.
Um mês depois, usando muletas e já usando a cânula chamada de cuff que o acompanha até hoje, e que permite que Léo respire adequadamente, os dois se abraçaram e selaram uma amizade verdadeira.

Até hoje Léo tem excelentes colegas de trabalho no Ipatinga, time que ele aprendeu a amar e respeitar. Claro que a paixão pelo Cruzeiro permanece intacta, ainda mais que foi graças ao time celeste que ele chegou a Seleção e pode realizar o sonho de conhecer diversos países em três continentes. Mas Léo tem o sonho de, no futuro, voltar a trabalhar no Ipatinga, desempenhando alguma função técnica.

Os amigos o apontam como um homem educado, de bom caráter e equilibrado. Apesar de falar com dificuldade em função da cânula, Léo esbanja otimismo quando fala do futuro: “Vou operar em janeiro para retirar esse aparelho que me acompanha. Na verdade sinto saudade de fazer coisas simples, como correr e jogar uma pelada no fim de semana. Se Deus quiser conseguirei reverter essa situação”, sonha o ex-jogador.
A cirurgia em janeiro será feita pelo médico Gabriel Guimarães, a quem caberá devolver a Léo mais fôlego, para que ele possa sentir intensamente o carinho dos amigos e o amor de seus familiares.

Instado a imaginar como seria sua situação hoje, caso não tivesse se envolvido no acidente, Léo afirma que teria permanecido no Ipatinga, teria ganhado o Campeonato Mineiro em 2005 e teria ascendido à primeira divisão do Campeonato Brasileiro em 2007 com o Tigre.
Apesar de seu infortúnio o jogador vê sua carreira como vitoriosa: “Saí de Montes Claros praticamente com 15 anos, tive a honra de jogar no meu time do coração, o Cruzeiro, conheci vários países do mundo, joguei na Seleção Brasileira sub-20, estava no grupo que venceu uma Libertadores. Graças a Deus cheguei muito longe e só tenho a agradecer”- afirma Léo, com a voz vacilante que só aparece depois dele apertar o orifício da cânula.

Hoje Léo vive cercado pelos amigos e pela família. Tem um filho de treze anos de seu primeiro casamento e hoje é casado novamente, com Cristiane Alves Rodrigues. Voltou a morar em Montes Claros e passou a dar muito valor a coisas aparentemente simples, como se sentar com os amigos em um bar e brindar a vida.
O ex-jogador acredita piamente em Deus e atribui a Ele o fato de estar vivo.

Filtro- Para você escolher qual apagão foi pior, o dos tucanos ou o dos petistas, segundo este escriba digital:

Filme: O encantador "O filho do Ranbow"
Site do dia: Camisetas originais com temas cinéfilos e outros com temática pop. A artista se chama Juliana Nogueira Vilela
Livro: A fera de Macabú- Este livro relata o pior erro da justiça brasileira em todos os tempos. O autor é o jornalista Carlos Marchi
Música: O Brasileiríssimo apresenta sua edição número 3:
Pixels:

7:36 PM

Comente aqui: Terça-feira, Outubro 27, 2009  
Autorretrato do aprendiz de escritor aos trinta*

Antes de mais nada sou caos. Mas também sou silêncio nas noites regadas a blues. Sou fotografia analógica, sou fusível, sou vinil e filmes em preto e branco. Sou história muito mais que geografia. Sou mil vezes literatura à qualquer tipo de arte. Portanto sou livros, muitos livros. Sou mais livros que cinema.

Sou de fazer listas para tudo, menos para fazer compras. Sou vintage e sou saraus. Sou café forte, muito forte, quente e em boa companhia. Não sou água mineral com gás. Sou cheiro de mofo, sou revistas antigas e sou páginas amareladas. Sou fazer poesias nas madrugadas, sou acordar com cara de sono. Não sou dormir com nenhum barulho, que não seja o eco de meu sonhos.

Sou finais de semana na roça, mas apenas finais de semana. Sou cachoeira muito mais que praia. Sou apenas o pseudônimo do que pretendo ser, e sou anônimo em minha relativa notoriedade. Sou velocidade. Sou informação. Não sou demonstrações de afeto, embora me farte deles. Sou um eterno aprendiz de violão, que está pousado num canto de meu quarto, como um mausoléu de melodias.

Sou hiperatividade cerebral. Gostaria de ser trabalho voluntário. Gostaria de trabalhar menos. Sou começar a malhar, para depois me entregar à ociosidade. Sou viajar. De preferência sem rumo. Mas muito bem acompanhado. Sou Bach, manhãs de domingo, Goethe, Google, Kafka, cerveja gelada, jornais empilhados, papo cabeça, Chico Buarque, cinema europeu, rock, chiado de vinil, Jack Daniels, lojas de conveniência nas madrugadas. Sou as paisagens que vi, as pessoas de cuja companhia desfrutei.

Não sou bate-bocas. Não sou cinto de segurança. Sou jornalismo e sou absolutamente apaixonado por essa profissão. Sou cobrir alguma guerra, embora torça para que elas não aconteçam. Sou Minas. Sou Cruzeiro. Sou Clube da Esquina. Sou jeans. Não sou discutir a vida alheia. Não sou horário de verão. Sou água quente no chuveiro em qualquer estação.

Não sou fanatismo de qualquer espécie. Não sou protocolos. Não sou formalidades. Não sou inveja. Sou escrever. Sou ouvir. Não sou carne. Não sou carência de nenhuma espécie. Não sou saudade. Não sou fantasmas do passado. Não sou Carnaval.

*PS: Prefiro "auto-retrato" a "autorretrato". Essa reforma ortográfica criou algumas palavras muito feias, não é mesmo Cyntia Pinheiro.

Filtro- Para distinguir, se é que é possível, Star Wars de Star Trek, segundo este terráqueo:
Filme: Bastardos Inglórios- Pelo menos neste delírio do Taranta a gente se vinga um pouco do pulha do Hitler.
Site do dia:Mande um e-mail pra você mesmo e que será entregue no futuro
Livro: Veja que bacana, o Desembargador Tibagy mandou mesmo seu livro de memórias, conforme prometera. Já comecei a ler.
Veja-o em meu cantinho de leitura:


Música: Procure ouvir as novas cantoras Roberta Sá e Mariana Aydar. Não tem contra indicação

Pixels: Abro espaço para mostrar o competente trabalho feito pela fotógrafa de Montes Claros, Gizelle Souto:




Paa contactá-la: 3212-3168 ou 8806-3168
Mostruário eletrônico da talentosa moça:

11:33 PM

Comente aqui: Quarta-feira, Outubro 14, 2009  
A Câmara

A Câmara de Vereadores daquela pequena cidade ficava cheia uma vez por mês. Era quando os edis se juntavam para discutir os assuntos da pauta, apresentar projetos, quase sempre inócuos, como dispor sobre a criação de novas datas municipais e atribuir nomes aos prédios públicos e logradouros diversos. Recentemente havia sido criado o “Dia do Entregador de Leite em Garrafas de Vidro” e o “Dia Municipal dos Lambe-Lambes”, embora essas duas atividades profissionais estivessem extintas na cidade. O último entregador de leite de porta em porta fora, literalmente, atropelado pelo caminhão de uma rica empresa de laticínios que comprava, a preços módicos, o leitinho produzido pelas vacas do município, e o Juca Retratista, que preservara a memória fotográfica do município nas últimas quatro décadas, caíra em profunda depressão depois que inventaram as “tenebrosas máquinas digitais”, segundo seu entendimento. Desde então ele tornara-se arredio e chegava a passar semanas inteiras no meio da mata tirando fotografias de pássaros imaginários, com sua antiga máquina, logicamente analógica.

Um vereador entrara com o projeto de denominar o alambique comunitário recém construído de “Alambique Municipal Jerônimo Pires”, uma homenagem ao farmacêutico prático da cidade, mas o tributo ficara estranho à beça, na medida em que o profissional gostava de exceder-se nos destilados e ganhara, muito a propósito e a contragosto, o nada lisonjeiro apelido de “pudim de cana”.

Em torno dos trabalhos da Câmara gravitavam algumas figuras pitorescas. Uma delas era a “Ana Doida”, que não perdia nenhuma reunião e ficava sempre na última fileira da platéia ouvindo a fala empolada de certos vereadores, transmutando-as em frases de amor em seu juízo desterrado. Ela dizia que todos os vereadores eram seus namorados, com exceção do professor de Letras, Aroldo, que era homossexual militante.

Outra figura que sempre aparecia nas reuniões da Câmara era o Bira, um baixinho irritadiço que tinha um parafuso a menos, assim como “Ana Doida”, mas que, ao contrário da anciã, era dado a falatórios em praça pública, sentindo-se o décimo vereador daquela casa, chegando ao extremo de interromper os verdadeiros vereadores, como da vez em que, ao discordar da fala anasalada do vereador Aroldo, disparou, cheio de si: “Pela orde, excrecência!”
Naquela manhã o presidente da Câmara resolvera discutir o autismo, já que alguns moradores do município padeciam daquela característica. Entre as ideias estava, claro, a criação do “Dia Municipal do Austista”.

Aquele assunto, assim que foi mencionado da tribuna, tirou Bira do sério. Falava-se em valorizar os austistas. Na primeira brecha, ele emendou, lá do meio da respeitável plateia: “Abaixo esse povo alto! Precisamos discutir o baixismo nesta casa, incelença”, disparou.
“Ana Doida”, fez que sim com a cabeça, concordando com aquele pitaco embasado.


Filtro- Para escolher o Rio de Janeiro em detrimento a Madrid, Tóquio e Chicago, meras cidades semiolímpicas, segundo a ótica positiva do COI e deste blogueiro das horas ociosas:

Filme: Linha de passe
Livro: Estou numa fase de imersão no curso de Direito. Por isso tenho lido autores como Fernando Capez e Diógenes Gasparini
Música: Abram alas para o novo podcast "Brasileiríssimo".

É só clicar no disco de vinil aí e baixar essa novidade:

7:48 AM

Comente aqui: Sexta-feira, Setembro 25, 2009  

Atenção meus leitores. Preparei um presentinho para vocês. Trata-se do novo podcast deste blog. O tema abordado a partir de agora é a MPB. Daqui pra frente sempre que esse disquinho aparecer significa que tem um novo programa com o melhor da MPB, para você baixar. As músicas são criteriosamente escolhidas por mim. Espero que gostem.


É só clicar no disco e fazer o download. Comentem e boa diversão

9:53 PM

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Aventuras Gastronômicas

Sou do tipo que adora programas de receitas na TV aberta. Fico encantado com a habilidade dos apresentadores que cozinham seus pratos com aquela indisfarçável cara de paisagem, entremeada por uma ou outra promoção da Tek Pix, que anuncia que nos “próximos quinze minutos o preço da câmera que tem 37 funções cai pela metade”. A câmera é lastimável, mas as receitas são ótimas. Gosto até das receitas da Ana Maria Braga apesar de achar engraçado o Louro José comentar que deve estar uma delícia alguma ave, prima distante dele nos labirintos da evolução, ao ser apresentada pela loira que confunde fauna e flora e que dá graça, e alguma brejeirice, às manhãs globais em que perco aula na faculdade ou quando o professor de Direito Administrativo não aparece por lá e eu posso sair mais cedo.

Tem ainda a Palmirinha, o Daniel Bork, a Olga, o Eduardo Guedes e outros heróis das caçarolas tupiniquins destilando toda sua sapiência gastronômica. Lembro-me de já gostar de ver tais atrações quando a Ofélia comandava as manhãs modorrentas da Bandeirantes nos anos 1990 e gosto até das atrações da TV paga, mesmo achando que os ingredientes do Oliver são muito exóticos, e caros, para esse jornalista e sua esposa professora de português. Mas de uns tempos pra cá eu e Camila temos apreciado até comida japonesa, apesar da imensa dificuldade para achar salmão fresco em Montes Claros quando tentamos dar vida, como sushimans amadores, a nossas iguarias particulares.

Minhas sobrinhas Isabela e Gabriela são categóricas ao afirmar que “ou a comida é doce ou é salgada”. O conceito de agridoce não faz o menor sentido para elas e, portanto, os bolinhos de arroz oriental com manga ou goiabada devem soar estranhos demais para seus estômagos gorutubanos. Mas desconfio que, com o tempo, elas passarão a gostar também, já que vamos descobrindo novos sabores à medida que crescemos. E assistir a tais programas vespertinos já é um bom começo. Assistindo a uma dessas atrações matutinas comecei a lembrar de fatos curiosos e engraçados envolvendo comida. Desta maneira subverto a máxima dos Titãs: “A gente não quer só arte, quer também comida”. De preferência acompanhada de lembranças familiares e reminiscências infantis, com uma pitada generosa de humor.

Quando estudava Jornalismo e a situação era mais difícil financeiramente, lembro de ter tido o primeiro acesso à comida oriental. Foi quando saboreei meu primeiro miojo. Eu morava em uma república e justamente no fim de semana o gás de cozinha acabou. Como eu estava sozinho no apartamento e não tinha dinheiro para um botijão novo, passei os dois intermináveis dias do fim de semana comendo um troço chamado cup noodles, um miojo vendido em um copo de plástico. Só precisava de água quente e esperar três minutinhos para saborear esse “quitute dos deuses”, budistas evidentemente. E para conseguir tal água era só colocar o chuveiro da república na posição “inverno” e abrir o registro só um pouquinho e despejar a água “quente pelando”, como se diz em Montes Claros, dentro do copão e partir para o abraço.

Neste mesmo período de vacas magras comecei a namorar Camila. Aos domingos almoçávamos juntos. Como eu só tinha dinheiro no fim de semana seguinte ao quinto dia útil de cada mês, - glorioso dia em que íamos ao restaurante Tia Ceiça-, precisávamos ser criativos em nossos almoços dominicais. Camila dividia aluguel com uma moça, que também cursava Jornalismo. Essa moça tinha uma cachorrinha poodle, que raramente saía do quarto, que ela decorava com muitos ursinhos de pelúcia. Eu e Camila preparamos os pratos com esmero, após passar no açougue e comprar dois suculentos bifes. Quando estávamos diante dos pratos, resolvemos que faltava um detalhe importante: uma refrescante Coca Cola de um litro. Pois bem, saímos e fomos buscar o refrigerante na mercearia da rua. O leitor mais atento neste momento já imaginou que a cachorrinha saiu do quarto de fininho e fez a festa com os bifes, não é mesmo? Pois foi a pura verdade. Quando chegamos ela já palitava os dentes, metaforicamente falando, e nós tivemos que nos contentar com o arroz e o feijão que ficara na panela. E foi apenas isso que sobrou, já que na fuga da cachorra, denominada Miúcha, ela esbarrou na Coca Cola que eu deixara na entrada da casa e espalhou o valioso líquido escuro para sempre.

A comida sempre desperta nossos sentidos, inclusive aqueles aguçados pela saudade. Lembro-me, por exemplo, do inigualável bife feito por minha avó Cida, que ainda hoje povoa meu imaginário, a ponto de sentir seu cheiro inalcançável na cozinha modesta e aconchegante de Serranópolis, como se fosse ontem. E olha que já faz algum tempo. A sopa de vó também era divina e meu avô João a sorvia com paixão, fazendo aquele barulhinho que eu adoraria ouvir de novo, mas que na época poderia ser tomado como falta de educação. Que nada, feliz era ele.


Serranópolis de Minas, minha terra

Quando eu era criança em Serranópolis, lembro-me que meus tios de Janaúba, Vilma e Eujácio, ambos serranopolitanos, estavam nos visitando. A visita se deu, provavelmente, no dia de Finados, que em nossa casa nunca foi sinônimo de dia triste. Muito pelo contrário. A casa estava sempre cheia, o café era refeito várias vezes ao dia e sempre tinha panela no fogo, pois nunca se sabia quando algum familiar apareceria, ou mesmo o andarilho João Doido, que sempre nos visitava para alegria de meu pai, que parecia gostar dele.

Eu e meu primo Gustavo, que na época usava um estranho óculos com lentes de cores diferentes para sanar algum problema na visão, ficamos sozinhos na cozinha de casa e começamos a comer uns biscoitos gordurosos que lá em Serranópolis são conhecidos como “fofão”. Não demorou muito para nos desafiarmos para ver quem dava cabo da maior quantidade daquela iguaria enorme. Não me lembro mais quantos comemos, mas sempre que contava a história aumentava um ou dois. Deve ter sido uns vinte biscoitos cada um. Deu empate na disputa. Outra competição, evidentemente, aconteceu depois, quando o objeto mais disputado não eram troféus ou medalhas e sim a louça reluzente do banheiro mais próximo.

De meus tempos de menino lembro com nitidez da primeira vez que tomei Coca Cola. Foi em uma viagem até Montes Claros com meu avô João. Uma das paradas do ônibus era em Capitão Enéas, que na minha cabeça de garoto eu teimava em chamar de “Capitão América”. Lembro-me dos soluços que tive e de minha expressão de contentamento em ter dado conta de uma Coca sozinho. É desta época também a lembrança do doce mais gostoso que saboreei e que até hoje persigo silenciosamente sempre que vou a algum supermercado ou em alguma parada nas viagens. Trata-se de um doce feito com bolinhas de queijo. Uma delícia que comi na fazenda da amiga Maria, no Gerais. Quer dizer, comi uma ou duas bolinhas, já que meu tio Zé Martins, um tremendo glutão, deu conta de praticamente todo o pote.

Nunca comi nada, digamos, diferente, em minha casa, na infância. Minha mãe sempre gostou das dobradinhas, fígados, chouriços e toda sorte de órgãos de bovinos e suínos, sem falar nos “avelinos”, mas humildemente abriu mão de fazê-los em nossa casa. Já meu pai, que, segundo um gastroenterologista, tem o estômago de menino até os tempos atuais, era muito chato pra comer. Nem ovo meu pai come, o que dirá de comidas gordurosas e “exóticas” como moela, coração de boi ou mocotó. Lembro dele contar sobre uma viagem que fazia com um amigo até São Paulo nos tempos da juventude. No restaurante, às margens da rodovia, o companheiro de pai pediu um PF com dobradinha. Meu pai nunca ouvira falar naquele prato e pediu o mesmo. Mas quando ele viu chegar nos braços do garçom um prato imenso coberto com uma espessa cobertura de bucho bovino ele cancelou o pedido na mesma hora.

Outra história parecida aconteceu com meu tio Elizio, que nos primeiros anos da década de 1990 ainda levava trabalhadores para as colheitas do sul de Minas em seu caminhão amarelo, contrariando as leis de trânsito da época. Em uma dessas paradas, Tio Elizio conta que um rapaz, “querendo dar uma de esperto”, pediu para o garçom um PFL. Ele confundira a sigla do então partido com as iniciais do prato feito. Diante do sorriso do garçom, coube a tio Elizio desfazer a confusão: “Lá em Serranópolis a gente chama assim mesmo, quer dizer prato feito com linguiça”. E olha que naquele tempo linguiça tinha até trema.

Por falar nestas aventuras rocambolescas de Tio Elizio e seu caminhão, lembro-me que em 1994 fomos para Bom Jesus da Lapa, a família toda, motivada por uma promessa feita por meu tio, no dorso de seu incansável caminhão 1113 amarelo, como autênticos retirantes da seca em seu “pau de arara”. Claro que depois dos banquinhos duros sob a lona, Tio Elizio reservava, na parte da frente da carroceria, um espaço onde forrávamos com colchões. Era uma festa. E a paçoca que levávamos, e que era sorvida até depois de Guanambi, era muito gostosa. E os peixes saboreados nos restaurantes na cidade de romeiros, localizada na margem direita do São Francisco, também representaram capítulos gloriosos dessa minha odisseia gastronômica.

Minha saga pelas sendas da culinária ainda reservou outras boas paradas. Tenho na família de pai grandes cozinheiras, como tia Santa, dona Zinha e, principalmente, vó Laurinda. No lado materno desponta tia Dei. Grandes cozinheiras, que lapidaram seus talentos natos nas cozinhas de fazendas e nas casas de adobe de antigamente, e que hoje gozam, merecidamente, da fama de “mestre cuca” entre seus familiares e admiradores.


Dupla imbatível, vó Lau e dona Zinha

Certa vez, no curso de Jornalismo, fui pra Belo Horizonte participar de algumas visitas profissionais. Fizemos incursões ao jornal Hoje em Dia, a Assembleia Legislativa, ao Sindicato dos Jornalistas, e outros. Numa noite de folga fomos convidados, eu e alguns colegas, pelo doutor em semiótica Júlio Pinto, que era professor no curso, para dar umas bandas por BH. O programa escolhido por ele incluía um restaurante na Savassi, uma banda de jazz azeitada e um tira gosto original, linguiça com mel. O programa foi ótimo. A banda, que tinha na bateria um ex-integrante da banda roqueira Steppenwolf, deu um show particular. As histórias do professor, que afirmou que conhecera Ella Fitzgerald em um enfumaçado bar de New Orleans, abriu novos horizontes musicais para mim. E o acepipe, que minhas sobrinhas iriam detestar, trazia a tradição da comida mineira com a doçura do néctar das flores. Uma delícia. Só esperávamos que o grande mestre pudesse ser mais generoso na hora de fazer o rateio. Ele pagou seu quinhão, igualmente dividido por umas dezoito almas saciadas, por jazz, papo-cabeça e linguicinha com mel de engenho. Nem um centavo a mais.

Noutras ocasiões, em viagens para o litoral, passei por situações interessantes. Uma foi em Maceió. Eu, Camila e uma turma de Montes Claros estávamos fazendo um périplo pelas capitais e praias do Nordeste quando nos vimos em Maceió na penúltima noite da viagem. Os recursos financeiros do tour já estavam no fim, afinal era o 13° dia de viagem, e optamos por um restaurante modesto próximo do hotel em que estávamos. A diversão foi grande, misturada com risos nervosos, porque o local parecia ser sede do “Encontro Anual das Baratas de Maceió”, pois vimos muitas delas passearem por entre as mesas. Mas, para nossa surpresa, o peixe era muito bom. Um dos melhores que saboreamos na terra do Djavan.


A turma na capital de Alagoas

Por essas e outras é que não perco os programas de culinária na TV. O fato de ter nascido no estado onde se encontra a melhor comida do Brasil também corrobora para essa predileção pelos gostos e cheiros. Montes Claros, onde moro, é conhecida por seu baião de dois, seu frango com ora pro nobis e o tradicional arroz com pequi, algumas delícias que deveriam ser conhecidas por todo o país. Assim como a globalizada comida japonesa, que consumimos com gosto por aqui.

Os detratores da comida oriental, e que não são poucos, poderiam até argumentar que os japoneses usam os tais pauzinhos de maneira equivocada. Bem melhor do que agarrar os alimentos com tais objetos seria juntá-los e fazer uma fogueirinha. Desta maneira o citado salmão deixaria de ser cru e passaria a ser um suculento assado, bem ao gosto do brasileiro médio.

Ainda bem que defendo os sushis, sashimis e rolinhos primaveras que vem do oriente, mas gosto também da comida simples, feita nos fogões de lenha de meu estado. Na verdade não tenho preconceito com comida, só não admito deixar de lado tantas delícias da carne, afinal não cheguei ao topo da cadeia alimentar para me tornar vegetariano.

Filtro- Para separar a Seleção Brasileira do time do Maradona, segundo esse peladeiro eventual:

Filme: A festa de Babette
Livro: Ganhei o 7° livro consecutivo em sete anos de amizade, da querida Emile. Este se chama "O guardião de memórias", de Kim Edwards.
Música: "Não é proibido"- Marisa Monte
Pixels:

9:10 PM

Comente aqui: Terça-feira, Setembro 08, 2009  
Benícia das latas

Benícia vivia de juntar latinhas. Para ela não tinha tempo ruim. Nem chuva nem sol a impediam de cumprir seu trabalho silencioso, tanto nas ruas, fustigando latas de lixo, como nos shows que sempre aconteciam naquele bairro boêmio onde trabalhava.

Benícia gostava mais dos shows sertanejos. Era quando se jogava mais latinhas no asfalto e também nos cestos de lixo. Ela também gostava de música sertaneja e algumas vezes se permitia olhar um cadinho para o cantor ou a dupla que se apresentava. E chegava a cantar trechos de “Menino da porteira” e “Rio de lágrimas”, que para ela era “Rio de Piracicaba”.

Benícia nunca fora a Piracicaba e a nenhum lugar a mais de cinquenta quilômetros de sua cidade do interior de Minas. Nem quando ela ficara sem fôlego de repente e não havia chá ou unguento que dessem jeito e seu caso hospitalar foi considerado irreversível, ela quis deixar sua Janaúba. “Se você não for se tratar em Montes Claros não vai durar nem seis meses”, predissera o médico, e isso tinha sido há quase cinco anos.

Mas Benícia, naquele dia em que recebeu a notícia, não foi buscar a ficha de internação que o médico colocara a sua disposição no posto de saúde de seu bairro. Era carnaval e ela preferiu ir para a Praia do Copo Sujo recolher suas latinhas. O médico afirmara que o coração de Benícia estava quase do tamanho de um balão cheio, desses de festa infantil. Mas Benícia decidiu, em sua humildade silenciosa, que seguiria com seu trabalho até quando Deus quisesse.

E aquele foi um carnaval especial. Um número bem maior de turistas invadiu a cidade ribeirinha e espalhou latinhas de cerveja por todos os lados. De música baiana Benícia não gostava, e era justamente esse tipo de música que animava o carnaval por lá. Ela era do tempo em que as antigas marchinhas comandavam as folias momescas e, às vezes, em meio ao alarido de jovens beijoqueiros, chegava a cantar baixinho, pra si mesma, essas canções, enquanto juntava suas latas, coberta pelo manto da invisibilidade dos trabalhos humildes.

No fim das contas, na quarta-feira em que tudo vira cinza, e com uma baita dor nas costas, Benícia faturou quase oitenta reais vendendo suas pepitas de latão na usina de reciclagem. Nunca ela ficara com tanto dinheiro no bolso. Neste dia, Benícia comprou um saboroso wafer de morango e, para acompanhar, se deu ao luxo de comprar uma refrescante lata de Coca Cola.

Benícia então se lembrou que tinha um coração grande, do tipo que só faltava explodir, e sorriu resignada. Ela foi a pé para sua casa no bairro distante e sem asfalto. No caminho se deparou com um menininho sujo e magrinho, que levava consigo um pequeno saco de linhagem, onde colocava latinhas de refrigerante e cerveja que encontrava pelo caminho.

Benícia chamou o menino e jogou a lata de Coca para que ele a guardasse consigo. O menino agradeceu e Benícia seguiu seu caminho, arrotando seu wafer de morango e sentindo pulsar, bem ali, sob suas vestes modestas, seu coração grandão.

Filtro- Para acessar o vibrante Twitter e delegar ao limbo o insosso Orkut, segundo este que vos escreve em linhas digitais, tortas evidentemente:

Filme: Mr. Brooks, com Kevin Costner- O título em português é tão bobo que nem me lembro
Livro: O excelente Gomorra, de Roberto Saviano
Net: O blog de Thuany:
Música: Em breve novidades na seara da MPB Último Rockcast da temporada
Pixels:

7:46 PM

Comente aqui: Quarta-feira, Agosto 19, 2009  
Encantos de uma esquina qualquer

Olhos atentos, máquina fotográfica sempre por perto. É assim que costumo andar. Nunca se sabe quando um bom flagrante se desenhará em nossa frente ou quando uma inspiração surgirá, nítida e bela, capturada no ínfimo instante de um clique.
No sábado me deparei com uma mamãe beija-flor, que fez seu ninho na garagem da rádio Itatiaia, onde trabalho. Mesmo com o movimento dos carros e das pessoas ela permanece impassível, aninhando o melhor que pode os dois minúsculos ovinhos sob suas penas de mãe.

Ver um beija-flor imóvel durante vários dias, logo ele que voa freneticamente, é uma cena inspiradora para se dar vida a uma boa crônica. Eu já estava decidido a abordar este assunto, quando apareceu uma outra inspiração, ainda melhor. E foi logo na esquina, literalmente.
No bairro Melo tem uma residência imponente, que se parece com aquelas aristocráticas mansões americanas, nas proximidades da Funorte, e seu jardim é um alento para os olhos cansados que passam diariamente naqueles cantos, inclusive eu que passo pela citada esquina sempre que retorno para casa.

No instante em que passei por lá, após uma manhã de trabalho, vi a seguinte cena. Uma moça vestida com um hábito puído e ocre, sem que ninguém pedisse, cortava minúsculos raminhos apodrecidos de uma palmeira, que se projetava para o lado de fora do belo jardim.

Ela cuidava da planta, que nascera para embelezar aquele jardim distinto, com a mesma acuidade e afinco que a mamãe beija-flor cuidava de seus "filhinhos" no ninho ali perto. E a moça, bonita e recatada, cumpria sua missão com serenidade, contribuindo, com seu gesto anônimo, para deixar a planta, e a mansão, ainda mais viçosa.
A menina-moça era uma dessas jovens que participam da comunidade "Toca de Assis" e suas vestes remetiam imediatamente a um dos santos do catolicismo, São Francisco, cuja história de simplicidade e amor ao próximo continua a inspirar jovens em todos os lugares da Terra.

Ela, como tantos outros que dizem ouvir o chamado de Deus, fazem voto de pobreza e se vestem e vivem seus dias com o máximo de simplicidade que podem. Por isso a cena causou-me tanta admiração.
Aproximei-me com cuidado, com receio de assustar aquele beija-flor divino,
e pedi para registrar aquele momento com minha máquina fotográfica. Momento este que, em sua involuntariedade, se fez tão belo.

O contraste do luxo excessivo da moradia e da simplicidade tocante daquela mocinha, verdadeiramente bonita, embora este adjetivo não lhe deva causar grande impressão, devido a seu voto de castidade, me atingiu profundamente, e me fez escrever essa crônica.

Um pequeno e irrelevante fato para olhares mais descuidados, mas elementos certeiros para se refletir sobre a importância que damos a vida e como ela pode ter significado se vista com o ângulo correto, pelo viés da moça anônima vestida como um padre da Idade Média, que cuidou da planta da mansão da esquina, ou da mamãe beija-flor, que naquele mesmíssimo instante, talvez estivesse pensando na sensação boa de voar, mesmo resignada em sua posição de mãe vigilante.
Lemierre escreveu que "mesmo quando um pássaro caminha, ele sente que tem asas". A frase pode ser adaptada, sem prejuízo algum, para a moça que não disse o nome e que deixou que eu a fotografasse, contanto que a foto não fosse parar nas páginas indiscretas da Internet: "Mesmo com suas vestes simples e seu voto de humildade, a menina sabe que dentro de si tem uma riqueza imensurável".

Filtro: Hora de diferenciar o alagoano Djavan da inacreditável banda Djavu, nova porcaria do mercado a espalhar seus tentáculos por aí:

Filme: Não tive tempo de ver nenhum filme neste período. Uma lástima
Livro: Desatados, nós- Cyntia Pinheiro
Net: Não dá pra ficar de fora do Twitter. Entra lá e me siga
Outras bossas: Está no ar o penúltimo Rock Cast. Não deixe de baixar
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Essa é a foto da mamãe beija-flor, a da mocinha realmente eu vou ficar devendo

7:07 PM

Comente aqui: Sábado, Agosto 08, 2009  
Não é só o mal que se expande

Perdi um avô vitimado por aquela doença que os mais velhos se recusam a dizer o nome. Como se a simples menção de sua terrível alcunha pudesse trazê-la perigosamente para perto, ou mesmo pudesse fazê-la se instalar em algum órgão sadio de nosso corpo. Refiro-me ao câncer, evidentemente. Como tenho esse histórico na família, e que vitimou, além de meu avô, alguns tios, procuro me informar acerca dos tratamentos que a medicina coloca à disposição todos os anos.
Certamente podemos comemorar saltos qualitativos formidáveis, avanços estes que chegaram tarde demais para o avô que sequer tive a honra de conhecer, embora carregue comigo seu nome e sobrenome acrescido do Neto, fato este que me orgulha bastante.

Por falar em orgulho, Montes Claros nutre especial apreço pela Fundação Sara, instituição sem fins lucrativos que visa acolher, com carinho e dedicação, crianças fustigadas pelo aceno indistinto dessa doença terrível, que tenta, muitas vezes em vão, ceifar o brilho de crianças tão vivazes. Grande parte do êxito desta batalha contra a doença, feita com quimioterapia, radioterapia e muito sofrimento, se deve ao empenho de instituições como a Fundação Sara, comandada pelo casal Marlene e Álvaro.

Na semana passada foi anunciada a expansão da Sara para Belo Horizonte. Seu trabalho, sério e abnegado, agora também estará à disposição das crianças de todo o Estado de Minas, já que para a capital são conduzidos os casos mais complexos, oriundos dos mais recônditos cantinhos de nosso Estado. E a presença da fundação nas alterosas representará um alento para famílias carentes que buscam obstinadamente a cura para seus filhos, que, muitas vezes, chegam a desconhecer a complexidade do mal que carregam e do quão sofrido pode ser o tratamento.

Estive na Fundação Sara na semana passada, na condição de mestre de cerimônias voluntário, e pude ver, ciceroneado pelo casal Marlene e Álvaro, o esmero com o qual eles cuidam daquelas crianças e o conforto com o qual elas são abrigadas. Uma situação bem diferente, certamente, da vida modesta que levam em suas cidades de origem. Álvaro, que além de seus predicados conhecidos traz uma qualidade adicional, já que é serranopolitano assim como eu, disse que a Fundação Sara passou a construir casas, na medida de suas possibilidades, para estas famílias e que todos, ao partirem de lá rumo a seus lares, depois do período de acolhimento, levam consigo cestas básicas. É uma condição mínima para se assegurar o êxito do tratamento longe dos cuidados, das camas confortáveis e das refeições balanceadas da Fundação Sara.

Os olhos de Marlene e Álvaro brilham intensamente quando eles falam sobre a fundação, erigida a partir de seu drama particular com a perda da pequena Sara, cuja luta pela vida emocionou Montes Claros há uma década. Sara certamente não sucumbiu à toa. Sua vida teve um significado, ao contrário de tantas outras que passam insípidas por essa terra.

E Sara, agora devidamente transfigurada em um anjinho, vive presente ali, na esperança de cada mãe, no olhar curioso daquelas crianças e no coração bondoso de seus pais Álvaro e Marlene, que atraem para si outras pessoas de coração bom. E estes, os colaboradores, injetam recursos e carinho, subsídios para a Sara crescer cada vez mais e ajudar centenas de crianças, quiçá milhares, em Minas Gerais.
Sugeri a Álvaro que escrevesse um livro sobre a história da fundação, desde a luta renhida de sua filha pela vida até os dias atuais, perfazendo mais de dez anos de trajetória. Ele disse-me que já tentou, mas que as lágrimas inundam o papel, a alma e o coração sempre que ele tenta organizar as informações disponíveis. Mas uma dessas histórias eu quero compartilhar com vocês.

Há algum tempo a Fundação Sara recebeu uma paciente, uma mocinha de treze anos, vinda de uma pequena cidade da região. O caso dela, segundo os médicos, era irreversível. Não havia recursos disponíveis na ciência para ajudá-la a realizar um sonho, como tantas meninas-moças. Ela sonhava com uma festa de debutante dali a dois anos. Sabendo disso a Fundação Sara se organizou e realizou uma grande festa, com valsa, príncipe, convidados, refrigerantes e música alegre em seu aniversário de quatorze anos.
Se a vida, e seus desígnios misteriosos, pregou essa peça na moça de sorriso esperançoso, não havia mal nenhum em trocar o “14” pelo “15” no alto do bolo. E assim foi feito. A festa foi linda. A mocinha realizou seu sonho e nem mesmo sua morte, acontecida semanas depois, tirou-lhe a chance de realizar esse projeto derradeiro: o seu baile de debutante.

Citação oportuna: “Ah”, disse o rato,“o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro.” ― “Você só precisa mudar de direção”, disse o gato e devorou-o.
Este é um conto curto do tcheco Kafka. Genial né?

Filtro: Como separar o trabalho útil das emissoras all news da inconcebível "A voz do Brasil", segundo este defensor da liberdade de expressão:
Filme: Che, com o Benício Del Toro
Livro: Neuromancer- Willian Gibson
Net: Site excelente para disputar partidas de sinuca on line: Passe o giz no taco!
Outras bossas: Em breve mais um Rock Cast
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Na Fundação Sara com seus colaboradores

7:36 PM

Comente aqui: Segunda-feira, Agosto 03, 2009  
João Dama da Noite

A infância de João Donato tinha cheiro de dama da noite. Era esse o cheiro que ele sentia quando sua mãe o chamava para jantar, nas tardes silentes de sua cidade de interior. E os aromas dos pratos feitos com algum capricho se misturavam com o aroma de noite fresca, trazidos pela dama da noite, cujos galhos roçavam-se na madeira rota do quarto do menino.

Mas havia outro cheiro que o acompanhava na infância, o cheiro de cachaça, que se desprendia da boca de seu pai todas as noites, quando ele chegava do bar. E havia também a promessa do cheiro de sangue, já que o pai batia na mãe todos os dias e só não batia em João Donato porque a mãe trancava a porta do menino com cadeado e guardava a chave em um lugar que só ela sabia. Mas a promessa do cheiro de sangue se derramando naquela casinha humilde aumentava cada vez mais, assim como o cheiro doce da dama da noite, cujo caule era o receptáculo da chave do cadeado que impedia que o pai molestasse o filho, como tantas vezes ele murmurava na porta do menino: “Eu vou te arrebentar seu viadinho”.

O pai imaginava que aquele menino aloirado não fosse seu filho, e mesmo os argumentos da mãe de que seu avô era das “Oropa” resolveu o problema. Para livrar o filho do ódio do marido, a mãe o prendia no único cômodo de tijolos daquela casa miserável. Principalmente a noite, quando o marido chegava da rua, fedendo à cachaça. Para o filho não ficar sem fazer nada, a mãe comprara um radinho de pilha para ele, e era ouvindo os programas de humor da noite, com o radinho colado no ouvido, que o menino tentava não se ater aos fatos que aconteciam naquela casa, enfurnado em sua misantropia forçada.

Sem que a mãe soubesse ele tinha uma peixeira debaixo do travesseiro para o caso das ameaças do pai se concretizassem algum dia. O menino tinha só dez anos quando aconteceu a desgraça.

Numa noite, silenciosa como todas as outras naquele subúrbio sem eletricidade, a pancada que o pai bêbado deu na mãe de João foi forte demais e ela desmaiou. Apenas de manhã, o pai do menino percebeu que a mulher havia morrido durante a noite. O pai chorou desesperadamente e chamou pelo filho para que ele o ajudasse com sua mãe, que estava passando mal.

Depois de vacilar por alguns instantes, João disse onde o pai poderia encontrar a chave do quarto: num prego fincado no caule da dama da noite. O pai praticamente se arrastou sob os galhos da planta e encontrou a chave. Depois abriu a porta e implorou que o filho o ajudasse. Mas quando o menino viu a mãe roxa e com hematomas no rosto, não teve dúvidas:

- Você a matou seu desgraçado!- o menino correu até o quarto.

O pai foi atrás dele e quando entrou no quarto escuro só sentiu a peixeira atravessar-lhe a barriga mole. O menino ainda deu mais três estocadas para se certificar e depois fugiu de casa, deixando para trás sua mãe amada, seu pai odiado e o cheiro inebriante da dama da noite, que continuou perfumando aquela casa, mesmo depois do enterro das duas vítimas do filho malvado, como a vizinhança, a polícia e os jornais passaram a considerar aquele caso. O menino, antes de partir, levou consigo seu radinho de pilha e fez um raminho com as flores da dama da noite. E depois ganhou a estrada, com o ramo da flor cheirosa em seu bolso surrado de estudante.

Depois de chegar à adolescência nas ruas do Recife, o menino se tornou um perigoso pistoleiro lá para as bandas do Maranhão e do Pará. A ele são atribuídas pelo menos dez mortes nos últimos anos. João Dama da Noite é sua alcunha de assassino.

Em sua ficha corrida de assassinatos não tem nenhum padre, nenhum pai de família honesto e nenhuma mulher honrada. Apenas políticos corruptos, posseiros de terra e assassinos se acabaram no ferro incandescente do matador.

Antes de fazer qualquer serviço, João analisa bem sua vítima e só aí, diz sim ou não para o contratante. Isso já é um hábito conhecido do matador. E os que solicitam o serviço sabem que, mesmo diante da recusa do assassino, não há com que se preocupar, já que a discrição é parte importante nesse tipo de trabalho, e João Dama da Noite conseguira o respeito de todos naquela região.

Mas tem outro hábito que ninguém sabe: João, depois de cada serviço feito, tateia cuidadosamente seu bolso de paletó, e encontra seu radinho de pilha, onde escuta as pregações de seu pastor, enquanto foge do flagrante. Depois ele remexe mais uma vez o outro bolso e encontra as flores ressecadas da dama da noite e dá uma cheirada cada vez mais profunda, em busca do cheiro perdido, da infância perdida e da vida, irremediavelmente perdida.

Citação oportuna: A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez"- Friedrich Nietzsche

Filtro: Como separar os blockbusters do cinema dos filmes de Kurosawa, Capra, Hithcock e outros gênios e tornar sua vida um pouco menos ordinária, segundo este apreciador de cinema de verdade que adora pitacar, se é que este verbo existe:

Filme: O excelente "A Erva do Rato"
Livro: Uma biografia nova sobre o Santos Dumont, que desmonta a tese de que ele seria gay
Net: Mande um e-mail pra você mesmo e que será entregue no futuro
Outras bossas: E tem mais um Rock Cast na área. Agora a edição 008. Clique aqui e curta o melhor do rock
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12:01 AM

Comente aqui: Segunda-feira, Julho 20, 2009  
A humildade de um santo

Foi revelado por um ex-secretário do Papa João Paulo II, monsenhor Stanislaw Dziwisz, que o pontífice adorara dar suas escapulidas do trono de Pedro e se divertir, como um mero mortal, nos Alpes italianos. As escapadas não teriam cessado nem após o atentado que o Papa sofreu em 1981.

A revelação está no livro “Testemunho”, de autoria do monsenhor. Segundo ele, era preciso enganar a guarda suíça, que faz a segurança do Vaticano. “Partíamos às 9 da manhã, no carro do padre Josef, para não despertar suspeitas nos guardas suíços”, relata Dziwisz. Assim que chegaram à estação de Ovindoli, o Papa vestia-se com casaco, gorro e óculos. “Ele ficava na fila como os outros, mas, por segurança, um de nós ficava na frente dele e outro ficava atrás”, contou o ex-secretário. “Pode parecer incrível que ninguém o tenha reconhecido. Mas quem podia imaginar que o Papa poderia ir esquiar assim?”, indaga o religioso.

Bela pergunta essa. É de conhecimento público que o Papa polonês praticava seu esporte favorito, o esqui. Mas imaginá-lo incógnito como um simples esquiador seria uma tremenda prova da humildade do pontífice, já que o poder do papa, sobretudo na Itália, é imenso. Vale mencionar que bastaria um desejo seu de esquiar em qualquer lugar, para que a pista fosse interditada aos outros seres humanos e o Papa teria a montanha gelada todinha pra si. Acredito até que se ele quisesse esquiar no Pão de Açúcar, as autoridades brasileiras dariam o seu famoso “jeitinho”.

Mas não se pode negar que essa revelação é bastante oportuna, já que surgiu em pleno processo de canonização do pontífice, e ela pode ser interpretada como uma tentativa de se acelerar esses trâmites. E esse é o tipo de factóide que conta muitos pontos no intricado processo.

Um outro fato mundano, entretanto, pode retardar um pouco mais esse desfecho: a correspondência que o falecido Papa mantinha com uma amiga de juventude, e que apareceu agora. Não sei que tipo de revelação poderia depor contra o ex-líder da maior religião cristã do mundo, mas a análise desse conteúdo é visto como condição sine qua non para que o processo burocrático o ascenda à condição de santo no panteão celestial da igreja de Roma.

Mas voltemos aos passeios do Papa nas estações de esqui. Lembro-me de um livro que li chamado “As sandálias do pescador”, onde um Papa fazia seus passeios incógnitos, no meio do povo. E acredito que esse talvez seja o melhor termômetro para se avaliar o sucesso de um pontificado, ou de um governo. Ouvir a voz rouca das ruas, angariar um pitaco sincero aqui e outro acolá pode responder à pergunta essencial:
Será que estou agradando?

Acho até que o presidente Lula deveria fazer o mesmo. Imaginemos nosso presidente acordando às três da manhã e se dirigindo até uma agência da Caixa, a fim de fazer algum dos recadastramentos mensais exigidos pela insaciável burocracia. Chegando lá, para sua surpresa, ele se depararia com uma fila. Veria estupefato que algumas pessoas vivem de vender lugares por lá, e em outros lugares onde as senhas são escassas. Depois, alegando uma dor qualquer, ele pediria para ser atendido em um hospital público e veria o quanto os atendentes são ríspidos e as vagas são raras.

Pensando bem, até que vai ser bom o Papa esportista se tornar santo, pois de lá, do firmamento, ele poderá proteger todos nós. Poderá impedir, por exemplo, o avanço belicoso do anão norte-coreano e seus mísseis cada vez mais potentes. Talvez até consiga resolver alguns dos grandes problemas nacionais: desemprego, violência e corrupção.
Pensando melhor ainda, acho que vai ser muito trabalho para um santo só.

Filtro- Como separar o carismático Herbie dos insuportáveis Transformers segundo o senso crítico deste que vos relega pitacos e mais pitacos, a mancheias

Filme: O iluminado
Livro: Noites Tropicais- Nelson Motta
Net: Para musicar aquele seu poema
Outras bossas: O mimo sonoro deste post é uma dobradinha, minha com o Poeta do Acaso. O texto é dele e a interpretação um tanto canastrona é minha. Tire suas conclusões. Clique aqui
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9:45 PM

Comente aqui: Domingo, Julho 12, 2009  
Assuntos importantes

Muitos fatos relevantes aconteceram nos últimos dias e, certamente, representam farto material para bons cronistas. O Veríssimo, por exemplo, deverá se esbaldar. Tivemos a morte do Michael Jackson, e ainda a morte da pantera Farrah Fawcett. Este último evento foi totalmente eclipsado pela partida do excêntrico músico, mas representou bastante para quem, assim como eu, gostava de assistir a “Sessão Aventura” na Globo nos anos 1980. “As Panteras”, “Super Máquina” e “Duro na Queda” eram alguns dos enlatados que a emissora servia à sua audiência. Os seriados não eram exatamente um primor de técnica, mas divertiam à beça. E a loira calipígia representava a materialização do “american way of life”, que secretamente, em algum momento, invejamos.

Quanto a Michael, fica a sensação de termos testemunhado uma história incompleta. Vimos seu sucesso avassalador e assistimos, estupefatos, sua decadência, moral, física e artística. No instante em que era possível intuir sua volta por cima, feito a famosa Fênix, a foice indistinta da morte o ceifou. Ele não teve a chance derradeira de retomar seu trono de “rei do pop”, ocupado nos tempos atuais por gente como Chris Brown, Ja Rule e Beyonce no panteão da música americana.

Sua turnê de retorno, que previa shows ao redor do mundo, tinha esse como um de seus propósitos. O outro seria pagar as dívidas do astro, que se avolumaram nos últimos anos. Não teve tempo para nada disso.
Sobrou apenas o ocaso de um astro decadente, mas que agora, evidentemente, voltará a ser tocado nas emissoras de rádio e elevado a condição de lenda, já que a morte costuma restituir a honra perdida, pelo menos entre os notórios deste planeta.

Meu sogro Majella diagnosticou esse fato in loco. Ao fazer um passeio no centro de Montes Claros, ele se deparou com uma vendedora de CDs e DVDs piratas que anunciava o fim do estoque de produtos de Michael Jackson. Tudo foi vendido. Da época doce e romântica dos Jackson 5 até os últimos suspiros criativos da última década. Não sobrou nada. Certamente o mesmo fenômeno se repetiu nas lojas e shoppings virtuais do mercado formal. As vendagens explodiram. Provavelmente sua família, em pouquíssimo tempo, até consiga honrar as dívidas deixadas por ele.

A banda mineira Pato Fu, em uma de suas músicas, cita a chamada “Necrofilia da arte”. O pendor que temos de valorizar aqueles artistas que partem rumo ao desconhecido, em detrimento àqueles que já gozaram de prestígio e hoje se encontram no limbo da irrelevância artística. Desconfio que muitos destes que compraram o CD de MJ nos últimos dias tenham se comportado desta maneira. Claro que os fãs do cantor, entre os quais me incluo, nunca deixaram de prestigiá-lo.

“Zunfus trunchus que eu nem conhecia, virou meu star no outro dia”. Foi só bater as botas. Botas repletas de brilhos e paetês, diga-se de passagem.
Outro assunto relevante dos últimos dias foi o fim da obrigatoriedade do diploma de Jornalismo para o desempenho desta atividade, segundo a ótica distorcida do STF. Mas deixarei para abordar esse assunto em outra ocasião, pois o espaço que me resta aqui neste minifúndio digital é insuficiente para abrigar meu imensurável descontentamento.

Como diferenciar o genial Michael Jackson dos anos 70 e 80 da figura sinistra que morreu em junho, segundo o arguto senso crítico deste que não faz o "moon walk", mas escreve seus pitacos

Filme: A era do gelo 3, porque, afinal de conta, é época de férias
Livro: Estou lendo o clássico de Truman Capote, "A sangue frio", mas vale a pena conhecer a bela escrita de Gay Talese. Estes dois autores são do chamado "new journalism".
Net: Para retocar a imagem sem Photoshop clique aqui
Outras bossas:

O Rock Cast apresenta de uma só vez suas duas últimas aventuras sonoras. Baixe os dois de uma vez. São as edições 6 e 7. Boa diversão:
Clique aqui- Edição 006
Clique aqui- Edição 007

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12:31 PM

Comente aqui: Domingo, Junho 28, 2009  

O Vale das possibilidades

Estive no Vale do Jequitinhonha nesta última semana. Mais precisamente em Carbonita. Ao contrário da máxima que os pessimistas vaticinam, e que já está enraizada em nossa consciência, não vi a pobreza que campeia e que faz da região uma das mais miseráveis do planeta.
O que vi, nos intervalos do trabalho e mesmo durante o labor, foi uma gente simples, de hábitos comedidos e cercada de recatos e desconfiança. E essa postura, na defensiva, se manifesta no primeiro olhar, na hora da primeira abordagem, logo após o primeiro “bom dia”.

Bastam alguns minutos, entretanto, para a verdade cabocla daquela gente aflorar. Então eles se abrem, sorriem e nos aceitam em seus mundos de simplicidade e aconchego. Foi assim em Carbonita, e desconfio que seja assim em todo o Vale.
A primeira, e boa, impressão foi dada por Norma. Ela é secretária municipal, e está prestando o mesmo serviço a três governos. Sai e entra prefeito em Carbonita, só não sai a habilidosa e competente funcionária. Essa parece ser a norma por lá.

A pobreza deste trocadilho contrasta com as virtudes da jovem senhora, que se encaixa perfeitamente no estereótipo que citei. No início ela ficou comedida, como boa mineira do Vale, mas depois, talvez ao perceber que éramos bons moços, (eu e meus dois companheiros de trabalho), ela nos brindou com sua boa vontade e sua simpatia, que não cessaram nem com o fim do expediente na secretaria.
Depois dela outras pessoas mostraram-se sem véus e pudores, sem inveja e sem discursos vazios. Como o arguto Wagner, funcionário da Emater, e mestre nas academias e na própria vida. Um rapaz brilhante e, sobretudo, simples. E é desse modo que essa qualidade deveria se manifestar sempre em todos os seres humanos.
Conheci também a octogenária, mas com alma de menina-moça, Dona Eva, que mora em um casarão colonial com dois séculos de vida, um tanto gasto pela ação deletéria do tempo, numa região chamada Gangorras.

De lá, das janelas de duzentos anos, ela espia o mundo sem pressa, e, debruçada no fogão de lenha de mesma idade, faz seus divinos queijos, que parecem carregar a tradição e o traquejo de tantos verões, em seu sabor brejeiro. Queijo esse que é oferecido de coração aberto, com a hospitalidade típica destes rincões.
Tive a honra ainda de encontrar, em meio ao burburinho do Mercado Municipal, uma senhora espevitada chamada Aparecida, artesã de mão cheia, que faz seus trabalhos com barro, dando vida a panelas, jarros e vasos de rara beleza. Assim como é bela a alma marota da artista que, com gestos precisos, materializa sua criatividade e assegura seu sustento, e de sua família. Nem foi possível fotografar muitas destas peças porque, segundo Aparecida, não sobra nada da sua produção. Tudo é vendido.

Nas artes da mesa, saboreei os quitutes de Dona Fiinha, ouvi as modas de viola de Cristal e Diamante, vi o imenso e preciso relógio e a bela igreja de Nossa Senhora da Abadia e admirei as estripulias do grupo teatral Trama, que estava por lá despertando o interesse para as artes cênicas nas crianças.
Uma bela cidade, que se faz ainda mais bela com os predicados de seu povo. Gente criativa e hospitaleira que faz-nos esquecer daquelas premissas que condenam o Vale a um penar sem fim. Desde que haja criatividade, força de vontade, honestidade e trabalho certamente a miséria dá espaço ao progresso. E por fim dedico essa crônica a todos de lá, sobretudo aqueles que conheci e em especial ao Benezinho.

Citação oportuna: "Só existem duas maneiras de fazer carreira em jornalismo. Construindo uma boa reputação ou destruindo uma"- Tom Wolfe, jornalista e escritor

Filtro: Como diferenciar Nutella daquelas margarinas com sabor de chocolate, segundo este que vos escreve:

Filme: Agora que estou de férias vou colocar o cineminha em dia. Pretendo ver "O filho de Ranbow"
Livro: O mesmo se aplica aos livros. Preciso dar uma olhada na Palimontes
Net: Está no ar o blog do vereador João de Deus, a quem tenho a honra de assessorar. Clique e confira
Outras bossas: Vamos lá. Edição 005 do Rock Cast. É só clicar e ouvir o melhor do rock
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12:29 PM

Comente aqui: Sexta-feira, Junho 12, 2009  
Para o Pará não vamos

Tenho ficado atento aos concursos públicos que pululam neste país, e minha esposa Camila já foi categórica: para o Pará não vamos. Ela até inclui o Rio de Janeiro, graças à sua notória violência urbana, uma vez ou outra nas “proibições”, mas a implicância com o Estado da região norte é definitiva, e não há argumento suficiente para demovê-la dessa imposição.

O problema é que a maior parte dos acontecimentos negativos neste país costuma acontecer no Estado cuja capital é Belém. Morte da missionária Dorothy Stang e vários conflitos agrários? Lá, é claro. Massacre de Eldorado de Carajás? Também. Uma moça presa numa cadeia junto de uma cambada de homens? Pará, off course. O assassinato de um velejador neozelandês tido como o “Pelé” daquele país? Precisa dizer?

O clima por lá, para nós, parece pesado, denso como as chuvas tropicais que desabam na Floresta Amazônica. Temos desmandos de todo tipo: Grileiros expulsam trabalhadores de suas terras, e encomendam assassinatos como por aqui pagamos por TV a cabo. Fazendeiros inescrupulosos mantêm funcionários escravizados em suas terras. 1% de fazendeiros paraenses dominam metade da extensão territorial do Estado, confirmando a triste sina de terra de latifúndios. Contra a governadora recaem suspeitas de corrupção ainda não completamente elucidadas, ou por acaso você acha normal a cabeleireira pessoal da governadora Ana Júlia Carepa ser nomeada sua assessora pessoal? A exploração da madeira faz do Estado o mais devastado da região amazônica. Por lá o sistema de saúde agoniza, a ponto de cidadãos paraenses acionarem a justiça para que haja intervenção federal no Estado, por omissão dos políticos locais.

Então o destino, como o mais sádico dos roteiristas de cinema me encaminha para ser promotor ou delegado lá naquelas plagas. Não, de jeito nenhum, segundo Camila. Seria assinar uma carta de adeus, caso eu pretenda levar a lei ao pé da letra e tente apagar algumas dessas nódoas.
O melhor é não incluir o Estado onde se consome pato com tucupi em qualquer tipo de plano para o futuro, quando meu curso de Direito me credenciar a essas ocupações citadas. Assim pensa minha esposa. Desconfio que sua impressão seja compartilhada por grande parte dos brasileiros, assombrados pela fama de “terra sem lei” que o Pará angariou, reforçada nos últimos anos por novos e desalentadores acontecimentos.

O Pará acaba de acrescentar mais um capítulo macabro em sua história de omissões e pecados há alguns dias, quando a revista eletrônica Fantástico, da Globo, mostrou uma cidade esquecida chamado Bordel, digo Portel.
Lá acontecem coisas terríveis, como a banalização da vida humana, retratada em uma mãe que admitiu “vender” sua filha menor de idade por quinhentos reais para um forasteiro de São Paulo que ela nunca vira na vida. A única exigência foi deixar com ela, uma mãe tão atenciosa, um número de telefone, para que pudesse ligar de vez em quando.

Um gesto bonito, de mãe zelosa, conforme podemos observar. Antes disso, na noite anterior, a mesma mãe “alugara” sua filha pelo equivalente a quatro cervejas para quem se dispusesse a pagar o programa.
A matéria levou-nos a crer que esse comportamento, naqueles confins tropicais, é normal. O prefeito chegou a dizer que o que acontecia na calada da noite não lhe dizia respeito. Sinto desapontá-lo prefeito, mas diz respeito sim. A menos que o senhor seja como os juízes que fazem vista grossa ou como alguns delegados daquela região, que fingem ignorar a realidade para continuar vivendo mais ou menos seguro em meio a esse faroeste caboclo, já que o Estado não os dota de condições mínimas para atuar com segurança.

Recentemente assisti a um filme chamado “Anjos do sol”, que chegou a causar-me mal-estar, devido ao assunto abordado: a prostituição infantil e o comércio de seres humanos. Mas ao olhar a realidade sem os filtros do cinema, descobrimos um mundo ainda mais cruel, onde direitos elementares são ignorados, imputando ao Estado da maniçoba a triste síntese de tudo aquilo que o Brasil tem de pior.
Sim, tem prostituição infantil no Rio Grande do Sul. E mais, tem mães que vendem os filhos, e filhos que “venderiam a própria mãe” para se dar bem aqui mesmo em Minas Gerais. Tem grileiros de terra no Paraná, tem trabalho escravo nas fazendas de cana de açúcar de São Paulo e tem político corrupto e omisso em cada esquina dessa nação. Mas no Pará, pelo menos para nós que acompanhamos à distância, é sempre pior.

Na mesma matéria do Fantástico uma deputada gaúcha, integrante da CPI da pedofilia, citou, en passant, que o clima de sexualidade precoce está em todo lugar do país, e isso contribui para a banalização do sexo e sua exploração, sobretudo entre os menores de idade e, pior ainda, entre as crianças e adolescentes paraenses, onde vender a virgindade para algum “barão estourar” vale mil reais, segundo o material jornalístico exibido pela emissora carioca.

A Globo não fez seu mea culpa, já que, provavelmente, editou a fala da deputada. Pois ela não falaria de erotização onipresente sem citar o papel nefando da tevê. Ou você acha normal alguém fazer qualquer negócio para aparecer no Big Brother e, logo depois, uma vez interrompido o confinamento, pular direto para as páginas das revistas eróticas?
É essa a triste sina de muitas garotas belas do Brasil, que descobriram o quanto é fácil angariar um salário mínimo cada vez que se deitam com um desconhecido. Assim elas pagam seus celulares caros e suas faculdades. Ou nos confins esquecidos do Pará, para aquelas que a deusa Afrodite não foi tão generosa, que percebem que conseguirão pagar as parcelas dos produtos da Avon ou da Natura com uma transadinha de nada, do tipo que a própria mãe agencia. Coisas absolutamente normais.

Claro que a Globo não admitiu seu papel neste processo e se limitou a expor a senhora paraense que vendeu a própria filha ao julgamento impiedoso de todos, inclusive o meu, e depois voltou a mostrá-la, devidamente presa pela “eficiente” polícia daquele Estado, ao lado de um cafetão muito querido na cidade.

Precisamos devolver a reputação perdida ao Pará. O Governo Federal, as ONGs, a Justiça, ou o sei lá o quê, precisam levar valores para essa gente, que se refestela com uma música de péssimo gosto apelidada de “techno brega”, e que se vê obrigada a conviver com problemas ainda mais sérios do que este. Aliás, muito mais sérios. Sou um otimista nato, mas por ora, infelizmente, darei ouvidos à minha esposa. O Pará não dá.

No mesmo dia em que a citada matéria foi ao ar, Belém, a capital daquele Estado, concorria a uma vaga como cidade sede da Copa do Mundo a ser realizada no Brasil em 2014. As obras de uma copa costumam ir além da construção de estádios e alojamentos. Toda a logística envolvida contribui para a melhoria da qualidade de vida da população, que passa a contar com melhores sistemas de transporte, segurança, infra-estrutura e ainda corroboram para uma melhoria na auto-estima das cidades e regiões bafejadas pela presença do organismo internacional mais abrangente do mundo. A ONU? Evidentemente que não. Refiro-me a FIFA. Pois bem, entre as capitais da região norte que esperavam o anúncio, o organismo máximo do futebol escolheu Manaus, no Amazonas.
E o Pará, belém, belém...

Citação oportuna: “Sou um otimista nato, do tipo que acredita que algum dia a juventude vai voltar a ouvir boa música renegando o funk, o axé e o sertanejo a seus nichos. Eu escrevi nicho. Qualquer semelhança com outra palavrinha paroxítona é meramente intencional”- Essa opinião é minha.

Filtro: Como escolher leguminosas musicais e diferenciar a categoria do Tomati do Jô Soares do Tomate da axé music, segundo esse catalogador de pitacos:

Filme: O menino do pijama listrado
Livro: A poeta Sylvia Marteleto lançou um excelente livro chamado: “Azedume”. Indico para todos os meus amigos. Se quiser adquirir basta procurar-me que passo o contato dessa talentosa escritora.
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Outras bossas: O Rock Cast ainda não caiu no gosto popular, mas continuo insistindo. Agora temos a edição 004. Confira.
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7:16 PM

Comente aqui: Domingo, Maio 31, 2009  
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A praça da imaginação

Sempre que vou a Serranópolis de Minas, minha terra natal, me surpreendo mais e mais com os ares de progresso que a cidade experimenta, em função da criação do parque Estadual do Talhado e Serra Nova e do asfalto que liga a jovem cidade a Porteirinha, inaugurado há pouco tempo, e que poderá representar a redenção do município, graças a sua vocação turística e seus rios cristalinos, cachoeiras e pinturas rupestres. Mas desta vez não foram esses dois assuntos, asfalto e turismo, que me apeteceram.

Na verdade me apaixonei pela biblioteca da cidade. Depois de muitos trâmites, desentendidos e toda sorte de burocracia, Serranópolis foi premiada com mais de dois mil livros novos, entre os quais se destacam as obras completas de García Márquez, Borges, Drummond e Oscar Wilde, para citar apenas alguns que manuseei com prazer e curiosidade numa rápida visita lá.

A bibliotecária Zilma, que, por sinal, é minha tia, é a guardiã deste valioso tesouro e passa o seu dia cercada por Vinicius, Cecílias e Nerudas. Ela estava na fase da catalogação dos acepipes literários recém chegados. Um trabalho que poderia ser maçante se não fosse um detalhe importante: “Eu vou catalogando e aí chego a um livro que me chama a atenção, então o jeito é parar e ler um pouco”, suspirou minha tia.

Assim que os livros chegaram, eles foram acondicionados numa rua pouco movimentada da cidade, numa sede provisória. Aliás, nenhuma das ruas por lá é agitada, o que é um dos encantos do antigo arraial de Jatobá.
Zilma, ao ver concluída a nova prefeitura, comemora, afinal a biblioteca passa a ter uma sala ampla e nova para acomodar mais adequadamente os “tesouros encadernados”.

O escritor João do Rio escreveu certa vez: “Oh! Sim, as ruas têm alma. Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira”. Isso Zilma talvez ainda não soubesse, mas a simples presença da biblioteca naquela ruazinha sem grandes encantos já a tornava a rua mais importante de Serranópolis, onde o conhecimento, o encantamento e a arte maior de Machados e Eças estava à disposição para quem quiser ter uma vida menos previsível.

No dia em que me deparei com esse pote de ouro no fim do arco-íris, lembro de ter chegado empolgado na casa de meus pais, já imaginando que nas próximas férias ocuparia meu tempo em Serranópolis com os papos amistosos, com as peladinhas no fim da tarde, com os passeios na serra e na barragem do rio Mosquito e com as visitas à biblioteca.
Eu mencionei a riqueza dos livros para minha mãe e a empregada doméstica de minha casa, a Ana, que é praticamente como alguém da família, disse que seu filho Wesley adora ler e que já beirou a biblioteca algumas vezes tentando vencer a timidez, mas que ainda não tinha tido coragem de entrar.

Vale ressaltar que Wesley é afilhado de minha tia Zilma, e mesmo assim ele ainda não lograra êxito em suas investidas. Depois de passar algumas vezes nos arredores da biblioteca, à espera de um sinal de aprovação de sua “dinha”, Leizinho, como é conhecido, sempre voltava para casa, sem conseguir vencer a esfinge de sua timidez.
Tenho certeza que Zilma lerá essa crônica. Assim ela saberá que basta um sorriso acolhedor para o imberbe Leizinho descobrir os encantos daquela sala mágica. E espero também que outras pessoas em Serranópolis leiam esse relato e possam freqüentar assiduamente os bancos confortáveis da nova biblioteca, e se deixar conduzir por Macondos empoeiradas e Veronas líricas tendo os grandes escritores da humanidade como cicerones.

E se você quiser saber onde fica essa biblioteca em Serranópolis, saiba que ela se localiza agora no endereço mais nobre da cidade, na moderna Prefeitura Municipal, na praça da Matriz, mas mesmo se ficasse na rua mais modesta, no rincão mais ermo ou nos cafundós mais empoeirados, ainda assim seria o endereço mais nobre de lá, aliás, de qualquer lugar.

Citação oportuna: "Deus nos deu um pênis e um cérebro, mas sangue suficiente para usar apenas um de cada vez” - Robin Willians

Filtro: Como achar um pote de ouro no fim do arco íris em meio a tanta quinquilharia, segundo esse serranopolitano arretado
Filme: Com esse friozinho nada melhor do que um filme do mestre Hitchcock. Sugiro "O homem que sabia demais"
Música do dia: Com esse friozinho nada melhor do que Madeleine Peiroux
Livro: Orador dos mortos- Orson Scott Card
Net: Como seria aquela mulher com os olhos daquele homem? Descubra clicando aqui:
Outras Bossas: Decidi que 2010 será o ano em que lançarei meu próximo livro. Essa obra, já em fase final de revisão, será um romance. Aguarde maiores detalhes.
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Inacreditável uma promoção lançada na semana passada em um inferninho de Montes Claros. Seria até engraçado se não fosse deprimente. O Brasil implica com o bingo e rifa de mulher vale?

2:02 PM

Comente aqui: Sábado, Maio 23, 2009  
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Uma revisão necessária, e polêmica

Coube ao conceituado professor argentino Ricardo Rabinovich proferir a última palestra do Congresso de Direito realizado pelas Faculdades Santo Agostinho, neste mês de maio. O palestrante ocupou-se de um tema bastante espinhoso: a eutanásia.
As palavras iniciais do professor foram que a sala de aula deve ser um lugar de conflito, onde as idéias precisam ser confrontadas. Diante de um assunto tão controverso como o que ele iria abordar, a impressão que se deu é que aquele momento, o de sua palestra, também seria de confronto.

Grande parte da platéia certamente discordava do assunto antes do professor começar a demonstrar sua erudição através de citações e personagens históricos. O assunto, graças à sua complexidade e rejeição naturais, merecia um arcabouço teórico irrepreensível, e o palestrante se jogou neste desafio, embalando-nos com seu português cheio de sotaque portenho. Rabinovich desnudou o conceito de eutanásia ao longo dos séculos e mitigou os efeitos deletérios do tempo, que depuseram contra o sentido original da palavra “eutanásia”.

A palavra é oriunda do grego, e é formada pela junção de “eu” e “thanasia”. A palavra “thanasia” significava o processo de morrer, diferente de “thanatos” que significava, efetivamente, a morte.
Graças ao processo diacrônico urdido ao longo dos séculos, o sentido original se perdeu, e a palavra eutanásia passou a acumular uma carga valorativa malfazeja. O empenho do professor foi no sentido de restituir a idéia original, aproximando o termo do “ato de morrer com dignidade”, depois de cessadas as tentativas de se restituir a saúde, procurando não insistir em procedimentos fadados ao fracasso. E esse “direito”, segundo ele, é do “eu”, é individual, e deveria ser benquisto pela sociedade, sob pena de mascararmos nossa efêmera condição humana.

O palestrante citou diversas passagens literárias onde o termo original foi citado, desprovido de qualquer ranço negativo. Na obra de Myrmiki, por exemplo, estava escrito que “de todas as coisas que o homem deseja obter, nada há melhor que uma eutanásia”. Essa, por sinal, foi a citação mais antiga pinçada por ele em sua pesquisa. Rabinovich mencionou que a origem da palavra não está em sisudos tratados médicos ou jurídicos, mas sim nas antigas comédias gregas, o que demonstra inequivocamente que em sua gênese a palavra não coadunava com os sentimentos contraproducentes que atualmente a cercam.

Ático, contemporâneo e melhor amigo do grande orador Cícero, também empregou a palavra em seus textos. O mesmo se deu, muitos séculos adiante, com Francis Bacon, que dizia que “a eutanásia é uma coisa médica e um direito do paciente”. Foi citado o exemplo de Epicuro, que também se referiu a eutanásia de uma maneira positiva, como algo virtuoso.
Lembro-me de ter lido um artigo recente onde seu autor aborda o que ele chama de “erro de interpretação” por parte dos estudiosos no tocante à obra de Epicuro, que vem a calhar na proposta defendida por Rabinovich, de que a palavra eutanásia perdeu seus predicados originais com o passar do tempo. Epicuro é lembrado como alguém hedonista, daí a expressão epicurismo, que, entre outros significados, está associada à sensualidade e ao desregramento de costumes.

Mas, segundo o autor do artigo, seus ensinamentos foram incompreendidos, já que o “prazer” proposto por ele passava por um modus vivendi desprovido de luxos e excessos, e não ligado ao prazer sexual, propriamente dito.
Assim como o autor deste artigo lançou um novo olhar sobre a obra de Epicuro, atribuindo-lhe novos significados, Rabinovich trouxe à tona novas percepções sobre um tema delicado como a eutanásia.
O palestrante citou, além de Bacon, outro pensador católico, Tomas More, que também defendia a eutanásia como algo aceitável e, até certo ponto, provido de nobreza. Este último pensador, por sinal, acabou se tornando um santo da religião de Roma, e “patrono dos políticos” na hierarquia celestial ditada pelos ritos católicos.

Rabinovich também abordou em sua palestra episódios relativamente atuais, como os estudos que precederam à chamada “solução final”, impetrada pelos oficiais nazistas comandados por Adolf Hitler, e que culminaram nos “genocídios”. Assim mesmo, no plural, já que o professor argentino lembrou em sua fala que, além dos judeus, também os negros, ciganos, homossexuais e outras minorias, foram aniquiladas a mancheias, adotando o preceito, evidentemente distorcido, da eliminação das “vidas que não merecem serem vidas”.

Alexis Carrel foi um desses pensadores. Para ele “o melhor tratamento para criminosos e deficientes mentais são as câmaras de gás”. Essa premissa foi usada, e cruelmente adaptada, para legitimar a mancha indelével que foi o nazismo e seus extermínios em massa. A Segunda Grande Mundial, segundo o palestrante, foi um marco na diacronia da palavra eutanásia. Ela passou a designar a “morte boa para a comunidade”, e não mais para o “eu”.
O argentino, depois de dezenas de citações, defendeu abertamente que todas as pessoas deveriam escolher seu destino, quando é possível interferir. Essa autonomia em relação a todos os aspectos da vida, incluindo a própria morte, está em não aceitar certos procedimentos médicos que só servem, segundo ele, para mascarar o inevitável, e que deveria ser pessoal a decisão de interromper o fluxo de oxigênio e nutrientes para um corpo fadado à morte.

“O direito sobre a vida inclui escolher, quando se pode, sua própria eutanásia”, com essa frase o palestrante chegou onde queria. Ele fizera uma defesa concisa e sem lacunas sobre o assunto, desarmando muitos dos que assistiam a seu discurso. Ele havia vencido o confronto, ao expor elementos tão convincentes acerca do assunto. Claro que muitos continuariam a defender apaixonadamente o veto pessoal a eutanásia, mas a antítese de tudo aquilo em que acreditavam havia sido apresentada com maestria.
Na tentativa de apaziguar as almas presentes, certamente angustiadas, Rabinovich lembrou que ninguém gosta de falar da própria morte. A idéia de termos controle sobre o desfecho dessa história, quando é possível intervir, nos devolveria a paz interior e faria com que fizéssemos as pazes com a idéia de sermos mortais.

O gesto derradeiro do palestrante foi projetar o último slide de sua apresentação de power point, onde estava escrito que a mesma era dedicada a seu filho de quinze anos, que morrera precocemente, e que pôde, dentro de suas possibilidades, optar por uma morte digna, já que não havia recurso na medicina que pudesse dar jeito em sua enfermidade. Uma última frase foi dita, e ela deve está reverberando até agora para quem teve, assim como eu, o privilégio de ver a palestra: “O Direito deve servir para se obter a felicidade, do contrário não serve pra nada”. A platéia, seduzida e vencida, aplaudiu durante mais de um minuto.

Poema Ligeiro:

Ah, Quem Me Dera
Ah, quem me dera ser poeta
Pra cantar em seu louvor
Belas canções, lindos poemas
Doces frases de amor

Tom Jobim

Citação oportuna:
"É verdade que existem vários idiotas no congresso. Mas os idiotas constituem boa parte da população e merecem estar bem representados"- Hubert Humphrey, vice presidente americano no governo Johnson

Filtro: Como diferenciar a Bahia de João Gilberto da Bahia do Chiclete com Banana, segundo esse escrevinhador de pitacos
Filme: 12 homens e uma sentença- Básico
Música do dia: Poucas coisas no mundo são mais emocionantes do que algumas canções de Leonard Cohen
Livro: Estou louco para ler Herman Hesse. Já está na fila.
Net: Um blog cheio de ternura e inteligência:
Outras Bossas: O "Rockcast" é um programa formatado para a internet que eu bolei e que está, como diria Marcelo Tás, "tchuc thuc". Nesta semana teremos a segunda edição com o melhor do rock. Fique atento e atenta.
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9:51 PM

Comente aqui: Sexta-feira, Maio 15, 2009  
Tio Bira e seus oitenta anos

“Saudade, um lenço roxo lá distante, na curva do caminho, a tremular. Um riso amargo, um peito soluçante, um olhar triste em busca de um outro olhar”. Era com poesia que começava os programas românticos comandados pelo radialista Ubirajara Toledo na rádio Sociedade ZYD-7. O popular Tio Bira comandou programas como “Clube do Tio Bira” e “Pingos de saudade”, além do vigoroso e combativo “Tribunal da opinião pública”.
Ubirajara Ferreira de Toledo, que conheci pessoalmente quando fiz o trabalho experimental da faculdade de Jornalismo há quatro anos, nasceu em Juiz de Fora no dia dois de setembro de 1929. Começou na imprensa em 1949, na rádio Tiradentes e trabalhou também em jornais impressos dos Diários Associados e na TV Industrial. Paralelo a seu trabalho na imprensa, Ubirajara era funcionário público federal. E foi nestas condições que ele foi transferido para Montes Claros. Atendendo a um convite de João Teixeira Bastos, ingressou no quadro de locutores da rádio ZYD-7 em 1962.

Ainda nos tempos de Juiz de Fora, discursou para Assis Chateaubriand, o jornalista mais influente da história do Brasil. Foi secretário fundador da AMAMS, Associação dos Municípios da Área Mineira da Sudene, e liderou diversas campanhas sociais. Teve seu trabalho reconhecido pela Câmara Municipal de Vereadores, que em 1980 concedeu-lhe o título de Cidadão Honorário de Montes Claros. Em 2003, o ex-radialista voltou a ser laureado com um título de Cidadão Benemérito, oferecido, outra vez, pelos vereadores, em nome do povo de Montes Claros.

Esse texto, escrito por um mero aprendiz de radialista, se propõe a homenagear o grande Tio Bira e lembrar que no próximo mês de setembro ele completa oitenta anos. Acredito que seja uma efeméride das mais justas. Tomara que o atual prefeito, que foi radialista, preste uma nova e merecida homenagem em nome do povo de Montes Claros, a esse comunicador que tanto contribuiu para nossa cidade e para o rádio mineiro.
Contrariando a máxima de Nelson Rodrigues, que afirmava que toda unanimidade é burra, Tio Bira se locomove faceiro por aí, acarinhado e admirado por seus pares e pelo público, que um dia teve a honra de tê-lo por perto, através de sua voz, emanada nas ondas médias e um tanto roufenhas da ZYD-7.

Lembro-me de ter lido no site www.montesclaros.com que Tio Bira pretendia se mudar para sua terra natal, Juiz de Fora, depois de tantas décadas em Montes Claros. Não sei de seu atual paradeiro, se ele está na terra de Itamar ou aqui na terra de Mestre Zanza, mas certamente estará sempre em um local onde a melancolia e a solidão não podem entrar: os nossos corações.

Poema ligeiro:
Envelhecer

Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

Mário Quintana

Como separar o joio do trigo, mesmo sem ter visto um joio na vida, segundo este humilde escriba:

Filme: Anjos e demônios- Deixe os dogmas de lado e divirta-se, sem culpa.
Música: Rockcast 001- Baixe agora essa novidade
Livro: "O pirotécnico Zacarias"- de Murilo Rubião
Na Net: Jovens promissores interpretando o mundo do nosso jeito. Clique aqui e se atualize:
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4:10 PM

Comente aqui: Terça-feira, Maio 05, 2009  
Crônica de um nome incomum

Tem uma crônica ótima do meu amigo e padrinho de casamento Itamaury Telles que versa sobre as agruras de se ter um nome incomum. Itamaury cita, em seu estilo inconfundível, que chegavam a confundir seu prenome com "Itamaraty". Claro que de uns tempos para cá Itamaury se tornou muito famoso em Montes Claros e ninguém mais deve incorrer nesta gafe.
Nos meus tempos de segundo grau em Porteirinha, eu tive um colega chamado Aneures. Outro nome bastante incomum, como podem observar. Quantos Itamaurys ou Aneures você conhece? Provavelmente os mesmos que eu. Apenas estes.

Acredito que, de certa forma, o meu nome também se localize nesse panteão de originalidade. E essa é uma das vantagens de se ter um nome singular.
Claro que tem também suas desvantagens, e uma delas foi citada por Itamaury: a impossibilidade de se debitar a algum homônimo nossos erros de percursos. E isso se dá pela quase total ausência de homônimos.

Eu conheço somente outro Délio aqui em Montes Claros, e ele é frentista de um posto de gasolina nas proximidades da prefeitura. O outro Délio que conheço é um ex-vereador de Porteirinha. E tem um vereador de Belo Horizonte chamado Délio Malheiros e um advogado ilustre que tinha o esquisito nome de Délio Jardim de Matos. E só.
Nenhum personagem de novela e nenhum jogador de futebol foi batizado com esse nome.

Um total descaso com os Délios espalhados por esse país. Inclusive, conclamo os Délios de Montes Claros e da região para se manifestarem depois de lerem essa crônica.
Vamos ver se dá pra encher pelo menos uma van com os xarás que tem a honra de carregar esse nome, que designa os moradores da ilha grega de Delos.
Eu tenho muito orgulho de meu nome. É uma homenagem ao meu avô que eu sequer tive o prazer de conhecer. Apesar desse orgulho, eu sei que se trata, talvez, do nome mais fácil de se confundir no Brasil.
Meu nome é Délio. “Alguém aí disse Hélio, ou Célio, ou Nélio?”. A verdade é que quase todos os dias eu preciso dizer: “É Délio, com d de dado”.

O espantoso é que já chegaram a confundir com Pélio. Você por acaso conhece algum Pélio, ou Zélio por aí? Se bem que o irmão do Ziraldo tem esse nome...
Alguns dias atrás eu pedi um churrasco no delivery de um restaurante e quando chegou a entrega e vi lá na notinha o meu nome corrompido, “Bélio”, eu imaginei que essa versão até que tinha algum significado, pois fiquei mesmo com vontade de pegar um arsenal bélico e dar cabo de quem escreveu aquela atrocidade.

Quando comecei no rádio e poucos me conheciam em Montes Claros, foi uma verdadeira prova de paciência. Quando os ouvintes ligavam pra rádio 98 FM e perguntavam quem estava falando e eu respondia que era Délio, o ouvinte, invariavelmente, sempre confundia “Célio, Nélio?”. “Não, Délio, com d de doido”.
Lembro-me de ter ficado tão chateado com esse negócio que, já no final do programa, quando o telefone tocou pela centésima vez e a ouvinte perguntou quem estava falando, eu disse: “É o Hélio”. Do outro lado da linha a ouvinte perguntou: “Délio?”.

Citação oportuna: “O falador diz tudo o que sabe. O desajuizado diz apenas o que não sabe. Os jovens, o que eles fazem. Os velhos, o que eles fizeram. E os tolos, o que pretendem fazer”- Pernard

Poema ligeiro:
“Délio Pinheiro
Délio
Pinheiro
Pélio
Dinheiro
Pélio Dinheiro”

Como distinguir entre Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes na concepção crítica deste que vos tecla:

Filme: Meu nome não é Johnny - Um excelente filme nacional
Música: Ouça o novo álbum de Mariana Aydar. É samba fino à beça.
Livro: Leite derramado- Chico Buarque
Na Net: Fui entrevistado pelo blog da Sociedade Mutuante. Uma honra que divido com vocês:
Outras Bossas: Por falar em cinema nacional, é curioso observar o quanto o filme “Cazuza” fez mal para a memória do roqueiro vitimado pela aids. Pelo menos entre as pessoas mais caretas. Não que o filme seja ruim. O problema é que o filme não economizou nas cores e mostra um jovem perdido e inconseqüente, relegando para segundo plano o artista original e ótimo letrista que ele foi. Esse mesmo erro acometeu o Jim Morrison, do filme de Oliver Stone. É uma injustiça com o Cazuza, que deixou uma obra coesa e excelentes letras. Agora só não me venha com a expressão “poeta” para designar o “cara”, porque aí é um pouco demais.
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10:13 AM

Comente aqui: Quinta-feira, Abril 16, 2009  
Imagens que eletrizam

O saudoso e premiado jornalista Joel Silveira, instado a citar a melhor imagem do jornalismo em todos os tempos, optou pela quixotesca tentativa de um chinês de conter a fúria de tanques de guerra, postando-se diante das bestas de metal, impedindo, pelo menos por alguns segundos, a intervenção militar na Praça da Paz Celestial de Beijing, no final dos anos 1990.
Essa imagem é mesmo emblemática. O tanque desviou porque, afinal de contas, ali dentro, protegido pela carapaça e pela carapuça, estava outro ser humano. O contraste entre a força bruta do tanque e o gesto frágil de um estudante correu o mundo através dos aparelhos de televisão e chegou aos mais recônditos grotões do planeta.

Ao lado da imagem da ruína do Muro de Berlin, do ataque aéreo ao World Trade Center e dos frames apocalípticos do enorme tsunami que varreu a Ásia há alguns anos, essa imagem registrada na China, estão entre aquelas que dificilmente nos esqueceremos, passe o tempo que passar. E, se considerarmos a opinião ilibada de Silveira, trata-se do momento mais relevante da contribuição do jornalismo para a compreensão do ser humano em todos os tempos em que a atividade jornalística esteve presente, em todas as revoluções e guerras das últimas décadas.

Nesta semana surgiu uma imagem com força para perdurar alguns meses na nossa memória. Quiçá anos. Aquela que mostra os funcionários da concessionária que explora o trem metropolitano no Rio de Janeiro descendo o sarrafo indistintamente nos cidadãos, que deram o azar de não encontrar um lugar mais confortável dentro dos vagões lotados, e que ficaram na mira dos capangas disfarçados de funcionários públicos.
Não havia lugares disponíveis para tanta gente e, ao tentarem mostrar para esses funcionários que os acotovelavam que ali não estavam bovinos e sim seres humanos, a reação foi de extrema violência.

Esses imbecis, devidamente demitidos após as imagens serem veiculadas na TV, não perceberam que ali dentro, aboletados feito sardinhas, tinha uma matéria viva e pulsante chamada ser humano.
Se o soldadinho de merda, com seu brinquedo sinistro, na China, desviou em nome de não sei qual sentimento, o mesmo não se pode dizer dos macacos adestrados que espancaram a nós todos, naqueles vagões lotados de penúria na tarde tropical do bairro de Madureira.

Parabéns ao nobre jornalista cinematográfico que, ao ser escalado para fazer algumas imagens das estações suburbanas no Rio em dia de greve dos metroviários, nos brindou com uma imagem tão forte e tão necessária, ainda que por pura sorte. Joel Silveira ficaria orgulhoso.

Em tempo: Dedico essa crônica, quase um desabafo, a meu ex-colega de jornalismo Alexandre Nobre, o Xandão, que é o cinegrafista mais completo que pode existir em nosso meio, porque também é jornalista diplomado. E dos bons, por sinal.

Poema Ligeiro:
Noturno para o sertão

Os dormentes frios da ferrovia
testemunham a viagem do trem fantasma.
Somente os dormentes vêem.
Enquanto crianças cor de cobre
olham assustadas através das janelas.
Um apito é ouvido entre os ruídos da noite.
Um arrepio atravessa a alma de quem ouve.
Mas apenas os dormentes podem ver.
Enquanto uma criança de boina acena,
o trem avança noite à dentro.

Esse poema, para meu orgulho, está nas páginas iniciais do ótimo livro "Noturno para o sertão", do escritor porteirinhense Itamaury Telles

Citação oportuna: “Se nos oferecessem a imortalidade aqui na Terra, quem iria aceitar esta triste dádiva?”- Frase certeira de Rousseau.

Filtro: Como o céu de Ícaro pode ter mais poesia que o de Galileu, segundo este escriba digital

Filme: Se você ainda não viu um filme do Kurosawa, desculpe-me mas você ainda não conhece cinema. Sugiro “Ran”
Música do dia: Admirável gado novo- Zé Ramalho. Finalmente os versos “Êh, oh, oh, vida de gado, povo marcado êh, povo feliz...” encontraram uma síntese perfeita em imagens. As chibatadas na estação de Madureira, evidentemente.
Livro: Estou lendo “As travessuras da menina má”, do peruano Mario Vargas Llosa e “Grande sertão: Veredas” do filho mais famoso de Cordisburgo, Guimarães Rosa.
Net: Esse site é uma fonte inesgotável. O trocadilho é ruim, mas o site é excelente. Clique aqui
Outras Bossas: O citado jornalista Joel Silveira era crítico ferrenho de Guimarães Rosa, a quem chamou de "Joyce caboclo", devido ao seu estilo único que, segundo Silveira, não passava de pedantismo. Tire suas próprias conclusões. De preferência leia James Joyce e o próprio Rosa.
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8:36 AM

Comente aqui: Quarta-feira, Abril 08, 2009  

Brilho fugaz de uma mente repleta de lembranças

A tarde de primavera que avança ruidosa para as trevas da noite, parece se liquefazer, tamanha é a quantidade de água que cai das nuvens negras na fazenda distante da civilização de onde Sandoval a contempla, absorto e saudoso. Seu coração de matuto também troveja na mesma cadência da tempestade, e também se liquefaz de saudade de um tempo impreciso de sua infância, quando descobriu o doce mourejar da água da chuva, que escoava pela bica diretamente em seu corpo de criança, e do cheiro inebriante do biscoito de chuva que sua saudosa mãe fritava no fogão a lenha em dias longínquos como aquele que ele observava de sua janela.

O cheiro de terra molhada se confundia com o cheiro do quitute e ainda se misturava ao cheiro de afeto, quase palpável, em sua doce lembrança da meninice vivida ali mesmo, naquele sítio bem cuidado, mas ainda assim esquecido.
Sandoval jamais ouviu falar de Aubrey de Grey, e certamente este jamais saberá quem é nosso matuto, que vive na região de Claraval, município de Montes Claros, no norte das Minas Gerais. Grey é um brilhante cientista que acredita que o ser humano pode um dia ser imortal, ou, numa perspectiva menos otimista, viver alguns séculos com saúde e viço. Ele trabalha, em seu laboratório londrino, tentando reverter os processos químicos que desencadeiam os danos que ocorrem às células de nosso organismo, evitando assim o envelhecimento e a morte celular.

Seria a descoberta do milênio. A chave que nos permitiria prolongar a juventude por tempo indeterminado e que rejuvesceria nossos velhos como no conto de F. Scott Fitzgerald, que recentemente chegou às telonas do cinema. Milhares de Benjamins Buttons remoçariam a cada dia, e nem seria preciso vender a alma, como fez um quase homônimo do cientista, o belo Dorian Gray. A descoberta estaria aí, a princípio caríssima, mas depois disponível até mesmo para os Sandovais da vida.

Basta lembrar que muito em breve, segundo pares de Aubrey Grey, por algo em torno de quatrocentos reais, qualquer ser humano poderá ter seu genoma decifrado. Antigamente seria impossível quantificar um procedimento desses para um reles mortal, mas hoje é perfeitamente crível. Portanto, é uma questão de tempo e esperança até que o doutor Grey consiga êxito em seus objetivos instigantes. Decifrar nosso código genético nos pouparia de doenças como o câncer, que seria tratado antes mesmo de se manifestar.

Sandoval talvez nunca saiba de algo assim. Seu único vínculo com o mundo é um rádio de pilha constantemente ligado nas emissoras AM de Montes Claros, com suas modas de viola ao cair da tarde.
Mas naquele momento o único ruído que se nota em seu humilde rancho é o farfalhar da chuva, que tem o poder de transportá-lo para dias amenos, longe da lembrança atroz que o empréstimo não saudado com o banco lhe provoca e da dor da perda de sua amada, tão recente e amarga, que lhe assalta repentinamente.

Lágrimas espessas, quase do tamanho dos pingos da chuva, brotam-lhe da mais recôndita esquina de sua alma sertaneja, quando se dá conta que a noite escura e sem estrelas, que se sobressai, será na mais completa solidão.
Não, Sandoval nem desconfia que nos Estados Unidos um grupo de pesquisadores acredita que em breve será possível apagar de nossas mentes todas as lembranças ruins, alterando uma enzima misteriosa que existe em nosso cérebro. As mentes brilhantes de lá fizeram os experimentos em ratos e os resultados foram animadores. Os pobres roedores se esqueciam de seu sofrimento e viviam seus dias confinados na mais absoluta felicidade artificial.

Humanos e ratos tem muito em comum, portanto é uma questão de tempo, e possivelmente dinheiro, para apagar de nossas lembranças os momentos de desgosto, de ingratidão e de inveja que vivemos em nosso cotidiano, e também apagar para sempre a dor lancinante de perder um ente querido ou mesmo de ver nosso time do coração ser rebaixado para a segunda divisão.
Mas o que seria de nós, talvez perguntasse Sandoval, se um dia soubesse dessas coisas que relato, vivendo sem data para nos encantarmos, absolutamente errantes e desumanizados?

O que nos confere alguma virtude é o fato de sabermos nossas limitações. É o estranho dom de perceber que dia menos dia, talvez numa tarde chuvosa como aquela, como um sinal inequívoco de boa sorte, partiremos rumo ao desconhecido. Isso torna a vida um assombro e um milagre que precisa ser saboreado com ardor.
Pensando bem, o doutor Grey e os cientistas americanos deveriam conhecer Sandoval, um brasileiro como tantos outros: que ri ao se recordar da infância feliz e que chora quando se lembra das perdas que teve ao longo da vida atribulada. Mas que, ao anoitecer, e com a chegada pacificadora do estio, matuta que ainda pode haver uma esperança, desde que o fruto nasça graúdo, que o produto tenha preço no Mercado Municipal e que o banco, como em um milagre divino, o anistie de seus débitos.

Uma vida cingida em meio à tempestade, mas que vale a pena justamente devido a alguns lampejos, como os relâmpagos que alumiam as trevas e refletem, mesmo que num átimo, sua beleza complexa. Uma vida humana tem Sandoval, demasiadamente humana.

Citação oportuna: "O fim do mundo não é tão assustador quanto o fim do mês"- Frase pinçada pelo Poeta do Acaso, Damião Cordeiro

Filtro: Como diferenciar o CQC do Pânico na TV! baseando-se tão somente nos pitacos digitais deste que vos tecla

Filme: O divertido “Motoqueiros Selvagens”
Música: Uma daquelas certeiras do Kiss, para comemorar os shows desta lendária banda no Brasil
Livro: Código da vida, de Saulo Ramos
Net: A próxima grande onda da internet deve mesmo ser o Twitter. Eu já fiz o meu. Faça o mesmo e depois comece a seguir e ser seguido por centenas de outros usuários. Entre aqui:
Outras Bossas: Montes Claros viveu um dia atípico na última segunda-feira. Tivemos a presença por aqui do presidente Lula, do vice, do governador Aécio, de onze ministros e todos os governadores do Nordeste, além de outras autoridades. Está aí uma das milhares de fotos do dia em que a cidade em que moro foi o centro político do Brasil:
Pixels:

5:43 PM

Comente aqui: Domingo, Março 29, 2009  
Emoção da descoberta

O jornalismo tem me proporcionado grandes momentos profissionais nos últimos anos. O trabalho como assessor de imprensa e mestre de cerimônias fez com que eu apresentasse os pronunciamentos de importantes políticos e outras autoridades, civis e militares. Entre eles o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, e o vice-presidente da República, José Alencar. Este último com um detalhe importante. Quando o apresentei, na condução do cerimonial do sesquicentenário de Montes Claros, ele era o presidente da república em exercício.
Tornar-se presidente em exercício do Brasil sendo vice do Lula não é muito difícil de se conseguir, apresso-me em mencionar, uma vez que temos um presidente que adora viajar para outras nações, sobretudo àquelas de presidentes brancos e de olhos azuis.

Ministros, deputados, senadores, secretários estaduais e outros de igual quilate estão nesta lista extensa. Mas nesta semana tive uma satisfação diferente em um destes eventos, motivada pelo fato de ter escolhido o Direito como meu novo curso superior, e ao qual tenho dedicado meus esforços intelectuais.
A minha amiga e “chefe” Rosangela Silveira me informou, com seu jeito sem rodeios, que tinha um “evento de juízes no fórum” e que era para eu apresentar. Sendo um convite de Rosa, topei na hora, claro.

Só depois fui saber que se tratava de uma reunião da prestigiada Amagis, a Associação dos Magistrados Mineiros, que está completando cinquenta e cinco anos de serviços prestados à justiça brasileira. Na composição da mesa de honra e na platéia teríamos juízes, desembargadores e alguns advogados. Um seleto grupo de nossa justiça mineira. E eu lá, aboletado no parlatório, na condição de mestre de cerimônia, dando conta dessa responsabilidade toda.
Confesso que, quando percebi que eu era um mero estudante do segundo período de Direito em meio a tantas feras, senti um friozinho na alma. Mas me recompus quando me dei conta que minha porção “jornalista profissional” estava pronta para tornar este trabalho mais um numa lista de cerimônias relevantes e inesquecíveis. E foi de fato, mas não sem um pouco de emoção.

A Amagis tomou emprestado o nome de um grande juiz mineiro, hoje desembargador, para alcunhar a seccional do órgão em Montes Claros. E o escolhido foi Tibagy Salles de Oliveira, um personagem jurídico descrito por seus pares como “ícone da justiça”, “fogueira do saber jurídico” e “um dos últimos grandes guerreiros da justiça”. A metáfora da fogueira foi usada depois que a idéia de “chama do saber” pareceu insuficiente para falar desse homem notável, que há quase trinta anos trabalhou na comarca de Montes Claros. Quando aqui esteve os processos de sua vara se acumulavam aos milhares e em pouco tempo ele conseguiu diminuir sensivelmente este número, à base de muito trabalho e disciplina. Portanto uma homenagem das mais justas.

Coube a outro desembargador, o notório José Nepomuceno Silva, o papel de orador oficial da cerimônia. E esta incumbência foi concluída brilhantemente com a fala que, em certa medida, poderia ser de um Ruy Barbosa ou de um Cícero, mas que pertenciam a um senhor de setenta e muitos anos. E este brilhante orador vivia naquele momento uma situação particularmente delicada que, ao final da solenidade, revelou-se emblemática acerca de sua grandeza.
Mas antes disso, outro fato chamou minha atenção. Coube a um dos diretores regionais da Amagis, o juiz Laílson Braga Baeta Neves, que atua em Montes Claros, ler uma mensagem para o homenageado.

O magistrado, tão sisudo em seu cotidiano, deu lugar a um garoto que se lembrou do dia em que entrou pela primeira vez em um tribunal e viu o juiz Tibagy trabalhar. A atenção dispensada pelo experiente juiz ao então jovem estudante foi decisiva para definir o futuro do menino Laílson que, ao rememorar tais fatos, desfez-se em lágrimas sinceras, que contrastavam com seu rosto rijo e compenetrado. Outros juízes também se emocionaram, talvez por perceberem semelhanças com a história de cada um.

O homenageado, ao final de sua fala, se viu surpreso por não ter chorado naquela noite enquanto desfazia os nós antigos de sua memória, ao se recordar de pessoas e fatos que fizeram sua história até aquele momento, em que seus pares prestavam-lhe tributo.
Quando o presidente da Amagis fez uso da palavra, um fato interessante veio à tona. O juiz Nelson Missias de Morais parabenizou o homenageado e lembrou que, além de Tibagy, estava na mesa de honra outro “ícone da justiça brasileira”, o desembargador José Nepomuceno. Este, segundo Missias, no dia anterior, havia travado mais uma luta contra uma doença devastadora que, em sua impessoalidade, iguala juízes e lavradores diante de sua crueldade, o câncer.
E nem mesmo uma sessão de quimioterapia tirara dele o raciocínio arguto e o desejo de homenagear um “irmão e companheiro de pescarias”, revelando mais uma característica de Tibagy.

Quando a cerimônia terminou e minha porção jornalista saiu de cena, eu assumi a minha postura de estudante diante de tantos mestres e pedi, de maneira uma tanto acanhada, para tirar uma foto ao lado da iminente figura do desembargador homenageado. Ele, de imediato, se postou do meu lado e ficamos ombreados, com nossos paletós coincidentemente claros, deixando bastante tênue, pelo menos naquele ínfimo instante do flash, o imenso abismo que nos separa.
E seu lado acessível, tantas vezes mencionado nos discursos, assomou com um oferecimento sincero e espontâneo, que me encheu de alegria: “Escuta rapaz, se você quiser posso te mandar minha autobiografia. De repente você gosta. Ainda tenho alguns exemplares. Você quer?” - perguntou Tibagy.

Claro que quero mestre, e quero mais, quero que todos os meus colegas de curso de Direito consigam fazer carreiras consolidadas na ética e na transparência, quero que a justiça brasileira dê conta dos assombrosos 67 milhões de processos que emperram as varas criminais e cíveis, em todas as instâncias, e quero ser como o senhor. Juiz? Desembargador? Talvez, se assim se encaminharem os desígnios de Deus.
Refiro, sobretudo, a seu caráter e a seu jeito simples, que um dia, no caótico fórum Lafayette em Belo Horizonte, inspirou o garoto Laílson a se tornar magistrado e que teve também a força de atingir-me feito um aríete, abrindo paredes espessas, onde se escondiam objetivos que eu sequer supunha que existissem, e que agora terão a força de conduzir-me na longa e acidentada caminhada do Direito.

Desconfio que seu exemplo Tibagy, continuará inspirando outros tantos jovens, ad eternum.
E quero mais. Quero que o bravo Nepomuceno vença essa batalha e que vocês dois possam curtir suas aposentadorias em meio à gratidão dos amigos, o respeito das famílias e cercados por peixes e mais peixes, graúdos e encantados.


O aprendiz e o mestre


Poema ligeiro:
Almas em geral Gerais...

O vento, tão incerto e poderoso
Rompe as distâncias desde o Gerais
E burila as sempre-vivas espalhafatoso
Espalhando vida a homens e animais.

O arquejante burrinho, tão pedrês, resfolega
No caminho pétreo, sem olhar para trás
Com suas gomas e bebidas para adegas
Vindas do lado de lá, dos canaviais.

Sua travessia até o comércio é uma epopéia
Quando o vento assobia no tronco da madeira
Em seu dorso o geraizeiro tem uma idéia
“Que bom seria se não existissem tantas ladeiras”.

Mas elas existem, feito assombrações, aqui e acolá
E os barrigudinhos famintos esperam no pé da ladeira
Que virem balas sortidas os negócios do pai em Jatobá
E que lhes traga roupas para a festa da padroeira.

Citação oportuna: "Os problema financeiros foram criados por gente branca e de olhos azuis"- A análise aprofundada de Lula diante da crise.

Filtro: Como diferenciar astronomia de astrologia segundo a ótica sui generis deste que vos escreve
Filme: Gran Torino
Música: Conheça o Porcas Borboletas, de Uberlândia
Livro: Grande Sertão: Veredas, do Rosa
Net: A Hora do Planeta é uma tentativa de abrir os olhos da humanidade para um assunto sério e inadiável. Assista e reflita
Outras Bossas: O blog tem experimentado uma mistura inédita de ficção e realidade nos últimos posts. Pretendo insistir com esse formato, mas sem descartar as dicas e sugestões que tem surgido aos montes. Continue comentando. Esse é o aditivo para meu cérebro continuar atento.


12:40 PM

Comente aqui: Quinta-feira, Março 19, 2009  
Pitacos, pílulas e pixels:

O mundo moderno requer, muitas vezes, uma análise rápida, porém substanciosa, dos fatos. É isso que essa coluna digital se propõe a mostrar. Sua presença neste blog será sazonal e conto com seu comentário para avançarmos com as discussões aqui aventadas.

Protojuiz- Em abril tem Protógenes Queiroz na “TV Justiça”. O homem deve abalar a república com suas declarações bombásticas. Ele acaba de dizer, em uma palestra em Alagoas, que o MST fez muito bem ao invadir a fazenda do Daniel Dantas, e que esse é o destino de terras de "banqueiro bandido". O delegado disse, noutra ocasião, que gostaria de ser o carcereiro da prisão onde Dantas deveria passar o resto de seus dias. Pensando bem, se fossem abertas vagas para tal função teríamos milhares de candidatos. Quiçá milhões.

Sugestão: Em maio a Faculdade Santo Agostinho de Montes Claros promove seu Congresso Nacional de Direito e o Congresso Internacional de Direitos Humanos. Gostaria de sugerir aos organizadores que tentem trazer a bola da vez da justiça brasileira, o delegado Protógenes, que nesta semana foi indiciado pela PF pela suposta farra de grampos denunciada pela Veja. Ele costuma polemizar em suas palestras e seria o chamariz ideal para se promover os congressos.

Súmula Dantas: A Súmula Vinculante número 11 foi criada com o intuito de preservar os acusados presos em flagrante da humilhação de aparecem nos jornais impressos e na TV com algemas. Esse fato foi responsável indiretamente para o suicídio acontecido no hospital Alfeu de Quadros, em Montes Claros, na última semana. O suicida tomou a arma do policial que o acompanhava e, depois de atirar a esmo, atirou em si mesmo. A presença das algemas impediria esse ato desesperado.

CQC- Entrou para os anais da TV brasileira a perseguição do CQC, ótimo programa de humor da Band, ao deputado Edmar Moreira, aquele mesmo do castelo no interior de Minas Gerais, nos corredores da Câmara. As perguntas capciosas do humorista foram solenemente ignoradas pelo nobre deputado, mas o momento foi impagável. No mesmo dia o programa tentou vender o tal castelo ao Príncipe Charles, que esteve visitando o Brasil. Nota dez para os pauteiros deste programa, que alegra as noites de segunda-feira.

A volta do careca- Um fato que me deixou comovido na semana passada foi a declaração de Marcos Valério de que teria apanhado muito no presídio de segurança máxima para o qual fora mandado por uns três meses. Valério é aquele sujeito de Curvelo, que ficou conhecido no "Mensalão" como o administrador do estratagema urdido ainda nos tempos do FHC e potencializado pelos "aloprados" do PT. Se por um lado a sova serviu para arrancar de sua cara lavada o risinho irônico que desmoralizou as CPIs por onde passou, por outro levanta uma questão séria: tem muita gente de rabo preso com o cara.

Pensamento típico da Veja- Eu pensei em escrever que tem também "gente com a língua presa", mas é melhor deixar pra lá. Foi um típico pensamento “burguês-direitista-neoliberal” do qual me arrependo profundamente.

Apelido do Marcos Valério- Jornalista vive de furo e eu gostaria de lembrar o apelido de infância de Marcos Valério em Curvelo. Ele fazia pequenos negócios por lá, e meu sogro, que é da vizinha Inimutaba, o conhece desta época. Marcos Valério era conhecido como "Flechinha". Um apelido que mostrava o quanto ele era célere e audaz em seus pequenos trambiques. Informações valiosas assim você só fica sabendo aqui, neste vosso humilde blog.

Quase quatro meses e nada- Não abordarei apenas a política, a imprensa e a justiça em níveis nacionais nesta estreia da coluna digital que vai escarafunchar a vida na “reles pública”. É preciso lançar luzes também nos péssimos primeiros meses da administração de Tadeu Leite em Montes Claros. O incrível aumento dos cargos de confiança e a criação desnecessária de novas secretarias deixam claro que os compromissos de campanha podem pôr a perder uma administração que surgiu com a proposta de "arrumar" a cidade, mas que até agora não resiste a uma comparação séria com a gestão anterior, suplantada pelo populismo do atual prefeito. Se antes tínhamos apenas a figura do secretário como catalisador do maior salário em cada secretaria, agora temos em cada uma delas um secretário adjunto e um assessor político, todos com salários altíssimos, além do próprio secretário.

Uma imagem emblemática:


Sinceridade rara- De uma hora para outra descobri o meu mais novo herói na política nacional. E ele atende pelo nome de Jarbas Vasconcelos. Até então ele grassava no mundão da política brasileira como apenas mais um, pelo menos pra mim, que até então não o diferenciara dos ignóbeis políticos de colarinho branco. Mas ao escancarar a “caixa de pandora” do PMDB ele fez um favor para sua própria biografia e para o Brasil. Mostrou o quanto é sincero e quanto o citado partido parece ter se perdido no tempo.

Sean de fora- Esse caso do menino Sean, que é motivo de disputa entre o pai americano e a família da mãe brasileira, parece-me um completo disparate. Não há nada que me convença, enquanto cidadão, que a guarda deva permanecer com o padrasto brasileiro depois que a mãe do garoto faleceu. É claro que do ponto de vista jurídico a história tem nuances mais complexas, mas o senso comum não admite a possibilidade do pai biológico ser preterido em um caso assim. A passeata que aconteceu no Rio de Janeiro neste fim de semana afirmou que o Sean é de dentro, mas o Sean é de fora.

A Cesare o que é de Cesare- Outro clássico jurídico está sendo disputado pelo Brasil. Desta vez contra a Itália. Estamos prestes a conhecer o destino de Cesare Batistti. O Brasil resolveu acolhê-lo mesmo com os crimes de assassinato que lhe são imputados. E olha que são quatro. Ele já foi condenado no país da bota, que o julgou à revelia, e uma prisão perpétua o aguarda por lá caso o STF julgue que é a vez do Brasil dar-lhe uma botinada nos fundilhos. Acredito que o ex-guerrilheiro italiano deva permanecer por aqui. Fomos muito longe em nossa posição para fraquejar agora.

Reforço de peso- A Itália demonstrou interesse em escalar o zagueiro Materazzi para xingar a mãe dos ministros do STF quando a coisa “pegar” de verdade. Uma cabeçada de nossos juristas poderá por a perder tudo que o que conseguimos até agora. Ou você pensa que deixar irritado o Berlusconi é pouca coisa?

Para Refletir: Escute essa gravação primorosa do artista Paulo Varella sobre a política brasileira. Com sua sinceridade, essa mensagem suplanta centenas de artigos políticos de sociólogos que tentaram decifrar porque os demagogos ainda têm vez em nossa democracia.
Baixe aqui:

11:43 PM

Comente aqui: Segunda-feira, Março 16, 2009  

O poeta João e a avenida movimentada

O poeta chinfrim olha através das persianas marrons do apartamento. Seus olhos observam a avenida furiosa, entrecortada por carros velozes e caminhões pesados. Seus olhos também estão pesados depois de uma noite às claras, escrevendo haicais amadores. O nome do poeta é João, e João é como seus haicais, amador.
Com as primeiras horas da manhã primaveril, ele se deu conta que não podia ter deixado sua namorada sair no meio da noite, como ela fizera, sutil feito uma assombração, depois de trancar seu coração de moça direita com cadeados espessos, forjados com o amor ferido e o desapontamento.

João, naquela noite furiosa, antes dos fatos já descritos, escutou-a perguntar qual chá ele preferia: verde ou de camomila. O poeta raso optou pela segunda opção somente por que este lembrava o nome de sua namorada.
Depois eles se amaram vorazmente sobre o sofá amarelado daquele apartamento na avenida movimentada.

E foi ainda na brisa fria da madrugada que Camila se foi, destruída por evidências loquazes das canalhices de João. Ela fechou a porta com vagar extremo e se afastou, furtiva, como quem abandona um doente que acaba de adormecer à meia-noite. Uma carta endereçada a uma certa Isabel, com declarações de amor e recortes de poesia barata, jogou Camila na contramão da avenida movimentada, a mesma que agora João esquadrinha em busca de um sorriso ou de um perdão, coisas intangíveis para ele.

Mas o que ele vê são os caminhões pesados e os carros velozes que parecem debochar de seus olhos tristes e de seus haicais amadores, feitos para Camila, naquela noite em que ele percebeu que a amava perdidamente, assim como amava o chá de camomila frio, que sorvia entre soluços sinceros.

Poema ligeiro:
Pinçei para este blog um poema do Alisson Villa, descoberto por Daiane em seu Mil ternurinhas, blog que merece uma visita mais demorada

Má influência

Quando dei pinga ao telefone, ele embolou a fala dos amantes até terminarem o namoro.
Quando dei pinga à xícara, ela tentou voar com sua única asa e terminou em caquinhos.
Quando dei pinga ao sol, ele adormeceu sobre uma nuvem atrapalhando a passagem da noite.
Quando dei pinga ao dado, ele cambaleou incerto sobre que número oferecer.
Quando dei pinga ao jornalista, ele escreveu um poema sobre a alta dos juros.
Quando dei pinga ao texto, suas letras ficaram em itálico.
Quando dei pinga à bailarina clássica, todos assistiram uma apresentação contemporânea.
Quando dei pinga ao maestro, a orquestra afrouxou o smoking e tocou um samba.
Quando dei pinga ao camaleão, ele trajou um arco-íris.
Quando dei pinga ao pente, ele sorriu seus dentes.
Quando dei pinga à estrada, ela insinuou-se para todos.
Quando dei pinga à pilha, em meia hora ela gastou sua energia.
Quando dei pinga ao cabide, ele despiu-se da blusa para realçar o balançar de seus ombros.
Quando dei pinga ao guarda-chuva, ele perdeu até os pingos mais gordos.
Quando dei pinga ao criado mudo, ele desinibiu-se puxando muita conversa.
Quando dei pinga ao mineiro, a cachaça sentiu-se uma verdadeira água mineral.

Citação oportuna: "Eu acho que não dá nada nem tem nada demais. Não tem nenhum estudo comprovando os benefícios ou problemas. Na dúvida, pode ser passivo"- Ronaldo, sobre fazer sexo antes das partidas no programa do Serginho Groisman. Teria sido um ato falho?

Filtro: Maneiras para se aguentar tantas loas televisivas ao "fenômeno" e afugentar a mesmice nas horas de ócio, segundo este escriba
Filme: O belo "Bella"
Música: O novo disco de Nando Reis, que contará com 12 inéditas e um dueto com Ana Canãs
Livro: "O código da vida", de Saulo Ramos
Net: Excelente site para fazer montagens
Outras Bossas: Essa montagem aqui eu fiz usando o site aí de cima. Aprecie com moderação.

12:42 AM

Comente aqui: Quarta-feira, Março 04, 2009  
Da série: Poesia em tempos de crise mundial?

Pessoas entardecidas

Foi-se o tempo que o tempo era abundante
como a água dos oceanos
e as estrelas do infinito.
Vivia-se num transe lúdico,
brincando de lego e ludo.
As caras tinham a pele de pêssego
e alma leve, feito colibris.
Os domingos eram longos,
com guaraná e sermões.
E vivia-se intensamente
como se o amanhã fosse algo impreciso.
Mesmo as segundas tinham lá seus encantos,
as partidas de futebol, os namorinhos, o pôr do sol.
Mas a vida, num triste dia, resolveu andar
e agora corre loucamente.
E eu, no fim de cada dia, me sinto mais entardecido.
Enquanto crianças barulhentas
exercitam sua felicidade eterna.

7:46 PM

Comente aqui: Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009  
O cerco se fecha

Conheço uma frase interessante, mas desconheço seu autor. A frase vaticina que “nenhum adulto tem o direito de criar filhos sem antes cercá-los de livros”. Sempre gostei desta frase e cheguei a usá-la em ocasiões em que fui convidado a falar sobre o prazer da leitura e a importância da literatura na vida das pessoas. Mas hoje, durante uma aula de Sociologia do Direito, precisei revê-la. A contragosto, é verdade. Um adulto não pode criar um filho sem antes cercá-lo de muitas outras coisas, algumas mais essenciais do que os livros. Remédios e alimentos vêm em primeiro lugar neste ranking, que ainda tem outros itens antes de chegar aos famigerados livros.

É uma pena que seja assim, mas o Brasil e outros países em desenvolvimento precisa lidar com pessoas cujo único objetivo é sobreviver, e essa luta é travada todos os dias, nas franjas das metrópoles e nos rincões profundos do país.
E a arte de sobreviver para essa brava gente brasileira, e indiana, chinesa e outras, independe de manuais, como os que abundam na classe média com o rótulo de auto-ajuda. O que importa, neste particular, são os nutrientes e os fármacos, e estes não podem faltar nas casas de milhões de terráqueos.

“País em desenvolvimento” é um eufemismo criado para referir-se a nações com graves abismos sociais, mas com algum pendor para ascender nos índices de qualidade de vida, nem que seja num futuro abstrato, e isso inclui certamente os países “Bric”, sigla que abriga Brasil, Rússia, Índia e China.
Estes países serão importantes, graças a seus mercados aquecidos e auto-sustentáveis, no esforço planetário para se evitar que a vaca vá para o brejo com a crise mundial. Se bem que essa metáfora bovina não fica bem para os indianos, aonde a vaca vai para onde quiser sem ser importunada.

Esses países carregam semelhanças quanto ao abismo que separa ricos e pobres e quanto ao tamanho de seus mercados consumidores.
Mas o Brasil leva uma série de vantagens em relação a seus companheiros “bric bracs”. O “Bolsa Família” é coisa nossa. Nenhum outro país conta com um programa de divisão de renda como esse, onde o governo não exige quase nada em troca. É praticamente um ato de caridade, para não usar o termo “esmola”, que ficaria deselegante. Mas quem sou eu para criticar um programa desses, sabendo que milhões de pessoas sobrevivem apenas com a caridade institucional do governo Lula.

Esse dado é interessante, vejam vocês, pois assim chegamos à constatação surpreendente que o salário mínimo é alto neste país de contrastes que é o Brasil. Veja bem: se um cidadão consegue sustentar a si próprio e a sua prole com o “Bolsa Família”, imagine o dia em que ele angariar, com seu suor, um salário mínimo? Seria a glória. Ele fatalmente compraria remédios na farmácia popular, uma cesta básica no supermercado, roupas em algum magazine popular e, finalmente, um objeto que certamente lhe trará a cultura que tão ansiada por ele e por seus filhos. Um livro? Não, uma antena parabólica.

Poema ligeiro:
Palhaço arruinado
A piada do palhaço triste
ecoa sob a lona imunda do circo.
O riso das crianças tristes
se mistura ao cheiro de mofo.
Os pais, promovidos a crianças, tristes,
compram quebra-queixo com asas de barata.
A cidade inteira assiste
ao monólogo do palhaço arruinado.

Citação oportuna: “Os medíocres lêem os menos medíocres, mas ainda assim, medíocres! Mas os intelectuais lêem os mais intelectuais ainda, e intelectualizam-se” – Frase da poeta Cyntia Pinheiro, formosa mãe e fabulosa musicista.

Filtro: Como separar o Coringa de Heath Ledger do Batman de Michael Keaton na humilde, porém embasada, opinião deste escrevedor
Filme: Quem quer ser um milionário?- Ganhadores do Oscar passam a ser, automaticamente filmes imperdíveis.
Música: O novo disco de Bruce Springsteen é ótimo: Working on a dream
Livro: 1001 filmes para ver antes de morrer
Net: Conheça o site da melhor revista do Brasil
Outras Bossas: Muito boa a repercussão da volta do blog. Diversos comentários interessantes. Começamos bem. E já que é hora de retornos, em breve teremos mais um podcast, com o tema "Músicas Nordestinas". Aguarde o próximo post. Ah, e feliz ano novo. Afinal de contas terminou o carnaval...
Pixels:

11:27 PM

Comente aqui: Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009  
Jornalismo gonzo - Diário da viagem ao Nordeste


18 de janeiro - O início da aventura

Saímos de Montes Claros por volta das 18h20 de domingo, 18 de janeiro. Começamos mal porque o horário previsto para o início dessa verdadeira odisséia era 17h. Mas seguimos em frente, com cinqüenta e duas pessoas a bordo de um ônibus imponente de dois andares. Imponente sim, mas velho.
Antes de embarcarmos ficamos conhecendo o tio da namorada do irmão de minha esposa. E pude verificar que um colega de rádio, o Jean da Transamérica, também embarcou conosco. Além disso, tem Daiane, que é uma grande amiga nossa, e que também fará esse “cruzeiro rodoviário” através do nordeste.


Eu, Camila e nossa amiga Daiane na hora do embarque

Os motoristas se apresentaram antes da partida. Um deles ganhou minha simpatia de cara. O Almir. É o mesmo nome de meu pai, e se esse xará tiver uns 10% das qualidades de meu velho, certamente estaremos em ótimas mãos.

A nossa torcida, minha e de Camila, é que o ônibus seja confiável o suficiente para percorrermos oito estados do Brasil em quinze dias. É esse nosso desafio a partir de agora quando já sentimos o seu balançar impreciso nas estradas pouco conservadas de Minas Gerais. Mas, além das poucas pessoas que conhecemos, e que embarcaram conosco, é de se presumir que boas companhias surjam à medida que formos conhecendo os demais personagens desta aventura.

Ainda em Montes Claros a voz anasalada de nossa guia informou superficialmente sobre o trajeto que faremos e que a hora prevista para chegarmos em Recife é um pouco além do que imaginávamos quando compramos o pacote.

Uma viagem de umas vinte e seis horas aproximadamente nos aguarda. Serão quase sete mil quilômetros percorridos ao final destas duas semanas. Quem já fez esse trajeto costuma dizer que o esforço vale a pena diante das belas praias e paisagens que encontraremos.

Ponto positivo: Não teremos pagodeiros no fundo do ônibus ao longo da viagem. Um pessoal mais velho e de bom poder aquisitivo parece ser a maioria.
Ponto negativo: Receio que a idade avançada de alguns passageiros possa atrapalhar, de alguma maneira, o bom andamento da viagem. Tomara que sejam animados e prefiram praias a compras, por exemplo.


Logo depois que saímos começou a ser exibido no ônibus um filme fraco com o ator Cuba Gooding Jr. Os tiros e a violência da película não combinaram com o clima de paz que uma oração puxada pela guia turística estabeleceu no recinto móvel. Eu e Camila optamos pelo drama familiar “A lula e a baleia”, que vimos em nosso lap top.

A primeira parada foi em Salinas, capital mundial da cachaça. Tomei um gole de uma autodenominada cachaça light, que estava sendo servida por uma moça simpática no posto de combustível escolhido para abrigar nossa excursão. Optamos por não jantar, porque estávamos levando diversos sanduíches e outras bobagens em meio a nossa bagagem de mão. Depois do jantar o ônibus percorreu um bom trecho e um cochilo foi inevitável.


19 de janeiro - Umbaubar-nos?

De madrugada, por volta das 2h20, apareceu um problema mecânico no ônibus. Ficamos parados por quase duas horas na cidade baiana de Vitória da Conquista para os motoristas tentarem arrumar as coisas. A viagem ficou bastante atrasada.
O nosso café da manhã foi na cidade de Milagres, no estado de Dorival Caymmi. Encontramos lá o caos típico dos grotões do país.

Cascas de banana eram arremessadas sem nenhuma cerimônia pelas janelas dos outros ônibus. O alarido e a má educação se juntavam ao som de músicas péssimas que eram tocadas nas ruas e, como se não bastasse, o leite que nos foi servido estava frio e azedo. Uma porcaria. Pelo menos as gigantescas pedras que emolduram a paisagem da cidade se salvaram.


Bela paisagen da viagem, em Milagres, Bahia

Percorremos um longo trecho até a divisa da inacabável Bahia com Sergipe. Paramos numa cidade chamada Umbaúba para almoçar. Neste local perdido de Sergipe aconteceu uma situação curiosa com Daiane. Um anúncio de uma festa na cidade trazia a inscrição “UMBAÚBA-SE”. Daiane, que é professora de português, imaginou que se tratasse de algum verbo desconhecido e coube a Camila informá-la que aquele era o nome da cidade acompanhado das iniciais do estado.

“Como assim umbaubar-me?” - Foi essa a pergunta que nossa amiga formulou.

Na parada para o almoço uma carreta e um automóvel quase se chocaram com nosso ônibus no momento em que o motorista contornava a movimentada BR em direção ao acanhado restaurante de beira de estrada. Foi por um triz.

Depois do almoço a programação do DVD continuou fraca. Foi exibido um show de um comediante cearense, e algumas senhoras reclamaram, à boca pequena, das piadas sujas do sujeito chamado Pudim. Depois foi a vez de César Menotti e Fabiano entrarem em cena. Neste instante não tínhamos mais bateria no lap top e o jeito foi recorrer ao mp3 player, que nos ofereceu um pouco de música boa, enquanto os dois irmãos mineiros se esgoelavam nos monitores de catorze polegadas do ônibus.

As imagens foram se sucedendo nas janelas, à medida que avançávamos através de Sergipe. A pobreza e a seca eram vistosas, quase palpáveis.
Casinhas minúsculas, motoqueiros sem capacetes, crianças e cachorros magros, casebres com portentosas parabólicas. Foi neste instante que percebemos que a ida seria muito mais demorada do que supúnhamos.

Trilha sonora da viagem, em nosso player:
- Skank- Estandarte
- Trilha sonora do filme “Alta Fidelidade”
- Julieta Venegas- Acústico MTV
- Trilha sonora da minissérie “Queridos Amigos”
- In the rainbows- Radiohead


No roteiro estava previsto o almoço na divisa de Sergipe com Alagoas, em um lugar chamado Propriá, mas passamos por lá quando o dia quase dava lugar para a noite na dança cósmica do tempo. Estávamos a apenas 60 KM de Penedo, onde o nosso “Velho Chico” encontra com o mar, e foi emocionante vê-lo do alto de uma ponte na divisa entre os dois estados. Fez-nos esquecer até do atraso da viagem. Se antes imaginávamos chegar em Recife, nossa primeira parada, depois de umas vinte e cinco horas de viagem agora a previsão pulara para quase trinta horas, se outros contratempos não aparecerem.

Chegamos em Recife por volta da meia-noite. Fomos diretos para o confortável hotel, absolutamente moídos da viagem. Mas ouvir o barulhinho do mar fez com que tivéssemos ótimos sonhos.

Neste mesmo dia em Recife eu liguei para uma amiga que conheço via Orkut, a Soraia. Infelizmente não foi possível nos vermos nesta breve incursão à cidade dela. Imaginei que teríamos duas noites na capital pernambucana, mas o atraso na viagem nos deu apenas uma noite por aqui, e ficou impossível marcar alguma coisa em cima da hora. Tentei falar também com a Damiana, outra boa amiga encontrada nas entranhas da Internet, mas seu telefone deu ocupado.

Mas meu maior lamento foi não ter tido a oportunidade de conhecer uma pessoa que mora em Paulista, cidade da região metropolitana de Recife, a Karla. Nós nos correspondemos a mais de quinze anos e não consegui contactá-la para pormos fim a essa longa espera. A gente se escrevia, quando nem havia e-mail, e depois nos falamos por longos anos pelo telefone. Até que nos descobrimos no mundo admirável e louco da Internet. Mas o número que tinha dela, e que liguei do hotel, não existia mais e ela não respondeu ao recado deixado no Orkut. Desta forma não nos vimos. Uma pena.

Curiosidade: Conheci Karla quando uma cartinha enviada por mim foi parar na revista de mexericos Contigo. Eu convidava fãs de Airton Senna para se corresponderem comigo. Dezenas de cartinhas chegaram até mim, em Serranópolis, minha cidade, mas apenas a amizade virtual de Karla sobreviveu, e sobreviverá, mesmo com esse contratempo.

De noite, eu, Cá e Daiane fizemos uma verdadeira via-crúcis em busca de um restaurante para jantarmos. E fechamos nossa noite no Carrefour, onde funciona um restaurante oriental. A comida e o papo foram ótimos. Biscoitinhos da sorte, consumidos no fim da refeição, falavam de realizar sonhos neste novo ano. Certamente estamos começando muito bem esse 2009 com essa viagem, que certamente terá novos e emocionantes capítulos nos próximos dias.

Insight: Vinte de janeiro entrou pra história mundial como o dia em que Barack Obama se transformou numa lenda ainda vivo, e muito vivo. Citação oportuna: “A figura política de mais viva personalidade é sempre a que está mais sujeita ao perigo do assassinato, pois motiva profundos e contraditórios impulsos em amigos e inimigos e, assim, agita a oscilação dos desequilibrados” – frase de Norman Mailer, ao falar de Kennedy, numa Piauí que estou lendo durante esta viagem. Mas a frase é oportuna também para Obama, que acaba de tomar posse como o homem mais poderoso da Via Láctea.

Acabei de descobrir: Um jornalista nunca tira férias por completo.


20 de janeiro - Havia uma pedra no meio do caminho

Na primeira hora do dia chegamos em Recife. Encontramos a cidade, com seus arranha-céus, bastante tranqüila. Todos estavam cansadíssimos após sacudirmos por intermináveis trinta e duas horas dentro do ônibus. O hotel em que nos hospedamos era bom e rapidinho subimos com as malas e fomos dormir, ansiosos pelo primeiro dia de praia.

O mar, que nós mineiros, em sua maioria, vemos apenas uma vez por ano, estava lá, logo depois da avenida, em frente ao prédio, e bastou seu vulto negro e seu cheiro e barulho inconfundíveis para nos dar a certeza: as férias estavam, enfim, começando para valer.

Por volta das nove da manhã seguimos para Porto de Galinhas. Sei que é estranho começar um passeio assim logo pela cereja do bolo, mas a ida na “praia mais bela do Brasil” como a maioria das pessoas se refere a esse paraíso, foi o primeiro item de nossa programação.

O que Porto de Galinhas tem: Coqueiros espalhados por quatro quilômetros de areia branca e batida, com águas transparentes e mornas. A melhor hora para se visitar os aquários naturais é na maré baixa.

Eu estava tão anestesiado com a beleza da praia que não vi uma enorme pedra em minha frente quando entrava no mar pela primeira vez. Meu dedão encontrou a tal pedra e uma dor lancinante tomou conta de mim. Doeu demais. A unha ficou azul na mesma hora.


Eu e minha esposa entretidos com milhares de peixinhos

Mas o passeio valeu a pena mesmo assim. Fomos de jangadas até as piscinas naturais famosas e nadamos com os peixinhos. Um espetáculo. Depois eu, Cá e Daiane comemos uma deliciosa tapioca na charmosa vila de Porto de Galinhas, na rua Beijupirá, onde tudo acontece.

História: “Tem galinha-d´angola nova no porto!” - essa era a senha dos contrabandistas de escravos para avisar os senhores de engenho da chegada de uma nova carga vinda da África, no tempo em que já estava pegando mal essa história de escravidão. Daí o nome da praia.

Outro destino certo, após o dia na praia, foi à farmácia, onde comprei um anti-séptico para o dedo, que latejava. Mesmo com esse percalço tive a nítida sensação de ter conhecido um lugar único, talvez até a mais bela praia do Brasil. A se lamentar apenas o fato de ficarmos somente um dia neste lugar.

11:09 AM

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21 de janeiro - Máscaras, e não apenas as carnavalescas

Nossa estadia em Recife terminou e, antes de fechar a conta no hotel, dei um mergulho nas águas da Praia de Boa Viagem, onde tem alguns tubarões e é prudente nadar apenas no rasinho.
Depois seguimos para um passeio em Olinda, a bela e histórica primeira capital de Pernambuco, após fazermos um city tour por Recife, cidade conhecida como “Veneza Brasileira”, graças a seus diversos rios e pontes.

O passeio foi excelente. Vimos em Olinda as primeiras demonstrações de que o carnaval se aproxima, com os famosos bonecões espiando das casas antigas aqui e acolá. Conhecemos também igrejas, o Mosteiro de São Bento, o túmulo de Dom Hélder Câmara, notável figura religiosa e política do Brasil, e subimos e descemos ladeiras. Nas lojas de artesanato encontramos coisas belas e caras, inclusive lindas máscaras de carnaval.


O carnaval chega mais cedo por lá

Um grande passeio que alimentou em mim e em Camila o desejo de passar um carnaval nesta terra abençoada, ao som de muito frevo e maracatu. Se bem que basta ficar longe do axé de Salvador para o carnaval ser minimamente suportável. Mas certamente aqui as folias momescas são verdadeiramente especiais.

Outros atrativos: O guia mostrou de onde parte o famoso “Bacalhau do batata” e mostrou também a casa de Alceu Valença, que virou atração turística. Ele não estava lá. Aliás, ele nem mora lá.

Hoje tivemos um erro de estratégia por parte dos organizadores da excursão. O problema é que depois de subir e descer as ladeiras centenárias de Olinda seguimos direto para o suposto “por do sol mais bonito do Brasil”, na Praia do Jacaré, na Paraíba, nas proximidades de João Pessoa. Pegar a estrada sem tomar banho não é uma boa experiência, a não ser que você seja da mesma terra de Sarkozy, e como tragédia pouca é bobagem, o ar condicionado do ônibus pifou.

Comecei a observar muitas coisas erradas nas atitudes dos guias turísticos que nos acompanham. A principal delas é a ausência de uma certa postura que deve acompanhar esses profissionais. Foi dito pra gente na saída em Montes Claros que nós estávamos de férias e eles, guias, estavam a trabalho. Não é o que parece. Atrasos, informações truncadas e o péssimo estado do ônibus depois destes dias corroboram essa impressão.

Hoje aconteceu um evento na hora do almoço, já de volta a Recife, que uniu bastante os viajantes. Até então todos ainda estavam muito reservados, mas bastou um almoço em um restaurante caro para unir toda a trupe, com direito a muitas risadas ao final desta aventura gastronômica. O problema era o preço do quilo de comida, R$ 39,90. Ninguém perguntou o preço e foi colocando suas pratadas, devidamente reforçadas com a energia exigida nas ladeiras de Olinda.

O restaurante era mal intencionado, pois os atendentes colocavam nas notinhas números como 520 ou 630. Todos imaginaram que esses números representavam o valor a pagar, ou seja: R$ 5,20 e R$ 6,30 respectivamente. Mas esse número representava o peso da comida em gramas, e muitos, diante do “preço” módico e da comida excelente, repetiram a dose.

Na hora de pagar foi um susto. Eu e Camila pagamos mais de R$ 40,00 reais e o papo no ônibus a partir daquele momento foi só sobre as “facadas” que todos levamos. E, já que todos se deram mal, o jeito foi rir da desgraça coletiva. Quer dizer, apenas o Renê, um empresário que viaja com sua família, disse que o restaurante talvez tenha errado sua conta, já que a comida dele, da esposa e das duas filhas ficara em R$ 34,00 reais. Pelo visto só ele se salvou.

Piadinha que fiz sobre a situação: Na hora da sobremesa uma dona foi pesar uma cereja e apareceu o preço da iguaria: R$ 1,20.

A idéia era chegar na tal Praia do Jacaré antes das 16h30, quando o espetáculo começa, mas chegamos por volta das 18 horas. E o pior, estava nublado. Ninguém viu nada de por do sol e eu confesso que fiquei decepcionado. Primeiro porque a tal praia é fluvial, e segundo porque estávamos de mau humor com a falta de ar condicionado. Um fiasco. Talvez em outra ocasião o poente naquela região possa ser apreciado, mas desta vez foi um mico.

Seguimos viagem para Fortaleza, debaixo de chuva. De madrugada, quando passamos por um posto de gasolina no interior do Rio Grande do Norte, eu e outros companheiros de viagem resolvemos usar as mantas do ônibus como toalha e fomos tomar banho nos banheiros imundos da parada. Senti-me um presidiário, já que o chão era sujo e a água fria. Pelo menos diminuiu o calor senegalesco e pude dormir um pouco na jornada rumo a Fortaleza.


22 de janeiro - As novas amizades

Chegamos no ponto mais distante de nossa viagem, a bela e violenta Fortaleza. Uma metrópole a beira-mar do porte de Belo Horizonte, e com uma vida noturna invejável. Mas cheguei aqui com bastante medo, pois a criminalidade da cidade é grande, conforme uma matéria que assisti ainda em Minas e que mostrava a ação de trombadões em plena orla de Iracema. E para onde fomos nos hospedar? Em Iracema, claro. Portanto a ordem era ficar alerta.
Chegamos cedinho e fomos logo nos hospedando em um flat, equipado com micro-ondas, fogão e outros confortos, e o nosso quarto era de frente para o mar. Uma beleza.

De tarde fomos para a Praia do Futuro, aquela mesma eternizada na música Terral, de Ednardo. A praia, que fica dentro de Fortaleza, é linda. Águas limpinhas e azuis e ótima estrutura para receber os turistas. Foi uma tarde ociosa e divertida.

Na volta uma roda de piadas e causos no fundo do ônibus tratou de nos aproximar ainda mais da família de Renê e de meu colega de profissão, Jean Paulo, que viaja em companhia de sua esposa Cláudia. Renê mora seis meses na Suíça e seis meses no Brasil e tem um papo excelente, e Jean Paulo é divertido e espirituoso.
Eu e Jean, embora sejamos conhecidos, nunca fomos amigos de fato, mas a convivência que estamos tendo me fizeram ver o quanto ele é bacana e gente boa. Eu o conheço há quase uma década e precisou viajarmos tantos milhares de quilômetros para perceber que podemos ser excelentes amigos. Como diria o “filósofo” Ritchie, “A vida tem dessas coisas”.
Ah, por falar em René, hoje ele conferiu o extrato do cartão e o almoço de ontem em Recife custou-lhe exatos R$ 134,00 reais. Risadas gerais.


23 de janeiro - Adrenalina e risadas

De manhã eu e Cá fizemos uma caminhada pelo calçadão. Tivemos o cuidado de não levar nada de valor. Caminhamos até um caixa do Banco do Brasil, onde sacamos uma pequena quantia. Logo depois do farto café da manhã seguimos para o Beach Park.

Foi um dia de aventuras, tendo Camila e Daiane como companheiras, já que a maior parte da excursão preferiu ficar do lado de fora do “parquão”, cuja entrada era R$ 95,00 reais por pessoa. Um assalto, ainda mais se levarmos em conta o valor de nosso salário mínimo. Mas o incrível é que depois de um dia de lazer por lá fica a nítida impressão de que valeu a pena o “investimento”. A estrutura é incrível, coisa de primeiro mundo. E as atrações são inacreditáveis.

Fiquei assustado e pensativo sobre o limite do que é considerado “radical”. Fui em toboáguas que se encaixam nesta definição e a sensação que posso descrever é a de completo pânico. Não é divertido. É assombroso. A sensação é que vamos partir desta para uma melhor.


O pavor em forma de brinquedo

Lá tem o auto-intitulado “maior toboágua do mundo”, o Insano. São 41 metros de queda e um torpor parecido com o de morrer. Coisa mole para a galera que precisa provar pra si mesmo sua masculinidade, mas que, na verdade, é uma completa estupidez. Fui nesse e ainda fui no Sarcófago, que muitos juram ser ainda mais radical do que o Insano, já que a queda íngreme se dá no mais absoluto breu. Consegui, é verdade, mas não pretendo voltar e tampouco recomendo pra ninguém. A sorte é que o parque aquático tem dezenas de outras atrações, algumas verdadeiramente divertidas.

Onde vamos parar: acredito que em breve teremos brinquedos onde a morte vai aparecer de vez em quando. Algo como “venha saltar no Estupidator X, que só na semana passada matou três”. O limite do “radical”, por definição, só pode ser a morte.

A volta para o hotel foi divertidíssima. Muitas piadas e de novo situações envolvendo os altos preços da temporada de férias. Uma cerveja Antartica Original na praia próxima do Beach Park, custava inacreditáveis R$ 9,90. Jean, sempre espirituoso, disse que ao invés de copos eles pediram tampinhas de garrafas para os garçons e que passaram o dia inteiro com uma única Skol, comprada por R$ 6,50.

De noite fomos a um show de humor. Os comediantes Papudin e Alex Nogueira fizeram apresentações muito engraçadas. Em especial este último, que foi o vencedor de um quadro no Faustão, que revelou humoristas no ano passado.

Mineiros: Não vi muitos conterrâneos em Fortaleza. A maior parte dos turistas parece ser de São Paulo, Rio, Goiás e Manaus.

Nosso programa se estendeu um pouco além da conta e, depois de um filé a chateaubriand insosso degustado na própria orla do hotel, voltamos a pé por volta da meia noite. Ainda bem que nossos anjos da guarda estavam de plantão, e olha que o meu provavelmente se recusou a acompanhar-me hoje em alguns momentos, como no Insano, no Sarcófago...


24 de janeiro - Encontro marcado

Logo cedinho fomos para a Praia de Cumbuco, nas proximidades da capital Fortaleza. Esta praia não está entre as mais cobiçadas do Nordeste, mas tem lá seus encantos, sobretudo no que diz respeito a passeios de cavalo e de quadriciclos, mas confesso que não gostei muito, ainda mais porque o mar estava cheio de algas.


Nós em Cumbuco

De lá saímos para as compras no enorme mercado de Fortaleza. De novo decepcionei-me. Imaginava algo mais rústico, só com artesanato, mas é incrível a grande quantidade de comércio de roupas que de artesanais não tem absolutamente nada. Pelo menos arrumamos um bom e barato almoço e compramos algumas lembrancinhas.

Mencionei aqui que Fortaleza tem uma excelente vida noturna. Basta analisar os principais shows que a cidade oferecia neste sábado. Tinha Jota Quest de graça numa certa Reserva do Cocó, tinha a cantora canadense Alanis Morissete numa sofisticada casa de shows e tinha o mineiro Vander Lee no Dragão do Mar. Fomos para este último, graças, sobretudo, à tietagem de Daiane em relação a este promissor cantor mineiro.

A ida a Fortaleza fez com que eu conhecesse um amigo do Orkut, o Márcio Fernandes. Ele é músico e foi nosso cicerone no amplo centro de cultura denominado “Dragão do Mar”. Coube a Márcio dar-nos uma má notícia, quando ele ligou para falar comigo no hotel. Não havia mais ingressos para o show de Vander Lee. Estavam esgotados.

Mesmo assim seguimos pra lá, na esperança frívola de uma desistência ou de um milagre. Mas não teve jeito. Vimos o show de uma passarela, que ficava ao lado do anfiteatro. No final Daiane conseguiu tirar fotos com o cantor e eu, Cá e Márcio saímos para conhecer um pouco do imponente prédio, que abriga shows, exposições e toda sorte de gente em seus milhares de metros quadrados. O lugar é lindo, mas o seu entorno é perigoso.


Eu e Cá pedindo a benção para Patativa do Assaré

Encontramos Daiane, Jean e Cláudia assustados com a quantidade de brigas que presenciaram. Então decidimos pegar um táxi e encerrar a noite.
O programa noturno foi bom porque pude conhecer Márcio, que agora faz parte da minha lista de amigos reais, deixando de ser apenas um profile do Orkut. Ele me presenteou com um CD e um DVD com suas performances musicais e certamente agora tenho um grande amigo na bela e perigosa Fortaleza.


25 de janeiro- “De Canoa Quebrada até Cochabamba...”

O passeio tinha jeito de ser imperdível. Iríamos conhecer a mítica e riponga Canoa Quebrada. Fechamos a conta do hotel e nos pusemos a caminho logo cedo.
Antes de chegarmos na praia, tivemos um contratempo. O ônibus foi parado pela polícia do Ceará, que se movimenta nas viaturas mais modernas do país, e o vigilante rodoviário aplicou uma multa no motorista Agenor. As razões ficaram nebulosas. Ele me disse, após o incidente, que foi porque o velocímetro estava com defeito, mas depois surgiram outras versões, uma delas dando conta que o responsável pela multa seria alguns pneus carecas do ônibus. Mas isso não importa, já que estávamos indo para uma das praias mais famosas do Brasil.

O passeio foi emocionante. A praia é lindíssima, com suas falésias alaranjadas contrastando com o mar esverdeado. A paisagem impressiona e é necessário caminhar pela praia para ver as belas barracas que tem lá, principalmente a Lazy Days, onde tomamos água de coco.

O que Canoa Quebrada tem: Faixa de areia fofa e clara, vila de pescadores, falésias cor de laranja madura em forma de meia lua, mar verde e morno e jangadas, muitas jangadas.

A gravação dos capítulos iniciais da temporada 2009 de “Malhação” na praia parece ter ajudado na divulgação ainda maior deste cantinho do Brasil. Tinha muita gente na praia e grande parte queria ver a casa onde foram gravadas as cenas e o barzinho que abrigava a produção, o já citado Lazy Days. Para mim, e tenho certeza que para Camila, estes detalhes não tem a menor importância. Mas o fato é que Canoa Quebrada não deveria ser visitada em apenas um dia. Fiquei sabendo que lá tem luais imperdíveis e outras atrações que um dia somente não dão conta de contemplar. Pretendo voltar aqui, algum dia.

Comemos um saboroso peixe na telha, com uma cervejinha gelada. Passeamos pelas falésias e tiramos dezenas de fotos, inclusive do famoso Jegs Bar, um barzinho ambulante puxado, claro, por um jegue. E depois seguimos para Natal.


Conferindo o menu do famoso bar ambulante

Nosso jantar foi na cidade de Lajes, no Rio Grande do Norte. Desta vez encontramos uma ótima estrutura. Chegamos na capital potiguar às 22 horas. O cansaço era grande e fomos dormir. A viagem só está na metade.


26 de janeiro - Com emoção

Em Natal o sol nasce muito cedo e antes das 5 da manhã ele espiava por sobre os prédios da bela e limpa capital do Rio Grande do Norte. A cidade me impressionou com seu jeito de Dumbai sertaneja, e sua imponente ponte recém construída e suas ruas cobertas de areia.

O hotel, como os das outras capitais, é muito bom. Mas o daqui tem até elevador panorâmico. Em Recife ficamos no Jangadeiros. Em Fortaleza no Iracema Residence. E agora estamos no Olimpo, muito próximos do principal cartão postal da capital, o Morro do Careca, na Praia de Ponta Negra.

Riqueza e pobreza: O Rio Grande do Norte é o segundo maior produtor de petróleo do Brasil. Só perde para o Rio de Janeiro. Mas seus índices de desenvolvimento estão entre os mais baixos do país. É o famoso abismo da desigualdade social.

Nosso passeio foi na famosa praia de Genipabu, que fica no município de Extremoz, pertinho de Natal. Começamos com uma volta de buggy nas famosas dunas e o passeio foi “com emoção”. É esta a senha para o bugueiro caprichar nas manobras radicais. Foram muito boas as quase duas horas sobre as dunas. Fotos ótimas e muito calor na moleira. Confesso que cheguei a ver dromedários lá em cima, mas acho que deve ter sido uma miragem depois de tanto sol.


Um árábe?

É difícil descrever a beleza das dunas de Genipabu sem recorrer a lugares-comuns, mas certamente a visão da lagoa preservada que fica no parque das dunas é essencial para entendermos porque o Brasil requer para si a primazia de ser a morada de Deus. E se ele é realmente brasileiro certamente tem uma casa de verão por aqui.
O nosso passeio demorou mais do que o normal porque uma senhora de Recife que conhecemos na hora de sair com o buggy, e que nos acompanhou no passeio radical, resolveu, lá no alto das dunas, dar uma volta no tal dromedário. Desta forma ganhamos minutos preciosos no alto das dunas, mas depois de duas horas o que mais queríamos era mesmo um bom banho de mar. O passeio vale a pena, mas é meio caro. Custa R$ 45,00 por pessoa.


Dando corda na bailarina

Quando enfim voltamos para a praia eu não resisti e dormir umas duas horas na sombra do guarda-sol, após uma rápida leitura de um livro de crônicas de Paulo Mendes Campos. Foi providencial porque o sol quente me deixou cansado.
Depois desta pausa o jeito foi saborear uma cerveja geladinha e curtir o resto da tarde neste lugar lindo.

10:50 AM

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27 de janeiro - O incrível ônibus que encolheu

O ônibus em que estamos viajando, de uma hora pra outra, encolheu. É essa a impressão que temos quando fazemos um trajeto um pouco maior, e hoje tivemos um desses. Não há mais posição confortável para as pernas e as costas doem um bocado. O trajeto de Natal a Praia da Pipa é de aproximadamente 85 quilômetros e a expectativa era das melhores. Alguns viajantes experientes da excursão, como o bon vivant Tim, dizia que era uma das praias mais bonitas do Brasil. “Mais bonita que Porto de Galinhas”, ele chegou a dizer, enquanto nos dirigíamos para lá. Antes de avistarmos o mar, combinamos um passeio de barco que nos levaria para ver os golfinhos. Nem sabíamos que isso era possível, e esse fato revelou mais um defeito nos nossos guias, a falta de informação.

Apenas para ilustrar este defeito basta dizer que o último sábado em que estávamos em Fortaleza o guia se limitou a dizer que tinha show do cantor sertanejo Eduardo Costa na capital cearense, mesmo com opções mais gabaritadas como Alanis, Jota Quest e Wander Lee nos palcos de lá. Às vezes até temo estar perdendo algo relevante devido à desinformação crônica do casal incumbido de nos mostrar as belezas desta região de cabras machos.

História em curso: Aqui no Nordeste a figura de Lampião é onipresente. Em todos os lugares em que estivemos ele é reverenciado. No Sudeste e no resto do Brasil ainda temos uma visão do famoso cangaceiro como vilão, mas por aqui ele é um Robin Hood da caatinga. Os fazendeiros da época, inimigos de Lampião, eram verdadeiros crápulas, que roubavam terras e mandavam matar seus inimigos, usando suas prerrogativas de “coronéis”. Era contra eles que Lampião e seu bando se opunham. Comprei uma camiseta com a efígie dele em Olinda. Acho até que é mais apropriado, nos dias atuais, vestir uma camisa com a figura de Lampião do que com a de Che Guevara.

Entramos na praia através de uma escada íngreme. E, meu Deus, que coisa linda! A praia é deslumbrante. A maré estava baixa e piscinas se formam nestas condições, oferecendo um espetáculo de beleza e tranqüilidade. Um convite e tanto para deitar-se na água mansinha e curtir a manhã de sol neste lugar lindo do Brasil. Tim tinha toda razão.


Eu e Camila na paradisíaca Pipa

Logo chegou a nossa vez de ver os golfinhos. Colocamos os salva-vidas e seguimos numa jangada motorizada até a escuna, que nos aguardava depois das ondas. O passeio foi maravilhoso, e depois de uns dez minutos começamos a avistar os tais animais. Eles desfilaram bem próxima do barco e foi possível fotografá-los. Um espetáculo incrível e inesquecível. Depois fomos nadar em mar aberto, com salva-vidas.
Só não foi melhor porque pelo menos metade dos turistas a bordo mareou feio, inclusive toda a nossa turma, com exceção da espevitada Rosalina, uma senhora com alma de menina, que ainda tomou sua caipirinha no deque do barco.
“Vamos dar prioridade aos mareados”, gritou o comandante do barco, quando a jangada motorizada se aproximava. Camila foi na primeira remessa de volta à praia, e eu fui na segunda.
Apesar do enjoo quase coletivo o passeio foi excelente. Bastou uma água de coco geladinha e os dois pés em terra firme para abrandar o estômago. E depois tínhamos ainda boa parte da tarde para curtir a fantástica Praia da Pipa, portanto não seria uma indisposição qualquer que tiraria nosso humor.

O que Pipa tem: Longa faixa de areia, com trechos isolados por encostas altas. Tem também a Avenida Baía dos Golfinhos repleta de lojinhas e bares descolados. Na maré baixa dá pra caminhar até a Praia do Amor, uma das mais belas destas plagas.


28 de janeiro - Dia de estresse

De manhã saímos para fazer um city tour por Natal. Este foi o melhor guia que a excursão arranjou, um sujeito bem informado e brincalhão chamado Rubens. Em sua fala ele comprovou meu receio de que pudéssemos estar perdendo algo importante em Natal. Ele disse que terminava naquele dia uma mostra internacional de artesanato, com estandes do mundo inteiro e entrada a 3 reais.

Nossos guias, em sua lerdeza, nem imaginavam algo assim. Ele ainda deu uma bronca nos nossos organizadores dizendo que a contratação de um guia local deve ser feita no primeiro dia, quando as atrações da cidade são listadas para os turistas. Simples e óbvio. Pena que nem todos tem essa simplicidade de raciocínio.

Um raciocínio rápido: Eu e Camila fizemos uma escolha racional ao optarmos por tal viagem, mesmo com os percalços citados aqui. Nossa idéia original era viajar de avião e ficar uma semana na idílica Porto de Galinhas, mas essa opção de turismo na qual estamos, o chamado “cruzeiro rodoviário” oferece uma gama maior de praias e destinos em duas semanas de viagem pelo mesmo preço que uma semana para um só destino indo de avião. Foi uma escolha baseada na quantidade, mas, infelizmente, nem sempre fazendo jus à qualidade. Hoje sentimos os efeitos deletérios de tal escolha.

Chegamos no maior cajueiro do mundo, que fica em Natal, na Praia de Pirangi do Norte. Ouvi falar desse cajueiro pela primeira vez graças ao programa da Regina Casé, que revelou para o Brasil a figura carismática de Tom do Cajueiro, um guia turístico mirim que encantava os turistas com suas informações e seu carisma.
Agora os guias são adultos, e a exploração da árvore se dá em bases profissionais. Mas nem sempre foi assim. O cajueiro, que em sua florada dá mais de oitenta mil frutas, é a mola propulsora de Pirangi, e agora os ambientalistas defendem que casas sejam destruídas em seu entorno para que o cajueiro continue crescendo.


Nós no cajueiro

O receio, entretanto, é que ele cresça demais e tome conta de Natal, do Rio Grande do Norte e até do Brasil. Essa é uma das piadinhas contadas pelos guias, outra é sobre um casal de turistas que ficou perdido no cajueiro e quando foram encontrados, um ano depois, já não eram mais um casal e sim uma família.
O passeio vale mesmo a pena. Ainda mais depois que constatei que até mesmo JK esteve aqui nos anos 1950.

Informação do guia Rubens que eu não tive ânimo para conferir: Tom do Cajueiro hoje mora em Brotas, interior de São Paulo. Ele é o secretário de turismo de lá.

O nosso dia ainda não terminara. A guia, com sua voz pastosa, disse que tínhamos que sair mais cedo, porque tentaríamos mais uma vez, na ida pra Maceió, ver o tão famigerado crepúsculo na Praia do Jacaré. E não é que deu certo!

O por-do-sol é mesmo muito bonito e a execução do Bolero de Ravel na hora final do dia carrega um simbolismo muito grande, sendo uma trilha sonora adequada para a ocasião. O músico Jurandir, responsável pelo toque erudito, também executa a Ave Maria nos estertores do dia. O sol no horizonte do Rio Paraíba é realmente muito bonito, e é importante lembrar que estamos no lugar mais oriental do Brasil, então os predicados atribuídos ao tal anoitecer se justificam plenamente.

Até aí tudo bem, o problema veio a seguir. Ficamos tempo demais na tal praia e o movimento tinha terminado quando, por volta das 21h30 deixamos o lugar. Lembro de ter comentado com uma farta dose de ironia, que quase conseguimos ver o nascer do sol por lá “que, dizem, é lindíssimo”.


29 de janeiro - A última praia

Seguimos então para Maceió, só que o trecho entre João Pessoa e a capital alagoana não é tão longo e chegamos na região metropolitana de Maceió por volta das 3 da manhã. O que se seguiu foi uma espera interminável até que o dia começasse a nascer para chegarmos a tempo de assumir os quartos no hotel. Fiquei possesso com essa situação e externei minha revolta, diante do fato de passarmos a noite na estrada, em um ponto de parada com comidas e bebidas caríssimas. Outros passageiros se revoltaram, mas não teve jeito para contornar a situação. Chegamos em Maceió e até que os quartos fossem liberados tratamos de tomar um café improvisado em uma padaria próxima do hotel.

O dia parecia que seria assim, chato. Mas de tarde eu, Camila, Daiane, Jean e Cláudia fizemos um passeio excelente a pé e de táxi por Maceió. Visitamos prédios históricos, museus, exposições, na região revitalizada de Jaraguá, uma antiga área portuária que hoje está recuperada e pulsante. Nosso objetivo era achar um sebo incrível que Cláudia descobriu em um panfleto no hotel. Mas conseguimos muito mais que isso. Descobrimos a Maceió profunda, uma cidade limpa, organizada e jovial.


Nós no sebo

Ainda no hotel li numa revista de turismo que levei pra viagem que o agito noturno se concentra na rua Sá e Albuquerque, e foi justamente nesta rua que encontramos a Livro Lido, o ótimo sebo e cafeteria ao qual dedicamos laboriosas horas, garimpando relíquias.

Saímos de lá com uns dez livros. Eu e Cá compramos dois. “O cheiro de Deus”, de Roberto Drummond e “200 crônicas escolhidas”, de Rubem Braga. Tudo por R$ 20,00 reais. Uma pechincha. Depois fomos jantar, com a turma já citada e mais Renê e sua esposa Alba. Comemos uma peixada com camarões deliciosa, e honesta, em um restaurante próximo do hotel. Boa e barata, como devem ser os programas para quem está em fim de viagem.


30 de janeiro - Hora de dizer adeus ao Nordeste

“Está chegando a hora...”, aquela velha marchinha começa a soar em nossos ouvidos. Hoje fomos na última praia do roteiro. A surpreendente Praia do Francês. Surpreendente porque fica a meia hora de Maceió e porque tem belezas que a posicionam também entre as mais belas de nosso litoral. Procuramos aproveitar ao máximo tudo que a praia tinha a oferecer e isso incluiu comer uma peixada soberba, acompanhada de suculentos camarões. As águas mornas também ajudaram neste gran finale de uma viagem que, mesmo com alguns contratempos, foi excelente.

Nesta praia existem diversas duplas de repentistas. Eles se postam diante das mesas e começam a destilar suas bem humoradas rimas. Estávamos conversando quando uma se aproximou. Logo eles começaram a cantar e nós, eu, Camila, Daiane, Renê, Jean e outros, evitamos dar muita atenção para ver se eles se tocavam.
Esqueci de mencionar que depois da cantoria eles pedem um trocado pelos versos, e quando se dá muita atenção a pedida costuma ser grande.

Um deles extraiu a informação de onde éramos e começou a fazer seus versos. Em um ele citou a Praça Doutor Carlos, nosso principal logradouro no centro e isso catalizou todas as atenções da mesa paras seus versos. Logo ele disse que Renê se parecia com o dono do Bretas, mostrando que de fato conhecia Montes Claros.
Depois eles ainda teceram loas a mim e a Camila, dizendo que nós dois parecíamos com atores globais e isso tudo custou-nos R$ 2 reais, único dinheiro em espécie que possuíamos. O jogo de cintura da dupla foi formidável.

O que encontrar na Praia do Francês: Águas que variam do azul ao verde-escuro. No flanco esquerdo, barreira de corais, ondas calmas e restaurantes em frente. No lado oposto, ondas fortes. A impressão que se tem é que a praia já viveu melhores dias e uma certa decadência pode ser sentida.

A praia pertence a um município histórico de Alagoas chamado Marechal Deodoro, que fica somente a dez quilômetros de lá. Infelizmente os nossos guias turísticos devem desconhecer essa informação e ficamos sem ver o belo casario centenário tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional. E, além do mais, a cidade vive dias movimentados nesta semana em função da gravação do filme “O bem amado” por lá, e dar uma olhada nos sets certamente seria um programão para cinéfilos como eu e Camila. Uma pena, pois fizemos quase tudo que nos apeteceu nestes dias de paz e tranqüilidade.

Saindo da praia, após um relaxante dia de sol e de mar, passamos em um bairro de Maceió onde é possível comprar rendas e outros tecidos direto das bordadeiras. O preço é bem em conta, mas a dica chegou tarde demais. Camila ainda fez as últimas compras.

De noite fomos ao shopping Iguatemi, um dos maiores de Maceió e comemos um cachorro quente para economizar. Realmente a verba de viagem estava no fim e optamos por finalizar os agitos e compras em nome do bom senso. O táxi ficou baratinho, pois o dividimos entre eu, Cá, Dai, Jean e Cláudia, a turma inseparável dos últimos dias de viagem.
Depois fomos dormir, na última noite sob a lua da gostosa e quente Maceió.


31 de janeiro- On the road again

Hoje foi o único dia em toda viagem em que acordamos tarde. Por volta das 9 da manhã. A manhã era livre e fomos fazer as malas. Tomamos café e depois fechamos o quarto. A saída estava prevista para as 13 horas, mas um atraso fez com que saíssemos por volta das 14h30. Pelo menos o atraso foi por uma justa causa. Concertaram o ar condicionado.

No fim do dia, depois de uma viagem aprazível, boa parte assegurada por nós, que compramos dois excelentes filmes para serem vistos na estrada, longe da ruindade dos filmes escolhidos por nosso guia na ida, passamos sobre o São Francisco entre Alagoas e Sergipe no entardecer e vimos um maravilhoso por do sol.
Não teve como não conter um grande arrepio e aplausos quando passamos no querido e robusto São Francisco, o “nosso rio”, que nasce lá em Minas e banha docemente todo o sertão.

O jantar foi novamente em Umbaúba, Sergipe. A viagem foi ótima porque os viajantes cantaram alegremente pela estrada. Artifícios assim realmente tornam a viagem mais branda, porque as pernas encolhidas começavam a incomodar. Pelo menos as minhas doeram muito na volta.

Bons filmes que assistimos na volta:
- Som do coração
- Antes de partir
E outros que podem agradar nestas condições específicas:
- Pequena miss sunshine
- O auto da compadecida
- Tapete vermelho



1º de fevereiro - O fim da odisséia

Dormir profundamente ajudado por um Dramin e não vi a parada para jantar em Milagres, já no estado da Bahia. Só fui comer alguma coisa em Vitória da Conquista, onde saboreamos o café da manhã: café com pão de queijo.

A parada para o almoço foi em Salinas, onde nos despedimos da família de João que, dizem, é cantor. Pelo menos na viagem ninguém comprovou esse talento. Logo seguimos para Montes Claros, aonde chegamos por volta das 15h30, vinte e cinco horas depois de deixarmos Maceió para trás, pondo fim a nossa odisséia nordestina.
Notem que em momento algum eu citei nome de guias em minhas críticas fundamentadas e, se por ventura, eles lerem esse texto algum dia, saibam que o mesmo serve para alertá-los sobre a necessidade de caprichar um pouco mais nos detalhes, porque somente as belezas hipnóticas do Nordeste não são suficientes para dirimir os erros que existiram e que não foram poucos.

Mas se me perguntarem se nos divertimos bastante nestes dias, eu seria capaz de encher o peito com orgulho e dizer categoricamente: “Nos umbaubamos de verdade”.

Poema Ligeiro:
Pinguinho de gente

O pinguinho de gente não precisa se esforçar
para tirar da gente um pinguinho de inocência
enquanto ela sorri para a vida que supõe eterna
faz-nos perceber que ela é de fato eterna.

Pois sempre haverá pinguinhos de gente assim
para por na gente um pinguinho de esperança
enquanto seu sorriso, que um dia esteve no meu rosto
desafia as caras fechadas e assim deveria ser sempre.

Pois enquanto houver pinguinhos de gente assim
para tirar da gente um pouco o peso de ser adulto
com nossas preocupações e reuniões inadiáveis
podemos crer que seremos felizes, um pinguinho assim.

Citação oportuna: “Consciência é aquela voz interior dizendo que alguém pode estar olhando”- H.L. Mencken

Filtro- Como separar Piaget de Pinochet, segundo a ótica deste modesto blogueiro:

Filme: Ensaio sobre a cegueira- O filme não tem a pirotecnia de Hollywood, e isso é muito bom
Música: Desabafo, do Marcelo D2, uma das que mais ouvi nestas férias.
Livro: Quatro histórias de ladrão, de Paulo Mendes Campos, que li na praia
Net: Esse conversor ortográfico irá mudar sua vida. É só colocar o texto aqui e ele "traduz" para as regras do novo acordo ortográfico
Outras Bossas: Esse texto foi escrito na praia, na forma de um diário de viagem, conforme me foi solicitado por Ricardo, grande amigo de Diamantina. As novas regras estabelecidas pelo acordo ortográfico ainda não estavam, e não estão, plenamente dominadas, portanto o texto em alguns momentos ficou "híbrido", mas com o tempo a gente se acostuma.

10:24 AM

Comente aqui: Terça-feira, Fevereiro 24, 2009  
Vidas sem letras

O tempo tem seus caprichos. Passei o último ano aguardando as férias de janeiro para, finalmente, escrever aos borbotões e dar vida a personagens e tramas que povoarão meus futuros livros ou, quiçá, apenas figurar entre os milhões de endereços da Internet onde pululam blogs feito beldroega depois da chuvarada. Pois bem, estou neste janeiro e percebo que ele foi idealizado. Simplesmente é impossível escrever bem estando tão feliz e satisfeito. E é assim que me sinto em meio aos meus amigos de infância e minha família, na minha cidade natal. Feliz como pinto no lixo.

E para escrever bem é necessário um bocado de tristeza como a letra do Vinicius apregoa. Ou pelo menos com uma carga razoável de estresse, como foram meus dias até que as férias rompessem o ciclo ocre do cotidiano com seu arco-íris de possibilidades. E agora estou aqui, com amigos batendo na porta de casa me convidando para ir aos belos cartões postais de minha terra, com minha mãe fazendo quitutes que fatalmente me farão caminhar uns três mil quilômetros na esteira da academia quando a boa vida acabar, e com a presença iluminada de minha esposa Camila, e de nossos livros e filmes queridos, dos quais não nos apartamos em nenhuma situação. Então como escrever nas férias? Certamente não será na longa viagem para praia que faremos na próxima semana, e que nos proporcionará momentos de encantamento nas belas capitais do nordeste e na possível visita à foz do Velho Chico, entre outros passeios imperdíveis que faremos.

Talvez eu só retome o salutar hábito de lapidar textos prontos com algum valor estético e dar vida a grandes sacadas e coisas bobinhas como esse texto que você acompanhou até agora quando as férias terminarem e sobrarem somente fotografias e memórias dos dias felizes que vivemos.

Poema ligeiro:
Formigas
Deito-me de bruço sobre a relva
que àquela hora da tarde estava quente.
Do contato do dorso nu com a grama úmida
sinto as formigas que formigavam,
contorcendo-se nos meus pêlos,
passeando pelas dobras suadas,
no seu infinito formigar.
Enquanto eu cochilava,
indiferente à seus formigamentos.

Citação oportuna: "Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz me consome muito"- Clarice Lispector

Filtro- Como diferenciar alhos de bugalhos, mesmo sem saber o que é bugalhos, segundo o jeito de pensar deste blogueiro:
Filme: O comovente “Som do coração”, apesar da canastrice do Robin Willians
Música: A cantora potiguar Roberta Sá é única, e merece ser ouvida com atenção.
Livro: O recém lançado que traz poemas inéditos de Vinicius de Morais
Net: Quer baixar aquele video do You Tube? Esse site aqui resolve
Outras Bossas: Fiz esse texto nas férias de janeiro, antes de embarcar para uma viagem pelo Nordeste. A razão de um texto requentado é somente para o blog ter um pouco mais de conteúdo já nesta primeira semana de atividades.

9:53 PM

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O Natal de Rosilva

- O que você quer no Natal?- A mãe interpelou a filha logo pela manhã, mesmo antes de dizer “bom dia”.
- O que eu realmente quero ou o que é sensato querer?- respondeu Rosilva, resignada.

A resposta inquietou Simone. A filha, de doze anos, era diferente das outras crianças do pequeno povoado. Ela era inteligente e adorava ler. Suas redações inspiradas eram citadas nas reuniões de professores da escola e lidas nas classes mais avançadas. Rosilva era detestada pelas mocinhas de quinze anos, que não viam nenhuma serventia em ser tão inspirada sendo desprovida de encantos daquele jeito.

Rosilva queria livros, centenas de livros. Desde os pequenos, com letras miúdas, que eram chamados na livraria do shopping de pocket books, até os grandões, com centenas de gravuras, que ficavam na seção de livros artísticos.

Ela sonhava em viver numa casa cercada de livros ou, quem sabe, morar numa livraria. Sua ânsia pela leitura era comovente. Mas a miserável condição financeira de seus pais a impedia de ler os livros de que tanto gostava.

Ela vivia numa área rural de Montes Claros e por lá não havia bibliotecas e tampouco livrarias. Nas vezes em que ia à cidade ela namorava seus objetos do desejo na livraria no shopping. Chegou a se imaginar roubando livros como na história que vira em um best seller à venda. Mas ela não poderia fazer isso, pois sua timidez a impedia de fazer qualquer gesto grandioso. E roubar um livro no shopping certamente exigia muita personalidade, coisa que ela, definitivamente, não tinha.

Rosilva então ficou à espera da volta da mãe, que fora a Montes Claros com o pretexto de fazer as compras do natal. Ela traria, imaginava a moça, uma camisa para seu pai, um chapéu para o avô e um porta-retrato para ela. Ou, quem sabe, o mesmo kit de maquiagem que ganhara no ano anterior.

Quando sua mãe chegou de volta a casa humilde, a certeza de que o presente seria mesmo um kit de maquiagem ou um porta-retrato se tornou nítida, graças ao tamanho e o formato do presente que sua mãe lhe estendera.

Mas, ao abrir o embrulho, ela se deparou com um livro. Sim, um pequeno livro de autoria de Cecília Meireles. O fato de o livro parecer usado, e de fato sua mãe o comprara em um sebo na cidade, não tirou a satisfação de Rosilva.

Ela abraçou a mãe, se esquecendo que sonhava com milhares de livros, alguns com gravuras, ao manusear o pequeno e gasto objeto, e disse-lhe, comovida: “Feliz Natal!”.
A menina sem encantos, pelo menos nos próximos cinco dias, deixaria sua miséria de lado e se poria a sonhar com cada página que virasse de seu livrinho encantado.

Citação oportuna: "Lá na rua em que eu pensava, tinha uma livraria bem do lado da farmácia. Todo mundo ia à farmácia comprar frascos de saúde. E depois ia do lado, pra comprar a liberdade"- Pedro Bandeira

Poema ligeiro:
Niestche + Nitidez: “Niestchedez”

Filtro- O que vale a pena consumir, segundo a ótica deste modesto escriba digital:
Filme: O curioso caso de Benjamin Button
Música: Estou numa fase de ouvir rockões setentistas. Entre os clássicos vale a pena ouvir o Creedence e o Lynyrd Skynyrd, e entre os contemporâneos Black Crowes e Kings of Leon.
Livro: O conde de Monte Cristo, de Dumas, que acaba de ser relançado em rica edição.
Net: Entre e siga meu Twitter
Outras Bossas: Comecei um novo blog. E ele surge das cinzas dos Novos Labirintos. Por isso convido-o para me acompanhar nesta nova fase, com textos interessantes e muita troca de idéia. Espero também seu comentário para avançarmos sempre na busca por respostas ou novas e intrigantes perguntas.


Para saber de onde vem os caminhantes virtuais:

9:02 PM

 
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